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Nova Saúde

Discussões sobre a saúde pública do Ceará

por O POVO em
EDITORIAL

Editorial

São dias difíceis. Foi em 11 de março de 2020 que a Organização Mundial de Saúde declarou pandemia do novo coronavírus, este que, sabemos, provoca a Covid-19. Desde então, nossas rotinas mudaram, em casa, no trabalho, na vida social, nas ruas, no supermercado. E o Sistema Único de Saúde tem sido protagonista em todo o País. Vale lembrar quão jovem ele é: foi criado em 1988, junto à Constituição Federal (CF-88), onde está grafado: “saúde é direito de todos e dever do Estado”.

Mesmo com caminhos necessários para um aprimoramento, é o sistema público que tem segurado a onda da pandemia, como disse o professor Moacir Tavares, que assina artigo em caderno do projeto Nova Saúde. É este mesmo sistema público que vem sendo trabalhado com diversas ações da atual gestão do Estado, pavimentando a trajetória que foi colocada à prova durante a pandemia.

Em meio à pandemia, o Governo do Ceará criou a Autoridade Reguladora da Qualidade dos Serviços de Saúde (ARQS), por meio da lei nº 17.195, de 27 de março de 2020. É uma forma de inovar, para regulamentar, monitorar e fiscalizar a qualidade da saúde no Estado. Contamos essa história também projeto Nova Saúde, que você, leitor, tem acesso aqui, neste especial, assim como tantas outras narrativas, análises, dados e informações, que têm como pano de fundo a Nova Saúde que emerge e é testada durante o momento doloroso que vivemos.

A urgência em comunicar ações, dialogar com população, médicos, especialistas e trabalhadores da área de saúde em geral fez nascer o projeto Nova Saúde. São quatro publicações impressas encartadas no O POVO ao longo dos meses de julho e agosto, além de podcasts, lives e programas de rádio.

Ceará afora, os profissionais que trabalham na área de saúde têm sido celebrados. Maqueiros, serviços gerais, motoristas de ambulância, farmacêuticos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas... São tantas pessoas envolvidas na linha de frente do combate ao vírus que é impossível listar aqui apenas neste editorial. São estas pessoas que queremos homenagear no projeto Nova Saúde.

Os desafios do SUS na pandemia do novo coronavírus

Por

A pandemia do novo coronavírus tem mexido com as estruturas de sistemas de saúde em todo o mundo. Países de todos os continentes tiveram que se articular, e ainda estão se articulando, para evitar o colapso no sistema de saúde e garantir a ocorrência de menos mortes e amortecer impactos na sociedade. Em que situação o sistema público de saúde estava para receber a demanda no Ceará e no Mundo? Como tem reagido durante a pandemia? O que deve ser feito com os equipamentos adquiridos ao longo da pandemia?

Transparência, inovação, valorização de pessoas e equidade são alguns dos temas discutidos durante live do projeto Nova Saúde, com o doutor em Saúde Pública Moacir Tavares e a coordenadora do Observatório de Políticas Públicas de Saúde da UFC, Carmem Leitão. A apresentação é dos jornalistas Luiz Viana e Hamlet Oliveira. Confira:

Renovar para inovar: confira entrevista com Marcelo Alcantara, da ESP/CE

Por Hamlet Oliveira

Com quase 30 anos de trajetória, Escola de Saúde Pública (ESP) investe em projetos de inovação e com resposta rápida às necessidades da saúde no Ceará

Criada em 1993 e com foco na formação continuada de profissionais de diferentes ramos da saúde no estado do Ceará, a Escola de Saúde Pública Paulo Marcelo Martins Rodrigues (ESP/CE) passa por novo momento. Além das tradicionais residências e dos editais, a instituição trabalha para ser reconhecida enquanto entidade disseminadora de inovação e novas tecnologias. Em 2020, a ESP recebeu mais de 1,4 mil alunos em 17 cursos.

Superintendente da ESP desde outubro de 2019, o médico Marcelo Alcantara chegou à instituição com o objetivo de trazer a inovação como um caráter principal para a Escola. Em entrevista, o gestor analisa o papel da ESP na perspectiva de equipamento para a rede de Saúde, os desafios no combate à Covid-19 e os passos futuros.

De que forma o senhor percebe o impacto da ESP na formação de profissionais da saúde no Ceará?

Importante destacar a ESP é uma autarquia vinculada à Sesa (Secretaria da Saúde do Estado do Ceará), que tem um papel estratégico no sistema de saúde como um todo. Ela trabalha em três vertentes. A primeira é na qualificação profissional da força de trabalho. Formação de novos especialistas, de residentes em medicina, fisioterapia, enfermagem, e educação permanente.

A segunda é na área de ciência, tecnologia e inovação. É uma área nova que a ESP vem fortalecendo a partir deste ano, incluindo o Programa de Pesquisa para o SUS, o PPSUS. Estamos formando a Escola para Inovação em Saúde. Entre eles (projetos) está o Elmo, um produto inovador que nasceu aqui na ESP e foi gerado um protótipo com parceiros públicos e privados. A
terceira é na inteligência em saúde. Ser capaz de analisar a área e gerar análises, relatórios, predições do futuro em relação a saúde. Isso vai subsidiar a tomada de decisões acerca de políticas públicas.

Um quarto ponto é a abertura da escola para sociedade em geral, para ajudar na formação da cidadania em saúde. Saber o que é o SUS, saber cuidar da sua saúde e da comunidade.

Como é estruturando o PPSUS?

É uma iniciativa federal, envolve o Ministério da Saúde, a parte da Ciência e Tecnologia. É gerenciado pela Funcap e a ESP no Ceará. Ele é um sistema que funciona por escuta dos pesquisadores, médicos, profissionais da saúde e outras áreas. Tudo isso é analisado, depois, é lançado um edital, normalmente em setembro, para chamar as pessoas para propostas de pesquisa que estudem as principais demandas de saúde do SUS no Ceará. Em torno de R$ 4 milhões são alocados nessa área. Estamos na fase de coleta de sugestões de linhas de pesquisa. E, depois dela, vamos trabalhar na confecção do edital, que sai neste ano.

As formações da ESP são responsáveis por darem mais eficiência ao sistema de saúde. Como a escola se modificou com o passar dos anos?

Ela vai se modificando à medida que a sociedade evolui e o SUS também. Ela, nesse momento, está passando por uma fase de reestruturação. Estamos debatendo e vamos sugerir uma nova estrutura administrativa para a ESP cumprir suas missões. Ela precisa ser mais ágil, moderna, precisa atrair talentos, melhores professores e pesquisadores na área em saúde. E no modelo atual dela tem muita dificuldade. Porque não tem incentivo financeiro para isso. Os valores
de gestão de cargos são muito baixos. Se comparar com outras instituições do próprio Governo do Estado, ela tem uma diferença grande.

No segundo semestre, vamos apresentar uma proposta de reestruturação da ESP, de atualização da lei atual que criou a Escola, dando a ela a possibilidade de ser um instituto de ciência e tecnologia.

Como se deu o início da operação da Central de Ventiladores Mecânicos? Quais os planos para ela após a pandemia?

