capa movimento 2018

Editorial

Por Kelly Hekally

Chegamos ao sexto e último caderno da série Movimento Urbano. Durante as últimas quintas-feiras, O POVO reservou espaço para linhas que trilharam caminhos fortalezenses de mobilidade urbana. Nas páginas que passaram por inúmeros olhos e interpretações, avanços e ações que fizeram de nossa Capital uma das grandes referências no tema. Obedecendo ao fluxo natural do jornalismo, lançamos mão, também, de espaços para críticas e apontamentos de melhorias.

 Esta publicação encerra o projeto Movimento Urbano com histórias de delicadezas que tiveram início a partir da bicicleta. Personagens contam-nos como o modo de deslocamento abriu precedentes para que eles enxergassem, nas ruas, razões para começos e superações. Na sequência, como consolidar a mobilidade urbana na Capital. Mais malha cicloviária, calçadas de qualidade, metrôs, viadutos: Quais as soluções corretas e como elas devem ser implementadas?

 Os benefícios criados pelo poder público municipal também estão em pauta. Saiba como utilizar e adquirir serviços com foco na mobilidade. Ao final, entenda quais as percepções do diretor-financeiro da União de Ciclistas do Brasil (UCB) acerca do cenário local. Um dos fundadores da Associação de Ciclistas Urbanos de Fortaleza (Ciclovida) e mestrando em Engenharia de Transportes, o engenheiro civil Felipe Alves bateu um papo técnico e humanizado sobre mobilidade urbana.

 Encerramos, assim, mais um ciclo de vivências, experiências e conhecimento sobre mobilidade urbana. Desejamos que o folhear das páginas que já se seguiram ou mesmo das que seguem por ora levem-nos, leitor ou leitora, a enxergar a Cidade como uma bela memória que deve ser perpetuada pelos contos de ontem, hoje e amanhã, tenham eles sido vividos nas ruas, nas praças, no transporte coletivo, em bicicletas ou qualquer outro modo de deslocamento capaz de fazer você sentir que nossa Fortaleza pulsa.  

Relacionamentos sobre rodas

No emaranhado das ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas de Fortaleza, pessoas se conhecem, passeios são marcados e trajetos realizados. Conheça histórias de quem se aproximou por meio da bicicleta

Por Sara Cordeiro

Sobre duas rodas, entre idas e vindas pela Cidade, relações são iniciadas, construídas ou mesmo fortalecidas. Há quem diga que relacionamento, seja ele de que tipo for, é como andar em bicicleta de dois - um precisa acompanhar o ritmo do outro para que o caminho seja percorrido de uma maneira fluida. O analista de sistemas Micael Estrávulas, 34, que pedala desde criança e é ciclista urbano há três anos, é exemplo de quem conquistou amizades por meio da bicicleta: a também analista de sistemas, Rafaela Melo, 37, e a produtora cultural, Luana Holanda, 38. Rafaela começou a pedalar em 2015. “Estava pegando muito engarrafamento. Foi quando pensei na possibilidade de ir de bicicleta. Comecei a ir ao trabalho de uma maneira mais prática e rápida.”

Ela morava próximo à ciclovia da avenida Washington Soares, em Fortaleza, quando conheceu Micael. “Diariamente, passava por lá para ir ao trabalho. A ciclovia estava tomada de galhos de árvore. Desci da bicicleta, bati algumas fotos e publiquei em um grupo voltado a ciclistas, na internet. O Micael veio conversar comigo no inbox. A partir daí, nos juntamos para limpar o lixo”, conta. O analista de sistemas diz que, desde então, percebendo que realizavam o mesmo percurso, eles passaram a ir juntos ao trabalho. “Ficamos grandes amigos.” Rafaela afirma que, além de fazer o mesmo percurso, ela começou a ajudá-lo nas competições. “O Micael é atleta e eu passei a ser sua staff, pessoa que ajuda, faz foto, entrega as coisas, água e etc.”

