Editorial

É no Centro de Fortaleza onde se compra de tudo. Se tem alguma coisa que você está na peleja para encontrar, vá ao Centro. É lá onde você vai ter opção. Se o objeto de desejo estiver caro demais nos shoppings e zona nobre da Capital, busque o produto do Centro. Vai sair mais barato. E se a rotina estiver esgotante, cansada e na mesmice é lá também onde você pode arejar a cabeça, enriquecer a alma, beber cultura e provar do melhor da gastronomia cearense.

O Centro é mesmo tudo isso. Principal corredor comercial de Fortaleza, a cada rua há uma infinidade de opções de lojas e os menores preços da Cidade. No POP Centro, um Guia de bairro, contamos histórias de quem além de negócio tem uma relação afetiva com o bairro. Quem faz da região morada e ganha pão. Quem vai ali para comprar e pechinchar. Quem acredita que o Centro ainda vai ser muito melhor do que é hoje. Em todas essas narrativas há um consenso: o Centro é mesmo lugar onde tem tudo bom, bonito e barato!

Boas compras

Antigos e novos comerciantes de um mesmo segmento dividem a rua e os fregueses, a cada esquina do Centro da cidade

Quem frequenta o bairro desde criança geralmente já sabe o endereço certo para achar o que precisa, mas quem não conhece o lugar também pode confiar no boca a boca.  Instrumentos musicais e equipamentos eletrônicos? Vá na rua Pedro Primeiro. Artigos de festas? O melhor lugar é o quadrilátero perto da rua Castro e Silva. Artesanato? É só caminhar em direção ao Mercado Central, nas imediações você acha redes bordadas, cachaças especiais e lembrancinhas de madeira. A vantagem? Comerciantes e compradores são unânimes: qualidade, preço e variedade.

Foto: CAMILA DE ALMEIDA
Klésia Pereira, do miolo da rua Senador Pompeu, anuncia: por menos de R$ 20, o consumidor sai da KLD com uma corrente de prata

"O  Centro tem tudo que você encontra no shopping com um preço bem melhor", garante a proprietária da KLD Jóias, Klésia Daniel Pereira, 48. No miolo da Senador Pompeu, ela oferece brincos, correntes, pingentes e anéis de prata.  Os clientes, informa, saem até de bairros nobres em busca do produto muito mais em conta. A expertise em aço e prata ela aprendeu com o ex-marido, que fundou a joalheria Talismã há mais de 25 anos.

A força do Centro está no comércio, só ele representa 11% do ICMS do Estado. 62% do ICMS do Ceará é oriundo de Fortaleza, e o segundo município com maior arrecadação, Maracanaú, alcança apenas 6%. " As despesas são inferiores no Centro do que naquela região do shopping, por isso se pode pagar menos, não tem condomínio e nem estacionamento, é um conjunto de fatores", diz Adail Fontenele, titular da Secretaria Regional do Centro.

A Prefeitura de Fortaleza promove uma série de intervenções no bairro, a fim de facilitar o comércio, explica Adail. Ele cita a instalação de câmeras de segurança pela Secretaria de Segurança Cidadã, o aumento do contingente de policiais e de vagas de estacionamento Zona Azul e linhas de ônibus. "Vamos fazer uma linha exclusiva na João moreira e na Castro e silva, uma forma de facilitar o transporte público em direção ao centro. Voltamos a posicionar uma linha na General da Sampaio, esse trajeto voltou no começo do ano começou com cinco ônibus,  meta é atingir 17”.

Para a servidora pública Louranice Rodrigues, 61, é melhor deixar o carro em casa e aventurar-se no Centro de ônibus. Assim, ela fica tranquila para garimpar os materiais de construção, as armações de óculos e os artigos domésticos em falta dentro de casa. "Eu praticamente nasci aqui no Centro, na avenida Heráclito Graça, entre a Dom Leopoldina e a rua Rodrigues Júnior, meus avós também moravam aqui na Visconde do Rio Branco, então é uma área que eu tenho lembrança afetiva.  Eu dou preferência porque eu conheço bem as lojas, os preços são justos, e adoro andar aqui", diz enquanto posiciona as sacolas nas mãos. 

