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Nova Saúde

Discussões sobre a saúde pública do Ceará

por O POVO em
EDITORIAL

Editorial

São dias difíceis. Foi em 11 de março de 2020 que a Organização Mundial de Saúde declarou pandemia do novo coronavírus, este que, sabemos, provoca a Covid-19. Desde então, nossas rotinas mudaram, em casa, no trabalho, na vida social, nas ruas, no supermercado. E o Sistema Único de Saúde tem sido protagonista em todo o País. Vale lembrar quão jovem ele é: foi criado em 1988, junto à Constituição Federal (CF-88), onde está grafado: “saúde é direito de todos e dever do Estado”.

Mesmo com caminhos necessários para um aprimoramento, é o sistema público que tem segurado a onda da pandemia, como disse o professor Moacir Tavares, que assina artigo em caderno do projeto Nova Saúde. É este mesmo sistema público que vem sendo trabalhado com diversas ações da atual gestão do Estado, pavimentando a trajetória que foi colocada à prova durante a pandemia.

Em meio à pandemia, o Governo do Ceará criou a Autoridade Reguladora da Qualidade dos Serviços de Saúde (ARQS), por meio da lei nº 17.195, de 27 de março de 2020. É uma forma de inovar, para regulamentar, monitorar e fiscalizar a qualidade da saúde no Estado. Contamos essa história também projeto Nova Saúde, que você, leitor, tem acesso aqui, neste especial, assim como tantas outras narrativas, análises, dados e informações, que têm como pano de fundo a Nova Saúde que emerge e é testada durante o momento doloroso que vivemos.

A urgência em comunicar ações, dialogar com população, médicos, especialistas e trabalhadores da área de saúde em geral fez nascer o projeto Nova Saúde. São quatro publicações impressas encartadas no O POVO ao longo dos meses de julho e agosto, além de podcasts, lives e programas de rádio.

Ceará afora, os profissionais que trabalham na área de saúde têm sido celebrados. Maqueiros, serviços gerais, motoristas de ambulância, farmacêuticos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas... São tantas pessoas envolvidas na linha de frente do combate ao vírus que é impossível listar aqui apenas neste editorial. São estas pessoas que queremos homenagear no projeto Nova Saúde.

Os desafios do SUS na pandemia do novo coronavírus

Por

A pandemia do novo coronavírus tem mexido com as estruturas de sistemas de saúde em todo o mundo. Países de todos os continentes tiveram que se articular, e ainda estão se articulando, para evitar o colapso no sistema de saúde e garantir a ocorrência de menos mortes e amortecer impactos na sociedade. Em que situação o sistema público de saúde estava para receber a demanda no Ceará e no Mundo? Como tem reagido durante a pandemia? O que deve ser feito com os equipamentos adquiridos ao longo da pandemia?

Transparência, inovação, valorização de pessoas e equidade são alguns dos temas discutidos durante live do projeto Nova Saúde, com o doutor em Saúde Pública Moacir Tavares e a coordenadora do Observatório de Políticas Públicas de Saúde da UFC, Carmem Leitão. A apresentação é dos jornalistas Luiz Viana e Hamlet Oliveira. Confira:

Renovar para inovar: confira entrevista com Marcelo Alcantara, da ESP/CE

Por Hamlet Oliveira

Com quase 30 anos de trajetória, Escola de Saúde Pública (ESP) investe em projetos de inovação e com resposta rápida às necessidades da saúde no Ceará

Criada em 1993 e com foco na formação continuada de profissionais de diferentes ramos da saúde no estado do Ceará, a Escola de Saúde Pública Paulo Marcelo Martins Rodrigues (ESP/CE) passa por novo momento. Além das tradicionais residências e dos editais, a instituição trabalha para ser reconhecida enquanto entidade disseminadora de inovação e novas tecnologias. Em 2020, a ESP recebeu mais de 1,4 mil alunos em 17 cursos.

Superintendente da ESP desde outubro de 2019, o médico Marcelo Alcantara chegou à instituição com o objetivo de trazer a inovação como um caráter principal para a Escola. Em entrevista, o gestor analisa o papel da ESP na perspectiva de equipamento para a rede de Saúde, os desafios no combate à Covid-19 e os passos futuros.

De que forma o senhor percebe o impacto da ESP na formação de profissionais da saúde no Ceará?