Em abril de 2018, o analista de sistemas sofreu um acidente. “Ele estava pedalando. Havia um fio baixo caído na ciclovia. Micael não o viu e acabou sendo atingindo, fraturando o cotovelo e a mão. Ele me ligou e fui socorrê-lo. Eu o acompanhei no hospital durante e depois da cirurgia.” Rafaela diz que o vínculo entre eles se fortaleceu ainda mais quando sua mãe faleceu. “Ele estava comigo em um dos momentos mais difíceis da minha vida. Um cuidou do outro. Foi um irmão e me ajudou quando precisei. Isto me fortaleceu”, confessa.

Já a amizade de Micael com Luana Holanda começou de maneira mais delicada. A produtora cultural conta que começou a pedalar ainda criança. Em maio de 2018, ela foi atropelada enquanto pedalava na ciclofaixa da avenida Antônio Sales, em Fortaleza: um ônibus atingiu Luana, que passou meses internada no Instituto Dr. José Frota (IJF) e acabou amputando a perna direita. “Fazíamos a mesma rota, mas eu não a conhecia. No dia do acidente, eu passei, vi a cena, fiquei assustado e me sensibilizei. Passei a ouvir podcasts que contavam histórias de mulheres, uma delas era Virginia Hall, uma moça que perdeu a perna e virou espiã, na Segunda Guerra Mundial. Resolvi mandar para Luana via redes sociais”, relata Micael.

O analista de sistemas diz que, a partir daí, os dois começaram a conversar. “Não nos conhecíamos pessoalmente, mas criamos um vínculo muito forte. Sou atleta e admiro esportistas que possuem alguma deficiência. Qualquer coisa que eu acho, envio para ela.” Luana fala que, quando estava no hospital, recebia muitas mensagens de apoio e respondia a todas. Uma delas era a de Micael, que conheceu pessoalmente, na Praça Luíza Távora, por ocasião da reportagem. “O Micael continuava a mandar e eu pensei ‘Poxa, que cara chato”, mas sempre respondia. Ele falou que passava na via instantes após o atropelamento. Bela maneira de se conhecer alguém, não é? (sic).”Luana conta que soube depois que Micael sentiu-se mal com o que aconteceu a ela, em parte também por ser ciclista, e até brigou com um colega para defendê-la. “Se alguém lhe defende pelas costas, mesmo sem lhe conhecer, esse alguém merece sua atenção e consideração até o fim. Assim fiz e nos tornamos amigos.”

Luana diz que, hoje, Micael é seu maior incentivador. Ela afirma que as atitudes do amigo ajudaram-na a ser destemida. “Ele pedala muito, sou muito fã dele. Acompanho os treinos e vitórias e torço e fico feliz junto.” A produtora cultural conta como os incentivos de Micael trouxeram a ela vontade de seguir em frente. “Faz com que eu não sinta medo de pedalar novamente. Eu o chamo de sorte dentro do azar. Azar de ter perdido parte da perna, mas sorte por tê-lo encontrado no meio disso tudo. Sempre que consigo evoluir na recuperação, tenho alguém para dividir e comemorar junto. Mas há um momento muito importante que está guardado pra ele, que é a volta para o pedal”, finaliza.

Trajeto e cidade mais alegres

A cadista de escritório de arquitetura e urbanismo Mara Oliveira, 29, começou a pedalar há pouco mais de quatro anos. "Eu morava perto do trabalho e não tinha linha de ônibus perto de casa". Foi em virtude da circunstância que pediu a bicicleta de um amigo emprestada e começou a ir para o trabalho pedalando. "Em questão de semanas, experimentei ir para a faculdade, que era um percurso mais longo. Adotei a bicicleta como meio de transporte e deixei de andar de ônibus e carro."

Mara conheceu o noivo, o estudante de Educação Física Filipe Koeche, 21, em Recife, no Fixolimpiadas, evento nacional de bicicleta. Eles já estão juntos há um ano. "Por ser um encontro nacional, havia gente de várias partes do Brasil. Era um evento de cinco dias. Ficamos conversando e nos conhecendo. Por fim, ele acabou vindo para Fortaleza.” A ciclista diz que o noivo competia em eventos de bicicleta e que ela tinha perfil semelhante. “Quando nos conhecemos, eu o convidei para um desafio de 500 quilômetros de percurso. Foi com duas rodas que começamos a construir esse relacionamento. Hoje, moramos juntos com cinco bicicletas e tudo que fazemos as envolve."

