Editorial: pelos renasceres do semiárido

Depois de cinco anos consecutivos de seca, 2012 a 2016, e mais um 2017 com chuvas abaixo do suficiente, o Semiárido nordestino dá sinais de resistência. Não são imagináveis os dias na estiagem insistente. Mas perdura no movimento de personagens e de instituições a crença no território, e em seus habitantes, um lugar de ainda dar flor.

O POVO foi ver o que resiste e se refaz, mesmo na estiagem de desesperançar. Um Geopark Cariri, invenção internacional de dez anos de existência por aqui. Credenciado pela Unesco e persistente no sentimento de terra possível. Da Pré-História cravada no fóssil ou no ciclo moderno do couro e do imaterial da oralidade.

Num projeto Sertão Transviado, descortinado por um novo habitante do Cariri e reverberado pela Universidade. Imaginar, em terra tão machista e firmada na religiosidade, atuações reais de Tica. Uma transexual, Rainha de um Reisado, que se expande para além do gênero e revoluciona a tradição.

Em Crateús, no torrão do Inhamuns, a perseverança em reflorestar a Caatinga chagada pelo desmatamento, queimadas, crescimento desordenado das cidades, pela falta de chuvas regulares...

Uma abelha endêmica do Semiárido, a jandaíra quase extinta, puxa o esforço da Associação Caatinga – guardiã da Reserva Serra das Almas. Para preservar e expandir o que há de mata cinza no interior dos mais de 6 mil hectares de floresta, a necessidade de replantar e mudar o modo de viver do entorno. A condição para ter mel - alimento para cada família e mais perspectiva na seca – é fazer nascer flor de jucá, moringa, ipê, ingazeira... A jandaíra só volta a refazer o Semiárido se for assim. Mata e flor em abundância.

Reflorestar também está na questão em Catunda, ainda no Inhamuns. Projeto financiado pelo BNB que viu no replantio de sabiás, a cultura para cicatrizar a terra degradada e fazê-la fértil novamente. É um começo, mas há esperança.

Ingazeira também é a melhor sombra para fazer renascer o café do Maciço de Baturité. Não para produção em grande escala, como foi há 100 anos e gerou moeda. Mas para reconstruir a Rota do Café e oferecer memória, convivência, história e turismo ressimbolizado.

O POVO vai compartilhar mais esses novos encontros com o Semiárido, em constante movimento, renasceres e transformação.

DEMITRI TÚLIO/ Repórter Especial

A ESTÉTICA HISTÓRIAS SÃO ROTAS

Ambas tecem realidades e costuram o sertão que é um mundo. Tem de tudo em cada universo particular que se adentra. Dinossauros, cafezais, reflorestamento, turismo, até uma rainha que quer apenas ser o que se é. O projeto gráfico deste especial propõe um almanaque visual dessas narrativas. A tipografia viaja junto. Letras que encontramos pela estrada, nos caminhões, em placas pintadas à mão, em desejos e gracejos explícitos aos olhos. O colorido festeja o semiárido caleidoscópico como ele é. Tem tristeza e dor, como em qualquer outro lugar, mas muita luz, muitas possibilidades e o desejo de ser feliz ultrapassa qualquer obstáculo no caminho.

GIL DICELLI/ Editor-Executivo de Arte do Núcleo de Imagem 

Websérie
PROFUSÃO DE OLHARES

Há muito o que se ver no Semiárido nordestino além dos estereótipos com que ele costumeiramente é retratado. Na verdade, são muitas as possibilidades de construção narrativa a partir de suas paisagens humana e geográfica. A websérie que integra este projeto especial opta por deixar de lado o estranhamento comum ao olhar forasteiro e se permite o encantamento, comum àqueles que reconhecem a beleza no corriqueiro. No entanto, ao mesmo tempo, não se furta a ser surpreendida ao longo da jornada. Ao se aproximar das histórias trazidas nos cinco episódios, vamos além do que se mostra à primeira vista. A um tempo em que tratamos daquilo do que somos feitos, revelamos novas perspectivas para a lida com adversidades de longa data ou outras, recém-postas. Essa disponibilidade para a beleza e para a reinvenção traduz-se em uma fotografia apurada, entrevistas profundas e num roteiro que não subestima a capacidade do espectador em transcender.

