Agressões virtuais, impactos concretos

Muitas vezes, a internet é palco para bullying e ofensas, mas o acesso a ela é um direito. Educação é a saída indicada para a prevenção da violência no ambiente digital

Por Gabriela Custódio

Laisa Marques tinha 11 anos e cursava o sexto ano do Ensino Fundamental quando teve fotos pessoais circulando sem autorização em uma rede social. Não entendendo o motivo, a menina viu-se em montagens ofensivas em que aparecia com o rosto ensanguentado e com outras caracterizações. Apesar do medo e da vergonha de falar sobre o assunto, o caso foi levado à coordenação e os pais das autoras e de Laisa, todas colegas de classe, foram convocados. No dia seguinte à conversa, ela não quis ir para a escola.

"Eu não conseguia falar sobre, por medo e vergonha, mas minhas amigas sabiam, e elas que contaram para minha irmã mais velha, que resolveu tudo. Até hoje não entendo o porquê dessa situação. Quando tudo passou, eu continuava com muito medo disso acontecer de novo, então tentava ser o mais invisível possível", conta. Os efeitos persistem. Com 20 anos, a estudante ainda se sente insegura de passar por alguma situação semelhante.

Em 2017, aos 14 anos, outra estudante ainda menor de idade foi vítima de violência online praticada por colegas. Em meio a uma discussão, em aplicativo de mensagens, entre ela e outra garota, o bullying que já acontecia no colégio — "por não ser uma aluna 'exemplar' em Matemática e ser muito magra" — chegou à internet. "Os que estavam no grupo, praticamente toda a turma, eram amigos dela e entraram no assunto, começaram a me ofender, a me machucar profundamente com as palavras", conta.

"A confusão foi tanta que eles falaram até da minha família e os ofenderam também, sem pensar em como eu reagiria ao ler aquilo. Para mim, aquilo tudo foi um pesadelo, cheguei a pensar em cometer uma atrocidade, mas pensei em minha família. Nunca entendi o que os levava a serem tão cruéis." Após o ocorrido, ela tornou-se mais insegura e tímida, mas diz que com o tempo começou a usar a própria experiência para ajudar outras pessoas.

Foto: Reprodução/Facebook
Em vídeo feito durante viagem à Disney e publicado nos stories, ferramenta do Instagram, Mc Gui expôs uma criança. Ele tem 7,7 milhões de seguidores na plataforma e, depois do episódio, foi criticado na internet e teve show cancelado (Foto: Reprodução/Facebook)

Como elas, muitas pessoas são vítimas de algum tipo de violência na internet. Um em cada três jovens de 30 países afirma ter sofrido cyberbullying, segundo enquete realizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e divulgada no último mês de setembro. Ela foi realizada com mais de 170 mil pessoas entre 13 e 24 anos por meio da ferramenta de engajamento de jovens U-Report, na qual respondem a perguntas anonimamente. Os locais apontados como os mais comuns, por três quartos dos participantes, para o bullying online foram as redes sociais.

"A ideia dessa plataforma é justamente escutar a juventude e levar essa voz para as autoridades", explica Gabriela Mora, oficial do programa de cidadania dos adolescentes do Unicef no Brasil. Ela aponta que, com a pesquisa, percebe-se que a socialização entre os jovens acontece, sem fronteiras, nos ambientes online e offline. Com a internet, o bullying que já acontece nas escolas "ganha uma escala sem controle".

Em pesquisa global realizada pelo Instituto Ipsos no primeiro semestre de 2018, o Brasil ficou em segundo lugar no ranking de países com maior frequência de ofensas em meios digitais. 29% dos pais ou responsáveis brasileiros que responderam à pesquisa afirmaram que os filhos já sofreram cyberbullying. Em 2011, o índice era de 20% e em 2016, de 19%.

O tema está presente no consultório da psicóloga clínica Luísa Freire. Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ela destaca o peso da internet na vida dos pacientes, principalmente os mais jovens. "A forma como eles se relacionam nesses espaços, como são vistos, a reputação, o olhar que as pessoas têm sobre eles conta muito. É como se parte da identidade deles se desenvolvesse no espaço virtual", avalia.

