Editorial

Por Daniela Nogueira

O trânsito mexe, sim, com nossas emoções. Ansiedade, estresse, sentimento de superioridade, mas também calmaria, serenidade, leveza. São expressões díspares a depender de como enfrentamos essa dinâmica cotidiana de ir e vir, compartilhando os espaços públicos e respeitando os indivíduos.

Em entrevista neste caderno #3 do projeto Movimento Urbano, o psicólogo José Wagner Paiva Queiroz Lima, especialista em Psicologia Clínica e do Trânsito, discute sobre os papéis sociais que o ser humano desempenha e como isso se reflete no seu comportamento no trânsito. Respeito ao que envolve a convivência social é primordial para que tenhamos uma relação harmônica com o outro neste espaço que é tão conflituoso.

O importante é não permitir que o poderio econômico, o cansaço ou o aborrecimento por outro motivo vire razão para problemas no trânsito. Boas atitudes no trânsito dependem do comportamento de todos e de cada um - uma espécie de pacto coletivo.

Outro aspecto interessante que nos leva a pensar sobre a relação da mobilidade com outros setores da vida cotidiana é abordado em matéria das páginas 6 e 7. Galerias em corredores de passagem não funcionam apenas para o caminhar nosso pelo Centro da Cidade, por exemplo. Servem de impulso à economia. Afinal, ir ao Centro a pé é muito mais vantajoso - a liberdade ao ir de loja em loja e a facilidade do caminhar sem se preocupar com estacionamento (que é um problema na região) são justificativas para o andar no Centro e dar aquela "olhadinha" nas lojas das galerias.

Também discutimos sobre um tipo de transporte que tem modificado bastante a forma de convivência dos fortalezenses com a Cidade - as bicicletas. A rede cicloviária se expandiu, as estações do programa Bicicletar têm aumentado e o caminho cada vez mais se abre para quem opta por um meio que ocupa menos espaço e traz uma série de benefícios também para a saúde.

Todo o material do projeto Movimento Urbano, incluindo textos e fotos deste caderno e dos dois anteriores mais conteúdo extra além de galeria de imagens, está disponível no http://especiais.opovo.com.br/movimentourbano/.


Acesse e escreva para nós, contando de sua experiência com o trânsito da Cidade. Afinal, o que você tem feito para melhorar o trânsito ao seu redor?


Boa leitura!

Como pensamos quando estamos no trânsito

O trânsito mexe com nosso lado emocional. Muitos se estressam nos congestionamentos, outros se acalmam nas caminhadas. Quais características pessoais carregamos para a condução no meio da rua? Como isso se reflete nos acidentes e na prevenção?

Por Sara Oliveira

Quem não se lembra do vídeo, recorrente em aulas de formação para o trânsito, do Pateta, tranquilo dentro de casa e enlouquecido de frente ao volante? Difícil dimensionar o estresse, o peso do cotidiano, a cobrança da correria quando se está de posse de algo tão poderoso como um veículo. Normatizações presentes no Código de Trânsito Brasileiro tentam levar ordem e respeito para as ruas. Nem sempre conseguem. Verdade é que a parte psicológica de cada um aflora no trânsito e pode se refletir na vivência coletiva da Cidade, dos ares, das motivações, das necessidades.

José Wagner (Foto: Aurélio Alves/O POVO)

O psicólogo José Wagner Paiva Queiroz Lima, especialista em Psicologia Clínica e do Trânsito, presidente da Associação dos Psicólogos de Trânsito do Ceará e membro suplente do Conselho Estadual de Trânsito, conversou sobre o assunto e analisou esse lado tão delicado que emerge das pessoas quando estão no trânsito.


O POVO - As pessoas se mostram mais no trânsito? Dentro do carro, por trás do capacete, na correria dos muitos passageiros, as pessoas têm mais coragem de agir como pensam?

