capa movimento 2018

Editorial

Por Kelly Hekally

Na sequência da série Movimento Urbano, que hoje apresenta o quarto caderno, vamos falar de pedestres e ciclistas. Um passeio pelo Centro, bairro mais movimentado de Fortaleza em dias úteis nos apresentou inúmeras limitações para os transeuntes locais. A solução passa pela reorganização do espaço, que deve ter como prioridade máxima quem se descola a pé e ser também capaz de atender a crianças, jovens, idosos e pessoas com
mobilidade reduzida.

Na sequência, o tema são as estruturas cicloviárias que compõem hoje a arquitetura de diversas vias da Capital. Ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas e ciclofaixas compartilhadas têm suas especificidades e foi nelas que nos concentramos para contextualizar cada uma das segmentações. Por fim, trazemos um bate-papo com o prefeito Roberto Cláudio. A conversa ocorreu em seu gabinete, no Paço Municipal. Reflexões acerca dos frutos das ações em prol da mobilidade urbana e o que ainda pode e deve melhorar guiaram a entrevista. Aproveite, então, mais esta publicação e se inspire para entrar em 2019 com o pé na rua ou no pedal. Boa leitura.

O caminhar pelo centro da cidade

Mau estado de conservação e pouco espaço para comportar as pessoas são empecilhos encontrados por quem anda a pé pelo bairro mais movimentado de Fortaleza. Para garantir deslocamento seguro, devem ser priorizadas ações voltadas aos pedestres, e não aos carros

Por Gabriela Custódio

Desviar de buracos, de barracas nas quais são expostos variados produtos e de outras pessoas com quem se divide o espaço. Caminhar pelo centro de Fortaleza nem sempre é uma tarefa simples. Atravessar a rua muitas vezes também exige cuidado com o desnível entre a calçada e a pista. Se o pedestre tiver alguma dificuldade de locomoção, o problema agrava-se.

A presença de muitos vendedores ambulantes e os diferentes níveis nas calçadas são citados como pontos negativos das ruas do centro pela técnica de segurança da informação Daiany Vieira Lima, 32, que com frequência locomove-se de ônibus até o bairro, desembarca na praça Coração de Jesus e caminha pelas ruas. Segundo Daiany, a tarefa de andar pelas calçadas é "complicada", principalmente para pessoas em cadeiras de rodas. "Certo que têm calçadas e ruas que já são próprias, mas é bem complicado, porque as pessoas ficam tumultuadas e os ambulantes tomam conta do espaço. Não há muito por onde os pedestres andarem", afirma. Um dos pontos requalificados pela Prefeitura de Fortaleza foi o calçadão da rua Guilherme Rocha, entre as ruas General Sampaio e Major Facundo. A obra foi entregue no dia 23 de novembro último. Para Daiany, a iniciativa deveria ser realizada em toda a região. "Até porque existem calçadas altas, baixas, algumas quebradas. Acho que precisa melhorar sim."

Alguns obstáculos para atravessar as ruas são percebidos por Maria de Fátima Nascimento, 31, quando anda com o filho enquanto vende bombons pelo bairro. O menino de sete anos tem deficiência. "Em muitos cantos não dá para subir com ele, com a cadeira de rodas. Como minha filha está grávida, eu levanto a cadeira e ela segura do outro lado. É uma dificuldade realmente para andar aqui com ele." A falta de respeito de motoristas e motociclistas também é relatada por ela.

No calçadão da rua Guilherme Rocha, que conta agora com faixa de travessia elevada, Maria de Fátima diz que a situação está melhor. Em outros trechos, porém, buracos tornam o trajeto perigoso e a falta de infraestrutura acessível complica o caminhar. Mesmo quando vai ao Centro sozinha, Maria de Fátima percebe dificuldade. "Eu já vi senhor de [mais] idade cair, gente empurrando demais. Tem muita dificuldade sim de andar nas ruas."