 

Foto: CAMILA DE ALMEIDA
É possível comprar um bom violão, na faixa de R$ 270, na Trok Tok Musical. Gezael Flor, dono da loja, conta que os teclados variam de R$ 700 até R$ 15 mil. Já a caixa de som é vendida a partir de R$ 300

 

No comércio do Centro, o administrador cearense Gezael For, 45, aliou a paixão pela música ao sustento da família. "Eu vim na Pedro Pereira comprar um contrabaixo, a forma como eu fui atendido me passou confiança", lembra. Na época, ele era representante comercial, mas foi só receber a rescisão do emprego que o sonho de abrir a loja própria tomou forma, há 14 anos. Hoje, a Trok Tok Musical funciona com ele e mais cinco funcionários.

Violão, teclado, microfone com ou sem fio, e caixa de som, respectivamente nessa ordem, têm grande procura. O bom mesmo, de acordo com o Gezael, é a certeza de ofertar o que o cliente precisa, pois "se não tiver em uma loja certamente encontra na outra daqui". Por dia, cerca de 50 clientes são atendidos e, assim, correndo para deixar um e outro satisfeito, ele garante o faturamento mensal de cerca de R$ 150 mil. 

Vida no comércio do Centro

Foto: CAMILA DE ALMEIDA
Elpídio vende rede, manta para sofá de todos os tamanhos, tapete, jogo de passadeira, saída de praia, blusa de renda. "Mexo com muita coisa para escapar", diz
 

Aos 81 anos, Elpídio Alves de Moraes chega aos boxes 315 e 317, no 2º piso do Mercado Central, às 7h da manhã, de segunda a sábado. Filho de um casal de agricultores do Rio Grande do Norte, ele se estabeleceu em Fortaleza para melhorar de vida. "Na terceira vez que eu vim, eu disse: dá certo ou não dá certo, eu vou ficar, não volto mais. Só Deus sabe o que passei, mas estou vivo". As redes bordadas custam entre R$ 25 e R$ 300, segundo ele, a depender do acabamento e material.
Trabalhou como servente de pedreiro, vendedor de água, garçom em um café e até camelô. Adquirir um ponto no antigo mercadão, em 1961, mudou os rumos da família. Analfabeto - "eu assino o nome com dificuldade"-, Elpídio fez questão de pagar os estudos dos cinco filhos. O segredo está em não gastar além do limite para viver "sem depender de ninguém", mas principalmente, atender bem o cliente. "Tem que ter variedade, o freguês quer chegar no canto e ter tudo", ensina.

A gente queria ter uma moda de preço acessível para as pessoas, meu vestido de festa começa em R$ 40 e vai até R$ 890

Agilizar os processos dos alvarás de comércios no bairro é interesse da Prefeitura, informa o secretário do Centro Adail Fontenele. “Comércio novo, a recomendação é muito forte para ninguém atrasar a emissão de alvarás, o resto (de incentivo) é aquisição de prédio. A Casa Beleza é uma loja antiga, desapareceu há mais 10 anos e voltou agora no começo do semestre. É um sinal de que empresários de setor estão novamente acreditando na pujança do centro em vez de abrir no shopping A, B ou C”, analisa.

As irmãs Thais Rodrigues e Tamyres Carneiro comandam, na Major Facundo, loja de vestidos de festa aberta recentemente. "A gente queria ter uma moda de preço acessível para as pessoas, meu vestido de festa começa em R$ 40 e vai até R$ 890. No futuro, queremos expandir a Madama Litta para a moda masculina", planeja. A mercadoria é trazida de fornecedores de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Santa Catarina. 

Thais já trabalhava como vendedora e, com essa experiência de 10 anos, ela e a irmã resolveram investir em negócio próprio.