É um dos capítulos mais bonitos no enfrentamento à pandemia. Foi iniciativa para consertar ventiladores que estavam sem uso nenhum. Conseguimos consertar mais de 103. Foi muito importante no momento em que os ventiladores da China ainda não haviam chegado. A continuidade desse trabalho tem que ser mudado o escopo. Não temos mais problema de provimento, mas falta de pessoal qualificado para dar suporte a esses equipamentos. Queremos transformar a Central em uma nova unidade que ficasse em cursos de engenharia química, de manutenção de equipamentos de Saúde e laboratório de inovação na área.

Como está o processo de desenvolvimento do Elmo, o capacete de respiração assistida?

Nós já estamos bem avançados nos testes, em laboratório e em voluntários. Estamos, agora, em teste com pacientes com Covid-19, de forma moderada a grave, no Hospital Leonardo da Vinci. Para depois desta fase, está sendo estudada a fabricação em larga escala do modelo de Elmo que vai permitir a produção de centenas de equipamentos, que vão ser priorizados para o Ceará. E também para outros problemas que levam a essa falha pulmonar. Nosso protótipo está funcionando muito bem, em todos os pacientes testados, até aqui, mostrou um resultado positivo.

Há novos cursos planejados para 2020?

Vamos lançar um edital para residência médica e residência multidisciplinar. Estamos confeccionando um aumento dos programas de residência, inclusive para o interior do Estado. Também vamos começar a fazer treinamentos baseados em simulação realística. Vamos começar pela área de obstetrícia, simular parto em gestante com problema grave, tudo isso em laboratório.

A promoção da saúde e o papel da atenção básica para a qualidade de vida

Por O POVO

Você conhece o termo "promoção da saúde?" Além de prevenir doenças, a expressão resume um conjunto de ações para que a população tenha uma boa qualidade de vida. E, para isto, é fundamental acompanhar questões comportamentais, como saber se a população tem acesso a uma infraestrutura adequada para a prática de exercícios, por exemplo. A ideia geral é que a rede básica de atenção à saúde tenha um monitoramento mais próximo do comportamento da população e garanta que as pessoas tenham uma boa qualidade de vida. Ainda que precise conviver com alguma doença crônica, por exemplo. Mas como isso deve ser feito? Qual a estratégia no Ceará?

É o que é discutido em conversa com a doutora em Saúde Coletiva, Gláucia Posso Lima, e o gestor da Escola de Saúde Pública do Ceará, Marcelo Alcantara. Quem conduz o papo são os jornalistas Luiz Viana e Catalina Leite.

Distritos de inovação e a pesquisa científica cearense no cenário pré e pós pandemia

Por O POVO

A infraestrutura de pesquisa no Ceará, o investimento do Ceará na produção de testes da Covid-19, o futuro da rede de pesquisa no Ceará e a valorização profissional. Esses são alguns dos elementos que a pandemia do novo coronavírus recolocou nos holofotes brasileiros, no momento em que estudiosos de todas as partes do mundo unem esforços para encontrar uma solução para a doença.

Tudo isto é discutido neste podcast, com a pesquisadora do Instituto de Ciências do Mar (Labomar/UFC) Talita Tavares, e com o coordenador da Fiocruz no Ceará, Carlile Lavor. A apresentação é dos jornalistas Catalina Leite e Leonardo Maia.

Parcerias internacionais para soluções de saúde: entrevista com a pesquisadora Juliana de Paula

Por Catalina Leite

Doutora em Saúde Global, Juliana de Paula fala sobre a importância da relação internacional para encontrar soluções inovadoras aos sistemas de saúd

A relação entre países de compartilhar ideias e soluções, como para encontrar a cura da Covid-19, pode ser aplicada a qualquer aspecto a Saúde, inclusive, para inovar nos sistemas de atendimento. Em entrevista, a doutora em Saúde Global e Sustentabilidade, além de assessora do gabinete da Sesa, Juliana de Paula fala sobre as relações internacionais na Saúde.

A que tipos de ações a Saúde Global se refere?

Por anos, trabalhamos com o conceito de Saúde Internacional, muito focado na ideia do fortalecimento do Estado Nação. Era uma visão meio imperialista: um americano era mais forte, ia para os países africanos e colonizava, no sentido de transformar aquela relação muitas vezes de mercado, em uma relação de dominação. Mas, com a globalização, essa visão se fragiliza, porque o que é mais forte
hoje não são os Estados Nação, mas as grandes corporações. A partir desse momento de transversalidade, foi necessário pensar uma Saúde Global. O que acontece na França, acontece na Nova Guiné e na Argentina. Outra coisa que é global: epidemias como a Covid-19 e a Aids.

A Plataforma de Modernização da Saúde, do Governo do Ceará, tem projetos baseados em outros países. Como a inspiração em planos internacionais é benéfica para o Brasil?

Na Saúde Global, trabalhase com temas transversais no mundo, um deles é a qualidade. Fazemos parcerias internacionais porque a gente reconhece que, como os problemas são comuns, podemos aprender muito com os outros. Nós construímos uma relação de mão dupla, em que aprendemos e ensinamos junto. Caso, por exemplo, da parceria entre Ceará e Portugal. Eles têm dimensão da qualidade da Atenção Primária e conseguiram criar um sistema baseado nisso. Lá, todos os médicos são formados em Medicina e Comunidade. No Ceará, só temos 200 médicos formados em Medicina da Família e Comunidade. Os outros não são formados na categoria, mas exercem a função.

O espaço de articulação tanto nacional, quanto internacional, é muito rico. Culturas distintas podem achar uma série de respostas a problemas semelhantes, e a partir dessa interação fazer trocas: colaborar com as respostas que já encontramos e aprender com as respostas dos outros.

O que os gestores devem compreender para adaptar planos internacionais à realidade brasileira?

Primeiro é entender que o nosso desenho de sistema de saúde é interessante, mas frágil do ponto de vista de atender a todas as necessidades do usuário. Precisamos informatizar nosso sistema de saúde. Somos um País continental, sem informatização é quase inviável. Precisamos investir na formação dos profissionais de saúde, baseada nas necessidades de carreiras. Quem deveria definir qual o investimento na formação deveria ser a necessidade do território. Precisamos investir em qualificação urgente, temos profissionais formados inadequadamente.

Precisamos investir em telessaúde, interconsulta; e em trabalho de equipe que seja incentivado financeiramente. Precisamos criar uma carreira pública que faça com que ele se sinta motivado a ir pras áreas re motas, dando suporte, estrutura e possibilidade de crescimento. Hoje em dia temos uma crise dos sistemas universais de saúde, pela visão de mercado e a medicalização da vida. Estamos com uma conta difícil de pagar. Essa crise só pode ser resolvida com um pacto global de solidariedade, apoio, colaboração e boas práticas.

Quais aspectos do sistema de saúde brasileiro poderiam ser utilizados como inspiração  para outros países?

A governança participativa do SUS com as instâncias tripartite, o Federal tomando assento com o Estadual e Municipal e decidindo as políticas assim. A estratégia de Saúde Família tem uma contribuição histórica, por ser um trabalho de equipe do médico, enfermeira, dentistas... Somos um dos poucos países que a área odontológica é quase totalmente pública. Boa parte dos países com sistemas públicos, a odontologia é à parte.