Já a aposentada Regina Célida Assunção de Araújo, 73, conta que frequenta o centro quase que diariamente. Ela conta que já levou quedas devido a buracos. Hoje, usa uma bengala para ajudar no deslocamento. "Aqui é dificultoso demais. Muito. Principalmente eu, que ando com uma bengala. Eles [transeuntes] não respeitam não, botam em cima. [...] Tem muito buraco."

Impactos para a caminhada

Acessibilidade, materiais utilizados e sombreamento ao longo dos passeios são aspectos que definem uma calçada ideal, pontua Abner Augusto. De acordo com o arquiteto e urbanista, a calçada deve ser utilizável por todos — incluindo crianças, idosos e pessoas com deficiência ou alguma dificuldade para caminhar.

"As pessoas fazem de forma leiga e acabam usando materiais muito lisos ou que não têm atrito nenhum com o pé e que podem causar escorregamento se ela fica muito úmida. Também envolve a relação das cores dos materiais, porque, se a pessoa tiver alguma deficiência visual, pode atrapalhar até a leitura do ambiente", explica. Para o especialista, em Fortaleza, a maneira de lidar com as calçadas é uma questão cultural. "É muito antiga essa questão de ignorar a mobilidade a pé e tratar como algo marginalizado, feito só quando sobra espaço ou se quer ter um cuidado maior."

Entre os aspectos que têm impacto na acessibilidade de calçadas está a sua obstrução. Segundo a Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis), foram realizadas 2.533 fiscalizações relativas às irregularidades em calçadas e passeios entre janeiro de 2018 e 18 de dezembro — data em que os dados foram enviados à reportagem. As operações resultaram em 1.604 autuações/notificações. Ocupação dos passeios com mesas, cadeiras e bancos sem autorização, passeios sem a devida conservação, estacionamento irregular para veículos, passeio com inclinação ou declividade superior à máxima permitida, de 3%, estão entre as principais irregularidades encontradas.

O Código de Obras e Posturas do Município, lei nº 5.530/81, prevê que proprietários de imóveis são os responsáveis pela manutenção de calçadas. "As multas para esse tipo de irregularidade variam de R$ 83,35 a R$ 4.167,50. O infrator pode ainda ser obrigado a desfazer ou remover alguma deformidade ou objeto que esteja atrapalhando a circulação de pedestres ou que esteja em desconformidade com as normas que ditam os parâmetros de como deve ser o passeio, bem como pode ter objetos que estejam impedindo o livre trânsito de pedestres ou veículos apreendidos", aponta.

Pessoas primeiro, carros depois

Quando se fala em ações voltadas para pedestres, Dante Rosado, coordenador da Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global em Fortaleza, explica que as ações não se resumem às calçadas. Todo o planejamento deve partir de um olhar para as pessoas, e não para os carros — este, historicamente, prioridade em todo o país. "Todo o desenho viário deve ser pensado para transportar mais pessoas e garantir a segurança delas, independente de onde estejam."

Entre as soluções para proporcionar um deslocamento seguro para quem anda a pé estão implantar semáforos para veículos e pedestres e travessias elevadas, alargar calçadas e instalar fiscalização eletrônica. A escolha da alternativa apropriada deve respeitar o tipo de via em questão. “Garantir a segurança do pedestre é garantir que os veículos trafeguem com uma velocidade adequada aos locais onde aquelas vias estão inseridas”, afirma.

No caso das calçadas do Centro, Rosado aponta que o problema, atualmente, é a ocupação delas tanto por ambulantes quanto por pedestres. "É tanta gente que as calçadas ficam cheias, a largura delas não é suficiente para acomodar a quantidade de pedestres que circulam por lá", afirma. Para a questão do planejamento dessas ruas com foco nas pessoas, e não nos carros, ele afirma que a solução “naturalmente” passa pelo alargamento das calçadas e pela restrição da circulação de veículos motorizados.

