A representatividade em um universo muito, muito distante

Da ambição de George Lucas, em 1977 chegava aos cinemas "Star Wars". Quarenta anos e oito filmes depois e a franquia se tornou referência global de fantasia no cinema. Nesta quinta-feira, a série ganha uma nova obra: "Os Últimos Jedi". Em comemoração a data, preparamos material especial com textos e vídeos ampliando o escopo da obra mais aguardada do ano

Por Rubens Rodrigues

Minorias têm ganhado manchetes nos últimos anos. Na cultura pop e no meio do entretenimento, em geral, o rebuliço chega a ser celebrado. Quando a Disney anunciou a compra da Lucasfilm, em 2012, a notícia não veio sozinha, e apontava rumos necessários para a narrativa fantástica da saga.

O “Despertar” que deu nome ao Episódio VII é também o da representatividade. A protagonista Rey (Daisy Ridley) é marginalizada. Catadora de lixo. E ela é, antes de tudo, mulher. Leia, icônica, e Padmé, vieram antes. Mas dadas as proporções, nem Carrie Fisher, nem Natalie Portman, foram fundamentais para estabelecer o protagonismo feminino da franquia. Por mais fortes e independentes que sejam, elas foram sempre coadjuvantes da história. O “Despertar da Força” (2015) foi uma quebra. Não a toa veio Jyn Erson (Felicity Jones) logo no ano seguinte com “Rogue One”.

Para além das mulheres, há o ótimo John Boyega como Finn, o primeiro protagonista negro de “Guerra nas Estrelas”. A escalação provocou reações inflamadas para uma parcela da sociedade que chegou a sugerir boicote. Por outro lado, o personagem refletiu diretamente em crianças que ainda não se viam representadas no cinema.

Apostar em representatividade já é algo que a Disney vinha fazendo em seus títulos, e o peso de ações como essa é sentido muito mais como um afago do que obrigação. E o menos importante aqui é se a motivação de um império como a Disney seja político ou comercial.

Estereótipos e, principalmente, produtos que se sustentam na exclusão não surtem mais o mesmo efeito de antes. É tempo de olhar para a tela e se reconhecer. E, para a franquia, de mostrar que sua fundamentação no viés político e social ultrapassa a barreira da fantasia.

Star Wars: o que assistir primeiro?

Por André Bloc

Que atire a primeira pedra o nerd que nunca foi questionado sobre que ordem se deve assistir a “Star Wars”. Por mais irritante que soe, a pergunta é legítima – e até lógica. São sete aventuras épicas sobre os jedis e a força, filmados entre 1977 e 2015, além de “Rogue One: Uma História Star Wars”, que funciona como ponte entre as duas primeiras trilogias da história. O episódio VII, “O Despertar da Força” inicia a terceira trilogia e a Disney ainda anunciou uma quarta trilogia, a ser dirigida por Rian Johnson. Ufa!

Na hora de assistir a tudo, o mais óbvio é seguir a ordem de lançamentos. Conhecer Luke e depois se aprofundar sobre Darth Vader. Seguir a cronologia interna de “Star Wars” também tem seus méritos, mas corre-se o risco de os fracos episódios I e II afastarem o público. A opção que faz mais sentido narrativamente, no entanto, é mesclar filmes de cada fase.

O episódio IV foi, desde o início, pensado como introdução a um universo com leis próprias. Apesar de ser de 1977, ele funciona até hoje, ainda que soe tanto quanto ingênuo. Já o episódio V, “O Império Contra-Ataca”, é o grande ato da aventura. Nele, passamos a conhecer Darth Vader, mas pouco sabemos sobre os dilemas dele. Daí a quebra, daí a oportunidade de pular para a “trilogia nova” (1999 a 2005).