O trabalho com o território, da promoção da saúde apartir das agentes de saúde: eles são um grande exército de promoção da saúde do País. O sistema de saúde do Brasil tem essas e outras inovações. A participação com os conselhos de saúde, também. Tem problemas, mas ainda são uma instância em que o usuário participa de alguma forma. O SUS ainda é usado exclusivamente por 70% da população brasileira.

A união de esforços para uma saúde global e regional

Por O POVO

O conceito da saúde global, por meio da interação de diferentes nações, e as singularidades cearenses fazem parte dos esforços necessários para construção de um sistema consolidado de saúde. A pandemia do novo coronavírus é um exemplo em que o mundo foi atingido quase integralmente, mas os países precisaram lidar com o mesmo problema de forma distinta.

A conversa deste podcast conta com a presença da doutora em Saúde Global e Sustentabilidade Juliana de Paula e do médico e economista pela UFC Marcelo Gurgel. A apresentação é das jornalistas Camila Holanda e Catalina Leite.

Colaboração transparente

Por Hamlet Oliveira

Espaço para publicização de dados da rede de saúde pública, plataforma IntegraSUS continua a se desenvolver, com o objetivo de aproximar pesquisadores independentes junto à Secretaria da Saúde

Uma das principais pautas de discussão durante o período de combate ao novo coronavírus, a transparência de dados públicos, na qual está inserida a área da saúde, ganhou espaço de discussão nos últimos meses. No Ceará, a plataforma IntegraSUS, lançada em 2019, reúne indicadores, dados e relatórios sobre diversas temas, com o objetivo de facilitar o acesso da sociedade às informações reunidas pela Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa).


No fim de julho último, uma nova área, chamada Analytics, foi integrada ao portal. No espaço, são disponibilizados conjuntos de dados e estudos realizados pela Sesa, com livre acesso para quem se interessar.. De acordo com Ramsés Oliveira, coordenador de Tecnologia da Informação e Comunicação da Secretaria, o foco é que profissionais ou estudantes que trabalhem com dados possam realizar suas próprias análises e chegar a eventuais novas conclusões.


“O objetivo é ter esse compartilhamento de conhecimento na plataforma. Temos um fórum de discussão com especialistas e pesquisadores que já enviaram pesquisas para nós”, comenta Ramsés. Na sessão Analytics, há quatro áreas de destaque: análise exploratória, análise preditiva, aprendizado de máquina e inteligência artificial.


O IntegraSUS funciona a partir da conexão da plataforma com outros sistemas inseridos dentro da rede de saúde. Nesse ponto reside uma das principais inovações da ferramenta, pois permite aos profissionais da área acesso mais ágil a dados sem a necessidade de buscar em vários sistemas diferentes. Após a seleção dos indicadores, ocorre a definição sobre qual será a taxa de atualização do dado, se em tempo real ou mensal, por exemplo, para, então, as informações serem disponibilizadas para o público.


Com o aumento da demanda por transparência após a chegada do novo coronavírus, o equipe responsável pelo IntegraSUS precisou desenvolver inovações para que o grande volume de dados gerado conseguisse ser transposto de forma adequada para a plataforma. “Quando falamos do conceito de transparência, falamos de alguns desafios, principalmente, da grande diversidade de sistemas. Em muitas bases de dados tivemos um trabalho árduo de encontrar aquela pessoa que aparecia em dois sistemas e unificar na base, além de qualificar a equipe”, reforça Ramsés. Na equipe da plataforma estão presentes profissionais da tecnologia da informação, estatísticos, cientistas de dados e epidemiologistas.


O coordenador encerra explicando que um dos objetivos futuros é trabalhar com modelos específicos de dados voltados para imagens, que também serão disponibilizados na plataforma.

Desafios de uma pandemia

Por Catalina Leite

Médico epidemiologista e pós-doutor pela Universidade de Harvard, Antônio Lima Neto fala sobre a importância da análise crítica dos dados epidemiológicos e das realidades sociais para decisões políticas durante pandemia de Covid-19

Em agosto de 2019, surgiu uma nova plataforma para a transparência de dados da saúde no Ceará. A proposta do IntegraSUS era disponibilizar os indicadores da Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa) e virou, a partir de abril de 2020, uma ferramenta essencial durante a pandemia. Por ela, os cidadãos têm acesso à taxa de mortalidade hospitalar, de ocupação de leitos, tempo médio de permanência dos pacientes e atualização em tempo real dos atendimentos de emergência nas unidades de saúde do Estado.


Ainda, acompanham-se esses e mais indicadores em relação à Covid-19, atualizados todos os dias. Quando o assunto é decisão política na pandemia, os dados também dependem de leitura socioeconômica. Em entrevista, o epidemiologista e integrante do Comitê Estadual de Enfrentamento à Pandemia do Coronavírus no Ceará, Antônio Lima Neto, discute a importância de ver além dos dados no momento de definir políticas públicas.


Como tem sido a experiência de se trabalhar com o IntegraSUS?


Essa é a oitava epidemia em que estou envolvido perifericamente ou na coordenação. Mas em nenhuma delas se teve uma importância tão grande de indicadores para tomar decisões - porque elas não estão circunscritas ao setor Saúde. São decisões que impactam a sociedade como um todo: que fecham escolas, comércios, que impedem o fluxo de pessoas. Ou o contrário, indicando possibilidade de abertura. Por essa razão foi tão importante que tivéssemos tanto a plataforma digital, quanto a capacidade de análise. Você tem o IntegraSUS, mas tem que ter uma capacidade analítica daqueles dados.


Ele precisa que você entenda que em certo momento você tinha que estimular as pessoas a procurarem rápido o serviço de saúde. Ao analisar os dados, percebemos que as pessoas estavam sendo internadas só a partir do sétimo dia de doença. Aconteceu no início, porque estávamos dando uma mensagem de que as pessoas só deveriam procurar uma unidade se tivesse falta de ar. Depois começamos a entender muito melhor a doença, de que ela se manifestava muito rápido, e que essas pessoas deveriam ir mais rápido. E o que é isso? Isso é análise. Não está ali no IntegraSUS. Isso precisa ser refinado, né. Tem momentos que essas decisões precisam ser tomadas não a partir do dado cru, que é o que você vê, mas a partir do dado analisado.


Por exemplo, muita gente criticou na época o retorno econômico. Mas eram seis indicadores e hoje estamos na 11ª semana de queda. As pessoas que criticaram na época às vezes acham que essas decisões são unilaterais, que elas não têm base em evidências. Mas todas usaram indicadores da Organização Mundial da Saúde (OMS). Inclusive, acrescentaram alguns. O IntegraSUS foi muito importante nisso.


O Ceará lidera ranking da Transparência Internacional com 100% de transparência de dados sobre a pandemia. Como é tomar decisões políticas baseadas em dados tão acessíveis?


A transparência é sempre boa, mas tem alguns aspectos que fogem um pouco e precisam ser sumarizados. O Estado lança boletim semanal que busca sumarizar aspectos, e a Secretaria Municipal de Saúde tem um boletim semanal que procura interpretar tendência. Por exemplo, o Jornal Nacional todo dia mostra a média móvel dada com base no dia de confirmação dos óbitos. Para a epidemiologia, não se analisa dessa forma, mas com a data de ocorrência do óbito.