José Wagner - Sim, existem três questões a serem consideradas. Primeiramente, a regra geral em Psicologia do Comportamento Humano nos faz compreender que ser um condutor de veículo automotor é mais um papel social a ser desempenhado pelo cidadão, e o cidadão se comporta no trânsito como normalmente ele age em seu cotidiano, no desempenho de seus mais diversos papéis sociais. Ou seja, se ele é controlado, organizado, tranquilo, respeitador em suas relações cotidianas nos grupos sociais dos quais participa. Assim também espera-se que ele seja no trânsito. O segundo ponto é sobre o condutor de veículo automotor, que, em geral, demonstra consciente e inconscientemente um sentimento de poder quando em posse de sua máquina que o possibilita um deslocamento rápido em seus trajetos. Por fim, em geral, alguns comportamentos inadequados no trânsito não são uma questão de psicopatologia, mas de uma ausência de educação cidadã de respeito às leis que regem a convivência social.

OP - Ter boas atitudes no trânsito é algo que pode refletir uma construção coletiva?

Wagner - O Estado, a sociedade organizada e os órgãos responsáveis pelo trânsito, mais especificamente, possuem o dever constitucional de tornar claras, ao cidadão, condutores e pedestres, as leis e as normas do Código de Trânsito Brasileiro. Educando, conscientizando e desenvolvendo campanhas educativas específicas, sistemáticas e didáticas. E é somente pela criação dessa consciência cidadã, a partir da educação do cidadão brasileiro, que teremos um comportamento diferenciado de convivência do "homem na coletividade", não apenas na comunidade de trânsito, mas na sociedade em geral.

OP - O tempo é o vilão na hora de se locomover? Ele nos faz perder a razão devido à vida corrida?

Wagner - Sim. Primeiramente há uma necessidade estrutural de investimentos em intervenções de engenharia para que o trânsito flua com rapidez e segurança. Mas, diante de uma situação de congestionamento, de frustração em seu deslocamento, o condutor de veículo tende normalmente a agir de alguma forma agressiva, se ele não tiver se programado antecipadamente em horários e roteiros a serem seguidos. Enfim, o homem hodierno necessita organizar-se também em sua agenda cotidiana de deslocamento, para contornar os possíveis empecilhos a serem encontrados.

OP - E andar a pé faz bem à mente?

Wagner - Ter uma prática cotidiana de caminhadas ou exercícios físicos é profundamente salutar à saúde do cidadão, rejuvenesce. Traz ânimo novo e disposição para a vida e melhora a autoestima. Além do bem que proporciona à saúde física do cidadão, melhora a circulação sanguínea, baixa o nível de colesterol e glicose, entre outros benefícios.

OP - Caminhar e andar de bicicleta podem nos fazer pensar de outra forma sobre a Cidade?

Wagner - Embora tenhamos um clima quente, não europeu, em que a prática do ciclismo é um hábito, andar de bicicletas já é um costume de muitas de nossas cidades e capitais brasileiras, estimuladas pelo governo municipal e pela iniciativa privada. É uma prática econômica, jovial, salutar e desportiva. Uma opção, entre outras, aos muitos adeptos e simpatizantes desse esporte. Priorizar também o transporte coletivo de qualidade, a exemplo de países europeus, é outra forma de se pensar a Cidade.

 

OP - Como a hierarquia, o poder e o estresse se refletem no trânsito?

Wagner - Algumas pessoas com veículos mais sofisticados, oferecidos pela indústria automobilística, podem, segundo a sua maturidade humana, se acharem privilegiadas na convivência social, superiores, poderosas economicamente. Ocasionalmente, podem, com este comportamento, vir a provocar conflitos e situações embaraçosas no trânsito. Pessoas sem qualidade de vida, cansadas, que não se programam cotidianamente em seus deslocamentos, diante de empecilhos no trânsito, nos congestionamentos, podem apresentar comportamentos agressivos e estressantes.

 

OP - Como a psicologia é tratada na formação de condutores?

