Editorial

Por Daniela Nogueira

No trânsito, precisamos viver em coletivo, respeitando o espaço do outro, ocupando nosso lugar de forma apropriada e compartilhando as vias, as calçadas, os meios de transporte. É nesse esquema que temos de aprender uma convivência harmoniosa e pacífica com os outros agentes que participam do percurso urbano. Nem sempre é fácil.

Neste segundo caderno do projeto Movimento Urbano, encabeçado pelo O POVO como uma contribuição para a prática da cidadania na mobilidade urbana, mostramos como o compartilhar as vias é um contínuo aprendizado. Precisamos sempre pôr em prática nossa ação no combate à guerra que se faz no trânsito a cada dia, mais e sempre.

Sejamos ciclistas, motociclistas, motoristas, pedestres, passageiros, todos temos nossa responsabilidade ante o lugar do outro. E não nos esqueçamos: o mais forte deve sempre proteger o mais fraco. É o motorista do ônibus que deve respeitar o ciclista. É o motorista do automóvel que deve cuidar do motociclista. É o motociclista que tem de parar para o pedestre passar. É o pedestre que tem de ser visto com atenção. Ele é sempre a parte mais frágil. E, sim, somos todos pedestres.

Com essa ideia em xeque, a Organização Mundial da Saúde (OMS) listou seis razões principais que ajudam na exposição da ameaça aos pedestres. Dentre eles, o comportamento - do condutor e do pedestre -, o projeto viário e o planejamento do uso do solo. Em matéria nas páginas 8, 9 e 10, discutimos como as ações para a melhoria da caminhabilidade estão sendo aplicadas.

Além disso, um infográfico detalhado e informativo lembra direitos e deveres do motociclista - um dos atores que merecem especial cuidado no trânsito. De acordo com o Relatório Anual de Acidentes (2016) divulgado pela Prefeitura de Fortaleza, os motociclistas foram os que mais saíram feridos de acidentes em 2015, com cerca de 64% dos casos na Capital.

Para acompanhar todo este projeto, também na versão digital, basta acessar: http://especiais.opovo.com.br/movimentourbano/
Lá estará todo o conteúdo impresso dos oito cadernos, além de galeria de imagens e material extra.

A paz no trânsito deve ser buscada sempre. Cabe a nós estimularmos essa ideia.

Boa leitura!

Compartilhar as ruas

Os atores do trânsito de Fortaleza precisam conviver, dividir e compartilhar todos os dias nas idas e vindas da Cidade

Por Sara Oliveira

Antônio Duarte, motorista de ônibus

Motoristas, passageiros, motociclistas, ciclistas, pedestre. Cada um no seu quadrado? Não. No trânsito, a convivência pacífica desses atores se reflete na segurança de todos. Cada um tem seu papel, é verdade, mas o fluxo só funciona quando nos percebemos no lugar do outro. Quando saímos da faixa exclusiva e vemos a ciclofaixa. Quando descemos do carro e caminhamos. A relação entre os que compartilham o trânsito faz a prática da cidadania chegar ao asfalto e às calçadas e até incentivar a criação e o cumprimento de políticas públicas.

"Fui motoqueira quando era estudante, há 35 anos, quando Fortaleza era outra cidade. Tinha preconceito, os ônibus tiravam 'fino', diziam palavrão. Depois, fui morar em outro estado e aprendi a andar de ônibus. Dois anos depois, comprei um carro. Mas hoje, ando mais a pé mesmo", detalha a engenheira Cacilda Silva de Girão, de 57 anos. Moradora do bairro Meireles, ela é exemplo de que se colocar no lugar do outro é fundamental para entendê-lo.

Os percursos cotidianos pelo bairro agora só precisam dos dois pés e da simpatia para fazer amigos por onde anda – o que estimula a sociabilidade. Cacilda também coleciona causos de desrespeito. “Eu já fui atropelada duas vezes de bicicleta que vem na contramão”, diz. Ela sabe que o pedestre é a parte mais fraca na rua e que, mesmo com sinalização, ainda há falta de respeito. "Ninguém vê isso. Acontece muito de o carro estar no meio do quarteirão e, quando vê o sinal amarelo, em vez de diminuir, acelera para passar", conta.