Por exemplo, ao analisar os dados, percebemos que as pessoas eram internadas só a partir do sétimo dia de doença. Foi o que aconteceu no início, porque estávamos dando uma mensagem de que elas só deveriam procurar uma unidade se tivesse falta de ar. Logo depois começamos a entender muito melhor a doença, que ela se manifestava muito rápido, e que essas pessoas deveriam ir mais rápido. Isso é análise. Não está ali no IntegraSUS. Precisa ser refinado.


A minha mensagem é a seguinte: IntegraSUS e transparência são fundamentais, mas o dado também precisa de crítica e de análise. A imprensa passou a ter papel de protagonista, porque o Governo Federal era mais transparente e deixou de ser. Quando isso aconteceu, a imprensa trouxe para si uma boa parte dessa capacidade analítica e de informação adequada.


O Comitê Estadual de Enfrentamento à Pandemia do Coronavírus foi criado em março de 2020 e participou de decisões importantes, como o lockdown e a retomada econômica. Como o senhor avalia a atuação do Comitê do Ceará?


Eu acho que o Comitê demonstra muito interesse. Ter duas reuniões semanais? Pouquíssimos comitês de estado têm. Acho que o Comitê foi muito feliz em muitas coisas, sobretudo no timing de grandes medidas, como o lockdown. Foi uma decisão difícil, tomada a partir da observação feita por nós da epidemiologia e pelo grupo das simulações e modelagem da Universidade Federal do Ceará (UFC).


Por exemplo, a questão das escolas é um pouco o princípio da precaução. Não sabemos direito como a volta às aulas se comporta em alguns cenários. A gente foge um pouco da epidemiologia e entra no campo da incerteza. Isso tudo será definido mediante debate, porque tem o outro lado que é socioeconômico.


Uma das coisas que as pessoas se confundem muito é que interrupção de aulas para crianças vulneráveis, inclusive de um ponto de vista de segurança alimentar, é grave. Antes elas tinham cinco refeições e atualmente estão em casa recebendo uma cesta básica do Governo. Mas eu quero saber: e a partir de setembro? Como vai ser? Porque os meus filhos estão muito bem, obrigado. O ensino remoto das escolas privadas é muito bom. Mas e as públicas quando for setembro?


As últimas semanas têm registrado muita aglomeração nas praias de Fortaleza. O senhor acha que o cearense está subestimando a pandemia?


Não acho que as pessoas mais pobres se comportaram mal aqui. Ao contrário, acho que quem fez isolamento de 50% num bairro de altíssima vulnerabilidade, alta densidade de habitantes por domicílio, casas em péssimas condições, difícil de estar em casa… Isso é muito! É muito diferente de um lockdown europeu. É muito fácil às vezes, porque você está no Porto das Dunas curtindo com sua família, tem internet, tem casa, tem vários quartos. E fica a classe média e rico olhando pras pessoas e dizendo: “Olha aí! As pessoas se aglomerando!” Eu não gosto… Como é definitivamente inaceitável uma pessoa negar a importância do isolamento, por exemplo.


A simulação que fizemos naquela época [da decisão do lockdown] mostra que teríamos milhares de mortes! Dezenas de milhares só em Fortaleza, se não fossem tomadas aquelas decisões. Mas também tem que ver as nuances. Não voltar à escola para uma criança do ensino fundamental e infantil da rede pública municipal e estadual é muito grave. Para que você tome essa decisão, tem que ter elementos fundamentais. Por enquanto a gente tem esse elemento, o princípio da precaução.


Incomoda um pouco essa turma que fica meio confortável com a situação, que pode viver com essa situação. Evidentemente que todo mundo quer preservar vidas, mas você tem que entender que essa situação é muito pior para alguns que para outros. Isso é algo pouco dito.

A transparência de dados na pandemia

Por O POVO

O Ceará lidera o ranking de transparência de dados sobre a pandemia de acordo com levantamento feito pela organização Transparência Internacional Brasil no fim de julho. Um dos destaques durante a crise na saúde foi a existência do IntegraSUS, ferramenta que permitiu o acompanhamento de diferentes estatísticas epidemiológicas.

O tema discutido é debatido neste podcast. Para discutir o tema, é convidado o médico epidemiologista Antônio Lima - também conhecido como Tanta - pós-doutor pela Universidade de Harvard e integrante do Comitê Científico do Estado do Ceará. A apresentação é dos jornalistas Luiz Viana e Camila Holanda.

Ceará na vanguarda: confira entrevista com Dr. Cabeto, secretário da Saúde do Ceará

Por Rubens Rodrigues

Titular da Secretaria da Saúde do Estado, dr. Cabeto avalia os seis meses de enfrentamento ao novo coronavírus e projeta o porvir

A experiência da Saúde durante a pandemia levou o Ceará a adiantar processos já em andamento e a discutir possibilidades que ficarão como legado mesmo após a Covid-19. O secretário da Saúde do Ceará, Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho, o dr. Cabeto, fala sobre o incremento à rede assistencial, regionalização da rede de saúde, desafios e aprendizados de como o Estado protagonizou o enfrentamento à doença no País. Ele antecipa ainda o trabalho em parceria com a Fiocruz, que pode colocar o Estado na vanguarda da produção de insumos.

Na sua avaliação, quanto o Estado avançou no enfrentamento à pandemia?

No enfrentamento à pandemia, o Estado fez essas ações de ordem imediata e implantou coisas que já estavam em andamento. Cumprido essa parte, houve incremento na rede assistencial de quase 900 leitos em 45 dias. O que fica disso? Ficam as estruturas dos hospitais polos. Estou falando de 12 cidades que não tinham UTI e vão ser continuadas. Isso tem a ver com o plano de regionalização que o Estado já tava desenvolvendo, incluindo a região de Caucaia, Maracanaú, Itapipoca, Tianguá, Crateús, Tauá, Iguatu, Icó, Limoeiro, Brejo Santo e posteriormente Campo Sales. Estamos falando de uma rede nova, além da continuidade das atividades do Leonardo Da Vinci, que neste momento vai passar a usar metade dos leitos, em torno de 120 leitos, para a realização de cirurgias eletivas para que a gente possa tratar a fila de espera da rede hospitalar do Estado do Ceará, que vinha se preparando para a regionalização. A incorporação desses leitos em tempo muito rápido guarda um movimento que já existia, que foi transformado imediatamente e garante o futuro com expansão e regionalização do sistema de saúde da forma mais eficiente.

Muito se fala que o número de pessoas que teve a doença deve ser bem maior que o notificado, principalmente porque no início muita gente não foi testada. Como o senhor avalia essa subnotificação. Há uma projeção?