Festa completa 

Para falar do início da Baby Festa, Maria Verônica de Oliveira Barbosa, 60, resgata o tempo em que fazia tiaras de lã e palhacinhos para crianças. Ela e o marido, que trabalhou no Pão de Açúcar e na Mesbla, juntaram o "pouco que tinham" para abrir um ponto no Centro. "Era bem miudinha, 5m² ou 10m², o Cantinho do Plástico, e o dinheiro era o que eu tinha dos palhacinhos e arranjos de cabelo, foi na faixa de 700 cruzados (o investimento)". Agora, além dos pontos de plástico, o casal e o três filhos administram a loja voltada à decoração de aniversários etc. "Aprendi a lidar com as pessoas, eu acho que é o primordial, às vezes o cliente entra e nem vai comprar, mas gosto de atender, é muito bom ter esse contato direto". 

Foto: CAMILA DE ALMEIDA
Para Maria Verônica de Oliveira Barbosa, o Centro deixa as pessoas à vontade

Acessórios 

Francisco Anísio, 52, vende artigos de couro no Mercado Central há 15 anos. "O comércio é assim, você se acostuma com ele, tem dia que é bom, tem dia que é ruim, tem dia que é bom, tem dia que é ruim". As sandálias femininas saem por R$ 65, e as bolsas podem custar até R$ 120.   

Foto: CAMILA DE ALMEIDA
Francisco Anísio toca com o irmão a loja "Camila Couro"
 

 

O Centro foi o nascer de tudo

Herdeira e diretora comercial do Ponto da Moda, Ana Luiza Ximenes fala da relação com o bairro onde o pai começou

Diretora comercial do Ponto da Moda, a cearense Ana Luiza Ximenes narra sua experiência à frente de um dos maiores e mais tradicionais comércios surgidos no Centro de Fortaleza. Formada em Psicologia, a empresária uniu os conhecimentos do curso com a vivência do comércio e atua na área comercial da empresa há 22 anos. 

Foto: CAMILA DE ALMEIDA
Ana Luiza Ximenes começou a frequentar a empresa do pai aos 8 anos e hoje é diretora comercial da loja

O POVO - Quando você entrou no Ponto da Moda?

Ana Luiza - Fui criada dentro do comércio. Eu era pequena, 8 anos, e, durante metade das férias, eu trabalhava. Meu pai parece que estava adivinhando que iria falecer muito novo. Ele implantou nos filhos a cultura do trabalho muito forte. Fui pegando gosto desde criança.

O POVO - Você é formada em psicologia. Como conciliou com o comércio?

Ana Luiza - Sempre abracei a causa do RH. Meu irmão, que começou na parte comercial, e eu me metia muito. Ele ficava danado e perguntava: "Quer ficar no meu lugar? Você não é do RH?". Me metia muito. Eu fui me identificando, atendendo representantes, escolhendo produtos. Fui me descobrindo. Hoje sou muito feliz. Estou há 22 anos na área comercial. A psicologia foi uma bênção. E deu pra linkar muito bem ao comércio. Quem não acompanhar o conhecimento vai ficar pra trás.

O POVO - O que o Centro representa para você?

Ana Luiza - O Centro ainda é um dos nossos maiores faturamentos. Foi o nascer de tudo. A gente está vendo o projeto do Novo Centro. Acho que vai dar um dinamismo que o Centro tinha, de as pessoas voltarem a ver o Centro de forma diferente. É um gigante que estava adormecido e tão fazendo por onde para ressuscitá-lo.

O POVO - Apesar das dificuldades, o Centro ainda é o melhor lugar para se ter um comércio?

Ana Luiza - É um local que não tem tantos custos. O grande concorrente, o shopping, tem um valor agregador maior de aluguel. O que acontece no Centro é que junta uma diversidade muito grande. O que você imagina comprar, vem no Centro e tem. E é mais barato, não tenho dúvida disso. É muito forte esse apelo.

O que você imagina comprar, vem no Centro e tem. E é mais barato, não tenho dúvida disso. É muito forte esse apelo

O POVO - Qual o preço médio do Ponto da Moda?