Wagner - Nacionalmente, da Amazônia ao Rio Grande do Sul, a atividade de avaliação psicológica obedece ao Código Nacional de Trânsito e às normas regulamentadas pelas Câmaras Temáticas do Denatran, o Departamento Nacional de Trânsito, e pelo Conselho Federal de Psicologia. Em todo o território nacional, faz-se a avaliação psicológica do cidadão candidato à Carteira Nacional de Habilitação, à renovação, à adição e à mudança de categoria, analisando-o em três grandes áreas psicológicas: 1. equilíbrio emocional; 2. Reflexos; 3. nível mental, que é a inteligência mínima necessária para a condução de veículos. Então, a psicologia de trânsito possui este papel importante de, preventivamente, avaliar se o cidadão possui condições adequadas para a condução de veículos. Em conjunto com a avaliação médica e a avaliação de legislação.

OP - Como a estrutura da Cidade pode colaborar com as boas atitudes no trânsito?

Wagner - É fundamental que existam investimentos e intervenções primeiras de engenharia para que a Cidade flua com rapidez e segurança. Túneis, viadutos, ampliação de vias, avenidas com sentido único, entre outras intervenções, são importantíssimas para que o cidadão se locomova com mais tranquilidade e segurança. Oferecer transporte público de qualidade, com as mesmas condições de seu veículo particular, ar condicionado e poltrona individual, e rotas próximas às necessidades do cidadão. Também, nas grandes capitais brasileiras e mundiais, as empresas e as repartições públicas e privadas tendem a locar seus funcionários em filiais próximas às suas residências.

Corredor de passagem impulsiona a economia

Espaços como as galerias Pedro Jorge e Professor Brandão, no Centro da Cidade, beneficiam caminhabilidade do pedestre e, ao mesmo tempo, facilitam vendas

Por Lucas Mota

Galeria Professor Brandão, no Centro, tem corredor de passagem para pedestres que beneficia comércio (Foto: Aurélio Alves/O POVO)

Liberdade para ir e vir. Nesta dinâmica de fluxo de pedestre, o Centro ganha movimentação entre andanças cotidianas de acessos a comércios, clínicas de saúde, restaurantes e outros estabelecimentos. Gente que desembarca do ônibus, do automóvel particular, do táxi, do metrô ou da bicicleta para percorrer vias a pé em busca de completar o destino. 

Seja como for a chegada ao Centro, o principal trajeto é feito mesmo a pé. Mesmo com as imperfeições da região, ainda buscando se readequar para este agente do trânsito, as idas e vindas por meio da caminhabilidade não param. Em espaços como as galerias Pedro Jorge e Professor Brandão, instaladas em corredores entre as ruas Senador Pompeu e General Sampaio, quem tem vez é o pedestre. Este tipo de vivência que une o caminhar e o comércio também ocorre em outros pontos da Cidade, como nas lojas localizadas na rua Barbosa de Freitas, na Aldeota.

Com múltiplos comércios e serviços, as galerias se relacionam diretamente com os pedestres. Eles são o foco. Um simples trajeto para encurtar caminho pode acabar em uma compra após a descoberta de uma oferta vantajosa.

A busca por uma peça para uma câmera fotográfica levou o artista plástico Beto Gaudêncio até a galeria Pedro Jorge. Familiarizado ao lugar pelas idas até a loja de discos instalada no local, ele elogia o espaço por dar vez ao pedestre. "Facilita o acesso dos pedestres, não tem aquele aglomerado de gente. E tem de tudo aqui", comenta.

A cabeleireira Auricélia dos Santos aproveitou para comprar uma panela de pressão no Centro, enquanto o marido era atendido em uma das lojas da galeria Pedro Jorge. Para ela, as calçadas deveriam ganhar melhorias e ser padronizadas, facilitando a vida do pedestre nos acessos aos comércios da região. “A melhor coisa é procurar andando, dá mais liberdade, tem muita opção. Você acaba economizando no bolso também. Vivo comprando aqui. O shopping não compensa”, afirma.