O uso excessivo da internet, na percepção da psicóloga, também tem levado à menor habilidade para lidar com situações e relacionamentos fora da rede. "E nós sabemos que acabar um relacionamento é muito mais do que dar unfollow na pessoa e que resolver uma briga é muito mais do que enviar um emoji."

Foto: Reprodução/Twitter
Após gravar cenas usando um hijab, traje feminino utilizado na doutrina islâmica, a ex-atriz pornô libanesa Mia Khalifa foi ameaçada pelo Estado Islâmico de ser decapitada, por meio das redes sociais, onde também sofreu ataques de outros usuários (Foto: Reprodução/Twitter)

Os efeitos da violência online não ficam apenas no virtual. As vítimas podem manifestar desde sinais como tristeza a ansiedade, isolamento e fobia social, entre outros. Além disso, bullying na internet e fora dela são fatores de risco para consequências mais graves. "É claro, entendemos suicídio como algo muito mais complexo, mas também percebemos que o bullying e o cyberbullying vão ter uma contribuição significativa para casos de suicídio. Não é só isso, mas conta bastante", afirma a psicóloga.

Caso recente foi o da blogueira Alinne Araújo, que tirou a própria vida em setembro de 2019. Após o então companheiro romper o noivado um dia antes do casamento, ela decidiu realizar a cerimônia sozinha. Em vez de apoio, na internet, encontrou críticas. "Vamos falar que ela se matou por isso? Não. Havia uma condição preexistente de depressão e outras questões, mas temos como falar que isso também não entra como uma variável do suicídio? Não tem como dizer", aponta Luísa Freire.

A importância de ser aceito e de interagir com os demais, durante a adolescência, é tão grande que os tipos de violência que demonstram a falta de pertencimento podem ter consequências graves, complementa Gabriela Mora. Pesquisa de 2018 com usuárias do projeto Caretas — experiência de storytelling interativo realizada pelo Unicef no Brasil em parceria com as empresas Sherpas e Chat-Tonic, o Facebook e a ONG Safernet Brasil — mostrou que 10% das quase oito mil adolescentes entrevistadas já tiveram imagens íntimas vazadas.

"A pesquisa mostra que as meninas que não contaram para os pais sentiram muita culpa, e isso traz isolamento, tristeza, depressão e às vezes pode gerar consequências como automutilação. São dores que a pessoa sente por estar sendo julgada pelo grupo. Tem gente que muda de cidade, que muda de escola tentando ressignificar essa vida", aponta a oficial do Unicef.

Mas não é apenas entre os jovens que essas situações acontecem. Ator, advogado e mestre em Direito pela UFC, Haroldo Guimarães recebe constantemente comentários ofensivos em publicações nas redes sociais. "[Com] qualquer opinião política, seja ela à direita, à esquerda ou de centro, estadista ou liberal, em qualquer nível, vai vir uma crítica com ofensa", afirma. E elas partem, segundo ele, "de todos os personagens do espectro político". "É uma situação em que você tem medo de se posicionar."

Foto: Reprodução/Twitter
Vídeo em que uma mulher sueca chamada Emmy aparece atirando circulou como se ela fosse a ativista Greta Thunberg, também sueca, de 16 anos. A Lupa, agência de fact-checking, verificou que a informação é falsa, após solicitação de usuários do Facebook (Foto: Reprodução/Twitter)

A menor empatia em conversas realizadas pelo WhatsApp é uma característica ressaltada por Haroldo do atual contexto das relações na internet. Além disso, a interpretação da mensagem pelo receptor sem recursos visuais e auditivos é outro aspecto desse momento de "desentendimento na comunicação". "Quando uma pessoa, de maneira irrefletida e sem empatia, defende a sua fé [política], ela passa por cima de qualquer tipo de freio social, de cuidado", afirma o advogado.

SAÍDA PELA EDUCAÇÃO

Ao mesmo tempo, porém, o acesso à internet é um direito do qual não se pode privar crianças e adolescentes. Nela estão muitas oportunidades importantes para o desenvolvimento. O necessário, então, é torna-la um espaço seguro. "Uma das estratégias para isso é a educação para os meios digitais", aponta Gabriela Mora.

Esse também é o caminho apontado pela professora Raquel Recuero, cujo trabalho tem ênfase em redes sociais, discurso mediado pelo computador e difusão de informações na Internet. Pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ela acredita que apenas a alfabetização digital e o esclarecimento das pessoas sobre o assunto vão gerar resultado no longo prazo.