ÉMERSON MARANHÃO/ Editor de Conteúdo do Núcleo Audiovisual 

Websérie

Relicário da humanidade

Por Demitri Túlio

Turismo histórico-científico-ambiental. O empresário Demétrio Jereissati enxergou o potencial. Dono do Iu-á Hotel, em Juazeiro do Norte, conta que o empreendimento nasceu em função do Geopark Araripe. E não parece exagero o que ele chama de “causa Cariri” e o senso de oportunidade em uma das regiões mais promissoras do mundo para o turismo sustentável e o fomento à pesquisa científica no primeiro geoparque reconhecido das Américas e Hemisfério Sul pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

Iu-á, na língua tupi-guarani, a primeira daqui antes das invasões europeias, significa o fruto do pé de Juazeiro: o juá. E é também uma aposta no que o empresário poderá colher de bonança num Semiárido possível além das secas. “Identificamos uma causa, o Geopark Araripe, e passamos a trabalhar diariamente essa cultura. No hotel, com as equipes, e fora com parcerias na iniciativa privada, comunidade e com o meio acadêmico”, afirma Jereissati.

O Iu-á, na prática, é o empreendimento privado do ramo da hotelaria mais investe na associação de imagem às possibilidades do primeiro geoparque brasileiro. O professor Álamo Saraiva, biólogo e coordenador do Laboratório de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri (Urca), atesta.

A marca geopark, diz Saraiva, é uma validação ou um selo chancelado pela rede internacional Global Geoparks Network (GGN)/Unesco, a um território abundante em sítios do patrimônio geológico (geossítios) que implica em práticas de proteção ambiental, educação e desenvolvimento sustentável para o turismo e retorno para as comunidades locais.

É ainda um reconhecimento do valor da diversidade, material e imaterial, de parte do Cariri cearense para humanidade e a necessidade de preservação e manejo sustentável. São nove geossítios ou áreas de relevância geológica, paleontológica, cultural e histórica entre Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha, Missão Velha, Nova Olinda, Santana do Cariri. Um mapa de 3.441 Km².

A nova cartografia sublinhada pelo Geopark Araripe, concordam o empresário Demétrio Jereissati e o paleontólogo Álamo Saraiva, é uma lupa sobre as possibilidades de geração de fontes diversificadas de renda para o homem do Semiárido e atração do capital privado, também, para pesquisa nas universidades públicas da Região.

Em Juazeiro do Norte, o Iu-á Hotel se diferencia e se oferece como uma das pontes para o Geopark. É o único que expõe o selo da Unesco na recepção como “entidade colaboradora”; tem no salão peças (cadeiras e gibão) do seleiro Espedito de Nova Olinda, oferece um pequeno memorial climatizado com fósseis da Bacia do Araripe (emprestados legalmente pela Urca), painéis, uma “doblossauro”, um quadro de recepcionistas e quatro guias disponíveis para iniciar o visitante no em um Cariri polissêmico.

O POVO não viajou à convite do Iu-á Hotel nem da Urca (Demitri Túlio).

FÓSSEIS

O POVO fez seis itinerários do mapa do Geopark Araripe. Em cinco deles acompanhado pelos professores Álamo Saraiva (foto abaixo) e Flaviana Lima, pesquisadores do Laboratório de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri (Urca). Aos 56 anos (na Urca desde 1994), o professor Álamo é uma espécie de guardião dos fósseis existentes na Bacia do Araripe. Sua última missão, além de estar descrevendo e montando um tipo inédito (e completo) de planta pré-histórica, desenterrada do solo de Santa do Cariri, é formar mais quadros na academia para decifrar o universo paleontológico que persiste ali. E consolidar a cultura de que um geoparque pode abrir novos caminhos para a vida sustentável no Semiárido brasileiro.

A doblossauro!

Para conhecer os nove geossítios do Geopark Araripe são necessários, pelo menos, três dias de idas e vindas entre Juazeiro do Norte e mais cinco municípios da região do Cariri. Quem explica é Émerson de Oliveira, 22, auxiliar da recepção do Iu-á Hotel e, por vezes, motorista da “doblossauro”. Um Fiat que serve de transporte para turistas e que carrega, no teto, uma réplica gigante de um pterossauro.

Um réptil alado que habitou, há pelo menos 228 milhões de anos, o que hoje se conhece por Bacia do Araripe. Segundo Renan Bantim, professor da Urca e paleontólogo do Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, até 2015, foram descritos 25 espécies de pterossauros no Cariri.

Algumas dessas “pedras de pterossauros” e uma infinidade de fósseis de peixes, insetos, tartarugas, arraias, jacarés e vegetais estão expostos para visitação no Museus de Santana. Para se ter uma ideia da relevância desses achados científicos, apenas no Cariri e em mais quatro regiões no mundo - China, Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra - foram encontrados registro de fósseis desse gigante pré-histórico voador.