Importante destacar a ESP é uma autarquia vinculada à Sesa (Secretaria da Saúde do Estado do Ceará), que tem um papel estratégico no sistema de saúde como um todo. Ela trabalha em três vertentes. A primeira é na qualificação profissional da força de trabalho. Formação de novos especialistas, de residentes em medicina, fisioterapia, enfermagem, e educação permanente.

A segunda é na área de ciência, tecnologia e inovação. É uma área nova que a ESP vem fortalecendo a partir deste ano, incluindo o Programa de Pesquisa para o SUS, o PPSUS. Estamos formando a Escola para Inovação em Saúde. Entre eles (projetos) está o Elmo, um produto inovador que nasceu aqui na ESP e foi gerado um protótipo com parceiros públicos e privados. A
terceira é na inteligência em saúde. Ser capaz de analisar a área e gerar análises, relatórios, predições do futuro em relação a saúde. Isso vai subsidiar a tomada de decisões acerca de políticas públicas.

Um quarto ponto é a abertura da escola para sociedade em geral, para ajudar na formação da cidadania em saúde. Saber o que é o SUS, saber cuidar da sua saúde e da comunidade.

Como é estruturando o PPSUS?

É uma iniciativa federal, envolve o Ministério da Saúde, a parte da Ciência e Tecnologia. É gerenciado pela Funcap e a ESP no Ceará. Ele é um sistema que funciona por escuta dos pesquisadores, médicos, profissionais da saúde e outras áreas. Tudo isso é analisado, depois, é lançado um edital, normalmente em setembro, para chamar as pessoas para propostas de pesquisa que estudem as principais demandas de saúde do SUS no Ceará. Em torno de R$ 4 milhões são alocados nessa área. Estamos na fase de coleta de sugestões de linhas de pesquisa. E, depois dela, vamos trabalhar na confecção do edital, que sai neste ano.

As formações da ESP são responsáveis por darem mais eficiência ao sistema de saúde. Como a escola se modificou com o passar dos anos?

Ela vai se modificando à medida que a sociedade evolui e o SUS também. Ela, nesse momento, está passando por uma fase de reestruturação. Estamos debatendo e vamos sugerir uma nova estrutura administrativa para a ESP cumprir suas missões. Ela precisa ser mais ágil, moderna, precisa atrair talentos, melhores professores e pesquisadores na área em saúde. E no modelo atual dela tem muita dificuldade. Porque não tem incentivo financeiro para isso. Os valores
de gestão de cargos são muito baixos. Se comparar com outras instituições do próprio Governo do Estado, ela tem uma diferença grande.

No segundo semestre, vamos apresentar uma proposta de reestruturação da ESP, de atualização da lei atual que criou a Escola, dando a ela a possibilidade de ser um instituto de ciência e tecnologia.

Como se deu o início da operação da Central de Ventiladores Mecânicos? Quais os planos para ela após a pandemia?

É um dos capítulos mais bonitos no enfrentamento à pandemia. Foi iniciativa para consertar ventiladores que estavam sem uso nenhum. Conseguimos consertar mais de 103. Foi muito importante no momento em que os ventiladores da China ainda não haviam chegado. A continuidade desse trabalho tem que ser mudado o escopo. Não temos mais problema de provimento, mas falta de pessoal qualificado para dar suporte a esses equipamentos. Queremos transformar a Central em uma nova unidade que ficasse em cursos de engenharia química, de manutenção de equipamentos de Saúde e laboratório de inovação na área.

Como está o processo de desenvolvimento do Elmo, o capacete de respiração assistida?

Nós já estamos bem avançados nos testes, em laboratório e em voluntários. Estamos, agora, em teste com pacientes com Covid-19, de forma moderada a grave, no Hospital Leonardo da Vinci. Para depois desta fase, está sendo estudada a fabricação em larga escala do modelo de Elmo que vai permitir a produção de centenas de equipamentos, que vão ser priorizados para o Ceará. E também para outros problemas que levam a essa falha pulmonar. Nosso protótipo está funcionando muito bem, em todos os pacientes testados, até aqui, mostrou um resultado positivo.

Há novos cursos planejados para 2020?

Vamos lançar um edital para residência médica e residência multidisciplinar. Estamos confeccionando um aumento dos programas de residência, inclusive para o interior do Estado. Também vamos começar a fazer treinamentos baseados em simulação realística. Vamos começar pela área de obstetrícia, simular parto em gestante com problema grave, tudo isso em laboratório.