No ônibus

"Nós, que trabalhamos com carro grande, temos de proteger quem é menor", lembra o motorista de ônibus Antônio José Duarte Nogueira, de 43 anos, há seis como condutor de um transporte coletivo na Capital. Para ele, prevenir acidentes de dentro do ônibus significa se antecipar a qualquer ação negativa por parte dos outros integrantes do trânsito. "O motociclista normalmente tende a ‘cortar’ os ônibus, mas nem sempre tem noção de espaço. Quando a gente percebe, se contém e deixa que ele vá", comenta.

Ele corrobora com a ideia de que o trânsito só irá melhorar quando nos colocarmos no lugar dos outros. Inclusive ao reconhecer as "fraquezas" de cada um para que possamos nos antever. "Quando estou como pedestre, vejo que há também muita desatenção das pessoas ao atravessar as ruas", avalia o motorista. O Centro é um dos bairros com mais problemas desse tipo, segundo Antônio. Ele ressalta: "Com o ciclista, por exemplo, já temos em mente que precisamos ficar a 1,5 metro de distância".

O mais forte deve proteger o mais fraco

Por Sara Oliveira

"A diferença não é qualitativa, mas, sim, da posição em que nos encontramos, compreendendo que naturalmente transitamos em várias posições no dia a dia", analisa a arquiteta Laura Rios. É só a partir dessa compreensão, segundo ela, que a responsabilidade diante do todo surge, colocando a necessidade de os mais fortes protegerem os mais fracos.

"É por isso que as leis de trânsito nos conduzem a respeitar e a nos responsabilizar por aqueles que estão em posição mais vulnerável: o motorista deve dar preferência sempre ao ciclista, que deve dar preferência ao pedestre, e assim vai. Se você se encontra em uma posição privilegiada, é seu dever cuidar daqueles que encontram em situação menos favorável", considera ela, que é coidealizadora do projeto Estar Urbano.

Fortaleza é a soma de todos os atores. Não há divisão. É mistura. De acordo com a arquiteta, se os conflitos acontecem, é porque quem faz parte dele segue a linha do "meu espaço, seu espaço; meu direito, seu dever". Analisando a relação entre eles na Cidade, é preciso destacar a história do local, a ocupação e sua influência no crescimento físico. "Fortaleza deu um salto gigantesco em tamanho e em importância da década de 1970 para cá. É uma cidade nova e relativamente planejada estruturalmente. Hoje é uma cidade grande, mas sua população ainda não se situou nesse formato e se encontra em situação menos favorável", analisa Laura Rios.


Do ônibus, a sensibilidade
Os aspectos comportamentais do motorista de ônibus em seus relacionamentos com os demais atores do trânsito são trabalhados em treinamentos. Os profissionais são sensibilizados na prática, com vivências que os permitem estar na condição de ciclista, motociclista, pedestre e passageiro. É o que garante a gerente administrativa e financeira do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Ceará (Sindiônibus), Maria José Luz.

Dentre as dificuldades enfrentadas cotidianamente nas ruas, Maria José destaca situações em que, para ela, as pessoas não demonstram onscientização  de garantir a própria segurança. "Quando o pedestre tem a possibilidade de utilizar uma passarela ou calçada, mas prefere caminhar pela rua; quando o motociclista faz manobras perigosas e em alta velocidade; quando o ciclista, por vezes, anda na contramão ou não utiliza a faixa exclusiva destinada a ele", exemplifica. (Sara Oliveira)

 

O que diz a Declaração de Brasília

Com a missão de mudar o paradigma do debate sobre o trânsito no mundo, a Declaração de Brasília foi aprovada em 2015 em encontro com 130 países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU). Foi a primeira vez que um compromisso internacional deu ênfase ao transporte público como forma de aprimorar a segurança. As metas do documento são de, até 2020, reduzir pela metade o número de mortes e lesões causadas pelo trânsito e de aumentar de 15% para 50% o percentual de países com legislação abrangente sobre os cinco fatores de risco: não uso de cinto de segurança, de capacete e de dispositivos de proteção para crianças, a mistura de álcool/direção e excesso de velocidade.


Experiências pelo mundo

Em 2016, a cidade de Portland, nos Estados Unidos, criou o programa Visão Zero. Nele, havia a proposta de as vias terem a velocidade reduzida e, assim, zerarem os acidentes fatais, principalmente os que envolvem pessoas que não usam veículos motorizados. Foi a primeira vez que pedestres e ciclistas foram considerados nos cálculos que definem os limites de velocidade. Portland é conhecida como "a cidade das bikes".