As galerias também têm espaço para pedestres desmontados de suas bicicletas. É o caso do Gleyson Neves, que caminhava ao lado de sua “magrela”. A busca dele era por uma bíblia. "Desde os 16 anos, eu venho aqui. Antes era por coisas mais loucas, por rodinhas de skate. Agora é atrás de bíblias. Aqui é o melhor lugar para encontrar. Aqui é bom porque tem essa sombrinha (devido à estrutura coberta). Todo lugar deveria ser assim, o pessoal não invade o passeio", diz ele, hoje com 41 anos.

Para a diarista Irismar Moura, além de ser um espaço de compra, contribui para a saúde devido à caminhada. Ela passava pela galeria Professor Brandão para encomendar um par de óculos para a filha. "Agora que o médico orientou é que vou andar mesmo. Gosto de passar por aqui, e faz bem. Gosto ainda mais quando estou com dinheiro", conta ela, sorridente.

O comércio e a mobilidade urbana

Por Lucas Mota

O comércio também pode ser um instrumento de melhoria na mobilidade urbana. O diretor da Câmara de Dirigentes Lojistas de Fortaleza (CDL) e presidente da ação Novo Centro, Assis Cavalcante, defende as galerias como espaços que podem contribuir para a caminhabilidade dos pedestres. "As duas (Pedro Jorge e Professor Brandão) têm um papel importante na mobilidade urbana, pois facilitam historicamente a ligação das ruas Senador Pompeu e General Sampaio com a Praça José de Alencar. Elas contribuem para as passagens de pessoas em decorrência do comércio que se estabeleceu pela variedade", analisa.

Para o presidente da ação Novo Centro, a organização nas galerias, com os corredores livres para a passagem de pedestres, acaba atraindo as pessoas em seus percursos pela região. "Muita gente anda nas galerias porque não quer ficar nos corredores com os camelôs, como nas ruas Guilherme Rocha e Liberato Barroso, que invadem o espaço de mobilidade. As pessoas não conseguem passar com facilidade de uma calçada para outra porque os camelôs estão no meio atrapalhando", contou. As duas vias citadas por Assis abrigam, segundo ele, 1.471 vendedores ambulantes.

Artenildo Souza, mais conhecido como "Neném", é um dos trabalhadores da galeria Pedro Jorge que influenciam o fluxo no corredor. O ponto dele de conserto para óculos costuma ser movimentado. "A galeria já é conhecida em todo o Ceará. É referência. A pessoa pensa em serviço, é na galeria Pedro Jorge. E facilita pra gente, as pessoas estão constantemente passando por aqui. Se não faz na hora, para, olha, já fica na memória, e depois vem", afirma.

Vendedora de uma loja de óptica instalada na Professor Brandão, Maria das Dores explica que o fluxo de pedestres é fundamental para o comércio. "Passa muita gente, principalmente no sábado. Facilita muito pra gente esse fluxo. Se não tivesse esse fluxo, como iríamos vender? Quando as pessoas vão passando, a gente aborda. Tem muita gente que usa (o corredor) para cortar caminho e acaba se interessando por algo", cita.

Para a vendedora Gelcilene Araújo, de uma óptica da Pedro Jorge, os modais instalados nas proximidades também contribuem para o fluxo dos pedestres na região: "Passam muitos pedestres por aqui. Tem a Praça da Estação aqui perto, então já vem muita gente. Tem a Praça José de Alencar, agora com metrô, aumenta ainda mais o fluxo".

 

Centro em números

FONTE: Assis Cavalcante, diretor da Câmara de Dirigentes Lojistas de Fortaleza (CDL) e presidente da ação Novo Centro

Mais bicicletas nas ruas

São mais de 200 km de rede cicloviária e 820 estações do Bicicletar. A Cidade mudou o jeito de ver a bicicleta, o que exige mais educação e estrutura

Por Sara Oliveira

Ciclista utiliza ciclofaixa em Fortaleza (Foto: Aurélio Alves/O POVO)

Nos últimos anos, Fortaleza andou mais sob duas rodas. Sentiu mais o vento no rosto, conheceu mais as esquinas, exercitou-se mais, descobriu mais. São 208 km de rede cicloviária em cerca 50 km de ruas e avenidas. Ainda um começo para a Cidade que se construiu para veículos. Mas o caminho para as bicicletas está sendo aberto, e os ciclistas estão surgindo com demandas e desejos nunca vividos pela estrutura do trânsito fortalezense.