A promoção da saúde e o papel da atenção básica para a qualidade de vida

Por O POVO

Você conhece o termo "promoção da saúde?" Além de prevenir doenças, a expressão resume um conjunto de ações para que a população tenha uma boa qualidade de vida. E, para isto, é fundamental acompanhar questões comportamentais, como saber se a população tem acesso a uma infraestrutura adequada para a prática de exercícios, por exemplo. A ideia geral é que a rede básica de atenção à saúde tenha um monitoramento mais próximo do comportamento da população e garanta que as pessoas tenham uma boa qualidade de vida. Ainda que precise conviver com alguma doença crônica, por exemplo. Mas como isso deve ser feito? Qual a estratégia no Ceará?

É o que é discutido em conversa com a doutora em Saúde Coletiva, Gláucia Posso Lima, e o gestor da Escola de Saúde Pública do Ceará, Marcelo Alcantara. Quem conduz o papo são os jornalistas Luiz Viana e Catalina Leite.

Distritos de inovação e a pesquisa científica cearense no cenário pré e pós pandemia

Por O POVO

A infraestrutura de pesquisa no Ceará, o investimento do Ceará na produção de testes da Covid-19, o futuro da rede de pesquisa no Ceará e a valorização profissional. Esses são alguns dos elementos que a pandemia do novo coronavírus recolocou nos holofotes brasileiros, no momento em que estudiosos de todas as partes do mundo unem esforços para encontrar uma solução para a doença.

Tudo isto é discutido neste podcast, com a pesquisadora do Instituto de Ciências do Mar (Labomar/UFC) Talita Tavares, e com o coordenador da Fiocruz no Ceará, Carlile Lavor. A apresentação é dos jornalistas Catalina Leite e Leonardo Maia.

Parcerias internacionais para soluções de saúde: entrevista com a pesquisadora Juliana de Paula

Por Catalina Leite

Doutora em Saúde Global, Juliana de Paula fala sobre a importância da relação internacional para encontrar soluções inovadoras aos sistemas de saúd

A relação entre países de compartilhar ideias e soluções, como para encontrar a cura da Covid-19, pode ser aplicada a qualquer aspecto a Saúde, inclusive, para inovar nos sistemas de atendimento. Em entrevista, a doutora em Saúde Global e Sustentabilidade, além de assessora do gabinete da Sesa, Juliana de Paula fala sobre as relações internacionais na Saúde.

A que tipos de ações a Saúde Global se refere?

Por anos, trabalhamos com o conceito de Saúde Internacional, muito focado na ideia do fortalecimento do Estado Nação. Era uma visão meio imperialista: um americano era mais forte, ia para os países africanos e colonizava, no sentido de transformar aquela relação muitas vezes de mercado, em uma relação de dominação. Mas, com a globalização, essa visão se fragiliza, porque o que é mais forte
hoje não são os Estados Nação, mas as grandes corporações. A partir desse momento de transversalidade, foi necessário pensar uma Saúde Global. O que acontece na França, acontece na Nova Guiné e na Argentina. Outra coisa que é global: epidemias como a Covid-19 e a Aids.

A Plataforma de Modernização da Saúde, do Governo do Ceará, tem projetos baseados em outros países. Como a inspiração em planos internacionais é benéfica para o Brasil?

Na Saúde Global, trabalhase com temas transversais no mundo, um deles é a qualidade. Fazemos parcerias internacionais porque a gente reconhece que, como os problemas são comuns, podemos aprender muito com os outros. Nós construímos uma relação de mão dupla, em que aprendemos e ensinamos junto. Caso, por exemplo, da parceria entre Ceará e Portugal. Eles têm dimensão da qualidade da Atenção Primária e conseguiram criar um sistema baseado nisso. Lá, todos os médicos são formados em Medicina e Comunidade. No Ceará, só temos 200 médicos formados em Medicina da Família e Comunidade. Os outros não são formados na categoria, mas exercem a função.

O espaço de articulação tanto nacional, quanto internacional, é muito rico. Culturas distintas podem achar uma série de respostas a problemas semelhantes, e a partir dessa interação fazer trocas: colaborar com as respostas que já encontramos e aprender com as respostas dos outros.

O que os gestores devem compreender para adaptar planos internacionais à realidade brasileira?