Para isso, a escola é um ambiente "privilegiado". Pelo contato direto com os alunos, os professores podem identificar sinais de problemas e trabalhar o tema em sala de aula. "Os adultos podem se aproveitar dessa capacidade com o uso da tecnologia que os mais jovens têm e buscar caminhos conjuntos. Mas isso exige uma pedagogia mais dialogada, menos autoritária", recomenda Gabriela Mora. Ela acrescenta que as instituições devem estar preparadas para não reproduzir ou ampliar a violência já sofrida pelas vítimas.

Além de apontar a necessidade de sensibilização sobre o problema e de discussão sobre público e privado — como no caso de compartilhamento de fotos íntimas na internet —, Mariana Valente, advogada e diretora do Internetlab, centro independente de pesquisa com foco em internet e direitos humanos, aponta a importância de melhor preparo dos agentes do sistema de justiça. "Tem uma questão de treinamento, uma questão de capacidade de investigação e sensibilização das esferas, do Ministério Público, do Judiciário, e não só da Polícia."

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Questões de gênero

O tipo de violência pode ser o mesmo, mas a maneira como as mulheres são atacadas nas redes sociais passa também pelo machismo

Por Gabriela Custódio

No último mês de agosto, a blogueira Lola Aronovich foi indicada na categoria Coragem do Prêmio RSF para a Liberdade de Imprensa 2019. Feminista "desde os oito anos de idade" — como diz a professora de Literatura em Língua Inglesa da Universidade Federal do Ceará (UFC) —, a presença do nome dela ao lado de jornalistas da Itália, da Rússia e da Arábia Saudita se deve à luta pelo direito das mulheres. Há cerca de nove anos, ofensas e ameaças na internet fazem parte da vida dela, que inspirou a lei 13.642/18, a Lei Lola. A norma atribui à Polícia Federal a investigação de crimes de misoginia online.

Desde 2008, ela mantem o blog feminista "Escreva, Lola, Escreva", onde publica textos sobre cinema, literatura e outros assuntos. Com o tempo, a página começou a receber comentários com xingamentos voltados à autora e a leitores. Mas foi aproximadamente no final de 2010 que ela conheceu de perto "um tipo de misoginia que não fazia ideia que existia". Desde então, Lola é alvo de ataques vindos de masculinistas.

"São grupos de misóginos que dizem lutar pelos direitos dos homens, mas obviamente esse não é o foco deles. Eles não lutam por direito nenhum, a menos que seja o direito de xingar, atacar e ameaçar mulheres, principalmente feministas", conta. Para além de ofensas, a professora já recebeu diversas ameaças de morte, estupro e tortura de membros do Dogolachan, fórum anônimo criado por Marcelo Valle Silveira Mello — preso em 2012, na Operação Intolerância, da Polícia Federal, e novamente em maio de 2018, na Operação Bravata.

Foto: Foto: Reprodução/Twitter
A professora e blogueira feminista Lola Aronovich recebe ataques e ofensas na internet por conta da militância online (Foto: Reprodução/Twitter)

Ele foi condenado a mais de 41 anos de prisão por crimes como divulgação de imagens de pedofilia, racismo, coação, associação criminosa, incitação ao cometimento de crimes e terrorismo. As ameaças a Lola seguem acontecendo. Ao longo de 2019, elas foram semanais. "É sempre bom lembrar que eles não me atacam por eu ser a Lola, porque eles não me conhecem. Eles me atacam por eu ser feminista, por eu ter um blog feminista de grande alcance."

As mulheres representam o maior número de atendimento da Safernet Brasil em 2018, somando 1.254 solicitações, enquanto 780 das pessoas atendidas eram homens. O principal motivo para o pedido de ajuda pelo Helpline, canal online gratuito que oferece orientação sobre segurança na Internet, foi a exposição de imagens íntimas. Em seguida vem cyberbullying/ofensa.

O gênero faz diferença quando se fala em violência na internet, assim como fora dela. Crimes virtuais como racismo, quando praticados contra mulheres, acontecem "de um jeito específico", segundo Mariana Valente, advogada e diretora do Internetlab. Alguns tipos de violência online sofridos por mulheres ou não acontecem com os homens, ou acontecem com intensidade diferente.