Desde que a Capital passou a ter estações do sistema Bicicletar, o auxiliar de escritório Vagner Freitas Coelho fez do banho de mar rotina. Economizou tempo, encurtou distâncias e, de quebra, melhorou a condição física. "Só não consegui emagrecer mesmo por causa das cervejinhas", brinca. A rotina é a mesma: sai do Novo Mondubim às 6h40min, chega à Praça da Bandeira, no Centro, às 7h15min, pega uma bicicleta e vai até a Praia de Iracema, toma um banho de mar, pega outra bicicleta e vai trabalhar. Ao meio-dia, vai de bicicleta ao Centro, almoça, resolve o que precisa e volta a trabalhar, de bicicleta mais uma vez.

"Você não sabe o estresse que eu tinha de andar em terminal. Sempre lotado. Chegava no trabalho depois de 8h30min. Meu astral está bem melhor, é uma tranquilidade", conta Vagner. Sobre a Cidade, ele destaca os perigos e os cuidados que também o acompanham na vida de ciclista. "Não dá para olhar muito a Cidade, porque tem carro e ônibus demais. Eles passam 'rasgando' e, como vou por vias que não têm ciclofaixas, com buracos, preciso de atenção", afirma. As avenidas Dom Manuel e Duque de Caxias são as mais usadas por Vagner.

 
Ocupar espaços

Para o engenheiro da Prefeitura de Fortaleza Gustavo Pinheiro, a bicicleta é uma ótima alternativa para deslocamentos de pequena e média distâncias. Isso é refletido diretamente na mobilidade urbana, uma vez que, espacialmente, a bicicleta ocupa um espaço bem menor do que o carro, por exemplo. "Fortaleza é uma cidade mais plana, com pequenos períodos de chuva. Isso a torna ainda mais propícia para a bicicleta", avalia. De acordo com ele, traz mais benefícios, para a saúde e para a redução de acidentes.

Entre 2011 e 2015, de acordo com Gustavo, houve uma redução de 57% (de 28 para 16) de ciclistas mortos. Mais bicicletas e menos carros significa também menos acidentes. "E são ações que trazem uma ocupação de segurança mesmo, porque a bicicleta ocupa espaço na via com as pessoas. Diferente do carro, em que está todo mundo ali dentro", argumenta. Segurança que pode ser constatada também com a ciclofaixa de lazer, aos domingos, que ocupa ruas antes desertas no dia não útil.

Apesar dos avanços, os desafios continuam, reconhece o engenheiro. Manter as conquistas, que vão desde o apoio populacional à ampliação da rede cicloviária. "No começo houve muita resistência, muita gente foi contra. Hoje somos referência nacional e saímos do cenário de reprovação para colaboração", pondera. A implementação do Mini Bicicletar, em junho, terá a missão de não deixar o projeto da bicicleta como meio de transporte arrefecer. Será um futuro construído desde já.

Bicicleta como meio de transporte

Por Sara Oliveira

Para o arquiteto e urbanista Euler Sobreira, professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), o sistema de empréstimo de bicicletas proporciona uma maior movimentação individual dentro da Cidade. “O Bicicletar trouxe vantagens, motivou as pessoas a usar mais a bicicleta. Mas temos problemas associados, como educação e falta de estrutura”, avalia. Ele fala da educação do motorista ao ciclista – que, mesmo não colidindo, mas passando muito perto, provoca o deslocamento de ar, que proporciona desconforto e insegurança. E também da educação do próprio ciclista em relação aos locais e fluxos das vias.