Os dois, conta Mara, fazem tudo de bicicleta. “Vamos ao barzinho, ao trabalho, saímos para jogar bike polo, um esporte em cima da bicicleta. Passeamos juntos e, quando estamos um pouco estressados, saímos no fim de semana para um pedal mais longo”. Ela diz que todos seus planos incluem a bicicleta. “Há um passeio que gostamos muito. Pegamos a bicicleta cedinho e vamos até a Taíba, a 75 km de Fortaleza. É uma estrada muito boa e gostamos. É legal fazer esse percurso pedalando”.

Up na interação

Mara diz que programas de bicicleta também a ajudam a conhecer mais pessoas – ela conta que tinha dificuldades de se relacionar e sair de casa, visto que era muito tímida. “Hoje, sou mais sociável. As pessoas me perguntam onde comprei a bicicleta ou como ela funciona. É um assunto que qualquer pessoa e em qualquer lugar pode conversar. Então, passei a ser mais interativa”, relata. 

Filipe pedala há cinco anos. “Comecei na época em que sofria de depressão. Isso me ajudou com a interação social. As pessoas de bicicleta sempre têm algo em comum e falam sobre temas do mesmo interesse.” O estudante evidencia que por dois anos pedalou sozinho, mas que a bicicleta abriu novos relacionamentos.

"Há muitas coisas que eu e o Filipe fazemos. Vivemos a vida em relação à bicicleta. Conhecemos lugares com esse tema, como cafés e bares, que dão desconto para quem chega pedalando." Mara, conta que eles acabam por criar uma vida social relacionada à bicicleta. Para ela, existe uma interação não só com quem está pedalando, mas também com a rua, com as pessoas que estão passando ou conhecidos. "Andando de bicicleta, percebemos que a parte social fica bem mais fluida. O trajeto e a cidade acabam ficando mais alegres", finaliza. 

Para consolidar a mobilidade urbana em Fortaleza

Nos últimos anos, houve avanço nas políticas de mobilidade urbana na Capital, mas ainda existem pontos a serem melhorados. Especialistas apontam fatores para a consolidação dessas iniciativas

Com 255,1 quilômetros de malha cicloviária, entre ciclovia, ciclofaixa, ciclorrota e passeio compartilhado, Fortaleza tem se destacado quando se fala em mobilidade urbana. Ações voltadas para essa área também incluem implantação de binários, faixas exclusivas para ônibus, travessias elevadas para pedestres, faixas de pedestre em diagonal, sistemas de bicicletas compartilhadas e construção de linhas de metrô. Porém, a expansão das iniciativas de mobilidade para toda a Cidade é um desafio para o poder público municioal.

Yuri Pezeta, desenvolvedor web e membro do coletivo Direitos Urbanos Fortaleza, argumenta que a Prefeitura segue diretrizes corretas em relação à mobilidade urbana. Ele, contudo, pondera que as ações realizadas pela equipe do Plano de Ações Imediatas de Transporte e Trânsito (Paitt), ligado à Secretaria de Conservação e Serviços Públicos de Fortaleza (SCSP), não chegam a todos os bairros. “São coisas pontuais que às vezes têm muita mídia, mas que não refletem a maioria da Cidade.”

Secretário-executivo da SCSP e coordenador do Paitt, Luiz Alberto Sabóia reconhece que expandir as ações é um desafio para a Prefeitura. “Dado os desafios de recursos que uma cidade como Fortaleza sempre tem, temos optado por ser muito focados no diagnóstico para priorizar as áreas que começam a receber e depois expandir isso como política pública”, afirma. Os locais onde as intervenções acontecem inicialmente são definidos com base em dados como atração de pessoas, ocorrência de acidentes e saturação do trânsito, além do tipo de via, explica o secretário.