É o caso de ameaças de estupro, por exemplo, ou ataques a familiares da vítima. "Sempre passa pelo machismo, na forma de estereótipo de gênero, expectativas que existem em torno da mulher, do homem, assim como existem em torno de crianças e do idoso. Existem expectativas em relação a cada um dos gêneros, e é muito comum que alguém que as quebre seja punida por meio da violência."

A psicóloga clínica Luísa Freire também aponta o impacto dos estereótipos de gênero na forma como acontece a socialização na internet, refletindo em críticas recebidas pelas mulheres. "O que nós vemos é que muitas formas de agressão verbal, de cyberbullying, na questão da sexualidade, do corpo e da aparência física, passam pela mulher de um jeito diferente."

O OLHAR PARA O CORPO GORDO

Foto: Foto: Reprodução/Facebook
A foto da pichação no muro da jornalista Jássica Balbino, em 2016, viralizou. Antes, ela já falava sobre gordofobia nas redes sociais (Foto: Reprodução/Facebook)

Uma pichação no muro da casa da jornalista Jéssica Balbino, em 2016, mudou a vida dela. Um dia, ao sair para trabalhar, deparou-se com a frase "Jéssica gorda", tirou uma foto e fez uma publicação no Facebook. Com a repercussão, foi convidada para debates sobre gordofobia em ONGs, universidades e outros espaços. A viralização também fez surgir novos seguidores nas redes sociais, mas nem todos por causa da identificação.

"Dependendo do que eu posto, até hoje eles se fortalecem para me atacar, pra me mandar emagrecer, morrer, coisas do tipo", relata. Desde que começou a se posicionar sobre gordofobia na internet, Jéssica já era atacada por haters, mas não dava muita atenção a "ameaças vazias". "O caso do muro me incomodou mais porque foi físico, real, na porta de casa. Não deixa de ser uma agressão."
Ainda quanto ao uso de redes sociais, a jornalista aponta que, com frequência, o Facebook e o Instagram "derrubam" fotos de pessoas gordas. Ao denunciar práticas gordofóbicas e discursos de ódio, porém, "a resposta é sempre automatizada: não fere as práticas". "Recentemente, comecei a ser seguida por uma conta que dizia odiar gordos, e o Instagram foi incapaz de derruba-la, mas derrubou minha foto", conta.
Em parceria com a SaferNet Brasil, o Instagram deu início, no dia 8 de novembro, à série de vídeos da campanha #ÉDaMinhaConta, apresentados por Xuxa Meneghel em que ela dialoga sobre bullying e cyberbullying. O primeiro episódio contou com a participação da cantora Jojo Todynho e de Raissa Galvão, a @rayneon.

 

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O @instagram, em parceria com a @safernetbr, me convidou pra apresentar #ÉDaMinhaConta, uma série de encontros pra inspirar a gente a entender, superar e combater o bullying dentro e fora das redes. Os episódios serão lançados semanalmente aqui no meu IGTV! No primeiro episódio, recebo a maravilhosa @jojotodynho e a @rayneon, que me contaram como foi a experiência delas com o bullying na adolescência e mostram que acabar com o bullying é da sua, da nossa conta! Espero vocês no próximo episódio! #ÉDaMinhaConta

Uma publicação compartilhada por Xuxa Meneghel (@xuxamenegheloficial) em

 

Por meio da área de imprensa no site institucional, a empresa divulgou ferramentas lançadas para combater o bullying. É o caso da opção "Restringir" — que torna os comentários da conta restrita visíveis apenas para ela mesma e desativa notificações de mensagens diretas, que vão automaticamente para a solicitação de mensagens — e do alerta de comentário potencialmente ofensivo — que detecta esse tipo de conteúdo por meio de inteligência artificial.

Em 4 de dezembro, o Instagram também lançou o projeto #DigitalSemPressão, em parceria com a SaferNet e a The Jed Foundation. A iniciativa visa orientar pais, tutores e educadores, além dos próprios adolescentes, quanto ao uso equilibrado de redes sociais. Guias, testes e cards inspiracionais fazem parte do material, disponível no site do projeto e no perfil da Safernet Brasil.