"Precisamos trabalhar mais com a bicicleta como meio de transporte mesmo. O Bicicletar facilita nesse sentido, porque a pessoa pode ir trabalhar de ônibus de manhã e, à tarde, volta de bicicleta", considera Euler, que lembra que a condição térmica de Fortaleza às vezes desestimula o ciclista. Por isso, quanto mais coberturas vegetais junto às ciclofaixas e ciclovias, melhor. Fazer com que empresas e escolas incorporem essa cultura também faria diferença, criar espaços para que as pessoas troquem de roupa após a pedalada e flexibilizar cargas horárias de trabalho podem ajudar.

"Nossa Cidade foi desenhada na velocidade do carro. Quando você passa a se transportar a pé ou de bicicleta, a velocidade é diferente, a ação do espaço urbano é diferente”, ressalta o professor. Há o cheiro dos locais, o contato mais próximo, a observação. Euler defende que esses fatores são o diferencial. “Estamos caminhando na direção correta, mas precisa ser um exercício. Mobilidade é uma questão muito importante, porque chegará um momento em que você não vai conseguir mais se deslocar", projeta. (Sara Oliveira)

 
Dados

Rede cicloviária em Fortaleza

Prefeitura promete ampliar em mais 50 km as ciclovias e as ciclofaixas em 2017
Até o fim de 2018 deverá ser implantado um anel cicloviário, com 46 km de infraestrutura cicloviária

 
Ciclovia

Espaço separado fisicamente para o tráfego de bicicletas. É encontrada principalmente em grandes avenidas ou vias expressas.

 

Ciclofaixa

Não conta com separação física. Ela se constitui de uma faixa sinalizada pintada na via. É geralmente implantada em vias de trânsito calmo.

 

Ciclorrota

Rota ou trecho (sinalizado ou não) que representa a melhor opção para o tráfego de ciclista. Na ciclorrota, bicicletas e automóveis trafegam juntos. Parte ou toda a rota pode passar por ciclovias ou ciclofaixas.

 

Bicicletar

Sistema de compartilhamento com foco no pequeno e médio deslocamento em um curto espaço de tempo. Objetivo é a rotatividade das bicicletas


Bicicleta Integrada

Criado em Fortaleza, pretende fazer a ligação do percurso inicial ou final do usuário do transporte público até o terminal de ônibus. O usuário pode pernoitar com o equipamento.


Ciclofaixa de Lazer


SERVIÇO

 

Experiências pelo mundo

Na Alemanha, em 2012, foi aprovado planejamento estratégico para fomentar o uso da bicicleta. O objetivo é em chegar a 2020 com 20% dos trajetos feitos sob duas rodas. Na cidade de Muenster, conhecida como a capital das bicicletas, cerca de 100 mil pessoas são ciclistas urbanos e a população de 500 mil pessoas possui um milhão de bicicletas.
 

O que diz o Código de Trânsito

Art. 21. Compete aos órgãos e entidades executivos rodoviários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, no âmbito de sua circunscrição:
(…)

II - planejar, projetar, regulamentar e operar o trânsito de veículos de pedestres e de animais, e promover o desenvolvimento da circulação e segurança de ciclistas. (o Art. 24 dispõe o mesmo sobre os órgãos e entidades executivos de trânsito dos Municípios)

Bike Anjo: um estímulo à locomoção

Por Lucas Mota

A Organização Não Governamental (ONG) nacional Bike Anjo desembarcou em Fortaleza em 2013 e tem ajudado a inserir novos ciclistas nas ruas da Capital. O projeto ensina as pessoas a andarem de bicicleta e estimula o uso do equipamento como meio de locomoção, e não somente de recreação. A ação é desenvolvida de forma gratuita, por meio de voluntariado.

Entre as iniciativas do projeto, a Escola Bike Anjo (EBA) é a principal desenvolvida em Fortaleza. No segundo domingo de cada mês, a ONG reúne interessados, de todas as idades, em um “aulão” na Praça Luíza Távora, na Aldeota. O Bike Anjo também ajuda ciclistas que já sabem pedalar, mas que ainda estão inseguros para sair nas ruas, segundo conta a coordenadora Ana Clara Cabral. Neste caso, o ciclista pode solicitar um instrutor voluntário e marcar um trajeto para ser acompanhado. Tudo é feito pelo site http://bikeanjo.org.