O preço dos passeios oferecidos pelo Iu-á Hotel varia de R$ 160 (meio) a R$ 260 (completo) para grupo de quatro pessoas. As diárias de hospedagem vão de R$ 331 (casal) a R$ 291 (individual).

2006

Criação do Geopark Araripe com nove
destinos científicos e de turismo: Batateiras
(Crato), Pedra Cariri e Ponte de Pedra (Nova Olinda), Parque dos Pterossauros e Pontal de Santa Cruz (Santana do Cariri), Cachoeira de Missão Velha e Floresta Petrificada (Missão Velha), Riacho
do Meio (Barbalha), Colina do Horto
(Juazeiro do Norte). 

Dinossauros

Na Bacia do Araripe foram encontrados registros fossilizados de partes de quatro dinossauros diferentes. Grandes répteis terópodes: Angaturama Limai, Irritator
Challengeri, Santanarator placidus e o Mirischia asymmetrica. 

Talhada pelo tempo

Além da Ponte de Pedra, em Nova Olinda, o o Geopark Araripe inseriu, no roteiro de visitas, a oficina Museu do Couro, do seleiro Espedito, e a Fundação Casa Grande

No dia em que fomos ao geossítio da Ponte de Pedra, uma das estações do Geopark Araripe, no município de Nova Olinda, dois geólogos da Universidade Regional do Cariri (Urca) anotavam e fotografavam rachaduras do monumento natural de pelo menos 96 milhões de anos. Uma passagem suspensa sobre um dos riachos do rio Cariús, resultado da erosão da água sobre o arenito que vem sendo esculpido desde o período do Cretáceo.

A inspeção de Idalécio Freitas e Romcy Oliveira tinha razão de ser. O trânsito intenso de veículos pesados em função da ampliação da rodovia estadual CE-292, obra vizinha ao geossítio e que corta a floresta do Araripe, ameaça fazer ruir a ponte talhada pelo tempo.

Em dois relatórios apresentados ao Departamento Estadual de Rodovias do Governo do Ceará (DER) e à Construtora Luiz Costa (Mossoró), Idalécio e Romcy atestam que a vibração das máquinas reverbera no solo e corre para abrir ou aprofundar rachaduras na ponte de 23 metros de extensão por um pouco mais de dois metros de largura .

Para evitar o desmoronamento da construção natural chancelada pela Unesco no Geopark Araripe, governo e construtora terão seguir as recomendações dos geólogos. “É urgente colocar escoras, gesso para medir a extensão das fendas e repará-las. E, principalmente erguer uma ponte de madeira, restringindo a de pedra para a pesquisa e observação dos turistas”, sugere Idalécio Freitas. Até agora, nem o DER nem a empresa CLC iniciaram as obras no local ou apresentaram outra proposta.

Sérgio Azevedo, superintendente do DER, ignorou as recomendações feitas pelos dos geólogos. Ao O POVO respondeu, por e-mail, que o órgão “está efetuando monitoramento diário para tomar de imediato qualquer providencia necessária”. E afirmou que a conclusão da obra da CE-292, trecho Crato - Nova Olinda (com acesso a Santa Fé), está prevista para o primeiro semestre de 2018.

Enquanto a ponte de pedra não desaba, uma placa recomenda, por segurança, que a travessia seja feita por duas pessoas de cada vez. Além de ser uma das atrações do Geopark, lá também serve de passadiço para moradores (a pé) da comunidade Olho D´Água.

O selo Georpak e a chancela da Unesco/Global Geoparks Network também implica em obrigações para o Governo do Ceará/Urca, prefeituras envolvidas, comunidade e a iniciativa privada. “Conservar, fazer manutenção e investimentos são imperativos exigidos nas inspeções que a Unesco faz de quatro em quatro anos. Pode-se perder a chancela”, pontua Álamo Saraiva, pesquisador da Urca.

Um outro geossítio que carece de atenção é o Parque dos Pterossauros, em Santana do Cariri. O acesso às escavações é impraticável até para o carro 4X4 do Museu de Santana. A Prefeitura de Santana do Cariri não tem previsão de recuperação da estrada de terras e voçorocas. Além disso, não há guias no Centro de Referência de lá. (Demitri Túlio)

Condomínio ambiental

A GESTÃO do Geopark Araripe é coordenada pela Urca e compartilhada com as prefeituras de Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri, onde estão os geossítios. A iniciativa privada também é parte. Onze anos depois da criação do Geopark, a gestão ainda não é a ideal. Acesse: geoparkararipe.org.br