Primeiro é entender que o nosso desenho de sistema de saúde é interessante, mas frágil do ponto de vista de atender a todas as necessidades do usuário. Precisamos informatizar nosso sistema de saúde. Somos um País continental, sem informatização é quase inviável. Precisamos investir na formação dos profissionais de saúde, baseada nas necessidades de carreiras. Quem deveria definir qual o investimento na formação deveria ser a necessidade do território. Precisamos investir em qualificação urgente, temos profissionais formados inadequadamente.

Precisamos investir em telessaúde, interconsulta; e em trabalho de equipe que seja incentivado financeiramente. Precisamos criar uma carreira pública que faça com que ele se sinta motivado a ir pras áreas re motas, dando suporte, estrutura e possibilidade de crescimento. Hoje em dia temos uma crise dos sistemas universais de saúde, pela visão de mercado e a medicalização da vida. Estamos com uma conta difícil de pagar. Essa crise só pode ser resolvida com um pacto global de solidariedade, apoio, colaboração e boas práticas.

Quais aspectos do sistema de saúde brasileiro poderiam ser utilizados como inspiração  para outros países?

A governança participativa do SUS com as instâncias tripartite, o Federal tomando assento com o Estadual e Municipal e decidindo as políticas assim. A estratégia de Saúde Família tem uma contribuição histórica, por ser um trabalho de equipe do médico, enfermeira, dentistas... Somos um dos poucos países que a área odontológica é quase totalmente pública. Boa parte dos países com sistemas públicos, a odontologia é à parte.

O trabalho com o território, da promoção da saúde apartir das agentes de saúde: eles são um grande exército de promoção da saúde do País. O sistema de saúde do Brasil tem essas e outras inovações. A participação com os conselhos de saúde, também. Tem problemas, mas ainda são uma instância em que o usuário participa de alguma forma. O SUS ainda é usado exclusivamente por 70% da população brasileira.

A união de esforços para uma saúde global e regional

Por O POVO

O conceito da saúde global, por meio da interação de diferentes nações, e as singularidades cearenses fazem parte dos esforços necessários para construção de um sistema consolidado de saúde. A pandemia do novo coronavírus é um exemplo em que o mundo foi atingido quase integralmente, mas os países precisaram lidar com o mesmo problema de forma distinta.

A conversa deste podcast conta com a presença da doutora em Saúde Global e Sustentabilidade Juliana de Paula e do médico e economista pela UFC Marcelo Gurgel. A apresentação é das jornalistas Camila Holanda e Catalina Leite.

Colaboração transparente

Por Hamlet Oliveira

Espaço para publicização de dados da rede de saúde pública, plataforma IntegraSUS continua a se desenvolver, com o objetivo de aproximar pesquisadores independentes junto à Secretaria da Saúde

Uma das principais pautas de discussão durante o período de combate ao novo coronavírus, a transparência de dados públicos, na qual está inserida a área da saúde, ganhou espaço de discussão nos últimos meses. No Ceará, a plataforma IntegraSUS, lançada em 2019, reúne indicadores, dados e relatórios sobre diversas temas, com o objetivo de facilitar o acesso da sociedade às informações reunidas pela Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa).


No fim de julho último, uma nova área, chamada Analytics, foi integrada ao portal. No espaço, são disponibilizados conjuntos de dados e estudos realizados pela Sesa, com livre acesso para quem se interessar.. De acordo com Ramsés Oliveira, coordenador de Tecnologia da Informação e Comunicação da Secretaria, o foco é que profissionais ou estudantes que trabalhem com dados possam realizar suas próprias análises e chegar a eventuais novas conclusões.


“O objetivo é ter esse compartilhamento de conhecimento na plataforma. Temos um fórum de discussão com especialistas e pesquisadores que já enviaram pesquisas para nós”, comenta Ramsés. Na sessão Analytics, há quatro áreas de destaque: análise exploratória, análise preditiva, aprendizado de máquina e inteligência artificial.


O IntegraSUS funciona a partir da conexão da plataforma com outros sistemas inseridos dentro da rede de saúde. Nesse ponto reside uma das principais inovações da ferramenta, pois permite aos profissionais da área acesso mais ágil a dados sem a necessidade de buscar em vários sistemas diferentes. Após a seleção dos indicadores, ocorre a definição sobre qual será a taxa de atualização do dado, se em tempo real ou mensal, por exemplo, para, então, as informações serem disponibilizadas para o público.