Há muitos cálculos referentes a essa subnotificação. Há sim subnotificação. Somos um País que predomina a população mais jovem, portanto houve diversos casos que nem sequer procurou o sistema de saúde. O Ceará se notabilizou por precocemente montar um centro de testagem com capacidade ampliada em parceria com a UFC, Unifor e Hemoce. Foi um dos estados que mais testou. Mas também teve um surto pandêmico extenso. Estima-se que muitos estados brasileiros tenham até 40% a mais do que foi documentado. No Estado, mesmo em regiões próximas a centros urbanos, houve subnotificação. E quanto mais distante dos centros urbanos, mais subnotificação houve. Muitos casos foram confirmados por meio de teste rápido que tem uma sensibilidade diagnóstica menor. Quando você não dispõe de RT-PCR para testagem em massa, corre o risco de subnotificar. O momento agora é diferente. A notificação cai diariamente, o número de óbitos também e a testagem resulta cada vez menos em diagnósticos positivos. Mas temos mais capacidade de testagem. Estamos ampliando a testagem nos drive thrus. Acertamos de fazer um novo inquérito com RT-PCR e sorologia, que deve começar na semana que vem e vai correr 10 dias. Isso vai dar uma ideia da nossa circulação viral, que no momento é baixa.

Recentemente, o litoral de Fortaleza teve alguns pontos com aglomeração, Jericoacoara também. Já é possível perceber algum resultado desse comportamento?

Esperávamos isso. Quando se flexibiliza, é natural que tenha aumento de notificações. Isso não aconteceu em Fortaleza. Isso suscita alguns questionamentos. Primeiro, é saber se atingimos a taxa de imunização adequada. O outro ponto é como você monitora essas aglomerações. O que nós estamos fazendo agora é aumentando a nossa capacidade de testagem RT-PCR porque o primeiro ponto é reconhecer o número de pessoas infectadas. A repercussão na rede é mais tarde. Se você lembrar que alguns vão ser infectados e somente 10% deles vão precisar de internação, é preciso ver o aumento da demanda das UPAs, saber se isso levou a um aumento do número de casos mais graves e, principalmente, se levou a aumento de óbitos. Aumentamos o drive thru do Hospital Geral de Fortaleza, RioMar Kennedy, colocamos em Maracanaú e outras unidades de saúde. Vamos fazer o inquérito agora, que é uma de maneira organizada estatisticamente para que se tenha ideia se a circulação viral vai aumentar nos bairros de menor ou maior IDH, na faixa etária mais baixa e daí por diante. Isso é mais precoce do que enxergar o atendimento porque essas aglomerações em geral são de populações mais jovens, que são assintomáticas. Pode levar mais de 14 dias para perceber impacto na rede. O Estado quer se antecipar.

Existe orientação para intensificar essa fiscalização?

Sim. Conversamos na reunião do Comitê Estadual de Enfrentamento à Pandemia do Coronavírus no Ceará que acontece toda quinta e sexta-feira, onde estão Ministérios Público, Estadual e Federal, Assembleia Legislativa e representação municipal, de nós nos organizarmos de instruir a população. Principalmente nas grandes aglomerações. Intensificar os protocolos na rede hoteleira. E aí tem que incluir o pessoal da Segurança e da Vigilância Sanitária. Estamos estudando estratégia. A gente entende que é normal as pessoas quererem mudar o padrão comportamental.

Quais foram os erros e acertos desses seis meses de enfrentamento à pandemia?

Acredito que o Ceará foi muito feliz na forma como se colocou perante a pandemia. É um dos estados mais atingidos e, convenhamos, com uma população com IDH baixo, nível de fragilidade muito maior do que os estados do Sudeste. O Ceará fez a estratégia adequada, o reconhecimento adequado e se guiou pela ciência. Soube dialogar com todos os setores da sociedade e jogou para ela os dados reais. O IntegraSUS é um pouco isso. Desde março acontecem reuniões semanais em que todos esses dados são expostos às lideranças sociais. Foi o Estado que mais precocemente pregou o isolamento e fez um dos isolamentos mais eficientes do País. E isso, é bom que se diga, fez com que houvesse grande redução no número de óbitos. Fez com que o Estado fosse capaz de dar atendimento às pessoas. Uma coisa é enfrentar o surto em julho. Outra coisa é ter o surto em abril, maio, como foi aqui. Porque existia uma competição internacional por aquisição de insumos, respiradores, infraestrutura. O desconhecimento sobre a doença era muito maior. O Ceará fez um papel importante, que foi reconhecer seu corpo de profissionais. E os profissionais de saúde se engajaram completamente no atendimento. A regionalização também foi um grande acerto. Os hospitais regionais e a presença dessas lideranças possibilitaram o acesso adequado, além da decisão de mudar o perfil dos hospitais e adquirir equipamentos.

O que ficou de aprendizado?

Que nem todas as pandemias são iguais, que o vírus pode ter comportamento diferente e que os conceitos tradicionais precisam ser analisados a luz da ciência naquele momento. Algumas imperfeições surgiram nisso, como as orientações iniciais. O mundo inteiro tinha medo de que as pessoas fossem ao hospital e se contaminassem. Essa é uma justificativa razoável porque vinha uma informação da China de que a contaminação no hospital era muito alta. Além de entender o papel da atenção primária e do atendimento à distancia. Acho que a gente tira como lição.

O Ceará está dialogando com algum laboratório sobre produção de vacina?

Estamos discutindo isso a nível de Fiocruz. Estamos discutindo a locação da expansão da Fiocruz. A planta de arquitetura e executiva para elaboração do centro de produção de insumos, que também serve para vacina no futuro, para que o próprio Estado possa produzir, está bem adiantada. É levar o Ceará pra vanguarda nesse aspecto.

Cuidado que fica: a atenção à mulher no SUS

Por Marília Freitas

Presidente da Associação Cearense de Ginecologia e Obstetrícia e presidente do Comitê de Prevenção à Morte Materna, Fetal e Infantil do Estado do Ceará, a médica Liduína Rocha avalia o atendimento da mulher no sistema público de saúde e pontua as principais necessidades

No cenário brasileiro, a saúde da mulher cearense é um dos pontos influenciados pelas mais diversas particularidades econômicas e de gênero. Para adaptar os atendimentos à realidade destas pessoas, a rede de saúde pública vem passando por constantes reformulações, como o aperfeiçoamento dos profissionais, implementação do Estatuto do Parto Humanizado do Ceará e a expansão da rede. As medidas surgem em meio aos percalços que envolvem a quebra de estereótipos já enraizados, conforme conversa a ginecologista e obstetra defensora ferrenha do Sistema Único de Saúde (SUS), Liduína Rocha.

As atenções voltadas para a mulher na rede pública acontecem nos três níveis de saúde. Quais seriam as principais em cada setor?

No atendimento da atenção primária, que preferencialmente deve ser feito pela equipe multiprofissional de saúde da família, são os cuidados de promoção e de prevenção de saúde, da adolescência ao climatério. Havendo necessidade de um olhar especializado, temos a atenção na rede do Estado nas policlínicas. Diante de uma hipótese de doença, fazemos prevenção no setor secundário e terciário, este último para atendimentos que necessitam de internação hospitalar. O cuidado é feito em um lugar ambulatorial dentro de hospitais de alta complexidade. Existe isso no programa Nascer no Ceará, que se estatifica mulheres com risco no pré-natal e que podem ser acompanhadas próximo do seu território - aspecto importante da atenção à saúde -, mas há um nível de instabilidade tão grande que elas devem ser acompanhadas em hospitais de alta complexidade, com presença de UTI adulto.