Idade da pedra

No geossítio da Pedra Cariri, em Nova Olinda, o cenário é meio estética Mad Max. Uma mistura de ar apocalíptico, por causa da extração insustentável do calcário ou pedra Cariri para a construção civil e, ao mesmo tempo, de filme de exploração científica. As pedras arrancadas, por trabalhadores não assalariados como os irmãos Cícero Pereira, 42, e Damião Pereira, 33, estão repletas de fósseis pré-históricos. A sina dos irmãos, na quebra da pedra, vem desde os 12 e 16 anos de idade. Num sol encandeante, respirando pó de calcário, em uma jornada de 6 às 11 horas e do meio dia às 16 horas, os “talhadores” tentam apurar o suficiente para “continuar comprando fiado. É o trabai engana bodega”, brinca Damião. Eis uma equação para o Geopark Araripe discutir sustentabilidade.

150 MILHÕES

de anos é idade dos afloramentos da Floresta Petrificada do geossítio descoberto em Missão Velha. Um bosque de fósseis de troncos de árvores que mediam entre 50 e 60 metros de altura no período do Jurássico. Teriam sido derrubadas por correntes fortes de águas que correriam ali.

Soldadinho

A mais ou menos 30 minutos de Crato, onde está a sede do Geopark Araripe, fica o geossítio do Riacho do Meio, no município de Barbalha. Uma floresta exuberante e úmida serve de habitat para centenas de bichos e aves da região. O mais procurado por observadores de pássaros e visitantes é o soldadinho do Araripe (Antilophia bokermanni). Um passarinho em extinção, mas que ali encontra refúgio e três nascentes preservadas. Condição para ele existir no território. No Riacho do Meio, além das trilhas, existe a Pedra do Morcego. Lugar que teria sido usado como acampamento pelo bando de Lampião. O geossítio é limpo na área interna, mas tem lixo na entrada. Além de não ter funcionários na recepção e vigilantes no local. A responsabilidade é da Prefeitura de Barbalha. 

A Rainha Tica

A TRANSSEXUAL TICA frequentou pouco a escola. Mora com Cícero numa casa miúda do Parque das Timbaúbas, em Juazeiro do Norte. Para ganhar a vida, recicla lixo e recebe cachês no Natal, Ano Novo e Dia de Reis quando é rainha do Reisado do Mestre Dedé.

A história de Tica ou Francisca, 56, uma transexual coroada rainha do Reisado de Santa Helena do Mestre Dedé, de Juazeiro do Norte, é feliz, triste e revolucionária no sertão transviado do Cariri tradicional. É uma encruzilhada desde o dia em que desembarcou no “planeta” (ela fala assim). Nasceu menina, mas num corpo de menino, como pressentiu a parteira à mãe.

O menino tinha rebentado de “papo para baixo”, modo de menina vir ao mundo. Diz-me Tica recontando o que a mãe confidenciou pra ela sem o pai saber. “Seria uma fêmea no corpo de homem”. Tivesse paciência e humanidade, dali em diante, com a criança diferente. Teria recomendado a aparadeira. Ou nem foi assim.

É que a vida em família e na rua, até hoje, nunca teve facilidades. Conflito difícil de atravessar por causa da pobreza, do preconceito e da necessidade de ser tratada como mulher num corpo franzino e masculino. Quando não está como rainha do Reisado, Tica cata lixo e pede precisões nas ruas de Juazeiro e Barbalha.

Entenda Tica. Nela há uma satisfação clandestina por se reconhecer mulher e ter, há seis anos, uma relação estável com o reciclador de lixo, e “embaixador” do Reisado, Cicero Ednaldo Ferreira, 41. Porém, há também uma encruzilhada nas ideias confusas. Quando não aceita deixar de ser Francisco João da Silva nos documentos sociais ou quando teve receio de ir de vestido ao Rio de Janeiro. Lá foi se apresentar majestade brincante, com o Reisado. “Tive medo de ser vaiada. Fui vestida de homem, mas não me senti bem. Acredita?”. É que já apanhou, levou carreira e foi estuprada.

Mas o corpo conflitante é também um levante. Ela tem e não tem consciência da rebelião. No Cariri da “macheza” e do redemoinho religioso, Tica rompe a tradição e finca a bandeira do Sertão transviado na brincadeira de Reis. Uma trans, católica, temente ao Coração de Jesus, a Padre Cícero e a São Francisco... “Mestre Dedé é o único que me aceita assim. Nenhum outro Reisado permite que eu seja Rainha”, conta na aridez, que é também refazenda de comportamentos (Demitri Túlio).

