"O Dia dos Mil Mortos"

Há 140 anos, "Dia dos Mil Mortos" devastou Fortaleza

Por Érico Firmo

No décimo dia de dezembro de 1878, há 140 anos, Fortaleza viveu o dia mais trágico de sua história. Era o segundo dos três anos da pior estiagem sobre a qual há registros. Flagelados perambulavam pela Capital da então província. A aglomeração, a fome, as condições sanitárias criaram ambiente para a proliferação de doenças. Instaurou-se a epidemia de varíola. Em um só dia, 1.004 cadáveres foram sepultados. A data ficou marcada de forma sinistra na história da cidade como "o Dia dos Mil Mortos".

Ossadas encontradas no bairro Jacarecanga, em janeiro de 1994. (Fotos: Manuel Cunha/O POVO.doc)

A tragédia do século XIX emergiu dos subterrâneos da Capital em janeiro de 1994, quando operários que trabalhavam nas obras do Serviço de Saneamento de Fortaleza, o Sanear, encontraram dezenas de ossadas em vala comum no Jacarecanga. Depois de muitas especulações, descobriu-se ser parte de um histórico cemitério onde foram sepultadas as vítimas daquela epidemia de 140 anos atrás.

Descoberta de ossadas foi manchete do O POVO em 13 de janeiro de 1994
 

Para dimensionar o tamanho da mortandade ocorrida naquele único dia 10 de dezembro: a criminalidade mata muita gente hoje, sem dúvida. Pois, no último mês de novembro, foram 105 mortes violentas na Capital. Em um dia, a varíola matou nove vezes e meia mais, há 140 anos, do que a insegurança mata hoje em 30 dias. Com uma diferença: no censo realizado mais próximo à seca, em 1872, Fortaleza tinha população computada em 42.458 habitantes. Hoje, são ‎2.643.247, pelos últimos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O cataclismo ocorrido em 10 de dezembro de 1878 não tem paralelo. 

 

Naquele 10 de dezembro, foram contratados 64 dos próprios retirantes para trabalharem como coveiros. Não foram suficientes para a carga de trabalho. Centenas de corpos permaneceram insepultos, aguardando o dia seguinte para irem para as covas. (NETO, Lira. O poder e a peste: a vida de Rodolfo Teófilo. 2ª edição. Fortaleza: Edições Fundação Demócrito Rocha, 2001, páginas 98 e 99).

Ossadas achadas em 1994 no Jacarecanga. (Fotos: Manuel Cunha/O POVO.doc)
 

“Os corpos que chegavam iam sendo empilhados, novas covas abertas. A diária e a ração dos coveiros teve que ser dobrada pelo governo, já que doze deles haviam faltado ao serviço, também derrubados pela doença. Ao final daquele 10 de dezembro, às 7 da noite, quando os enterradores largaram o serviço completamente estropiados pelo cansaço, faltavam ainda 238 cadáveres para sepultar. Ninguém tinha forças para mais nada. Deixaram o resto do trabalho para o outro dia”. (Idem, página 99).

Ao retornarem no dia seguinte, depararam-se com espetáculo aterrador. Centenas de urubus formavam nuvem enegrecida por sobre o cemitério da Lagoa Funda. Ao chegarem lá, viram cachorros disputando com as aves os pedaços de carne humana em putrefação.

Mesmo para homens rudes, acostumados à brutalidade daqueles tempos, era algo assombroso. “Depois de enfiar litros de pinga goela abaixo, foram se engalfinhar com os animais, afungentando-os com pauladas e pedradas. Poucas horas depois, o que tinha sobrado daquela carnificina - fosse gente, fosse bicho - era atirado a uma vala comum, recém-aberta". (Idem). 

"Tinha Fortaleza o aspecto de sombria desolação"

Testemunha daqueles dias, o farmacêutico Rodolfo Teófilo deixou registrada a memória do pesadelo:

"Tinha Fortaleza o aspecto de sombria desolação. A tristeza e o luto entravam em todos os lares. O comércio completamente paralisado dava às ruas mais públicas a feição de uma terra abandonada. Os transeuntes que se viam eram vestidos de preto ou eram mendigos saídos dos lazaretos com signais recentes de bexiga confluente que lhes esburacou a cara e deformou o nariz". (TEÓFILO, Rodolfo. Varíola e Vacinação no Ceará. Fortaleza, Oficinas do Jornal do Ceará, 1904, página 23 apud PONTE, Sebastião Rogério. Fortaleza Belle Époque: reforma urbana e controle social (1860-1930). 3ª edição. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2001, página 84).