Sabóia pondera que Fortaleza está passando por uma mudança de paradigma e encarando a mobilidade urbana como uma realidade que vai além do que fluxo de veículos. A saúde pública, defende o secretário, é um dos fatores que podem ser impactados positivamente. “Hoje, olhamos para mobilidade como um fator que tem relação fortíssima com a saúde pública. Pensamos exatamente em como ela pode ajudar, na ponta, a saúde do município”, afirma. Sabóia lista como expoentes da SCSP segurança e humanização do trânsito; priorização do transporte público e proteção e estímulo aos modos de transporte sustentáveis. A mudança de posicionamento, porém, não exclui obras para melhoria do fluxo de carros, aponta o titular da pasta. O investimento em túneis e viadutos, entretanto, é uma crítica da sociedade civil organizada. Diretor da Associação dos Ciclistas Urbanos de Fortaleza (Ciclovida), o artista visual Daniel Neves destaca como positivos o Paitt, mas critica a realização de obras que não têm como prioridade o deslocamento ativo. "Ainda vemos muitos túneis, viadutos e obras que, nas concepções de mobilidade urbana mais atuais, são bem defasadas." 

Apesar de reconhecer “que, como elemento de mobilidade, o automóvel individual não ajuda”, Sabóia afirma que os usuários de carros e motos também devem ter suas demandas atendidas. 

Melhorias

Reconhecendo a atuação da Prefeitura em prol do transporte público, o professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mário Azevedo, aponta a necessidade de aprimoramento. Exemplos citados por ele são o funcionamento do metrô e o BRT da avenida Bezerra de Menezes. Segundo Azevedo, a melhor eficiência do equipamento está relacionada à exclusividade da via e ao embarque e desembarque rápidos. 

“A ideia de um BRT é fazer um sistema parecido com um metrô, mas gastando menos. O metrô tem a linha para ele, então vamos fazer uma faixa exclusiva para esse ônibus. As faixas exclusivas para o BRT não são assim tão exclusivas. Tem linhas de todos os tipos, ônibus de todos os tamanhos. E, quando chega à estação, se tiver muita gente para entrar, vai ter que parar mais porque não consegue todo mundo 

entrar”, explica. 

Uma medida para que o deslocamento torne-se mais rápido, de acordo com o professor, é o aumento da distância entre paradas de ônibus, acompanhado de calçadas acessíveis a todos os pedestres. Para a consolidação de políticas públicas de mobilidade urbana, Neves sugere a criação de um conselho para que a sociedade civil possa debater o tema. “Em especial o transporte ativo, bicicleta e a pé, e que englobe também questões como acessibilidade, calçadas, arborização.” Além disso, Neves destaca a importância de estabelecer como permanentes iniciativas como o Paitt, que, de acordo com Sabóia, já é definitivo.

Segurança no trânsito

No quesito amplitude da malha cicloviária, Fortaleza se posiciona em quarto lugar em ranking nacional, ficando atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Para Neves, porém, os números não são a questão mais importante: ele aponta que localmente faltam, por exemplo, mais Áreas de Trânsito Calmo, que têm velocidade máxima de 30 km/h e intervenções como travessia elevada e prolongamento de calçada. 

“Por certo período, até nós do movimento cicloativista achávamos importante ter uma malha cicloviária grande. Lógico que queremos mais ciclofaixas, uma malha cicloviária que seja mais integrada, mais forte, mas não acreditamos que isso seja a coisa mais importante, porque, quando se fala de malha cicloviária, acaba reduzindo toda essa questão de segurança viária a números”, argumenta.

Durante 2017, aconteceram 20.309 acidentes com mortes, feridos ou perdas materiais, segundo o relatório Anual de Segurança Viária de Fortaleza de 2017, lançado em setembro de 2018 — último disponível sobre o assunto. O número representa queda de 26% em relação aos 27.492 casos registrados em 2016. Sabóia explica que, para diminuir os índices de acidentes e mortes, a Prefeitura atua em quatro pilares: fiscalização, comunicação, desenho urbano e dados.