Ana Luiza - Na faixa dos R$ 30. O nosso foco é na classe C. B e D também, mas até a classe A vem. Temos masculino, feminino, infantil, casa, mesa e banho.

O POVO - Trabalha quantas horas por dia?

Ana Luiza - Te afirmo que dez a 12 horas por dia.

O POVO - O que você atribuiu ao sucesso da empresa?

Ana Luiza - Muito trabalho e amor pelo que faz.

O POVO - Quais os seus desafios junto à empresa para o futuro?

Ana Luiza - Nosso planejamento estratégico passa por abertura de lojas. A economia brasileira bem judiando muito da gente. Demos uma segurada em abertura de loja, mas queremos mais três. Vemos novos mercados ainda no Centro. Têm áreas que a gente pode explorar. O desafio maior é estar sempre alavancando novos projeto. Temos um projeto de sustentabilidade que já estamos implantando.

O POVO - O que você aprendeu nessa trajetória como empresária?

Ana Luiza - O preço justo é o caminho. Não adianta só embalar de qualquer jeito e vender a qualquer preço. Embalar com conceito de moda, com produto e preço justo. Ninguém gosta de ser explorado. Tem que ter consciência de qualidade e preço.

O Centro que vende serviço

Se alguma coisa quebrou ou pifou, o Centro é referência. Mas também é onde há tradicionais serviços de beleza

Foto: FÁBIO LIMA
Mariana Lopes gerencia estúdio de beleza na Pedro Pereira

Mesmo com a descentralização dos polos comerciais em Fortaleza, o Centro continua sendo referência para compras e serviços. Cortar o cabelo, consertar um ferro de passar roupas ou contratar o serviço de manicure são demandas rotineiras de quem frequenta o bairro. A contadora Elizete Ferreira, 54, mesmo frequentando os grandes shoppings, continua indo ao Centro porque, segundo ela, há demandas que só são possíveis serem atendidas no bairro. "No Centro tem coisas que você só consegue resolver lá. Se conserta até sombrinha, panela de pressão, tênis... Tudo isso você só encontra lá e ainda pode negociar o preço", conta. 

É esse tipo de serviço que o microempresário Luiz Augusto, 45, faz há 15 anos. Com a loja "Eletropeças e Ferragens" aberta na rua Pedro Pereira, uma das mais movimentadas do Centro, ele conserta liquidificador, ventilador, ferro de passar roupas, entre outros. "Eu estou aqui há 15 anos. Conserto de liquidificador, ventilador e faço serviços de chave", diz.

O serviço de chaveiro foi o primeiro emprego trabalhando na Pedro Pereira com um tio. "De 15 anos (pra cá) no ramo de conserto de liquidificador e ventilador. Ele saiu do Centro e foi para a Aerolândia. Ficou aquela margem de pra mim só presta o Centro. A gente se acostuma com aquele fluxo de gente. Aí você sair do Centro com mais de 30 anos para ir para um bairro passando uma pessoa perdida perde a paciência", admite. A loja, que tem dois funcionários, faz cerca de 30 atendimentos por dia.

Foto: FÁBIO LIMA
Microempresário Luiz Augusto há 15 anos comanda loja de consertos no Centro
 

A manicure Mariana Lopes, 30, que gerencia o estúdio de beleza Tulina Lustosa, na Pedro Pereira, está à frente do negócio no bairro há oito anos. Os frutos que colheu nesse tempo é resultado da qualidade do serviço, mas também das facilidades que é trabalhar no Centro de Fortaleza. "O bom de trabalhar no Centro é porque o público é diverso, tem vários tipos de pessoas, a gente pode ofertar vários tipos de preços, além da acessibilidade para comprar produtos, para vendas", conta.

Cliente fiel ao estúdio de beleza, a encarregada de setor pessoal Fátima Lemos, 58, escolheu o Centro para se cuidar pela qualidade ofertada no serviço. "Para mim é mais flexível porque estou no Centro todos os dias, mas eu também gosto do trabalho dela. Tenho esse mesmo serviço no meu bairro, na minha rua, mas eu não gosto. As pessoas não trabalham como ela trabalha. Lá eu tenho mais barato, mas não compensa. Eu prefiro pagar um pouco mais aqui, mas eu fico satisfeita com o serviço dela", admite. Com quatro funcionárias, o estúdio chega a atender 25 pessoas por dia.