Uma intervenção desse tipo será realizada até março de 2019, segundo Rosado, na rua Barão do Rio Branco, por meio do projeto Calçada Viva. "Vamos alargar a calçada na Barão do Rio Branco, desde a Duque de Caxias até o Passeio Público, suprimindo uma faixa de circulação para automóvel e alargando a calçada para o pedestre [pintando o pavimento e colocando segregadores]." Atualmente, a avenida Barão do Rio Branco tem duas faixas para tráfego e uma para estacionamento. Nessa iniciativa, que faz parte do projeto Novo Centro, a Prefeitura de Fortaleza conta com parceria da Bloomberg. 

Na prática

Para tornar a Cidade "mais acessível, compartilhada e gentil" e aumentar a atratividade pelo deslocamento a pé, a Prefeitura está elaborando o Plano Municipal de Caminhabilidade (PMCFor). Segundo o Executivo Municipal, para a elaboração do documento, está sendo desenvolvido o Projeto Piloto de Caminhabilidade, com objetivo de aplicar, no espaço urbano, conceitos e padrões de acessibilidade focados na escala do pedestre.

A iniciativa inaugural está prevista para 2019 e será desenvolvida em via do bairro Parangaba. "O projeto será monitorado por meio de indicadores de mobilidade ativa e caminhabilidade, a fim de comprovar o impacto positivo da intervenção", afirma o órgão por meio da assessoria. No último dia 20, foram lançados o Caderno Técnico e a Cartilha de Boas Práticas para Calçadas de Fortaleza, que fazem parte do PMCFor. "A ideia é que, depois de finalizado, o Plano funcione como elemento norteador para os novos projetos da Prefeitura de Fortaleza."

 

Tipos de malha cicloviária existentes em Fortaleza

Embora as pautas sobre mobilidade urbana não passem mais despercebidas, identificar as vias para ciclistas ainda gera dúvidas. Saiba diferenciair ciclofaixa, ciclovia, ciclorrota e ciclofaixas compartilhadas

Por Sara Cordeiro

Quem anda por Fortaleza percebe o crescimento do espaço destinado à locomoção ciclística. A capital cearense, que tinha 68,2 quilômetros de rede cicloviária ao final de 2012, conta hoje com cerca de 250 quilômetros da estrutura. Expressiva parcela da população, entretanto, desconhece que existem vários formatos dela.

Tiago Freitas, diretor financeiro da Associação dos Ciclistas Urbanos de Fortaleza (Ciclovida), explica as diferenças entre cada uma das segmentações. "Elas são divididas em categorias. As totalmente separadas do tráfego motorizado, as divididas apenas por pinturas na faixa de rodagem, onde a bicicleta fica semi segregada do tráfego de automóveis apenas pelo tachão, conhecido como tartaruga, e as compartilhadas, quando ambos trafegam juntos", observa.

Segundo Aspásia Mariana, também integrante da Ciclovida, o fato de existirem vários tipos de ruas e avenidas, algumas com pouca movimentação e baixo fluxo de automóveis, outras estreitas e com intensidade de trânsito, nem sempre é possível a implementação de ciclovias. "Os diferentes tipos existem de maneira onde cada um adeque-se à estrutura de uma via", pontua.

Engenheiro do Plano de Ações Imediata de Trânsito e Transportes (Paitt), vinculado à Secretaria de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), Gustavo Pinheiro pontua que a Cidade, hoje, conta com ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas e passeios compartilhados – são 103,7 quilômetros de ciclovias; 144,7 de ciclofaixas, 4 de ciclorrotas; e 3,2 de passeio compartilhado, totalizando 252,5 km de rede cicloviária. Conheça cada uma delas.

Ciclovias

É uma área exclusiva ao uso de bicicletas. O ciclista é separado de veículos motores por meio de uma barreira física, que pode ser de concreto ou outros elementos segregadores. É indicada quando uma via tem movimento maior de veículos, velocidades mais altas e com tráfegos de caminhões ou ônibus. Os canteiros de concreto permitem uma maior segurança ao ciclista. Uma das dificuldades nesse tipo de via é que ela segue em sentido único. Se o ciclista precisar mudar de rua ou entrar em um cruzamento, precisará sair da ciclovia e terá que disputar espaço com outros veículos.