Com o aumento da demanda por transparência após a chegada do novo coronavírus, o equipe responsável pelo IntegraSUS precisou desenvolver inovações para que o grande volume de dados gerado conseguisse ser transposto de forma adequada para a plataforma. “Quando falamos do conceito de transparência, falamos de alguns desafios, principalmente, da grande diversidade de sistemas. Em muitas bases de dados tivemos um trabalho árduo de encontrar aquela pessoa que aparecia em dois sistemas e unificar na base, além de qualificar a equipe”, reforça Ramsés. Na equipe da plataforma estão presentes profissionais da tecnologia da informação, estatísticos, cientistas de dados e epidemiologistas.


O coordenador encerra explicando que um dos objetivos futuros é trabalhar com modelos específicos de dados voltados para imagens, que também serão disponibilizados na plataforma.

Desafios de uma pandemia

Por Catalina Leite

Médico epidemiologista e pós-doutor pela Universidade de Harvard, Antônio Lima Neto fala sobre a importância da análise crítica dos dados epidemiológicos e das realidades sociais para decisões políticas durante pandemia de Covid-19

Em agosto de 2019, surgiu uma nova plataforma para a transparência de dados da saúde no Ceará. A proposta do IntegraSUS era disponibilizar os indicadores da Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa) e virou, a partir de abril de 2020, uma ferramenta essencial durante a pandemia. Por ela, os cidadãos têm acesso à taxa de mortalidade hospitalar, de ocupação de leitos, tempo médio de permanência dos pacientes e atualização em tempo real dos atendimentos de emergência nas unidades de saúde do Estado.


Ainda, acompanham-se esses e mais indicadores em relação à Covid-19, atualizados todos os dias. Quando o assunto é decisão política na pandemia, os dados também dependem de leitura socioeconômica. Em entrevista, o epidemiologista e integrante do Comitê Estadual de Enfrentamento à Pandemia do Coronavírus no Ceará, Antônio Lima Neto, discute a importância de ver além dos dados no momento de definir políticas públicas.


Como tem sido a experiência de se trabalhar com o IntegraSUS?


Essa é a oitava epidemia em que estou envolvido perifericamente ou na coordenação. Mas em nenhuma delas se teve uma importância tão grande de indicadores para tomar decisões - porque elas não estão circunscritas ao setor Saúde. São decisões que impactam a sociedade como um todo: que fecham escolas, comércios, que impedem o fluxo de pessoas. Ou o contrário, indicando possibilidade de abertura. Por essa razão foi tão importante que tivéssemos tanto a plataforma digital, quanto a capacidade de análise. Você tem o IntegraSUS, mas tem que ter uma capacidade analítica daqueles dados.


Ele precisa que você entenda que em certo momento você tinha que estimular as pessoas a procurarem rápido o serviço de saúde. Ao analisar os dados, percebemos que as pessoas estavam sendo internadas só a partir do sétimo dia de doença. Aconteceu no início, porque estávamos dando uma mensagem de que as pessoas só deveriam procurar uma unidade se tivesse falta de ar. Depois começamos a entender muito melhor a doença, de que ela se manifestava muito rápido, e que essas pessoas deveriam ir mais rápido. E o que é isso? Isso é análise. Não está ali no IntegraSUS. Isso precisa ser refinado, né. Tem momentos que essas decisões precisam ser tomadas não a partir do dado cru, que é o que você vê, mas a partir do dado analisado.


Por exemplo, muita gente criticou na época o retorno econômico. Mas eram seis indicadores e hoje estamos na 11ª semana de queda. As pessoas que criticaram na época às vezes acham que essas decisões são unilaterais, que elas não têm base em evidências. Mas todas usaram indicadores da Organização Mundial da Saúde (OMS). Inclusive, acrescentaram alguns. O IntegraSUS foi muito importante nisso.


O Ceará lidera ranking da Transparência Internacional com 100% de transparência de dados sobre a pandemia. Como é tomar decisões políticas baseadas em dados tão acessíveis?


A transparência é sempre boa, mas tem alguns aspectos que fogem um pouco e precisam ser sumarizados. O Estado lança boletim semanal que busca sumarizar aspectos, e a Secretaria Municipal de Saúde tem um boletim semanal que procura interpretar tendência. Por exemplo, o Jornal Nacional todo dia mostra a média móvel dada com base no dia de confirmação dos óbitos. Para a epidemiologia, não se analisa dessa forma, mas com a data de ocorrência do óbito.