Também em sua literatura, Teófilo narrou a calamidade:

"Alguns dias depois da invasão da epidemia, cada alojamento de retirantes era um lazareto de variolosos! As enfermarias regurgitavam de doentes; tudo era insuficiente para abrigar os pesteados. Muitos enfermos tinham por teto a sombra das árvores desfolhadas e aí mesmo, aos raios do sol, ao relento, da noite, deitados no chão, morriam à míngua de socorro e isolados, porque os parentes, os companheiros, temendo o contágio, fugiam espavoridos, deixando-os abandonados! Pensavam assim evitar a peste e levavam-na incubada!" (A Fome. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002, página 249).

A Capital adquiriu aspecto fantasmagórico:

"A atmosfera da cidade cada vez mais se infeccionava, pois, pedaços de carne podre e pus, não encontrando lugar onde ficassem depositados, caíam dos cadáveres nos passeios das casas e calçamentos das ruas.

"A peste invadiu tudo, desde a palhoça dos retirantes até o palácio do presidente da província. Por toda a parte ouviam-se os gemidos dos moribundos, os gritos dos loucos no delírio da febre eruptiva!" (Idem, páginas 249-250).

Não era exagero o caráter generalizado da epidemia. Nos primeiros meses, o Centro foi relativamente poupado. Tinha melhores condições de higiene, estrutura mais adequada e a população era menos reativa à ideia de tomar vacina. Porém, logo os retirantes avolumados, o vai-e-vem dos cadáveres pestilentos pelas vias principais, disseminou o vírus por toda parte.

"Os cadáveres dos bexigosos eram conduzidos para o cemitério, amortalhados com os trapos que vestiam. Alguns tinham como esquife a rede rota e imunda, outros, ainda mais desgraçados, nem esta possuindo, iam amarrados de pés e mãos a um longo pau para a vala e conduzidos por dois retirantes aos quais o governo pagava quinhentos réis por cadáver" (Idem, página 249).

"Os serviços públicos foram paralisados, os equipamentos urbanos danificados, as ruas e praças ocupadas por ‘abarracamentos’ fétidos onde as epidemias se espalhavam com a maior facilidade". (NEVES, Frederico de Castro. A seca na histórias do Ceará. In: SOUZA, Simone de (org.). Uma nova história do Ceará. 4ª edição revista e atualizada. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2007, página 83). 

"Da palhoça dos retirantes até o palácio do presidente da província"

O desfile de mortos pelas ruas centrais até o cemitério da Lagoa Funda espalhava o vírus que, como relata Teófilo, chegou mesmo até ao palácio do presidente da então província - que ficava no Palácio da Luz, atual sede da Academia Cearense de Letras, na Praça General Tibúrcio (Praça dos Leões), no Centro. A então primeira-dama Marieta Raja Gabaglia morreu vítima da varíola no dia 31 daquele dezembro de 1878.

O pânico entre a elite fortalezense foi redobrado com a notícia de que a epidemia não havia poupado nem a esposa de José Júlio de Albuquerque Barros, o barão de Sobral, cujo cargo era equivalente ao do atual governador do Estado.

"Ninguém se julgava mais seguro, se a peste fazia vítimas entre gentes que viviam completamente isoladas, entrava onde se praticavam os preceitos de sã higiene".(TEÓFILO. Varíola e Vacinação no Ceará. Fortaleza, Oficinas do Jornal do Ceará, 1904, página 35 apud apud PONTE, página 86). 

A tentativa de reação pública

O comércio fechou as portas. Quase ninguém saia às ruas, movimentadas quase exclusivamente pelo desfile de moribundos e cadáveres. À noite, determinou a Câmara Municipal, vasos com alcatrão eram acesos, na esperança de desinfectar os miasmas da doença. Crendices antigas e inúteis.

Acredita-se que a epidemia chegou ao Ceará pelo porto de Aracati, de onde chegavam fugitivos da epidemia do Rio Grande do Norte.

José Júlio de Albuquerque Barros havia tomado posse como presidente da província em 8 de março daquele ano. O alarme da epidemia no Estado veio em agosto. Em setembro, chegou a Fortaleza. No dia 30 daquele mês, o lazareto da Lagoa Funda, onde eram confinados os portadores de doenças infecciosas, estava com a lotação de 300 leitos esgotada. Em outubro, foram pelo menos cinco mil casos. José Júlio convocou os médicos da cidade ao seu gabinete. Queria saber que medidas poderia tomar, de imediato, para pelo menos atenuar aquele flagelo.