Ciclorrotas 

As ciclorrotas são infraestruturas cicloviárias implantadas em ruas locais, onde existe baixo fluxo de veículos motorizados e baixa velocidade desenvolvida por esses veículos, não sendo necessário, portanto, separar uma faixa exclusiva para bicicletas, como é feito no caso das ciclofaixas. Elas são compostas por pictogramas vermelhos pintados no asfalto, identificando área para ciclistas, e placas de advertências para motoristas. A sinalização especial de ciclorrota chama a atenção dos condutores para reduzirem a velocidade e respeitarem o deslocamento de ciclistas na região. A estrutura tem como propósito conscientizar condutores de veículos motorizados quanto à necessidade de respeitar os ciclistas, promovendo, assim, segurança e o bom convívio entre todos.

Ciclofaixas

São áreas reservadas ao trânsito de bicicletas, que, diferente de ciclovias, não possuem uma barreira, separando o ciclista do trânsito por meio de tachões e faixas pintadas sobre o asfalto, fazendo a delimitação da área. A falta de visibilidade nos cruzamentos pode ser um fator negativo para quem trafega nesse tipo de via.

Ciclofaixa compartilhada

São espaços destinados à circulação de corredores, pedestres e ciclistas. Sua implantação é recomendada onde o volume de ciclistas e de pedestres é baixo, para que não haja conflitos entre eles. Atualmente, Fortaleza conta com uma faixa compartilhada bidirecional com 3,1 quilômetros de extensão na avenida Beira Mar. Dois pontos de passeio compartilhado são localizados no bairro Aerolândia. Nessas vias, corredores e pedestres são prioridades. Com o desenvolvimento do Programa de Expansão da Malha Cicloviária, a meta estabelecida pelo Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI) para 2020, que era de 236 km de rede para deslocamento de ciclistas, já foi ultrapassada este ano.

A ciclorrota é o espaço de circulação compartilhado com demais veículos na via pública. Sua identificação possui sinalização horizontal, constituída de pictogramas que indicam a rota sempre no mesmo sentido de direção do tráfego motorizado na via, e vertical. Seu uso é indicado para vias com baixo fluxo veicular e baixa velocidade. O conceito das ciclorrotas é interessante, pois resgata o de compartilhamento de vias por diferentes veículos, incluindo a bicicleta. Porém, também pressupõe o respeito pelos condutores, considerando que os veículos maiores devem zelar pelos menores. O que observamos, entretanto, é que ainda precisamos avançar muito para a garantia deste respeito. Podemos ver em diferentes cidades a existência de acidentes envolvendo bicicletas em vias com ciclorrotas, mesmo que a gravidade seja muito menor do que em vias com maiores velocidades.

Ponto de vista 

A ciclorrota indica a definição do trajeto mais atrativo num determinado percurso para o ciclista. Porém, considerando que o ideal numa cidade seja que todas as vias sejam cicláveis, a sinalização de ciclorrotas apenas no trajeto principal cria a impressão para outros condutores que os ciclistas só devem utilizar as vias com sinalização específica, devendo se comportar de maneira diferente nas demais vias.

Outro aspecto a se considerar é que, quando pensamos em uma ciclorrota, temos que pensar que todos os ciclistas irão compartilhar este espaço, inclusive os mais vulneráveis. É possível observar que a estrutura segregada gera maior conforto aos mais vulneráveis, pois podem andar em diferentes velocidades e parar quando entendem necessário. Em uma via compartilhada, a atenção com os demais veículos, sejam os que circulam, sejam os que fazem manobras na via, deve ser maior. Crianças, mesmo que acompanhadas pelos pais, sentem-se mais expostas e menos seguras a este tipo de tratamento cicloviário.

Ou seja, é fundamental que sua indicação considere a melhoria do desenho viário, a qualificação no processo de formação dos condutores, a efetiva fiscalização viária, além de campanhas educativas.