Entre as ações, estão iniciativas voltadas para a educação, que podem ter objetivos em curto prazo — como fiscalização focada em problemas tratados em campanhas de conscientização — e em longo prazo, como o projeto Caminhos da Escola, lançado pela Prefeitura em dezembro de 2018. A iniciativa visa à implantação de mini Áreas de Trânsito Calmo no entorno de escolas municipais, iniciando com pelo menos seis instituições. “Além disso, estamos em diálogo com a Secretaria Municipal de Educação para introduzir no currículo escolar o tema segurança viária em várias disciplinas, de forma continuada”, complementa.

Problema a ser prevenido

De acordo com Mário Azevedo, professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), a demanda por deslocamento acontece pelo crescimento da cidade e pela concentração, em uma área de pessoas de baixa renda, que prestam serviços em outra região com maior densidade de pessoas de alta renda. “Seria bom se todo mundo morasse no mesmo quarteirão, tanto o estudante quanto o professor, tanto o freguês do restaurante quanto o garçom. Mas não é assim. [...] Com esse deslocamento, você está chamando necessidades de transportes que cada vez custam mais caro, porque às vezes só um sistema de ônibus normal não resolve, precisa de um BRT, [depois] nem o BRT está resolvendo, precisa de um metrô."

Para o professor, é necessário que, em longo prazo, haja controle da ocupação da Cidade. “O que é um grande problema, porque quanto mais você pode ocupar um determinado local na cidade, mais valorizado ele é, mais valioso é o terreno e mais valioso é o prédio que está lá. Então, é difícil porque acaba mexendo com interesses de muitas pessoas. [...] Mas, se deixar por conta do mercado, daqui a pouco a Cidade é inabitável, não roda mais, vai estar toda congestionada e o terreno vai diminuir de preço de qualquer maneira.”

Outra opção de deslocamento

Mais uma opção de transporte coletivo, o metrô também está incluso na mobilidade urbana. Em Fortaleza, o equipamento conta com as linhas Sul e Oeste e o VLT Parangaba-Mucuripe. As obras da linha Leste, que ligará o Papicu ao Centro, estavam paradas desde 2015 e a ordem de serviço para sua retomada foi dada no último mês de novembro. Com 24,1 quilômetros de extensão, a linha Sul interliga Fortaleza, Maracanaú e Pacatuba enquanto a Oeste interliga Fortaleza e Caucaia e tem 19,5 quilômetros de extensão. O VLT Parangaba-Mucuripe, que está operando de forma assistida (sem cobrança de tarifa), integra-se ao sistema de ônibus da Prefeitura e às linhas do metrô. São previstos 13,2 quilômetros de extensão. 

Para Yuri Pezeta, membro do coletivo Direitos Urbanos Fortaleza, apesar de ser um bom transporte, o metrô é uma opção cara. “Acho que, com o orçamento mais baixo, conseguimos ter um benefício bom, não ao nível do metrô, utilizando o ônibus, fazendo corredores de ônibus.” Ele argumenta, porém, que essa iniciativa depende de poder político, uma vez que é retirado espaço dos carros para as faixas exclusivas. “Acredito que com ônibus modulado a gente consiga trazer muitas pessoas das áreas metropolitanas para o centro, que daria para suprir a demanda e ajudaria a diminuir o trânsito também.”

Ponto de vista 

Entre 19 e 29 anos de idade, utilizei o carro para deslocamentos a partir de cinco quarteirões. Esse era meu parâmetro (que vergonha!). Em 2015, sobretudo por razões financeiras, comecei a utilizar a bicicleta e realizar mais trajetos de ônibus ou mesmo a pé. Mas, penso eu, só no segundo semestre de 2018, entendi e comecei a aplicar em meu cotidiano o real significado de mobilidade urbana. “As pessoas precisam entender que o modo como vão se locomover depende da característica do deslocamento que se vai realizar”, disse-me um amigo.

Há cerca de quatro meses, a forma como vou de um ponto a outro passou a ser variante e a obedecer a uma espécie de cronograma: nos dias úteis da semana – voltados prioritariamente para o trabalho – bicicleta, ônibus e carro são meus instrumentos de percurso. A decisão, em geral, está vinculada ao horário em que vou sair de casa e voltar para ela. Moradora de um bairro em que, ainda bem, não faltam paradas e frotas de transporte público, iluminação satisfatória, shoppings centers e pessoas para lá e para cá, entretanto, admito não ter sido tão difícil chegar a essa estratégia. Os preconceitos que giram em torno do uso de ônibus (aquele raciocínio analógico e deselegante, por exemplo, de que “ônibus é coisa de quem não pode ter um carro”) passaram longe de retardar minha adesão a essa dinâmica.