GLITTER NO GIBÃO

A NOITE CARIRIENSE da drag Phantom, o Café do Zé Viado, a ONG Beatos, as revoluções da casa dos irmãos Jamacaru, a cachaça Chá de Flor, as drags e mestre Nosa. a lésbica Mona... são algumas das histórias contadas pelo Sertão Transviado.

4 EDIÇÕES

foram lançadas do jornal laboratório Sertão Transviado.Trimestral, o próximo sairá em agosto. Quem quiser conferir a produção dos estudantes de Jornalismo da UFCA pode acessar o http://anuslivres.wixsite.com/sertãotransviado

Pluralidade e respeito

OS UNIVERSITÁRIOS Pâmela Queiroz, 19, e Ribamar Júnior, 20. Integrantes do jornal Sertão Transviado, parte do projeto Anus Livres - Mídias Radicais e Histórias Marginais da Universidade Federal do Cariri (UFCA).

A potência dos personagens do Sertão Transviado - projeto que inclui jornal, debates públicos e de gênero dos alunos de Jornalismo da Universidade Federal do Cariri (UFCA) - está “no corpo que bagunça a ordem normativa das coisas e do preconceito”. Quem diz assim é Ribamar Júnior, 20, estudante do 7º semestre.

Sob orientação do jornalista e professor Anderson Sandes, Ribamar, Pâmela Queiroz, 19, e outros alunos garimpam no Cariri “histórias marginais” de pessoas que não aceitam (ou não aceitaram no passado) a vida como ela é e chutaram a porta do armário das discriminações. Travestis, mulheres, afrodescendentes, transsexuais, beatas, indígenas, artistas... que reescreveram ou recontam por outro ponto de vista a diversidade Cariri.

Desde o lançamento da primeira edição trimestral do Sertão Transviado, em 2016, “ataques lesbofóbicos e machistas são recorrentes nos corredores da Universidade. Desde apologia ao estupro, feita por um aluno a também estudante Nirvana Lima, a frases debochadas como ‘LGBT é meu zóvo’”, escreveu Ribamar Júnior no editorial da segunda edição do jornal laboratório. Um experimento acadêmico que oferece outros trajetos no Semiárido cearense.

O efeito jandaíra

Foi por dedicação à jandaíra que José Nilton Rodrigues, 35, plantou 250 pés de algaroba, 200 de sabiá e 70 de moringa em seus sete hectares e meio de terra nos Inhamuns. É que a abelha, nativa e endêmica do Semiárido brasileiro, só produz mel se em seu redor tiver muita flor para beber.

Não é feito a italiana que faz mel “até de lata de Coca-cola” deixada em um balcão de bodega ou jogada, descuidadamente, na mata judiada por lixões que tomaram conta de muitos desenhos do sertão. Carlito Rodrigues, 31, agente de mobilização e administrador do meliponário da Associação Caatinga, semeia isso em 15 comunidades assistidas pela instituição no município de Crateús.

Zé Nilton, agricultor desde menino e pequeno meliponicultor há três anos, é um dos multiplicadores de tecnologias ambientais que se propõem a reverter não só o desmatamento, as queimadas e a desertificação, mas a própria existência na Caatinga.

O rapaz se dispôs a começar a abandonar crenças e práticas insustentáveis e se convencer que precisava passar por uma realfabetização ambiental. Não é só discurso, alguma coisa já o tocou nas práticas cotidianas.

No Centro Ecológico Samuel Jonhson, na Reserva Serra das Almas, Zé Nilton recebeu treinamento e levou quatro caixas com abelhas e uma rainha jandaíra para cada colmeia. Isso em 2014. Hoje, mesmo após cinco anos seguidos de seca, ele multiplicou para 12 exames. A produção ainda é pequena, mas há perspectiva.

E há uma equação sustentável próspera. Quanto mais árvores nativas, mais flores para as jandaíras e mais mel. Ganham a mata, a família de Zé Nilton e as abelhas. E outros bichos que voltam para refazer uma cadeia alimentar interrompida.

“É negócio”, firma Zé Nilton. Comparando, o litro do mel da jandaíra é vendido a R$ 120 no distrito de Santana. Comunidade onde vive com a esposa Maria Leidivana, 34, e o filho Itauan, 11. O mel da italiana, ele tem dez caixas em outro lugar afastado das nativas, custa R$ 30 o litro.

Não é fácil reintroduzir a jandaíra, quase extinta, numa região seca como os Inhamuns. Lugar, geralmente, pouca chuva mesmo na quadra invernosa. “Mas tem de ser um convencimento, uma insistência pela Caatinga e vida desse povo”, pontua Carlito Rodrigues (Demitri Túlio).