À frente do salão Santo Antônio, na Pedro I, o barbeiro Antônio Alves, 65, conhecido como "Barbeiro O Perneta", está no Centro há 36 anos. A qualidade do serviço e o preço do corte de cabelo e da barba congelado há três anos são fatores que fidelizam a clientela. "Trabalhei 11 anos na Pedro Pereira e já estou com 25 anos aqui na Pedro I. São 36 anos que eu trabalho no Centro", diz.

O microempresário diz que escolheu o bairro "pelo movimento". "Todos os dias tem movimento por aqui. Para ser em outro lugar é mais difícil. Tem cliente de cinco anos, dez anos que fideliza comigo. O meu trabalho mostra que pode fazer o gosto dele. Ele se sente bem e volta. A gente faz o possível para atender bem", destaca.

É quase unânime entre clientes e empresários ouvidos pela reportagem a necessidade de melhorar a segurança do bairro. O fator, segundo os comerciantes, é fundamental para o fortalecimento do comércio na região. "Quando tem segurança a população se aproxima do Centro para fazer compras", explica Antônio Alves.

A primeira farmácia do Ceará

O vendedor mais antigo da mais antiga farmácia de manipulação do Ceará conta o segredo da longevidade do negócio

Foto: AURÉLIO ALVES
José Aderson é funcionário da Oswaldo Cruz desde 1968 e conta que faz o local ter vida longa no Centro da cidade

OP - Como tudo começou?

Aderson - A farmácia Oswaldo Cruz foi fundada em 29 de junho de 1932. No prédio anterior à farmácia funcionava a loja do Boticário Ferreira, que deu nome à Praça do Ferreira. Era uma loja de variedades. A farmácia foi fundada pelo então doutorando em farmácia Hortêncio Mota. Em 1934, assumiu a família que está até hoje, do Edgar Rodrigues de Paula, também farmacêutico. E está na terceira geração. É a primeira farmácia de manipulação do Ceará, e ainda em funcionamento. É a mais tradicional, tombada pelo patrimônio histórico de Fortaleza em 2013 no governo de Luizianne Lins.

OP - Por que o público continua frequentando o estabelecimento depois de tanto tempo mesmo com um grande número de farmácias pela cidade?

Aderson - É muito comum a gente ouvir dos nossos clientes 'eu andava aqui com meu avô', desde pequeno, né? E até hoje têm essa preferência, e confiam porque tudo o que é feito aqui a gente faz com qualidade, desde o atendimento. A gente leva muito a sério a parte de manipulação.

OP - A tradição ainda é muito forte, não é?

Aderson - Muitos vêm aqui porque o pai ou o avô vinha sempre. São histórias que a gente escuta todos os dias. A tradição maior da farmácia é o atendimento à população. Aqui se produz fórmulas que já curaram essa cidade todinha. O cliente sai daqui muito bem orientado. Ninguém faz propaganda. É o cliente quem fala que ficou bom depois que veio na Farmácia Oswaldo Cruz.

OP - Qual o carro-chefe da farmácia?

Aderson - É a manipulação. Temos todos os tipos. Mas a manipulação, com a confiabilidade que tem, está sempre em alta.

OP - O senhor é o funcionário mais antigo do estabelecimento.

Aderson - Foi o meu segundo emprego. Comecei trabalhando em uma distribuidora. Saí por um motivo de saúde. Cheguei aqui em 1º de janeiro de 1968. Entrei aqui como office boy, aí fui galgando. Passei a ser estoquista, depois balconista, e, depois de 22 anos, assumi a gerência. Estou até hoje.

OP - O que fez o senhor se manter 50 anos na mesma empresa?