Caminhada com segurança

Organização Mundial da Saúde (OMS) elenca principais fatores que contribuem para a exposição a ameaças aos pedestres e apresenta soluções. Arquitetos avaliam medidas e indicam ações para a melhoria da caminhabilidade

Por Lucas Mota

Foto: Aurélio Alves/O POVO

Os pedestres são os que mais morrem no trânsito, aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS). Diante do cenário preocupante, têm surgido cada vez mais iniciativas nas políticas públicas de mobilidade urbana das grandes cidades, que valorizem este agente que compõe o trânsito. Em Fortaleza, o grupo representou a maioria das vítimas (37,8%) dos acidentes, conforme os dados do Relatório Anual de Acidentes na Capital, em 2015, divulgados pela Prefeitura.

A falta de cuidados com os pedestres pode atingir diretamente os cofres públicos. A severidade dos acidentes que envolvem este agente é elevada e causa enorme pressão no sistema de saúde. Conforme a OMS, calcula-se que os acidentes de trânsito custem aos governos o equivalente de 1% a 3% do seu produto nacional bruto; esses números, no entanto, podem chegar a 6%. Em Fortaleza, a Prefeitura gastou cerca de R$ 500 milhões em 2015 devido a essa problemática.

Pensando no caminhar seguro, a OMS elencou os principais riscos para os pedestres e, a partir deles, apresentou soluções. Os seis fatores que aumentam a exposição a ameaças são o comportamento do condutor; o comportamento do pedestre; o projeto viário; o planejamento do uso do solo; o design de veículo; e o atendimento às vítimas. Dentre as medidas que podem ser adotadas, destacam-se a redução de velocidade nas vias, a coibição da condução sob efeito de álcool, campanhas de educação aos pedestres e motoristas, intervenções viárias estruturais, o planejamento das cidades para que residências e estabelecimentos estejam próximos uns dos outros e a otimização dos sistemas de atendimento às vítimas.

Uma redução de 5% na velocidade média pode resultar em diminuição de 30% no número de acidentes fatais, indica o estudo da OMS. Em concordância com o indicado pela Organização, o pedestre virou o foco de ações recentes em Fortaleza, como a Área de Trânsito Calmo nos bairros Rodolfo Teófilo e Cidade 2000 e no entorno do Hospital Infantil Albert Sabin, no Vila União, onde a velocidade máxima permitida é de 30 km/h. Vias coletoras da Capital também receberam sinalização de velocidade máxima de 40 km/h, enquanto outras ruas e avenidas reduziram a velocidade de 60 km/h para 40 km/h.

A arquiteta e mestranda em Engenharia de Transporte na Universidade Federal do Ceará (UFC) Lara Lima avalia como positivos os pontos apresentados pela OMS diante da fragilidade do pedestre. Para a urbanista, a redução de velocidade nas vias aliada a estruturas que facilitem a travessia, como minicanteiros, faixas de pedestres e passarelas, além de educação e fiscalização, podem tornar o espaço público cada vez mais convidativo à caminhada.

"O pedestre como modo de transporte é o mais vulnerável e deve ser priorizado pelo Poder Público. É preciso implantar todas as estruturas para uma travessia segura. A faixa de pedestre é a solução mais acessível. Ainda falta consciência do passeio como lugar privilegiado para que as pessoas possam trafegar. Ações no desenho urbano das vias e no uso do solo podem também favorecer uma caminhada segura", afirma ela.

Valorização do pedestre

Por Lucas Mota

A arquiteta e mestranda da UFC Luana Ferreira Cavalcante propõe uma discussão do pedestre fora do enquadramento de modal. A urbanista acredita na importância dos pontos levantados pela OMS, mas as ações precisam estar mais voltadas para a valorização do espaço do pedestre do que a prevenção. Ela destaca o planejamento do uso do solo como fator determinante no cenário deste agente do trânsito.