Foto: Foto: João Silva/Divulgação
A jornalista Jéssica Balbino ganhou muitos seguidores nas redes sociais após postagem viralizar. Dependendo do que publica, porém, alguns a atacam (Foto: João Silva/Divulgação)

De 2016 até hoje, o cenário online mudou. Ao mesmo tempo em que se fala mais sobre gordofobia e se aponta mais quando e de que maneira ela acontece, Jéssica sente maior encorajamento de quem profere discursos de ódio. "Temos, hoje, um presidente que valida todo e qualquer tipo de discurso de ódio contra grupos oprimidos, fazendo as pessoas terem orgulho de ser racistas, gordofóbicas e capacitistas. Então, minha visão é bem pessimista em relação a isso", conta.

A polarização na esfera política também é apontada por Raquel Recuero como fator para a menor tolerância entre os usuários das redes sociais. "A constante legitimação de discursos tóxicos tem um efeito muito negativo na conversação na mídia social e transborda para outras esferas", aponta a pesquisadora.

Em pesquisas que realiza, a professora observa que, quanto maiores são a autoridade e a centralidade na rede de quem repete esses discursos, maiores são a legitimação e o espalhamento deles. "E, evidentemente, o discurso tóxico se espalha para além da mídia social, sendo usado como justificativa para a violência offline também."

Outro exemplo citado por Mariana Valente são os casos de jornalistas, ativistas e outras profissionais que escrevem sobre questões de gênero. "Elas podem tanto ser violentadas com a disseminação não consentida de imagens íntimas quanto com outras formas de violência mais relacionadas à participação em espaço público. São formas de intimidar a mulher e causar o silenciamento. Estamos falando de discurso de ódio, ataque coletivo, ameaças e doxin, que é pegar uma informação que é privada e colocar no público."

DAR NOME AOS PROBLEMAS
Em 2017, o Internetlab publicou, em parceria com a organização Coding Rights, o relatório "Violências contra mulher na internet: diagnóstico, soluções e desafios". No documento, há uma relação de tipos de violência de gênero online. Para Mariana Valente, é importante nomear as práticas. "Não para criar um dicionário definitivo, mas porque dar nome para as coisas é algo que faz muita diferença de vários pontos de vista, desde reconhecimento da vítima, o reconhecimento social daqueles atos, até a transformação daquilo em um tipo jurídico", aponta.

A partir de reuniões com ativistas, juristas e pessoas que já passaram por violência, o grupo levantou alguns tipos de práticas. Uma das formas "mais democráticas" — por atingir mulheres de diferentes idades, personalidades e classes sociais — de violência online contra a mulher, segundo Mariana, e corroborando com os registros do Helpline, é a disseminação não consentida de imagens íntimas, conhecida como "pornografia de vingança" ou revenge porn.
O termo mais popular, porém, não é adequado. A advogada explica que a ideia de vingança é "redutora" e remete a uma culpa da vítima, que tem as imagens retiradas de um contexto íntimo. "Quando olhamos para esse fenômeno, tem de tudo. Tem até colega de trabalho fazendo isso como forma de humilhação, [porque] acha que é engraçado. Uma cultura masculina muito tóxica de reduzir as mulheres a um objeto sexual disponível para os homens." A pesquisadora argumenta, ainda, que o conceito de pornografia não deve ser aplicado quando imagens são feitas ou distribuídas sem autorização. 

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Cinco iniciativas para buscar ajuda online

Conheça ferramentas e canais de disponibilizados por ONGs e empresas privadas

Por Gabriela Custódio
Você está passando por alguma dessas situações de violência na internet ou conhece alguém que precisa de ajuda? Listamos cinco plataformas onde você pode encontrar diferentes tipos de ferramentas para conseguir apoio e orientação.
Foto: Reprodução/Facebook

1. Marias da internet
Criada pela jornalista Rose Leonel em 2013, a ONG Marias da Internet oferece orientação jurídica, psicológica e de perícia digital às vítimas de disseminação não consentida de imagens íntimas. A presidente da ONG teve imagens íntimas vazadas por um ex-namorado em 2006. Na época, ela perdeu o emprego e o filho dela foi morar com o pai, no exterior. O caso levou à criação da Lei Rose Leonel — a lei 13.772/18, que altera a lei Maria da Penha e o Código Penal para "para reconhecer que a violação da intimidade da mulher configura violência doméstica e familiar e para criminalizar o registro não autorizado de conteúdo com cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo e privado".
Foto: Reprodução/Projeto Caretas