Mata preservada

A Associação Caatinga é uma ONG sem fins lucrativos. É a gestora a da Reserva Natural Serra das Almas, em Crateús, na região dos Inhamuns (CE). A Reserva é uma unidade de conservação que, em 2000, foi reconhecida pelo Ibama como Reserva Particular do Patrimônio Natural. São 6.295 hectares de mata preservada. A Associação foi criada em 1998 com apoio do Fundo para Conservação da Caatinga, estabelecido por Samuel Johnson para a proteção da carnaúba.

Selo Unesco

A Unesco, em 2005, concedeu o título de 1º Posto Avançado da Reserva
da Biosfera da Caatinga à Reserva Natural da Serra das Almas.Por considerar relevantes os serviços de preservação da diversidade biológica, desenvolvimento de pesquisas, monitoramento ambiental, sustentabilidade
e contribuição à melhoria da qualidade de vida da população local. 

O impacto em Cratéus

A criação de jandaíras de Moacir Lima Filho, 35, fica debaixo de um pé
de jucá. Árvore nativa da Caatinga e que produz flores amarelas (e doces)
do gosto das abelhas.

Moacir Lima, a exemplo de José Nilton Lima (foto), 35, é um dos moradores do distrito de Santana, em Crateús, beneficiado com o projeto de reintrodução da jandaíra no Semiárido brasileiro. Uma iniciativa da Associação Caatinga.

Suas duas colmeias, recebidas em 2014, formam transformadas em um meliponário de 12 enxames. “Quero chegar às 20 caixas no ano que vem”, projeta.

Por enquanto, o pouco mel que as jandaíras produzem é utilizado
como complemento na alimentação da família de Moacir. Ele, a esposa
Soraia e os filhos Marcelo, 14, e Eloísa, 4, também foram contemplados com outros projetos de tecnologias ambientais da Associação Caatinga.

No quintal há um forno solar e uma composteira. E, na casa, um aparelho chamado “bio-água” trata a água usada na pia da cozinha e no banheiro. “Reusamos nas plantas do quintal produtivo, por gotejamento. Antes, essa água se perdia”, reconhece Moacir Lima.

MEL

O exemplo que se espalha. De tanto a pequena Maria Eloísa, 4, falar na escola das “caixinhas de abelhas que ela e o pai” cuidavam no quintal de casa, a professora decidiu levar a turma para conhecer a experiência ecológica. Segundo Soraia Rodrigues, 32, mãe de Eloísa, mais de 20 crianças chegaramde uma vez para ver de perto o enxame de abelhas. “São mansas, não ferroam. Quando o Moacir desce pra cuidar, ela vai atrás. Já sabe mais so que eu”, brinca. As crianças da Escola de Cidadania de Santana, distrito de Crateús, também ficaram admiradas com o chá feito no forno solar. “Perguntaram muito e a Eloísa era quem respondia”, conta.

CASCAS E RESTOS

DEPOIS DA COMPOSTEIRA do quintal de Moacir Lima, não se “rebola mais lixo orgânico no mato”. O que dá para ser reaproveitado se transforma em adubo. A produção é compartilhada entre três moradores de Santana.

VOLUNTÁRIOS

QUEM QUISER conhecer e participar, como doador ou voluntário, dos projetos da Associação Caatinga acessa o www.acaatinga.org.br 

Replantar as sabiás

A ASSOCIAÇÃO Brasileira de Reflorestadores do Semiárido treinou agricultores feito seu Tonico Patriolino

Seu Tonico Patriolino, 57, diz que sabe ler, mas não aprendeu a escrever. Foi o tio, e não o pai, quem ensinou o pouco que o deixa agradecido. “E só leio se for letra de máquina. A sua já não sei”, explica escaneando o caderno de anotações do repórter.

O caminho da escola, talvez, não entre mais nos futuros de Tonico Patriolino. Até poderia, mas o agricultor brinca que a lida com 74 hectares em Catunda, no sertão dos Inhamuns, com as 22 cabeças de gado (diz que vai se desfazer), 24 ovelhas, uma porca, 18 bodes, 40 galinhas, uma roça, nove filhos e o segundo casamento já lhe levam o tempo que tem.

Mas reaprender é obstinação do fazendeiro que tem mais terra do que produção. “É muita seca. Tive que construir cisternas, plantar um capim pro gado que rebrota há 15 anos, cavar poço, fazer silos...”, enumera o dono da fazenda Flamengo.

A última peleja tem dois anos de experimentação e uma vontade empenhada para que dê certo lá na frente. Em dois hectares, Tonico Patriolino plantou pés de sabiá. Melhor, replantou numa terra devastada por práticas agressivas à Caatinga. “Há 40 anos, quando meu avô e meu pai plantavam algodão nessas capoeiras, brocavam tudo e diziam que viesse atrás tapasse os buracos”, recorda.