Aderson - É uma coisa que eu gosto, que é lidar com o público. Apesar de hoje eu não ser mais um vendedor, mas tem muito cliente que vem aqui porque eu estou aqui. Isso satisfaz o meu ego. Aqueles que me procuram tem aquela confiança de ser orientado, aqui não é simplesmente vender o remédio, é saber também como vai tomar. A maioria não lê receita, né? E a gente faz isso com muito carinho.

OP - Assim como a farmácia, o senhor também se tornou uma referência?

Aderson - Com certeza. Quando se fala em Oswaldo Cruz as pessoas lembram logo: "ah, o Aderson trabalha lá" (risos).

Centro tem opção da cultura à balada

Além de pagar mais barato pelos produtos, no Centro você aproveita intensa vida cultural e opções de lazer

Foto: MAURI MELO
Passeio Público

Uma manhã animada no Raimundo dos Queijos, com cerveja gelada e petiscos, na travessa do Crato, entre as ruas Conde D'Eu e General Bezerril, no Centro da cidade. Meio-dia, um almoço sob o ar bucólico do Passeio Público com vista para o mar da Praia de Iracema. No cair da tarde, uma conferida nas atrações do Cineteatro São Luiz, equipamento cultural histórico de Fortaleza que completou 60 anos.

O roteiro é um dos inúmeros possíveis para desfrutar o Centro da Capital, que reúne história, cultura, arquitetura e comércio em um só lugar. A região abriga museus, cafés, restaurantes, centros culturais, igrejas, galerias, praças e lojas. Morador da região e articulador do movimento Viva o Centro Fortaleza, o turismólogo Paulo Probo elogia a praticidade de se viver no local, diante de uma rede de comércio à disposição, e ressalta a força cultural do lugar.

Para ele, ainda é preciso evidenciar a beleza histórica do espaço e sua importância. O Viva o Centro Fortaleza promove ações e ocupações na região com intuito de valorizá-la. "Buscamos um equilíbrio do Centro com todo o seu potencial comercial. Queremos transformá-lo também numa potência cultural. Já é, mas pode ser muito mais potencializado. Sempre gosto de destacar o Parque da Criança, o Cineteatro São Luiz, o Centro Cultural do BNB, o Museu da Indústria e o Passeio Público", comenta Paulo.

Além dos equipamentos citados pelo turismólogo, o frequentador do Centro pode conferir a arte da interpretação representada em palcos respeitados, como o Theatro José de Alencar, um dos maiores símbolos da cultura do Estado e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Referência artística nacional, a estrutura oferece desde programação cênica às mais diversificadas atividades socioculturais.

No Centro, os apreciadores da boa leitura também têm vez. Desbravar os sebos da região pode render descobertas de raridades da literatura. Já a feira do livro, que acontece anualmente na Praça dos Leões, reúne centenas de pessoas de todas as classes sociais interessadas na compra, venda ou troca de materiais.

Para quem gosta de saborear a culinária cearense, restaurantes localizados em charmosos e históricos prédios do início do século XX, na Praça do Ferreira, são de encantar o paladar e a apreciação arquitetônica. E, claro, o famoso pastel do Leão do Sul é parada obrigatória. O Centro também sabe agitar. A Praça dos Leões ferve com as noitadas do Bar Lions. É um dos points mais badalados da galera cult-bacaninha da cidade e onde há uma das mais concorridas festas de Carnaval, as Gata Pira.

 

Requalificação em um ano

A unificação da agenda cultural de todos os equipamentos do Centro é uma das metas definidas no Plano de Ação Imediata, em curso desde agosto na região, fruto da parceria entre Prefeitura de Fortaleza, Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) e outras instituições como o Viva o Centro. A intervenção vai fortalecer e reafirmar o território histórico como grande espaço de arte e lazer do Estado, segundo o secretário da Cultura do município, Gilvan Paiva.