Em 30 anos de existência do SUS, como você avalia a estrutura cearense de rede pública para a mulher?

O SUS é um patrimônio do povo brasileiro, independentemente do governo. É um sistema de saúde - e devemos entendê-la como algo muito mais amplo do que o tratamento e do que o diagnóstico de doenças, mas como uma promoção de bem estar. O SUS é a política do estado brasileiro que mais promove funções sociais no sentido de garantir acesso universal e uma busca de qualidade de atendimento. Todos usamos o Sistema quando discutimos vacina e transplante, por exemplo, mas, na vida de cuidados ordinários, procuramos a saúde suplementar, e isso acontece também na realidade da assistência das mulheres. Se olharmos o status de morte materna no Ceará, veremos que a maioria das mulheres que morreram eram usuárias exclusivas do SUS. Nosso grande desafio é fazer com que o Sistema, de fato, seja universal e promova a diminuição das desigualdades sociais.

Cada atenção é adaptada de acordo com a complexidade dos casos. Um delas é, inevitavelmente, o aborto. Quais mudanças estabelecidas ao longo do tempo modificaram o atendimento dessa mulher na rede pública?

Há dados nacionais que precisam ser ditos - temos cerca de 600 mil abortos por ano no Brasil. A política de saúde pública se trata de redução de danos. Sempre se pensa na mulher que aborta relacionada a uma vida sexual mais ativa, com mais parceiros e que se expõe mais a riscos. Mas a realidade não é isso: a maioria é casada, com filho e a grande questão é a realidade financeira. O aborto é a quarta causa de morte das mulheres brasileiras e estamos, novamente, diante de um cenário de invisibilidade da vulnerabilidade. Quem mais morre são as mulheres pobres, negras, moradoras de zonas periféricas ou rurais. Do ponto de vista de locais de assistência, aqui no Ceará temos avançado, com dois serviços bem estruturados na Maternidade Escola Assis Chateubriand (Meac) e no Hospital Distrital Gonzaga Mota de Messejana. Mas já temos mais outros dois serviços se organizando no Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e no Hospital Geral Dr. César Cals (HGCC).

Como a humanização muda, em específico, o atendimento especializado à mulher no SUS?

Nós não podemos confundir humanização com o direito de escolha ou com a implementação das boas práticas. Quando falamos da humanização, especialmente em relação ao parto e aos processos, isso significa que devemos construir um ambiente capaz de responder ao direito de escolha das mulheres. E temos avançado nesse sentido: a presença das casas de parto, de atendimentos pré-parto, parto e pós-parto das maternidades, na interdisciplinaridade e a multiprofissionalidade, garantia da presença do acompanhante, o respeito à Hora de Ouro após o nascimento, a não realização de práticas que são culturalmente instituídas mas que na realidade significam violência obstétrica; voltando a história da mortalidade, não há violência obstétrica maior do que a morte materna evitável acontecendo. Temos que avançar nas práticas e mais ainda qualidade da assistência e na universalidade do acesso ao sistema público.

A queda da mortalidade de mães e bebês no Ceará é uma realidade. Como avançar ainda mais nessa situação no Estado?

É sim, se olharmos a curva histórica. Quando falamos de morte materna, a maioria delas acontece por conta de alguma demora: cultural das mulheres e das famílias em perceberem a gravidade de uma situação, a demora de acesso ou a demora da qualidade da assistência. Isso significa que a imensa maioria dessas mortes são evitáveis. A chance de uma mulher morrer no parto tem uma relação com a identificação da gravidade do acesso ao sistema de saúde e com assistência adequada. Conseguimos reduzir a nossa razão de mortalidade materna variando entre 60-68 mortes a cada 100 mil partos. Precisamos reduzir muito mais, então é necessário ter uma rede efetiva no acesso, na assistência e que seja acessível principalmente às mulheres em maior situação de vulnerabilidade. O grande desafio de projetos como o Nascer no Ceará é que são projetos de criação de redes e de um sistema de assistência. Então eles necessitam de um diálogo muito profundo e de um diálogo orgânico entre assistência, gestão e população. A Escola de Saúde Pública pensa em projetos de educação permanente, a Sesa dialoga com as gestões municipais e as mulheres são instigadas ao autocuidado. Esse é o filtro do programa nesse momento.

Janeiro de 2020 marcou um ano desde a implementação da Lei Nº 16.837, do Estatuto do Parto Humanizado no Ceará. O que mudou com esta novidade?

No SUS - pioneiro inclusive nessa instituição das boas práticas - nós temos avanços: percebemos a garantia da lei do acompanhante, garantia de privacidade, sigilo, dignidade humana. Precisamos agora olhar com mais profundidade para transformarmos a cultura da maternidade e dos profissionais.

Como o Estatuto possibilitou às gestantes de conhecerem mais sobre seu direito de escolha durante o nascimento do filho?

Com a garantia de vinculação das mulheres ao local do nascimento dos seus filhos ainda no pré-natal. Igualmente elas devem saber onde vão parir, devem conhecer esse local e devem ser conhecidas por esse local, garantindo que não fiquem peregrinando entre as maternidades.


Direito garantido, a humanização vai além de um bom atendimento: perpassa pela condição de escolha e pelo acesso à informação sobre os procedimentos de saúde.

A Lei Nº 16.837 sancionou o Estatuto do Parto Humanizado no Ceará em janeiro de 2019. Diretrizes como o incentivo ao plano de parto e reconhecimento de todos procedimentos de saúde disponíveis garantem melhor assistência a elas durante o período gravídico-puerpural.

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A interiorização das emergências cearenses

Por Marília Freitas

A construção da referência terciária na Região Sobral vem possibilitando o acesso a setores emergenciais antes disponíveis apenas na Capital. Parte do planejamento da interiorização, projeto depende de investimentos e divulgação

O setor terciário da saúde pública vem sendo expandido com as Regiões de Saúde no Ceará. A divisão permite que estruturas de alta complexidade sejam instaladas nos interiores, evitando, assim, traslados dos pacientes até Fortaleza. O Hospital Regional Norte (HRN), por exemplo, trabalha com as especialidades de urgências e emergências pediátricas, clínicas e de cirurgia adulta. Desde 2013, cerca de 370 mil assistências foram realizadas na emergência do local - correspondendo a mais de 20% da população dos 55 municípios que contemplam a Região Sobral.

Antes da instalação, o tempo era fator supremo, pois as complicações precisavam ser transferidas até a Capital. “Na abertura, inclusive, já chegamos a receber pacientes de Fortaleza para desafogarmos o sistema da Capital. Aconteceu o inverso”, relembra a diretora de gestão e atendimento do HRN, Sabrina Becker.

O paciente passa por uma triagem e é estabilizado na própria Região, ficando no HRN ou em outra referência. Segundo Sabrina, a abertura de leitos de melhor estrutura e centros cirúrgicos influenciou, inclusive, na queda dos índices de mortalidade infantil de Sobral. Cerca de 30% dos atendimentos complexos no hospital são da pediatria.