Sou contra, mas acho válido quem sugere que o “Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma” (1999) seja ignorado. Ele não acrescenta nada de profundidade a Anakin – no máximo estabelece uma relação com a mãe e com a princesa Amidala. O episódio II (“Ataque dos Clones”), apesar de ruim, aprofunda a obsessão do aprendiz de jedi pela segurança da família. O irregular episódio III (“A Vingança dos Sith”) escancara as decisões que fizeram o prodígio da Força se tornar um lorde Sith. Essa sequência de fatores dá maior fôlego ao ápice do episódio VI (“O Retorno de Jedi”), potencializando o dilema primordial de Anakin Skywalker.

Ou seja, a sugestão é: IV, V, I, II, III e VI. E depois se pode seguir para a jornada de Rey, com o episódio VII e os futuros VIII e IX. “Rogue One” (2016), é easter egg, pode vir depois do IV ou antes do VII. Melhor que isso, no entanto, é montar a ordem que faz sentido para você. Subverter a narrativa. Assistir a um filme é também construí-lo. A estruturação em episódios dá uma oportunidade única de co-autoria. É esse um dos fatores de “Star Wars”, com 40 anos de existência, se manter como um dos mais autênticos representantes da cultura pop.

Abaixo, o jornalista Érico Firmo conta a sua maneira própria de construir a narrativa de “Star Wars”.

O meio como princípio (por Érico Firmo)

Sou de geração jovem demais para assistir a trilogia clássica no cinema e muito velha, e/ou muito pobre, para ter videocassete a preço acessível naquela época. Então, a sequência de como assistir “Star Wars” não foi propriamente uma opção: a gente via quando passava na Globo.

Por um desses acasos, construí trajetória para assistir a série absolutamente improvável. Vi primeiro o episódio V. Comecei pelo centro dramático da trilogia clássica. Já conheci o enredo a partir de seu adensamento, do aprofundamento de personagens, de duelo de sabre de luz mais elaborado que o confronto rudimentar entre Obi-Wan e Darth Vader. A seguir, assisti ao episódio VI. A trama do episódio IV conheci antes pelo jogo de vídeo game para Master System. Só depois assisti ao filme. A experiência, então, foi mais de amarrar as pontas e compreender melhor alguns personagens e motivações.

O que descobri é que dá para entender direitinho o segundo filme (o V) sem ter visto o primeiro. Com o perdão da heresia e sob risco de excomunhão, confesso que, como introdução, acho o episódio IV meio raso. Pouco envolvente para quem teve adolescência a partir da segunda metade dos 90. O filme inaugural ganha outra dimensão quando visto depois da experiência de complexificação do universo “Star Wars” em “O Império Contra-Ataca”. Depois disso, se a vontade apertar, a trilogia nova está lá aguardando.

Trailer de Star Wars: Os Últimos Jedi

O vácuo do Universo Expandido

Por Bruno Melgacio

Quando a Disney comprou a Lucasfilm, por US$ 4 bilhões, ainda no final de 2012, muitos fãs receberam a notícia com desconfiança. No entanto, junto ao anúncio da mudança, veio também a notícia de que a gigante do mercado de entretenimento já estava planejando lançar o episódio VII da franquia em 2015. O plano, de cara, também previa os episódios VIII e IX, e depois um filme a cada dois ou três anos.

O problema é que, em abril de 2014, surgiu a notícia de que, depois de 35 anos, uma parte considerável das histórias do Universo Expandido (EU) de Star Wars seria excluída do cânone da franquia. Ou seja, deixaria de fazer parte do rol daquilo que é levado a sério, do que é oficial, como narrativa do mundo criado originalmente por George Lucas. O chamado UE, hoje em dia visto como “Star Wars Legends”, é um conjunto de materiais que inclui livros, quadrinhos, games, séries, brinquedos e filmes.

Naquele momento muitos fãs ficaram decepcionados (eu mesmo incluído) e lotaram fóruns online de críticas queixando-se do quanto as expectativas deles foram quebradas. Afinal, com o sétimo filme (“O Despertar da Força”) a caminho, os fãs queriam ver referências às histórias que já haviam sido publicadas no UE sobre o que aconteceu após “O Retorno de Jedi”.