Uma linha de financiamento do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), destinada a estimular o reflorestamento de terras arrasadas no Semiárido e também gerar renda, foi o impulso para seu Tonico desfazer crenças e reaprender lidas.

Com R$ 22 mil do BNB, um poço e um açude para não faltar água à plantação de sabiá, ele encarou a nova história. “Eu tava com uma esperança que elas (as sabiás) iam se desenvolver, mas as chuvas foram pouca. Tão vivas”. E foi nos mostrar num pedaço de terra a dois quilômetros da casa e muito sol.

As sabiás, planta de onde se extrai madeira para fazer cerca, começam a produzir matéria prima, geralmente, em cinco anos. Faz-se a poda e o tronco-mãe é preservado para a rebrota. E assim vai. “Precisa só cuidar e pode fazer roça de milho entre elas”, diz Tonico.

Ele também está às voltas com a ideia fixa de que vai criar abelhas. “Tô plantando muita moringa. Ela dá 12 meses de flor”, faz poesia sem nem se esforçar. (Demitri Túlio)

2 HECTARES

devastados da fazenda Flamengo, em Catunda, foram replantados com sabiás pelo agricultor Tonico Patriolino.

A planta

A árvore sabiá foi escolhida para reflorestamento de Catunda e Santa Quitéria depois de uma série de diagnósticos feitos na região dos Inhamuns, área de grandes desmatamentos e desertificação. Segundo a assessoria técnica do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) levou-se em conta a carência por matéria-prima já que os produtores rurais compravam a madeira de outros estados. “Também foi observado o elevado índice de exploração das plantas nativas e o desmatamento. Desse modo, analisamos a viabilidade sob o ponto de vista econômico, social e ambiental”, explicou assessoria do banco financiador do reflorestamento.

60% DA PRODUÇÃO

de milho e feijão foram perdidas nos sítios Flamengo e Salitre por causa das chuvas insuficientes este ano em Catunda, nos Inhamuns. 

Sustentabilidade

O reflorestamento de terras degradadas nos municípios cearenses de Catunda, Crateús e Santa Quitéria, no Sertão do Inhamuns, é um trabalho a médio e longo prazo. O cultivo irrigado da planta sabiá, para extração sustentável de estacas, pode ser consorciada com outras culturas. Milho e feijão, por exemplo. Para rentabilização do empreendimento ecológico e reorientação da convivência do homem com o Semiárido.

A previsão para o primeiro corte de madeira sustentável é de cinco anos. Uma condicionante para o financiamento do BNB é o produtor possuir uma fonte hídrica. Viabilizada com dinheiro do Pronaf Semiárido ou por conta do cliente.

JOSÉ MARTINS recebeu R$ 14 mil do BNB para plantar 1,5 hectare de sabiá. %u201CO plano é reflorestar a terra que não está mais produzindo e não devorar mais o solo com o fogo%u201D.

UMA PRAGA NA ROÇA

O gafanhoto Stiphra Robusta, apelidado de mané-mago pelo agricultor José Martins da Silva, 59, teria sido uma das causas das sabiás não terem vingado nos quase dois hectares plantados no Sítio Salitre, em Catunda. “Devoraram todas as folhas”, reclama. Além disso, as chuvas nos Inhamuns não foram suficientes para encher o pequeno açude da propriedade. “Aqui, digo sem medo, estamos no sexto ano seguido de seca”, pontua.

Vai um cafezinho?

Na Rota Verde do Café, itinerário de história, ecoturismo, gastronomia, hotelaria e descobertas no Maciço de Baturité, uma das estações é o Sítio São Luís. Sítio é modo de dizer na serra. Na verdade, uma fazenda de 230 hectares e, desses, 40 de mata nativa preservada no município de Pacoti.

É lá onde melhor se serve o que se formou de memória do tempo em que a produção em escala do “café de sombra”, nas montanhas de Baturité, teve até moeda própria. E deixou lendas sobre os dividendos dele enterrados em botijas de sonhar.

A socióloga Cláudia Maria Matos Brito, 65, herdeira da propriedade e de um casarão de quase 160 anos (1858), fia com naturalidade (e gosto) capítulos lidos e vividos que se passaram ali.

A casa enorme é cheia de relembranças, janelas arrodeando o vento frio, livros, retratos de molduras ovais, cumeeiras altas, camarinhas de donzelas, mesas compridas e louças, portas de entrar e sair o tempo...