Foi durante essa seca que dom Pedro II proferiu sua célebre frase de que venderia as jóias da coroa antes de deixar os sertanejos morrerem de fome

As jóias nunca foram vendidas e parte delas estava no Museu Nacional, que pegou fogo em setembro de 2018

A primeira e mais urgente ação foi transferir os abarracamentos de flagelados que ficavam na rota dos ventos que iam na direção do Centro. Os acampamentos seriam transferidos para locais onde os ventos soprassem para fora da cidade. Tentativa de levar a epidemia para longe. (NETO, Lira. O poder e a peste: a vida de Rodolfo Teófilo. 2ª edição. Fortaleza: Edições Fundação Demócrito Rocha, 2001, página 94 a 96).

Rodolfo Teófilo acompanhou à remoção na Praia do Meireles. Ficou horrorizado.

“A polícia não economizara energias para convencer os flagelados a aceitarem a mudança.

“Depois de distribuir algumas bordoadas, a força policial determinou que os bexiguentos fossem atirados dentro de redes de pano grosso, levados aos trambolhões, por mais de três quilômetros. O serviço feito por homens pagos à base da ração de carne-seca, poucos punhados de farinha, bons litros de pinga da braba.

“Os pobres diabos que iam dentro das redes urravam de dor. As bexigas em carne-viva, cobertas por folhas de bananeira e óleo, arrebentavam a cada solavanco provocado pelas pernas bambas dos carregadores, encharcados de pinga. De quando em vez, alguns se esborrachavam no chão, com rede e tudo, derrubados de cansaço e pileque.

“Saíram de manhã e só à noite conseguiram chegar aos novos abarracamentos. O dia inteiro debaixo de sol escaldante, no estrupício de tal travessia. Muitos não suportaram a dor. Chegaram mortos ao destino”.  (Idem, página 97).

Apesar das remoções, novembro terminou com 9.844 mortes. Em dezembro, foram 14.491. (FERREIRA NETO, Cicinato. A tragédia dos mil dias: a seca de 1877-79 no Ceará. Fortaleza: Premius, 2006. Página 145).

A situação, tardiamente, alarmou a Corte. O imperador dom Pedro II estava desde 1876 em viagem por Estados Unidos, Europa e Oriente Médio. Retornou em 1877, quando a calamidade já assolava os sertões. Designou comissão chefiada pelo engenheiro Henrique de Bearepaire para estudar formas de atenuar os impactos da estiagem. Carregamentos de comida foram enviados. Em 1878, chegaram 360 navios com alimentos.

O imperador determinou ainda a construção do que seria o primeiro açude do Brasil: o Cedro, em Quixadá, no Sertão Central. Projetos foram feitos, mas as obras só começaram de fato na República, em 1890. A conclusão foi já no século XX, em 1906.

Foi também durante essa seca que dom Pedro II proferiu sua célebre frase de que venderia as jóias da coroa antes de deixar os sertanejos morrerem de fome. As mortes foram contadas às centenas de milhares. Quanto às jóias, nunca foram vendidas e parte delas estava no Museu Nacional, que pegou fogo em setembro de 2018.

A Seca dos Três Setes

A epidemia de varíola foi a tragédia dentro de uma tragédia. Ocorreu durante aquela que ficou conhecida como a “Grande Seca” ou “Seca dos Três Setes” - atravessou os anos de 1877, 1878 e 1879. Estimativas apontam que 500 mil pessoas teriam morrido. O Ceará foi o estado mais afetado. Seca alguma, antes ou depois, provocou tamanho impacto.

Favoreceu para a dimensão da calamidade o fato de o Ceará não passar por grandes estiagens havia 32 anos. A última havia sido em 1845. Em 1900, a expectativa de vida do brasileiro era de 33,7 anos. O que significa que, na média, a população que havia vivido a última seca já havia morrido ou era criança em 1845. Não havia essa vivência anterior. Então, sertanejos, governantes, técnicos, a população em geral não tinha experiência para lidar com aquela situação.

Não que o intervalo entre 1845 e 1877 tenha sido época das mais abundantes chuvas. A distribuição era irregular e, como regra, o litoral era mais favorecido. Cenário, de todo modo, diferente da escassez completa. (FERREIRA NETO, páginas 37-38).