O anúncio ia à contramão da expectativa: falava que os novos filmes não iriam se preocupar com o contexto já estabelecido pelo UE. Agora, já vimos que muitas referências do Universo Expandido foram usadas na série de animação “Star Wars Rebels”, parte integral do cânone, mas muito disso pareceu mais com easter eggs, lidando com essas referências de forma muito superficial.

É quase como se ainda não levassem verdadeiramente em conta o que já apareceu no UE, sejam lugares, personagens, grupos e alguns acontecimentos. Contudo, as referências permanecem aparecendo. Agora, com o oitavo filme, “Star Wars: Os Últimos Jedi”, e a suspeita de o conceito de jedi cinzas ser mencionado, toda essa expectativa pela validação de parte do Universo Expandido renasce. Se irá acontecer? Duvido... Mas devemos ter fé na Força.

Skywalker revisitado

Centro da trilogia original de "Star Wars" (1977 - 2013 - 1983), Luke Skywalker retorna a franquia em " Últimos Jedi", que estreia na próxima quinta-feira. Antigo aprendiz, o personagem inicia um novo passo de sua "Jornada do Herói"

Por André Bloc

Quando Luke Skywalker (Mark Hammil) ressurgir na estreia de “Star Wars: Os Últimos Jedi”, ele não será mais o relutante herói que salvou a galáxia e redimiu o próprio pai. Estrela da trilogia original de “Star Wars”, entre 1977 e 1983, Luke é um dos heróis mais clássicos da história do cinema. Na nova jornada da série fílmica, no entanto, ele abandona o manto de protagonista e surge com muitas possibilidades.

“Os Últimos Jedi”, de Rian Johnson, chega na próxima quinta-feira aos cinemas brasileiros. O filme deve sanar a dúvida de parte dos fãs, que se perguntam se o antigo protagonista vai ser apenas um mentor de Rey (Daisy Ridley) ou se transmuta em um antagonista da trama. O historiador e mestre em Psicologia Heráclito Aragão usa os conceitos de “Jornada do Herói” para descartar que Luke vire um vilão.

“Acho que é improvável. O que deve acontecer é um destino igual ao do Obi-Wan (Alec Guiness) nos filmes originais”, aposta Heráclito. Para ele, Luke é, agora “o sábio”, tal qual o mestre. “O filme anterior dá a entender que ele fracassou como professor. Nos trailers, ele fala que concorda com o fim dos jedi. Existem muitas possibilidades”, argumenta.

A base conceitual que guia o historiador é a chamada “Jornada do Herói” (ou Monomito), uma “estrutura geral de todas as narrativas”, como define Heráclito. Ela ficou famosa em 1949 com a obra “O Herói de Mil Faces”, do escritor e mitologista Joseph Campbell, e serve de pano de fundo da maioria das histórias mais famosas do mundo. De Luke Skywalker a Harry Potter, de Batman a Jesus Cristo, do desenho “Rick and Morty” a obras de William Shakespeare. “Em termos simples, o herói sai do local onde se encontra, entra na esfera da aventura, do desconhecido e volta com o tesouro, uma nova percepção”, define Heráclito.

Para a escritora e designer Kamile Girão, o uso de uma estrutura mitológica clássica ajudou muito no sucesso da trama criada por George Lucas em 1977, “A Jornada (do Herói) cativa por estar ligada à essência humana, por ter um viés mitológico. Outro mérito foi o George Lucas apostar nessa estrutura em um tempo em que não se falava tanto nela”, pondera. Heráclito concorda, ressaltando a “mensagem atemporal” presente no caráter mitológico da obra.

Com uma estrutura familiar para o público e uma mensagem atemporal de um ciclo de mudanças, a “Jornada do Herói” virou uma das estruturas mais comentadas para a construção de roteiros. Para Kamile Girão, o Monomito é mais uma orientação do que um guia para o desenvolvimento de um manuscrito. No caso de Luke Skywalker, a estrutura o ajudou a entrar na história do entretenimento, enquanto ainda dá pistas sobre os novos desdobramentos que a trama pode lhe reservar.