Acredito que, no meio disso tudo e de todas as dúvidas e exigências que nos tomam diariamente, a quebra de uma ideologia silenciosa que cresce conosco e nos toma – a de que seu carro é um dos locais mais seguros para você e para os seus – a segurança, que tende a ser mais eficaz na medida em que há mais pessoas nas ruas, e a cultura separatista sustentada durante décadas contribuíram para esse delay. Ver Fortaleza capilarizando o acesso a um deslocamento mais democrático, qualitativo e humano enche minha veia cidadã de esperança e me faz desejar que mais e mais pessoas percebam que as ruas, as praças e o transporte público são de todos. A cidade deve existir para todos. Então, que façamos nós usufruto do que nos pertence.

- Kelly Hekally, jornalista do O POVO   

 

"Se as pessoas tivessem empatia, leis não seriam necessárias"

Diretor da UCB, o mestrando em Engenharia de Transporte Felipe Alves fala sobre ações locais em mobilidade urbana e problemas ainda presentes no trânsito da capital cearense

Por Joyce Oliveira

O gosto pela bicicleta veio ainda na infância. Com o passar do tempo, o pedal passou a ter outro significado para o engenheiro civil Felipe Alves: o interesse pela bicicleta levou-o ao mestrado em Engenharia de Transportes, pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Ativista desde que começou a pedalar pelas ruas de Fortaleza, Alves passou a integrar movimentos da sociedade civil que lutam pela mobilidade urbana. Um dos fundadores da Associação de Ciclistas Urbanos de Fortaleza (Ciclovida), criada em 2013, o engenheiro é atualmente diretor-financeiro da União de Ciclistas do Brasil (UCB). Em bate-papo, o cearense fala como enxerga os avanços que Fortaleza vem dando ao longo dos anos e pontua aspectos a serem melhorados. 

Como teve início sua relação com a bicicleta?

Felipe Alves - Comecei a pedalar quando criança. Teve uma fase da minha vida que isso foi interrompido. Já morei em outras cidades com características bem diferentes. Nessas cidades, experimentei utilizar a bicicleta como opção de mobilidade. Quando voltei a morar aqui, voltei a andar de carro. Quando eu já estava achando estressante andar de carro para todos os lugares, fui atrás de conhecer pessoas que escolheram andar de bicicleta. Fui também conhecendo movimentos que faziam isso e acabei me juntando com esse pessoal, e aprendendo outras coisas que eu ainda não sabia. 

Depois de quanto tempo você decidiu fazer essa mudança?  

Felipe Alves - Foi depois de um ou dois anos. Você vai usando o carro e parece que o trânsito só piora. Eu resolvi encontrar outra solução. Você acaba se encantando com outros benefícios, como a sustentabilidade, a saúde, ter mais facilidade de parar em outros lugares. 

O mestrado veio pela de um trânsito mais democrático?

Felipe Alves – Foi, porque depois que conheci esses movimentos da organização da sociedade civil, fui me envolvendo em algumas atividades. Como engenheiro civil, percebi que poderia encarar isso de uma forma mais técnica, não só ativista. 

O que é mobilidade urbana?

Felipe Alves - É difícil, porque, quando se começa a estudar e analisar a mobilidade de uma cidade, você percebe que é uma rede enorme de conexões. É impossível falar sobre mobilidade sem falar de habitação e concentração de renda. Têm diversas questões que permeiam esse assunto. Mas, simplificando, mobilidade é uma atividade fim para as pessoas conseguirem acessar suas outras atividades. Quanto menos estressante e mais econômico e sustentável essas pessoas conseguem se locomover, melhor é a mobilidade.

Você é um dos fundadores da Ciclovida e está na diretoria da UCB. Como e por que essas entidades tiveram início?