A crença de um hospital terciário como o lugar possível de todos os atendimentos, contudo, corrobora para o congestionamento de um setor que deveria atender apenas às demandas complexas. Por isso a importância de bons acolhimentos na rede primária e secundária, explica Sabrina.

Por exemplo, casos graves da Covid-19 seguem atendidos no setor terciário e casos mais leves ficam a critério dos postos de saúde e das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), impondo um maior controle da pandemia com o tempo.

Por ainda estar em execução, as interiorizações seguem dependendo de investimentos no setor de saúde, que viabilizam a expansão e a melhoria de atendimentos alternativos por telefone, como o TeleSaúde. “É importante que essas pessoas conheçam as opções, para saber onde devem recorrer quando precisam de ajuda”, cita.

Algumas das referências cearenses do setor terciário

Cariri
Hospital Regional do Cariri
Localizado em Juazeiro do Norte, o hospital foi o primeiro da rede estadual no interior do Ceará e atende a uma população de 1,5 milhão de habitantes. Dispõe de atendimentos 24h em urgência e emergência em traumato ortopedia, neurocirurgia, clínica geral, cirurgia geral, cirurgia vascular e buco-maxilo-facial.

Sobral
Hospital Regional Norte
O hospital é o maior do interior da Região Nordeste e dispõe de atendimento 24 horas em urgência e emergência de cirurgia geral, cirurgia vascular, cirurgia torácica, clínica médica, endoscopia alta e baixa, neurocirurgia, otorrinolaringologia, neonatologia, pediatria e obstetrícia.

Sertão Central
Hospital Regional do Sertão Central
A estrutura foi a terceira de alta complexidade construída no interior cearense e é referência nas especialidades de cirurgia geral, terapia intensiva adulto, terapia intensiva e semi intensiva neonatal, obstetrícia, Acidente Vascular Cerebral, clínica médica, traumatologia, unidade de cuidados especiais, clínica cirúrgica e neurocirurgia.

Litoral Leste/Jaguaribe
Hospital Regional do Vale do Jaguaribe
Ainda em construção, a unidade contará com unidades de emergência e urgência, além do ambulatório centro de imagem e diagnóstico, centro de parto, centro cirúrgico com seis salas, e enfermarias clínica, cirúrgica, traumatológica e pediátrica. A estimativa é que a estrutura seja equipada e entre em funcionamento até o fim deste ano.

Fortaleza
Hospital Geral de Fortaleza
De janeiro a agosto de 2020, o HGF prestou mais de 27 mil atendimentos na emergência da unidade. As especialidades funcionam 24h e consistem em medicina de emergência, cirurgia geral, cirurgia vascular, neurologia e obstetrícia - o último setor passou por alterações devido a pandemia, mas já está funcionando normalmente.

Fortaleza
Hospital São José de Doenças Infecciosas
Com 46 anos de história, o hospital é referência em atendimentos 24h de urgência e emergência a pacientes soropositivos com complicações, arboviroses, exposição para profilaxia antirrábica, acidentes perfurocortantes, tuberculose e meningite.

Fortaleza
Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes
A unidade terciária atende pacientes cearenses e das Regiões Norte e Nordeste do País. Conta com atendimento 24h de urgência e emergência nas especialidades cardíaca e pulmonar, sendo referência no transplante cardíaco de adultos e crianças.

Fortaleza
Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto
O hospital é referência no atendimento em psiquiatria do Ceará, dispondo de atendimentos 24h em urgência e emergência para atendimentos psiquiátricos. Conta ainda com atendimentos a psicóticos e dependentes químicos, unidade de desintoxicação e núcleo de atenção à infância e adolescência.

Emergência durante a pandemia e a experiência do Ceará

A experiência da emergência durante a pandemia no Ceará é o tema discutido neste episódio do podcast do projeto Nova Saúde. Com apresentação da jornalista Eduarda Talicy, e com a repórter convidada Ana Rute Ramires, o chefe do Departamento de Emergência do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), Khalil Feitosa, fala sobre a importância de se adaptar nesses seis meses de pandemia.

 

 

A força institucional do SUS em tempos de Covid- 19

Por

Por Moacir Tavares, doutor em Saúde Pública pela USP e professor da UFC do curso de Odontologia

O tema bem que poderia parafrasear Gabriel Garcia Márquez, no eterno “Amor em tempos de cólera”. Seria clichê declarar “O amor ao SUS ( e o amor do SUS) em tempos de Covid- 19”. Não seria errado, seria verdadeiro. O Sistema Único de Saúde teve seu arcabouço jurídico institucional configurado na Constituição Federal de 1988. Fruto de um debate profícuo e celebrado como o novo modelo na Conferência Nacional de Saúde, cume das conferências municipais e estaduais, à época, estima-se, mobilizou 50 mil pessoas.

A estrutura organizacional do SUS ,seguindo conceitos internacionais consagrados pelos serviços e pelos pesquisadores, definiu níveis de atenção em: primária, secundária e terciária. A atenção terciária, responsabilidade de estados e União, foi a mais destacada nos meios de comunicação de massa no período da pandemia, fato que a insuficiência de leitos e de respiradores mecânicos nos hospitais era a provável diferença entre viver e morrer quando o caso se agravava.

A ampla maioria dos casos não se agravou, estima-se em mais de 80% esse número. Não se agravou, pela ação rápida e eficaz da atenção primária com suas unidades de saúde e suas equipes de saúde da família que atuaram identificando, isolando, visitando, medicando, informando e monitorando cada usuário do SUS. Essa ação foi muro de arrimo para todas as outras.

Destaca-se também a ação efetiva de clinicas e policlínicas onde exames especializados serviram de apoio ao diagnóstico e a eficaz ação da rede de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e o transporte efetivo e diuturno do Samu. Todas as ações integradas numa real, pública, gratuita, eficaz, efetiva, eficiente rede de ações e serviço. Isso é o SUS.

Vilipendiado no seu financiamento desde a criação, o Sistema funciona subfinanciado com um terço do previsto e sofrendo cortes, sobretudo, federais. Como diz minha filha adolescente: só não enxerga quem não quer. O SUS segurou a onda do povo. Sim, o SUS salvou milhares de vidas. Aos privatistas da saúde, minha contumaz resposta, citando Bertolt Brecht: a verdade é filha do tempo e não da autoridade

Arboviroses: os desafios das políticas de controle diante do isolamento

Por O Povo

Neste episódio do podcast Nova Saúde, as jornalistas Eduarda Talicy e Marília Freitas recebem os convidados são Carlos Henrique Morais de Alencar, doutor em Saúde Coletiva e professor do Departamento de Saúde Comunitária da UFC e Luiz Osvaldo Rodrigues da Silva, orientador da Célula de Vigilância Entomológica e Controle Vetorial da Sesa.



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Saúde mental e regionalização: dignidade e equidade

Por

Por Lisiane Cysne de Medeiros Vasconcelos e Rego, psiquiatra, PhD, ex-secretária executiva de saúde mental do Estado do Ceará

Carlos tinha 18 anos quando foi diagnosticado de esquizofrenia. Ouvia vozes ordenando que se matasse. Tinha muita dificuldade de manter o tratamento porque o hospital onde se tratava ficava em outra cidade. Cansou de pegar o ônibus onde tinha que ir quieto por mais de uma hora (embora as vozes não parassem de falar dentro da sua cabeça), para ser visto durante dez minutos pelo médico, pegar a fila para receber o remédio e depois percorrer todo o trajeto de volta à casa, onde tinha outra vez que estar quieto (embora as vozes se danassem dentro da sua cabeça). No último mês, Carlos uma vez mais abandonou a medicação e os familiares disseram que ele começou a ficar cada vez mais isolado. Na semana passada, Carlos se matou.