2. Projeto Caretas
Desenvolvido pelo Unicef no Brasil em parceria com a Sherpas, a Chat-Tonic, o Facebook e a ONG Safernet, o projeto Caretas é uma experiência interativa criada para discutir o sexting e os riscos do compartilhamento de imagens íntimas sem consentimento. Com o uso de inteligência artificial e por meio de storytelling, adolescentes entre 13 e 18 anos interagem com Fabi Grossi, personagem fictícia de 21 anos que teve fotos íntimas vazadas. Ao longo do diálogo, que acontece pela fanpage do Projeto Caretas no Facebook, ela conta o próprio caso e debate o tema com a adolescente.
Foto: Reprodução/helpline.org.br/indicadores/

3. SaferNet Brasil
Criada em 2005, a SaferNet Brasil é uma associação civil que atua nacionalmente e tem como foco a promoção e defesa dos direitos humanos na internet. Por meio da Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, os usuários podem realizar denúncias anônimas de crimes como pornografia infantil, xenofobia, homofobia, racismo e violência ou discriminação contra mulheres, entre outros. Já por meio do canal HelpLine Brasilinternautas podem pedir orientações sobre segurança na Internet, de forma anônima, à equipe da SaferNet Brasil.
Foto: Reprodução/isabot.org

4. ISA.bot
Um bot com quem mulheres podem conversar e ter acesso a informações para conscientização sobre a violência de gênero na internet. Essa é a proposta da ISA.bot, iniciativa da organização Think Olga e do Mapa do Acolhimento, da Nossas.Org, que conta com apoio do Facebook, do Google e da ONU Mulheres. De acordo com a interação, a ISA.bot oferece ferramentas e informações para mulheres que estejam sofrendo ou tenham sofrido violência online, para quem quer promover uma internet acolhedora ou para mulheres ativistas. A ferramenta funciona por meio do Messenger da página da ISA.bot no Facebook e do Google Assistente.
Foto: Reprodução/Instagram

5. Mensagens em pesquisas do Instagram
Quem já buscou alguma hashtag sobre ansiedade ou depressão no Instagram se deparou com uma mensagem de alerta sobre a possibilidade de as publicações serem fortes. Além disso, há um botão que direciona para um canal de ajuda. Lá, o usuário encontra mais três opções: "fale com um amigo", "falar com um voluntário da linha de apoio" — onde há contatos do Centro de Valorização da Vida (CVV) — e "encontrar maneiras de se ajudar".

Podcasts do O POVO abordam cyberbullying

Parte do projeto Violência na Internet, "Orgulho Contra-Ataca" e "Assim caminha a humanidade" têm episódios especiais

O Violência na Internet, realizado pelo O POVO com apoio da Prefeitura de Fortaleza, é um projeto multiplataforma. Além desse especial digital, dois podcasts do O POVO realizaram episódios especiais sobre o assunto, como forma de lançar outros olhares sobre ele. Ouça:

No 21º episódio do "Orgulho Contra-Ataca", Alice Falcão e Fernando Diego Sioli trazem exemplos da cultura pop e falam sobre agressões sofridas na internet por personalidades famosas. Para o bate-papo, a a advogada criminalista Sarah Suzye foi convidada e alerta sobre o que fazer em casos de agressões e crimes de ódio na internet.

Listen to "#21 - O ódio revelado pela vida online - Especial Violência na Internet" on Spreaker.

Já no "Assim caminha a humanidade", Pati Rabelo e Heráclito Pinheiro fazem um resgate sobre a origem do cyberbullying e da violência praticada na internet. O podcast tem a proposta de abordar temas nas áreas de Filosofia, Mitologia e Psicologia.  

Listen to "#20 - %u201CHaters gonna hate%u201D %u2014 Especial Violência na Internet" on Spreaker.

 

Atualização: após a publicação do Especial, foram adicionadas as informações sobre o projeto #DigitalSemPressão, do Instagram, em 17/12, às 16h23min.

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