Felipe Alves - A maioria das entidades de associação de ciclistas do Brasil surgiram de pessoas que foram se juntando por interesse comum e para reivindicar melhorias. Existe sempre passagem de um coletivo informal para uma associação formalizada, com caráter jurídico e com Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ). Geralmente, surge de alguma necessidade específica. No caso da Ciclovida, foi devido a um processo, quando ocorreu a morte de um menino de cinco anos, atropelado em 2012. Um advogado queria entrar com uma ação contra o motorista, mas não queria fazer no nome dele. Pensou que seria interessante fazer no nome de uma associação com CNPJ. Concordamos e começamos o processo.

Qual o impacto dos movimentos sociais locais de mobilidade?

Felipe Alves - No caso específico de Fortaleza, todas essas mudanças de mobilidade tiveram inicio por volta de 2013, que foi a época das manifestações do Brasil inteiro. Nessa época, estava tendo o problema do viaduto no Parque do Cocó. Nessa mesma época, teve a pintura da ciclofaixa cidadã, onde os cidadãos pegaram alguns critérios para uma rua mais representativa. Depois disso, a Prefeitura começou a implantação de ciclofaixa. Acredito que foi por causa disso que se iniciou.

Como você avalia o exemplo que Fortaleza ocupa em mobilidade?

Felipe Alves - Nesse espaço nacional, realmente, Fortaleza tem levado destaque e se tornado referência de diversas cidades. Mas eu sempre faço uma ressalva: esse cenário nacional ainda está muito defasado com relação ao que seria ideal. Fortaleza está bem na frente das outras porque as outras ainda estão muito mal. Ainda falta muita coisa para melhorar.

Especialistas apontam como grande entrave à mobilidade a construção de viadutos, túneis. Qual sua visão?

Felipe Alves - Todos os estudos técnicos e científicos sobre o assunto já comprovaram que, se criar mais vias ou mais faixa tentando desafogar o trânsito, vai atender uma demanda que estava reprimida. O sentido seria assim: quanto mais via e mais faixa para carro criar, mais carro vai ter na cidade. O que acontece é que, quando se tenta fazer obras para melhorar o trânsito, em curto prazo, é possível piorá-lo. Sem contar que analisar só o trânsito piora para muitos usuários. Se pega uma via, por exemplo, que tem muito semáforos e decide tirar todos para melhorar o fluxo, acaba que impede as pessoas de atravessarem.  

É um desafio criar algo que vai atender todas as demandas?

Felipe Alves – É. Só que o problema é que, geralmente, o poder público pensa em resolver os problemas específicos de quem anda de carro. Se pensassem mais em resolver problemas de quem anda de ônibus, iria atrair muito mais pessoas para o transporte público e, com isso, seria muito melhor para a cidade como um todo. Se conseguir causar uma mudança substancial de usuários de carro para outro modo, vai sobrar mais espaço para os carros. O que nós como especialistas falamos é que tem que combater o uso excessivo do carro. Não dá para todo mundo ter o carro e querer usá-lo toda hora. É preciso equilibrar.

Houve mudança quanto à humanização do trânsito? 

Felipe Alves - Isso é uma coisa em que acredito que precisamos realmente de uma mudança de cultura. Desde que comecei utilizar a bicicleta até hoje, o respeito de motoristas melhorou. Pelo fato do tema ganhar relevância, as pessoas começam a entender melhor a dinâmica e que tipo de comportamento devem ter.

Como o poder público pode reverter esse problema?

Felipe Alves - Se as pessoas tivessem empatia, leis não seriam necessárias. Elas não são seguidas por alguns fatores. Desconhecimento ou falta de educação são exemplos. Existem outros dois que são mais importantes: fiscalização e punição. Se a fiscalização é pouca ou as punições são brandas, as pessoas que adoram desrespeitar as leis sentem que podem fazer isso. Não é porque você que está em um veículo motorizado, que pesa mais de uma tonelada, que você pode jogá-lo em uma pessoa que está atravessando a rua, ou em cima de um ciclista que está no cantinho da rua. Isso é desrespeito à vida das pessoas, e não só uma rincha de ‘eu quero do meu modo e não do seu. 

  

  

 

  

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