Por exemplo, ao analisar os dados, percebemos que as pessoas eram internadas só a partir do sétimo dia de doença. Foi o que aconteceu no início, porque estávamos dando uma mensagem de que elas só deveriam procurar uma unidade se tivesse falta de ar. Logo depois começamos a entender muito melhor a doença, que ela se manifestava muito rápido, e que essas pessoas deveriam ir mais rápido. Isso é análise. Não está ali no IntegraSUS. Precisa ser refinado.


A minha mensagem é a seguinte: IntegraSUS e transparência são fundamentais, mas o dado também precisa de crítica e de análise. A imprensa passou a ter papel de protagonista, porque o Governo Federal era mais transparente e deixou de ser. Quando isso aconteceu, a imprensa trouxe para si uma boa parte dessa capacidade analítica e de informação adequada.


O Comitê Estadual de Enfrentamento à Pandemia do Coronavírus foi criado em março de 2020 e participou de decisões importantes, como o lockdown e a retomada econômica. Como o senhor avalia a atuação do Comitê do Ceará?


Eu acho que o Comitê demonstra muito interesse. Ter duas reuniões semanais? Pouquíssimos comitês de estado têm. Acho que o Comitê foi muito feliz em muitas coisas, sobretudo no timing de grandes medidas, como o lockdown. Foi uma decisão difícil, tomada a partir da observação feita por nós da epidemiologia e pelo grupo das simulações e modelagem da Universidade Federal do Ceará (UFC).


Por exemplo, a questão das escolas é um pouco o princípio da precaução. Não sabemos direito como a volta às aulas se comporta em alguns cenários. A gente foge um pouco da epidemiologia e entra no campo da incerteza. Isso tudo será definido mediante debate, porque tem o outro lado que é socioeconômico.


Uma das coisas que as pessoas se confundem muito é que interrupção de aulas para crianças vulneráveis, inclusive de um ponto de vista de segurança alimentar, é grave. Antes elas tinham cinco refeições e atualmente estão em casa recebendo uma cesta básica do Governo. Mas eu quero saber: e a partir de setembro? Como vai ser? Porque os meus filhos estão muito bem, obrigado. O ensino remoto das escolas privadas é muito bom. Mas e as públicas quando for setembro?


As últimas semanas têm registrado muita aglomeração nas praias de Fortaleza. O senhor acha que o cearense está subestimando a pandemia?


Não acho que as pessoas mais pobres se comportaram mal aqui. Ao contrário, acho que quem fez isolamento de 50% num bairro de altíssima vulnerabilidade, alta densidade de habitantes por domicílio, casas em péssimas condições, difícil de estar em casa… Isso é muito! É muito diferente de um lockdown europeu. É muito fácil às vezes, porque você está no Porto das Dunas curtindo com sua família, tem internet, tem casa, tem vários quartos. E fica a classe média e rico olhando pras pessoas e dizendo: “Olha aí! As pessoas se aglomerando!” Eu não gosto… Como é definitivamente inaceitável uma pessoa negar a importância do isolamento, por exemplo.


A simulação que fizemos naquela época [da decisão do lockdown] mostra que teríamos milhares de mortes! Dezenas de milhares só em Fortaleza, se não fossem tomadas aquelas decisões. Mas também tem que ver as nuances. Não voltar à escola para uma criança do ensino fundamental e infantil da rede pública municipal e estadual é muito grave. Para que você tome essa decisão, tem que ter elementos fundamentais. Por enquanto a gente tem esse elemento, o princípio da precaução.


Incomoda um pouco essa turma que fica meio confortável com a situação, que pode viver com essa situação. Evidentemente que todo mundo quer preservar vidas, mas você tem que entender que essa situação é muito pior para alguns que para outros. Isso é algo pouco dito.

A transparência de dados na pandemia

Por O POVO

O Ceará lidera o ranking de transparência de dados sobre a pandemia de acordo com levantamento feito pela organização Transparência Internacional Brasil no fim de julho. Um dos destaques durante a crise na saúde foi a existência do IntegraSUS, ferramenta que permitiu o acompanhamento de diferentes estatísticas epidemiológicas.

O tema discutido é debatido neste podcast. Para discutir o tema, é convidado o médico epidemiologista Antônio Lima - também conhecido como Tanta - pós-doutor pela Universidade de Harvard e integrante do Comitê Científico do Estado do Ceará. A apresentação é dos jornalistas Luiz Viana e Camila Holanda.