A seca de 1877 foi a primeira em que a supremacia política e econômica de Fortaleza estava consolidada frente aos vales do Jaguaribe e do Acaraú (FERREIRA NETO, página 24). Em grande parte, pela ascensão do porto de Fortaleza como ponto de escoamento do algodão, como fornecedor para a Europa durante a Guerra de Secessão (1861-1865). Em 1877, todavia, o sul dos Estados Unidos retomara a produção e o apogeu algodoeiro cearense dera lugar a um sertão arruinado. O Ceará era província secundária dentro de uma região que já havia se tornado periférica. (FERREIRA NETO, página 62).

Lavradores que plantavam para o próprio consumo até 1860 deixaram de produzir comida para plantar algodão quando o preço no mercado internacional disparou. Na época da seca, todavia, nem mais havia esse fluxo de comércio, nem os sertanejos dispunham mais de estoques de alimento. (CÂNDIDO, Tyrone Apollo Pontes. Trem da seca: sertanejos, retirantes e operários (1877-1880). Fortaleza: Museu do Ceará Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, 2005. Coleção Outras Histórias, 32. Página 19). Esses fatores propiciaram migração de dugitivos da seca sem precedentes para a Capital.

Criança vítima da seca de 1878 no Ceará. Primeira grande seca no Nordeste sobre a qual há imagens revelou horror para o Brasil. (Foto de Joaquim Antônio Correia. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional)

Aquela foi também a primeira seca no Nordeste sobre a qual há registros fotográficos. As imagens de flagelados esqueléticos correram o mundo e revelou retrato que o resto do Brasil não conhecia. Esse componente simbólico e imagético contribuiu para consolidar aquela seca como tragédia sem paralelo. 

 

A população se revolta

“Cedo Fortaleza converteu-se na metrópole da fome”, narrou Raimundo Girão. (História Econômica do Ceará. 2ª edição. Fortaleza. Ed. UFC, 2000, p. 390 apud OLIVENOR, José. “Metrópole da fome”: a cidade de Fortaleza na seca de 1877-1879 In: NEVES, Frederico de Castro; SOUZA, Simone de (org.). Seca. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002, p. 50. Coleção Fortaleza: história e cotidiano).

Pelos cálculos da época, a população, de 42 mil no censo de 1872, ultrapassou os 100 mil com a chegada de retirantes. (NEVES. In: SOUZA (org.), página 82). Com a multidão, houve conflitos e mortes. (Idem, página 83). Às 5 horas da manhã, retirantes sitiavam as portas do palácio do presidente da província, na atual Praça dos Leões, à espera de algum alento.

A insatisfação gerou muitas vezes conflitos abertos e violentos. Na tentativa de impor respeito e ordem, a canhoneira Felipe Camarão permaneceu atracada em Fortaleza.

Para que deixassem de importunar o presidente da província, os flagelados passaram a ser direcionados, ao chegar a Fortaleza, ao quartel da polícia. Lá eram classificados como “válidos” ou “inválidos”. Eram, então, encaminhados como operários em alguma obra pública - tentativa de ocupá-los de alguma maneira - ou para receber assistência de alguma inspetoria. A tentativa de solução, porém, era fonte adicional de tensão. Tornaram-se constantes os protestos diante da fome, da falta de auxílio ou dos atrasos nos pagamentos de ração de comida. (CÂNDIDO, 2005, páginas 54 e 55)

Em 18 de março de 1878, dez dias após o presidente José Júlio tomar posse, cerca de seis mil retirantes se revoltaram na praça Marquês do Herval (atual José de Alencar) ao serem informados de que não receberiam ração. Na véspera, domingo, também não houve distribuição. Muitos não recebiam nada havia mais de três dias. Na revolta, apedrajaram e espancaram policiais que tentavam controlar a multidão. Foram repelidos a tiros de espingarda. Horas mais tarde, na calçada do cemitério, quatro dos soldados encontraram grupo de retirantes e houve novo conflito. Um indigente foi morto e dois ficaram feridos. (IDEM, páginas 65 e 66).

Em agosto de 1878, quando a epidemia de varíola dava os primeiros sinais, Fortaleza conheceu duas batalhas campais. No dia 5, retirantes de abarracamento no Mucuripe tentaram impedir outros retirantes, do 7º distrito, de carregarem mais de uma pedra cada um, extraídas da pedreira do Mucuripe. As pedras extras eram levadas para serem traficadas em comércio clandestino de material para construções. A tentativa de impedir o carregamento de pedras adicionais provocou o conflito.

Já em 20 de agosto, na Praça Visconde de Pelotas - atual Clóvis Beviláqua - deu-se o maior conflito daquela seca e um dos maiores da história das estiagens no Estado. Milhares de retirantes avançaram sobre fornecedores de carne e farinha e saquearam os produtos. A polícia interveio e o confronto durou horas. (IDEM, páginas 75-77).