Para a coordenadora do Bike Anjo, houve melhorias na possibilidade de andar de bicicleta em Fortaleza, com a implantação de equipamentos como ciclofaixas e ciclovias, gerando maior interesse pelo modal. “As pessoas acabam vendo outras andando, e isso gera a vontade de andar também. Muita gente não sabe andar e acaba procurando o Bike Anjo”, diz ela.

Ana Clara afirma que o uso da bicicleta ainda é visto apenas como atividade esportiva e de lazer. A coordenadora do projeto em Fortaleza pontua como necessário o olhar para a bicicleta como meio de locomoção e do ciclista como mais um agente do trânsito que deve ser respeitado.

Apesar dos avanços com a implantação de equipamentos para os ciclistas, ela acredita que também é preciso avançar em questões de comportamento no trânsito. “Estamos precisando urgentemente, não só para o ciclista, mas para o trânsito em geral, de uma reeducação no trânsito. Todo mundo sabe que o trânsito em Fortaleza está caótico e extremamente violento. As pessoas são egoístas, impacientes ao extremo. Por qualquer coisa, buzinam”, afirma. No Bike Anjo, os ciclistas recebem dicas e são orientados, por exemplo, em como se portar no trânsito da Capital.

 

Serviço

Escola Bike Anjo

Pedalar em Fortaleza

Por Felipe Alves
Engenheiro de transporte

A bicicleta é o veículo sobre rodas mais antigo das cidades. Sempre foi utilizada principalmente pelos cidadãos de baixa renda e das periferias, mas agora está começando a aparecer mais em outras classes sociais, em bairros mais nobres, e sendo discutida como uma das soluções para os inúmeros problemas de mobilidade urbana.

Em Fortaleza, desde as manifestações de 2013, alguns coletivos da sociedade civil foram surgindo ou tomando força em torno do tema da mobilidade por bicicleta, e a Cidade vem passando por diversas mudanças para se adaptar melhor ao uso da bicicleta não apenas como lazer ou esporte, mas como um meio de transporte. Ampliação da rede cicloviária, sistemas de bicicletas compartilhadas e bicicletários nos terminais de ônibus são algumas das medidas que vêm melhorando a Cidade para quem escolhe se locomover pedalando.

Esse aumento de pessoas pedalando nos bairros nobres muda também o ambiente, a “cara” dos bairros. São pessoas que não estão ali apenas de passagem, trancadas em enormes caixas metálicas. Elas estão realmente habitando a Cidade, interagindo entre si, com os pedestres, com as pessoas sentadas nas calçadas. Prestam mais atenção aos estabelecimentos, especialmente os pequenos, aqueles em que é possível parar rapidamente para tomar um sorvete ou um café, sem precisar se preocupar em dar voltas atrás de vaga para o carro ou pagar estacionamento por uma simples parada de alguns minutos. Estão ocupando as ruas e, quanto mais pessoas, mais seguras ficam as ruas (inclusive para quem está dentro de um carro ou a pé ou na parada de ônibus etc).

Pedalar em Fortaleza atualmente está bem melhor do que antes, com todas as mudanças ocorridas de lá para cá. Esperamos que esta mudança continue, pois ainda não temos ciclovias/ciclofaixas em várias das principais avenidas da Cidade. Não temos lugares adequados para estacionar bicicletas, que comumente se acumulam em postes. Não temos bicicletários nas estações de metrô ou em quase nenhum dos prédios públicos – enquanto muitos estabelecimentos privados vêm se adequando para receber adequadamente os ciclistas.

Se ainda não se deu este prazer, experimente. Raramente alguém vira ex-ciclista.

Galeria de Fotos

Movimento Urbano #03

Acesse e confira a versão impressa do terceiro caderno do especial Movimento Urbano.