Cláudia Matos Brito recebe, conta e serve... Bolo de café em receita (de avó) indizível, pão e ricota feitos na cozinha de fogão à lenha. Na mata, me diz, há um café (arábica típica) que deixou de ser colhido há 130 anos. Ano passado, por causa do o novo enredo do Sítio São Luís na Rota Verde do Café (inovação do Sebrae), colheram oito sacas. A fazenda produzia 1.200 nos tempos outros.

No mesmo Maciço, mas em Mulungu, há também um café antigo (e novíssimo) sombreado por ingazeiras e camunzés. Seu Gerardo Queiroz, proprietário do Sítio São Roque, explica o porquê e tento traduzir.

A sombra das copas altas dos camunzé e das ingazeiras filtram a quantidade suficiente de sol passando. As raízes facilitam a drenagem do solo para os cafezais e a folhas que caem, deitam a terra em um sedimento robustecido.

Aos 92 anos, seu Gerardo não tem mais a disponibilidade física de descer e subir os 22 hectares do sítio São Roque para cuidar da produção. Mas ainda negocia sem sair de casa. Ano passado, produziu 50 sacas. Coisa pequena para quem, em 1962, botou no mercado 660 sacas. “A maior safra dali”, me conta ao lado da filha Lea.

Hoje o Sítio São Roque é mais memória do que produção de café. É outra história (e negócio novo) depois que abriu as portas para o turista da Rota do Café. Provar e sentir os aromas das memorações e companhia de seu Gerardo.Viúvo, pai (e avô) de filhos casados em Fortaleza. “Eles sempre estão aqui. Mas disse ao Sebrae que quem vem na minha casa (visitantes) tem de tomar um café na cozinha comigo”, foi gentil.

O inovador

Quem sabe também receber é o povo do Sítio Águas Finas, em Guaramiranga. Francisco José Soares Uchôa, 70, ou coronel Uchôa, é atenção em pessoa. Nos três percursos visitados pelo O POVO, você tem aulas de como se refazer num negócio.

Até se vende o café, numa embalagem charmosa. Mas o ponto, ali, é o ritual em torno do ecoturismo (das trilhas inventadas) e das etapas da pequena produção caseira. Quinze sacas por ano colhidas de 1/3 dos 23 hectares de mata atlântica respeitada.

Seu Uchôa, seu Chiquinho (o feitor) e Jardelino (o cuidador dos grãos) dão o tom do agradável de experimentar se aventurar pelas mil histórias da Rota Verde do Café do Maciço de Baturité. (Demitri Túlio)

6 SÍTIOS/FAZENDAS integram a Rota Verde do Café no Maciço de Baturité. Um roteiro turístico criado pelo Sebrae/Baturité para tornar sustentável as antigas propriedades de de produção do grão e seu entorno. Segundo Fabiana Gizele, gerente do órgão e idealizadora do projeto, é uma iniciativa compartilhada que alia a “história da produção do café, o ecoturismo e a sustentabilidade do território”.

A CASA

CLÁUDIA Matos Brito, herdeira do Sitio São Luís, em Pacoti, conta que o coronel João Pereira Castelo Branco contratou dois arquitetos holandeses para projetar o casarão que foi construído, em 1858, com mão de obra escrava.

No Sítio São Roque, de propriedade de Gerardo Queiroz (foto abaixo), o solar que serviu de base para os negócios do café em Mulungu foi erguido em 1928. Lá ele criou sete filhos ao lado dona Teresinha. 

 

Lugar pra ficar

No Guia de Hospedagem da Rota Verde do Café, do Sebrae e da Associação Serrna de Turismo do Maciço de Baturité (Asemb), estão relacionadas as pousadas Le Rêve, Cedros, da Josy, Manjericão, Paraíso, Café Brasil, Cabanas da Serra, hotéis Colonial, Montenegro e Remanso. Além dos chalés da Montanha e do Nosso Sítio. Os equipamentos estão localizados nos municípos que integram o projeto: Baturité, Mulungu, Guaramiranga e Pacoti. A sede de Baturité está localizada a 106 km de Fortaleza, em um tempo de viagem de mais ou menos duas horas. 

Trilhas e aromas

Além dos sítios São Roque, Águas Finas, São Luís, Rio Negro, Nosso Sítio e fazenda Floresta, a Rota Verde do Café do Maciço de Baturité, no Ceará, também conta com o Museu Ferroviário de Baturité, Mosteiro dos Jesuítas, o Antiqário Santa Demolição e o Vale da Biodiversidade. Para agendar visitas, basta acessar o site do Sebrae Baturité/Rota do Café ou ligar para (85) 98881.4540. 

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