"Somos pessoas. Não gosto de falar no pedestre como mais um modal nessa dinâmica do trânsito. Em vez de trabalhar com a prevenção de acidentes, que é importante também, desenhar calçadas caminháveis para todos já é um grande incentivo para as pessoas andarem. Não andam porque não dá para andar. O pedestre não tem o espaço dele; se tiver apropriado, ele não vai disputar com os outros modais", argumenta.

Regiões conectadas e acessíveis são defendidas pela urbanista. Segundo Luana, é necessário pensar em um plano de acessibilidade para pessoas com deficiência, em que todos possam utilizar o mesmo espaço, além do cuidado com a manutenção do local público. "Há dois problemas. Um é que a gestão tem de manter e cuidar de uma área territorial gigante. O segundo problema é o sentimento das pessoas que não têm o espaço público como delas também. Esse vínculo não existe", pontua.

Além disso, a arquiteta destaca a importância de estudos de conforto ambiental, principalmente numa cidade como Fortaleza: "É uma cidade muito quente, não é todo mundo que aguenta esse calor, falta arborização, proteção contra o clima. É necessário estimular o maior sombreamento do térreo. O pedestre seria mais convidado a andar na chuva ou no sol. Hoje, temos espaços residuais com canteiros com larguras incabíveis para a raiz de uma árvore. A vegetação de Fortaleza que sobrou é de outra época e aguentou. A reconstrução do espaço do pedestre deve ser alinhada com a questão do conforto".

 

Experiências pelo mundo

Em Nova York (EUA), espera-se que até 2030 a cidade consiga reduzir as mortes anuais no trânsito em até 50%. A meta é salvar 1.600 vidas. Serão implantadas mais de 75 zonas com velocidades de 30 km/h próximo a escolas. No município de Freiburg, na Alemanha, o limite de velocidade diminuiu para 30 km/h em 90% das vias. Com a medida, 24% dos percursos diários passaram a ser feitos a pé, 28% de bicicleta, 20% de transporte coletivo e 28% de carro.

Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS)

 

Competências do três Poderes no trânsito

 

 

Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS) e Departamento Estadual de Trânsito (Detran)

A maior falta que o metrô nos faz

Por Geísa Mattos
Professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC)

O tempo perdido em engarrafamentos é só a face mais visível do problema que a falta de transporte público de qualidade causa a Fortaleza. A prevalência do transporte individual causa outro efeito grave. Os cerca de um milhão de carros, motos e caminhonetes disputando espaço nas ruas da Cidade acentuam os símbolos de desigualdade social: a sensação de que uns têm mais direito à Cidade do que os outros.

E não penso só no tamanho das caminhonetes tão ao gosto da classe média em Fortaleza – o que, por si, já é um símbolo de como as pessoas procuram exibir status com a ocupação de mais espaço físico na Cidade com estes carros enormes. “Do alto”, os ricos ignoram a maioria da população que se aglomera nas paradas de ônibus sob o sol forte, nos terminais que cheiram mal e no empurra-empurra dentro dos coletivos.

O isolamento físico da classe média enquanto se locomove pela Cidade tem efeitos danosos para nossa dita “civilidade”. É a ausência de uma pedagogia diária de igualdade e dignidade a maior falta que um metrô abrangente e eficiente faz à Cidade.

Pude experimentar isso quando vivi em Nova York, onde a grande maioria da população, independentemente da classe social, utiliza o metrô como meio de transporte: as pessoas são continuamente ensinadas a dividir os espaços em comum. Os trens são dignos. Com isso, a noção de respeito mútuo cresce. Estamos juntos ali, seguindo para o trabalho, para a diversão, colados uns aos outros, mas em vagões climatizados, em estações bem cuidadas. Podemos ter a grata surpresa de ótimos músicos tocando por ali e contribuir para que continuem fazendo isso. Ainda que possamos nos isolar pelo uso dos fones de ouvido, nossos corpos respiram o mesmo ar de cidadania.

O compartilhamento rotineiro do espaço físico dentro do transporte coletivo é tanto conquista de direitos sociais básicos quanto modo de produzir continuamente a consciência de que o outro vale tanto quanto eu. Em Fortaleza, estamos perdendo não só tempo e dinheiro público com as obras paradas da Linha Leste do metrô e do VLT, mas oportunidade de aprender dignidade, respeito mútuo e cidadania.

 

 

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Movimento Urbano #02

Acesse e confira a versão impressa do segundo caderno do especial Movimento Urbano.