Enquanto isso, abandonado por milhares de famílias, o interior foi tomado por bandos criminosos. Os Calangos, os Matheus e os Pellados foram precursores dos cangaceiros. Vilas despovoadas e carroças de mantimentos do governo eram alvos de pilhagem.

Saques de alimentos também foram registrados no porto de Aracati. O jornal O Retirante registrava ainda denúncias de corrupção e desvio de verbas que deveriam ser destinadas ao socorro aos flagelados. (NEVES. In: SOUZA (org.). Página 83).   

Retirantes enviados para outros estados

Sem conseguir controlar o contingente populacional excedente, a política do governo passou a ser enviar retirantes para o Centro-Sul, onde a lavoura cafeeira se expandia, ou para a Amazônia, que vivia o primeiro ciclo da borracha. O governo viabilizava o transporte. Muitos escaparam da seca para morrerem na floresta ou mesmo na travessia.

“Aquelas pessoas emigravam seminuas, descalças, famintas. Famílias inteiras se desgarravam, separando-se pais e filhos, maridos e mulheres. Acomodavam-se no porão ou no convés de navios costeiros, em piores condições que animais. Vários cearenses sucumbiram durante a penosa viagem. Embarcações naufragavam. Nos seringais da Amazônia imperava o trabalho semiescravo, a remuneração parcialmente em espécie, a prisão por dívidas aos seringalistas, havendo um conluio entre estes para não admitir seringueiros endividados com seu antecessor patrão” (FARIAS, José Aírton de. História da Sociedade Cearense. Fortaleza: Edições Livro Técnico, 2004, página 221).

Em 1878, o navio português Laura naufragou com 241 emigrantes, dos quais sobreviveram 109. (FERREIRA NETO, página 62).

Raimundo Girão estimou que o Ceará perdeu um terço da população, por morte ou fuga. Em 1877, quatro mil cearenses emigraram para o Norte e 1,5 mil para o Sul. Em 1878, 54.875 pessoas deixaram o Ceará. (FARIAS, 2004, página 221). 

A peste

A varíola é uma das pragas que por mais tempo assolou a humanidade. A múmia do faraó egípcio Ramsés 5º, que morreu em 1.156 antes de Cristo, tinha cicatrizes de lesões características da doença. Acredita-se que o vírus esteja presente desde os primeiros agrupamentos agrícolas, 10 mil anos atrás, no nordeste africano.

Altamente transmissível e com taxa de mortalidade de até 90%, o vírus chegou a ser usado por colonizadores contra tribos indígenas nas Américas. No Brasil, tribos inteiras foram dizimadas com essa arma biológica ancestral.

A primeira vacina criada na história humana foi justamente para combater a varíola. O inglês Edward Jenner, em 1776, fez a imunização pioneira, a partir de lesões na pele de uma vaca, provocadas pela doença.

Um dos dramas em relação à epidemia no Ceará foi a recusa da população em tomar a vacina. Além do preconceito e da ignorância, o fato é que as doses vindas do sul tinham baixa qualidade, eram transportadas em condições que tornavam questionável a eficácia. Só quando a vacina passou a ser produzida em Fortaleza, a imunização ganhou eficácia.

A seca e a varíola atingiram Fortaleza novamente em 1888 e 1900, mas nem de longe com a mesma intensidade e dramaticidade.

Vírus é um dos mais resistentes que se conhece. (Imagem: Opas)
 

A doença é transmitida pelo vírus Orthopoxvírus variolae, um dos mais resistentes conhecidos. É transmitido de pessoa para pessoa, pelas vias respiratórias. Os sintomas iniciais são febre muito alta, dores e mal-estar. Quando a febre baixa, surgem manchas vermelhas que evoluem para bolhas de pus, que causam coceira e dor. Muitos pacientes tiveram perda de visão ao coçar as bolhas e, em seguida, levar as mãos contaminadas aos olhos. As bolhas, por fim, se tornam crostas. Não há tratamento específico, o que fez com que, em muitos casos, pacientes fossem mantidos em isolamento para morrer.

A última morte por varíola no mundo completou 40 anos. Em 1978, a fotógrafa médica Janet Parker foi contagiada no laboratório da faculdade em que trabalhava, na cidade de Birmingham, no Reino Unido. (VARELLA, Drauzio. O fantasma da varíola. Folha de S.Paulo, 14 de outubro de 2018. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella/2018/10/o-fantasma-da-variola.shtml?loggedpaywall. Acesso em: 8 de dezembro de 2018).