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1. Mundo cotidiano

Luke Skywalker é um fazendeiro que vive no deserto de Tatooine com os tios adotivos, Owen e Beru Lars. Luke sonha em ser piloto da Aliança Rebelde. Ou seja, tem uma consciência limitada do mal, mas pouco faz para combatê-lo. (Início do Episódio 4)

2. Chamado à aventura

Após descobrir um holograma junto ao robô R2-D2, Luke parte para encontrar o velho Ben Kenobi, a quem estava destinada a mensagem. A consciência sobre a disputa bem/ mal aumenta.

3. Ajuda sobrenatural e recusa do chamado

Ben Kenobi (ou melhor, Obi Wan Kenobi), usuário da Força, ex-Jedi, surge como Mentor de Luke. No futuro, ele vai conhecer mais um mentor e será "seduzido" pelo poder de outro. Ben conta que Luke era filho de um lendário cavaleiro jedi, Anakin Skywalker, e precisa partir para salvar a princesa Leia Organa. Em suma, o herói reluta em mudar.

4. Travessia do primeiro limiar

Após, bom, tudo dar errado, Luke perde os tios e não tem opção a não ser ir com Ben/Obi-Wan. De lá, ele parte para Mos Eisley, a maior e mais caótica cidade em Tatooine.

5. Barriga da baleia (aliados e inimigos)

Em Mos Eisley, Luke conhece o contrabandista Han Solo e seu co-piloto, Chewbacca. Na viagem rumo ao planeta Alderaan, eles acabam puxados para a estação bélica Estrela da Morte, onde se deparam com o general Darth Vader, um dos líderes do Império.

iniciação

6. Cruzamento do Limiar

Luke começa a ser testado e consegue salvar a princesa Leia. Os heróis fogem e levam os planos para destruição da Estrela da Morte para a Aliança Rebelde e se preparam para o ataque.

7. Apoteose e Recompensa

Pilotando uma X-Wing, Luke tem uma oportunidade perfeita para destruir a Estrela da Morte. Perseguido por Darth Vader, ele é salvo por Han Solo e a Millennium Falcon. Com auxílio da Força, ele acerta um tiro quase impossível e destrói a estação bélica. (Fim do episódio 4)

retorno

8. Recusa do retorno e Voo mágico

A Aliança Rebelde precisa fugir da base em Hoth. Em vez de seguir com os amigos, Luke se separa para encontrar um novo Mestre: o sábio Yoda, no planeta Dagobah. Em treinamento com Yoda, Luke descobre a dimensão do poder da Força.

9. Resgate interior e travessia do limiar

Durante o treinamento, Luke tenta enfrentar uma visão de Darth Vader e falha. Ele pressente uma ameaça contra os amigos e viaja para salvá-los na Cidade das Nuvens, no planeta Bespin. Lá, ele descobre uma armadilha e enfrenta o general do Império. O herói é derrotado, perde o braço e descobre que o vilão não matou Anakin: Darth Vader é o pai de Luke.

10. Ressureição

Luke resgata Han Solo, enfrenta os próprios medos e hesitações e um grande plano é feito para destruir a nova Estrela da Morte. Luke conversa com Vader e diz que sente o lado bom do próprio pai. os dois duelam e, em fúria, o jovem jedi vence o lorde sith.

11. O senhor de dois mundos

Surge o Imperador Palpatine para seduzir Luke para o lado negro. Luke, com os conhecimentos acumulados com Obi Wan e Yoda, resiste. Ele é salvo por Darth Vader, que encerrando o ciclo de sua própria Jornada do Herói, salva sua família do mal. Luke redime o pai que sempre buscou. Anakin, morre para salvar os filhos, Luke e Leia. (Fim do episódio 6).

12. Retorno com Elixir

Livre dos lordes Sith e do Império, os rebeldes comemoram um universo de volta aos eixos e capaz de se reconstruir (Fim do episódio 6). Luke funda um novo templo Jedi e começa a treinar jovens aprendizes - entre eles Ben Solo, seu sobrinho. Agora, o herói é um sábio. (Entre os episódios 6 e 7).

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