Suzana Leite Nogueira, arquiteta e urbanista e coordenadora do GT de Infraestrutura da União de Ciclistas do Brasil (UCB) 


 

 

 

"Nossa ideia não é brigar com o carro. É convencer e educar as pessoas"

À frente da gestão municipal que priorizou a mobilidade urbana, Roberto Cláudio fala, em bate-papo, sobre impactos gerados com as ações de mobilidade e preconceitos ainda a serem superados

Por Kelly Hekally

Fortaleza tem novos ares, novas vias, novas filosofias. Não de hoje alinhada à mobilidade urbana, a Capital soube reinventar-se nos deslocamentos diários a ponto de, atualmente, ser epicentro na temática e exemplo de implantação de iniciativas capazes de mostrar à sociedade que vale a pena investir em uma locomoção democrática. À frente da gestão que deu forma a mudanças que foram alvos de críticas positivas e negativas, o prefeito Roberto Cláudio recebeu a reportagem em seu gabinete, no Paço Municipal, para um bate-papo. Corredores exclusivos de ônibus, fiscalização e ausência de campanhas educativas contundentes foram alvos da conversa. 

Por que apostar na mobilidade urbana como marca da sua gestão?

Honestamente, nunca imaginei que a mobilidade pudesse se transformar em uma marca. Quando nós começamos, tínhamos um diagnóstico muito claro, baseado na experiência da campanha eleitoral e em pesquisas, de que existiam três pilares no que diz respeito à ação municipal: educação, saúde e mobilidade urbana. Temas que iam merecer da Prefeitura um maior investimento, uma maior atenção. A mobilidade ter ganhado relevância diria que foi mais pelo ineditismo de ações que criamos. A mobilidade vem tendo relevo e reconhecimento público maiores. Talvez, por isso, ela tenha se tornado uma marca. 

Os números mostram que valeu a pena investir na mobilidade urbana?

Resolvemos, antes de iniciar uma ação mais contundente, fazer um diagnóstico e um planejamento de curto prazo. Planos, por definição, devem imaginar um ideal de futuro de 20 anos, talvez um pouco menos. Fizemos isso com o Fortaleza 2040. Mas havia necessidade de ações emergenciais para o trânsito e para o transporte público. Acabou, então, surgindo a ideia de fazer uma consultoria internacional, para um diagnóstico do status atual da mobilidade de Fortaleza, que pudesse unir elementos e políticas que globalmente são reconhecidas como sucesso e estruturar dentro da Prefeitura uma equipe que pudesse sistematizar, a partir desse diagnóstico, essa política vitoriosa fora de Fortaleza. Assim, surgiu o Paitt. Mas as vitórias são também subjetivas. A cidade incorporou a mobilidade como uma vitória e começou a entender que o espaço público da cidade não pode priorizar o carro. Ele é elemento importante, mas a cidade não pode se organizar em função do carro. Não é que todo mundo concorde com isso, mas tenho convicção hoje de que a grande maioria concorda que a cidade tem que avançar na perspectiva de garantir espaço e segurança aos pedestres e ciclistas. E principalmente que o transporte público, por mover mais pessoas em um único espaço físico, deve ser a grande prioridade das vias públicas. Essas vitórias são conquistas muito bem consolidadas. Hoje, temos mais de 100 quilômetros de corredor exclusivo. A ideia é chegar a 200 quilômetros até 2020.

E quais outras importâncias da mobilidade urbana?

A mobilidade é o eixo central do planejamento urbano de uma cidade. A gente olha para a mobilidade pensando muito no tempo do deslocamento, mas há uma dimensão de qualidade de vida e saúde pública. Quem anda de bicicleta e a pé sabe que se sente muito mais a cidade. Isso tem a ver com a solidariedade das pessoas com a cidade, de uso com espaço público. No trânsito, a principal causa de morte no Brasil de crianças de 6 a 14 anos é o trânsito. Isso tem um valor gravíssimo à saúde pública do país. Estamos conseguindo em Fortaleza, em vista de todas essas estruturas da mobilidade urbana, reduzir o número de mortes. Na última Copi 21 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2015), na França, os municípios foram chamados para discutir as emissões de carbono. O entendimento é de que as maiores fontes de emissão ainda são resíduos sólidos e transporte. 