A OMS define saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente ausência de doenças. E reafirma: não existe saúde, sem saúde mental!

Estudos realizados nos Estados Unidos em 2011 informaram que somente 17% da população adulta foi considerada com ótimo estado de saúde mental. Porém, de forma irônica, as legislações sobre a saúde mental mais têm se voltado para a exclusão das pessoas com transtorno mental do que propriamente para a promoção da saúde mental.

A assistência à saúde deve trabalhar ativamente para proporcionar uma vida mais digna em todas as suas dimensões, já que a saúde é um processo determinado por componentes históricos, socioeconômicos, culturais, biológicos e psicológicos, cuja preservação e melhoramento implicam uma dinâmica de construção social vinculada à dos direitos humanos e sociais de uma pessoa. Dessa forma, o acesso fácil a todos é a primeira e uma das principais características de um bom sistema de saúde universal, como o nosso SUS.

O processo de regionalização da rede de saúde mental não é só necessário. É urgente!

Com a regionalização se podem alcançar os rincões mais afastados do nosso estado, onde existem muitos Carlos, que aguardam pela chance de manter um atendimento digno, individualizado e ao qual se possa recorrer facilmente, respeitando o indivíduo dentro da sua região, dentro da sua comunidade e no seio familiar.

A regionalização da saúde mental traz dignidade e equidade à nossa população.

A história de Carlos, embora fictícia, é um exemplo do dia a dia da nossa população, que encontra na distância física e na distância relacional e socioeconômica um real impedimento para a obtenção de um bem básico, brindado pela Constituição: saúde para todos!

Pensando os impactos à saúde mental na pandemia

Por

Por Eveline Câmara, psicóloga, pedagoga, psicopedagoga, fundadora e gestora do Instituto de Especialidades Integradas, com mais de 15 anos de atuação em atendimento clínico 

Estamos vivenciando um momento atípico. A pandemia nos colocou diante da possibilidade da morte e, consequentemente, nos deslocou para um lugar de reflexão em relação à vida. Nesse espaço de angústia o qual nos lançaram, fomos convidados a um confronto com o nosso real. As escolhas que fizemos, as relações que tecemos, os lugares que ocupamos. Todos esses conteúdos sendo produzidos em um espaço de tempo cronológico reduzido, no qual não foi considerado o tempo lógico individual e o tempo subjetivo de ressignificação. Fomos atravessados por um real castrador que nos privou de uma existência que possuía lógicas próprias.

Qual foi a repercussão disso tudo em nossa saúde mental? E como fica o ser lançado nesse lugar de desconforto, até então não visitado? O lugar do “não”, do limite, do isolamento, da proibição, da solidão, do ter que lidar mais consigo e com suas questões, da polarização, do negacionismo... Tudo isso nos desorganizou. Essa desorganização produziu sintomas. Elevação da ansiedade, oscilações frequentes e abruptas de humor, distúrbios do sono, disfunções alimentares. Cada pessoa, a partir do seu funcionamento, teve que desenvolver seus mecanismos de proteção para conseguir sustentar esse mal-estar coletivo. Foi um movimento de olhar para si mesmo com uma sensação de desamparo, onde não haveria um grande outro que pudesse dar conta desse sofrimento. Esse lugar de autoanálise foi o espaço promotor de mudanças.

Esse movimento trouxe uma nova configuração do real. Uma rotina diferente, mudanças nas formas de contato, diferenças nas vivências de rituais de luto, novas concepções acerca de espaços e limites individuais. Essas construções continuam a se ressignificarem a partir da apresentação de algum elemento novo dessa realidade. Seja ele uma nova informação acerca das vacinas - que se apresentam como um objeto real de corte nesse sofrimento - seja o processo de reabertura que convida a nos apropriar dessa possibilidade de reparação diante de uma vida perdida.

Podcast

As jornalistas Eduarda Talicy e Gabriela Custódio recebem a psicóloga e psicopedagoga, fundadora e gestora do Instituto de Especialidades Integradas, Eveline Câmara; e a psiquiatra do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto (HSM), médica formada pela UFC, especialista em Saúde da Família, Nayana Holanda. Desta vez, elas falam sobre saúde mental na pandemia, questão central em muitas famílias nessa época tão desafiadora que vivemos.

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Em defesa do Guia Alimentar para a População Brasileira

Por O Povo

Pabyle Flauzino, nutricionista, pós-graduada em Comportamento Alimentar e mestranda em Nutrição e Saúde.

Segundo a pesquisa de orçamentos familiares (POF), o consumo domiciliar do arroz e feijão, referência tradicional do prato dos Brasileiros apresentou queda de 37% e 52% respectivamente ao longo dos últimos 15 anos. A tradição dos alimentos que sofrem pouca ou nenhuma alteração após deixarem a natureza, chamados alimentos in natura e minimamente processados, saem da mesa para dar lugar aos alimentos ultraprocessados, que são formulações industriais, como refrigerante e macarrão instantâneo.

Os alimentos ultraprocessados têm modificado culturas alimentares, as formas de produção, o meio ambiente e a saúde das populações, pois estão fortemente associados à Doenças Crônicas não Transmissíveis. A classificação NOVA é a responsável por dividir os alimentos de acordo com o seu grau de processamento e é o marco diferencial do Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2014. Para o guia, a alimentação é mais que a ingestão de nutrientes, pois considera as dimensões  socioambientais, culturais e biológicas dos modos de comer, tornando-se diretriz norteadora para garantir a Segurança Alimentar e Nutricional da Nação.

Recentemente, através da nota técnica nº 42/2020, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) requisitou ao Ministério da Saúde a revisão do Guia Alimentar para a População Brasileira, contrariando inclusive a sua própria agenda. Dentre outras coisas, o documento solicita “a retirada das menções a classificação NOVA” e afirma que atualmente o guia alimentar para a população brasileira é “um dos piores”. O MAPA não menciona os riscos associados ao consumo de alimentos ultraprocessados e como a desigualdade social e segregação espacial Brasileira influenciam diretamente na disponibilidade destes alimentos.

A nota da MAPA não é suportada pela extensa literatura utilizando a classificação NOVA e contraria a Organização Mundial da Saúde, instituições e pesquisadores do mundo inteiro que indicam o Guia Alimentar para a População Brasileira como referência. Apesar do Ministério da Saúde negar o recebimento da nota, a sociedade civil respondeu em defesa do guia alimentar para a população brasileira. Autonomia, saúde, bem estar e pratos livres de injustiças para o solo e para quem come são centrais na mensagem do guia para a população.

Em um período tão conturbado para a saúde pública, é preciso que investidas com rigor científico garantam e promovam o Direito Humano à Alimentação e a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional da população. Algo diferente disso, é um profundo retrocesso.