"O Centro vai voltar a ter uma pujança cultural além do que já tem", afirma o titular da pasta. O gestor da Cultura em Fortaleza explica que é preciso perceber o Centro como espaço importante de lazer e ocupação da cidade. Conforme Gilvan, a ocupação do Centro pelo viés cultural acontece de forma irregular e não consegue alcançar a dimensão devida. "A região vive a lógica do trabalho, mas tem uma área cultural muito viva. As atividades dão vida. Com a determinação (prevista no Plano de Ação), vai haver um foco nas atividades do Centro. Vamos buscar ampliar a programação e atrair o público", conta ele. A requalificação do Centro não ficará só no campo cultural. Com previsão de conclusão em um ano, o Plano de Ação Imediata será implantado em torno de seis eixos: Habitação, Política de Apoio a Moradores de Rua, Turismo e Cultura, Infraestrutura e Mobilidade, Ordenamento do Comércio Informal e Segurança e Fiscalização.

O objetivo é resolver problemas históricos da região. O ordenamento dos ambulantes e a revitalização de calçadões e praças estão entre as pautas principais. O Plano prevê estratégias para ocupação do Centro fora do horário comercial. Para isso, haverá o incentivo à habitação direcionada para a região por meio de aluguéis sociais, do projeto Minha Casa, Minha Vida para servidores públicos e do projeto piloto de aluguel ou construção de casas para comerciários do Centro. Conforme o Assis Cavalcante, presidente da CDL-Fortaleza, três quarteirões do calçadão da Guilherme Rocha, entre as praças José de Alencar e do Ferreira, estarão prontos até 23 de novembro.

A expectativa também é que o ordenamento e a regularização dos ambulantes em quiosques estejam concluídos. O calçadão da Liberato Barroso tem previsão de conclusão para fevereiro. "Com a requalificação do Centro, os lojistas e a população vão ganhar mais um centro de compra. Consumidores virão com mais frequência ao Centro e, ao mesmo tempo, lojas e outros negócios serão abertos. Seja ele serviço ou comércio. Estamos muito animados com isso”, ressalta Assis.

Dia de mercado

Bairro é local de passagem de mais de 350 mil pessoas por dia, daí o significado de uma culinária tão diversificada

Foto: CAMILA DE ALMEIDA
Turistas e muita gente da cidade frequenta o Mercado São Sebastião em busca de compras em atacado e preços baixos

Seja o prato feito no dia a dia de trabalho, seja a refeição que carrega a memória do Centro. Alimentação é palavra de ordem no bairro onde 64.350 pessoas trabalham, de acordo com dados da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL). Quem faz compras ali aproveita para almoçar e lanchar, mas também tem o Centro como o melhor lugar para comprar, justamente, insumos de qualidade, com preço baixo.
Turistas, Maria Lourdes, 66, e Francisco Melo, 70, visitam Fortaleza regularmente e costumam encher a "despensa" da casa deles, no Rio de Janeiro, com os produtos do Mercado São Sebastião. "Castanha do pará, castanha de caju, já levo sabendo os preços, porque meu irmão mora aqui e indica, nem precisamos fazer pesquisa", diz a aposentada. O esposo, complementa: "levamos ainda as rapaduras e os queijos para matar a saudade".

Manoel Heráclito vende polpas e frutas. Conta que criou quatro filhos com o negócio no Mercado São Sebastião

O mercado São Sebastião abre cedo, especialmente os balcões de frutas e verduras ficam lotados no período da manhã. "As frutas do mercado são frutas novas, do dia, o supermercado trabalha com a velha", defende Manoel Heráclito, 60, ao oferecer bananas, pimentões, laranjas, melancias etc. Ele trabalhou no antigo mercadão antes de abrir "O point das polpas e frutas", no galpão novo.

À frente da loja "Cosmo - O Rei da Castanha", no 2º piso, Edna Praciano, 48, já sabe como tratar os clientes, 90% deles fidelizados pelo pai. "Ele era o cara, foi um mestre, quem me ensinou sobre lucros, custos, produtos. Dizia que isso era bom para aquilo: se a pessoa estiver com diabetes não passe essa mercadoria". Além de turistas como Maria Lourdes e Francisco, ela atende gente que compra em quantidade para revender ou abastecer estabelecimentos comerciais voltados à gastronomia.