Especialistas defendem que há uma política de conciliação da mobilidade urbana sem mexer muito com os carros... Que os corredores exclusivos, em geral, foram instalados em avenidas largas, não tirando muito o espaço do carro...

É verdade. Uma das coisas importantes para tornar uma política pública viável é buscarmos apoio a ela. Tivemos muito mais facilidade que em São Paulo e isso aconteceu porque fomos pelo caminho do consenso ou gerando algum tipo de educação ou informação que pudessem gerar apoio ao que estamos fazendo. Não foi por acaso. Foi deliberado mesmo. Nossa ideia não é brigar com o carro. É convencer e educar as pessoas. Mudar comportamento. Mas já começamos a fazer corredores exclusivos em vias de duas mãos. Vamos começar agora o trinário da avenida Duque de Caxias. Mesma coisa é velocidade, tema polêmico no mundo inteiro, porque ela mexe com uma suposta e equivocada compreensão de que, reduzindo velocidade, você perde tempo no trânsito. Há estudos científicos que mostram que reduzir de 60 para 50 a velocidade de algumas vias você ordena muito mais o trânsito. Existem softwares que fazem esta simulação: de você reduzir em dez quilômetros a velocidade de uma via e ter o mesmo fluxo de carros e você consegue reduzir o fluxo de vítimas fatais no trânsito.

Há uma lacuna em termos de ações educativas...

A parceria com a Blummer abriu muitos horizontes para nós. Começamos a conversar com gente do mundo inteiro que estuda o assunto. Grupo de pesquisa de Havard, terceiro setor, ONU. Entidades que passaram a colocar a lupa no problema e nos deram uma perspectiva daquilo que vale a pena ser feito porque dá resultado. Campanhas educacionais só funcionam quando muito bem feitas. Mexem com a consciência, o medo, a responsabilidade das pessoas. Estamos buscando não só ter horas de campanha, mas sim valorizar como componentes que têm resultado. De dois anos para cá, temos investido nisso, mas precisamos sim fazer isso cada vez mais. 

Estudos mostram que a fiscalização pode ser muito efetiva. Como a Prefeitura vem sistematizando esse aspecto?

Esse é outro assunto impopular. Há um entendimento de parte da população de que a fiscalização é uma indústria de multa ou de receita para o município. A fiscalização é um instrumento muito importante, civilizatório. O local onde as pessoas mais se relacionam é o trânsito. Se não tivermos regras claras para ele e dermos clareza dos limites, o direito do outro será desrespeitado. A fiscalização nada mais é que a garantia do direito coletivo ser respeitado no espaço público. Para o pedestre, o ciclista e todos os outros. Temos aumentado o número de câmeras, uma AMC [Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania] com muito mais autoestima, compreendendo que seu papel não é multar. É fiscalizar e cooperar com a mobilidade. Ninguém reduz velocidade em uma área para multar, e sim para proteger vidas. Criamos, inclusive, um instrumento que nem multa, o Via Livre, que ajuda a fiscalizar o trânsito. É um conjunto de ações. É suficiente? Não é. Mas seguindo a mesma lógica de avanços da faixa exclusiva essa é uma área que devemos educar cada vez mais os cidadãos.

Em termos de mobilidade urbana, como fica Fortaleza para a próxima gestão?

Quando transformarmos plano em lei, damos instrumentos para o Ministério Público, legislativo, imprensa cobrarem isso. Temos um plano de mobilidade urbana, plano diretor cicloviário, vamos ter um plano de caminhabilidade. Os instrumentos regulatórios não resolvem, mas abrem possibilidades legais para reclamar o cumprimento disso. Mas acho que o melhor instrumento é o controle social. Quando a política pública deixa de ter a cara de uma gestão e passa a ser incorporada como conquista da cidade, é muito mais difícil alguém revertê-la.

Movimento Urbano #04

A mobilidade é um assunto que interessa a todos, independente do meio que se use para se locomover.

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