Edna fica algumas horas "praticamente sem atender ninguém", mas de repente são tantos compradores que ela e as funcionárias nem conseguem dar conta. "Todo mundo quer ser atendido primeiro, mas a gente consegue conversar, os antigos entendem e esperam", explica. Na lista dos mais vendidos, aparecem castanhas, de R$ 35 a R$ 45 o quilo, rapadura natural, e mel.

Edna Praciano, entre as funcionárias Fátima Torres (esquerda) e Elita Ventura (direita) diz que faz questão de só trabalhar com mulheres
 

 

Foto: CAMILA DE ALMEIDA
Sônia de Almeida Teixeira Pereira, 43, abriu loja de suplementos no Mercado São Sebastião. "Justamente por ser um produto que está em aceitação no mercado e não ter aqui. A procura agora é bem interessante"
 

Tarde farta com clientes

Ao meio dia, é difícil escolher um lugar para almoçar, dada a quantidade grande de opções e de preços. Do prato feito mais em conta, por cerca de R$ 10, ao quilo mais caro, o Centro abre as portas para quem tem fome. É ainda ponto fixo de quem trabalha com comida boa há décadas - no caso do Restaurante da Zena, por exemplo, são 49 anos. "Praticamente moro no Centro desde que eu vim do interior, eu acho assim, turista vem e adora, morador vem e adora, e o preço mais popular atrai", diz a proprietária, Zenilde Lopes Bezerra, 71.

Tão emblemático quanto a feijoada da Zena é o pastel do Leão do Sul, que já foi de três famílias desde 1926. "Uma das coisas essenciais é manter a qualidade, comprar sempre produtos de primeira linha", responde Dany Santos, 43, administrador atual do legado. Os clientes, muitas vezes, lancham em pé, trocando ideias com os funcionários antigos.

Edna Praciano conta da vez que uma jovem soube da morte do Rei da Castanha, Cosmo Praciano Paiva. "Ela era pequenininha quando conheceu meu pai, soube que ele faleceu e chorou como criança, como se tivesse perdido o pai dela. As lágrimas desciam, ela soluçava e abraçava o próprio pai, dizia: Eu não acredito, ele era tão legal, lembro dele criança, ele me botou no colo. Isso me comove, tem um monte de clientes que são loucos pelo meu pai”, descreve.

O Centro é onde a maioria dos comércios inicia história. Para o diretor executivo do Super Lagoa, Marco Filho, é importante manter o movimento de pessoas intenso. " Existe malha bancária grande, vários órgãos governamentais, tem muita gente e, apesar da comodidade dos shoppings, o Centro ainda é o Centro", define.

Sabor asiático no Centro

Há 14 anos, o descendente de japoneses Hélio Hara, 48, saiu de São Paulo com a esposa para abrir no Centro de Fortaleza o Asian Food, localizado na rua Floriano Peixoto. No self-service (R$ 49,90), os clientes dispõem de inúmeras opções de sushi, rolinhos e outras comidas típicas do Oriente. "Tive um restaurante em São Paulo, por 12 anos. Fomos conhecer algumas capitais no Nordeste e decidimos vir para Fortaleza pelo clima e qualidade de vida", diz.

Foto: CAMILA DE ALMEIDA
"Tem que ter muita persistência no comércio", diz Hélio Hara
 

Centro em números

7.800 empresas no Centro (entre comércio e servições);

64.350 pessoas trabalham no Centro;

6.800 viagens de ônibus ao Centro por dia;

28 mil pessoas moram no Centro;

As ruas Guilherme Rocha e Liberato Barroso, corredores com estruturas de passeio, possuem 1.471 vendedores ambulantes;

125 mil pessoas passam semanalmente pela rua Guilherme Rocha;

A rua Liberato Barroso recebe semanalmente cerca de 80 mil pessoas;

Movimentação de pessoas no Centro gira em torno de 350 a 400 mil. 

Fonte: CDL 

Foto: CAMILA DE ALMEIDA
 

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