capa movimento 2018

Editorial

Por Kelly Hekally

O terceiro dos seis cadernos que compõem a série Movimento Urbano traz à discussão avanços locais, e demandas ainda aquém do que se considera ideal a uma cidade mais justa, respeitosa e igualitária em seus deslocamentos cotidianos.

Iniciamos nossos passos com a repórter Joyce Oliveira entrando na história e nos descrevendo a experiência de realizar um percurso em uma das linhas do transporte público da Cidade. O que era para ser uma observação sobre a celeridade proporcionada por faixas exclusivas de transporte público da Capital foi além e se transformou em um relato que compilou belos atributos, como gentilezas, e olhar atento à necessidade de melhorias, a exemplo da estrutura das paradas de ônibus.

As 847 toneladas de gás carbônico que deixaram de ser emitidas com as mais de duas milhões de viagens realizadas pelo Bicicletar e os números que nos levam a repensar o uso de veículos automotivos são tratados nesta edição, em reportagem que mostra também como Bogotá, a partir de medidas comprometidas com a mobilidade urbana e a sustentabilidade ambiental, tornou-se referência na América Latina.

Equidade no uso e na divisão do espaço coletivo no que tange à locomoção: quem não quer? Esse foi o tema escolhido para encerrar o caderno. Conclusão? Muito já foi realizado pelo poder público municipal, porém ainda há gaps a preencher. Solução? A continuidade de um caminho que já começou a ser trilhado. Sigamos, então. Não podemos deixar Fortaleza parar.

Um deslocar-se de ônibus em Fortaleza

Celeridade no trajeto por conta da faixa exclusiva para transporte público foi uma das constatações durante itinerário realizado pela linha 074. Desconforto nas paradas de ônibus, entretanto, ainda precisa ser superado

Por Joyce Oliveira

Ando de ônibus todos os dias. Mas não costumo parar para observar os detalhes do transporte público, tampouco o caminho que ele percorre. Foi então que recebi uma pauta para tomar assento em um coletivo e permanecer nele durante todo seu percurso. A proposta era que eu conseguisse captar os ambientes interno e externo do veículo. A rota escolhida foi a realizada pela linha 074, Antônio Bezerra Unifor, que trafega pela faixa exclusiva para transportes públicos - a ideia era observar como essa estrutura que, hoje, soma cerca de 100 quilômetros em toda a Cidade contribui para o deslocamento ágil dos passageiros


Na última segunda, 10, cheguei à parada de ônibus da avenida Domingos Olímpio por volta de 14h40. Lá, estavam cerca de dez pessoas. A coberta instalada não era suficiente para nos proteger do sol. A previsão de chegada do próximo ônibus: 14h46, como informava o aplicativo Moovit, que disponibiliza o horário das rotas locais. Ele foi preciso, mas os dois ônibus que chegaram aceitavam apenas cartão eletrônico. Como eu e a repórter fotográfica, Camila de Almeida, nos organizamos para pagar a passagem em dinheiro, só conseguimos embarcar depois de 20 minutos de espera.

Embora o horário não fosse de pico, o ônibus estava com todos os assentos ocupados. Passei pela catraca e permaneci em pé durante dez minutos. Tirando o calor — a temperatura marcava 30°C e o ônibus não tinha ar condicionado — a viagem foi tranquila. O silêncio reinava no ambiente. Comecei a observar pela janela que as paradas de ônibus, ao longo do caminho, faziam com que a espera dos usuários fosse ainda mais exaustiva, pois algumas eram sem acento e outras estavam totalmente no sol.

Ao chegar à avenida Washington Soares, grande parte das pessoas a bordo desceu. O ônibus passou a ficar vazio. Depois de 23 minutos de viagem, a rota terminou. O motorista estacionou o veículo e desceu por alguns minutos. O cobrador aproveitou o intervalo para deitar nos bancos livres. Mesmo parado, dois passageiros embarcaram no transporte. Depois de dez minutos, o motorista volta e uma nova viagem inicia-se.

Na primeira parada do retorno, o ônibus começou a ficar cheio novamente. Em poucos minutos de viagem, já era possível ver mais passageiros que na vimos na primeira vez. Embora fosse quase final de tarde e o cansaço em grande parte dos passageiros fosse visível, a gentileza de um “quer que eu leve suas coisas?” era comum de se perceber. Pequenas atitudes assim costumam me motivar.

O itinerário de volta deu-se pela rua Padre Valdevino, como de costumo. Ao observar pela janela, senti falta de uma ciclofaixa. Mesmo existindo a estrutura em uma rua paralela, na João Brígido, acredito que seja importante oferecer ao ciclista um local seguro por aquela via se assim lhe for mais conveniente. Minha viagem terminou às 16h10.

Benefícios que uma faixa exclusiva traz
Depois de passar por alguns sinais, me dei conta de que para quem anda de ônibus diariamente deslocar-se no veículo traz benefícios que vão além de sentir o vento tocando o rosto. As faixas exclusivas trazem aos passageiros a chance de fugir do trânsito, pois, enquanto carros e motos formavam longas filas a cada sinal vermelho, o transporte público conseguia seguir adiante. Contudo, poucos passageiros pareciam perceber isso: muitos aproveitavam a viagem para ouvir música, mexer no celular ou, até mesmo, tirar um cochilo.

Minha observação foi ao encontro da vivência da artista Wanessa Lugoe, 29, que usou a linha 074 ainda quando não existia a faixa exclusiva. A jovem conta que realizou o percurso nela durante um ano, quando estava graduando-se em Teatro, pela Universidade de Fortaleza (Unifor). De acordo com Wanessa, para conseguir chegar no horário correto da aula, às 7h30, era necessário se programar para estar na parada de ônibus às 6 horas.

“Existia muito trânsito e não tinha faixa exclusiva. Esse percurso levava em média 1h30. Com a faixa exclusiva, esse tempo caiu para 1 hora, em dias com trânsito”, lembra. Para Wanessa, é importante que as cidades corram atrás do bem-estar comum. “Sou a favor de priorizar e melhorar sempre o que é coletivo, como o transporte. Isto influencia a vida de todos, mesmo a de quem não pega ônibus. É algo que vai além disso, pois, se tivermos um transporte público bom e ágil, é possível alcançar também uma sustentabilidade melhor nas cidades.”

Hoje, Wanessa está terminando a graduação de Jornalismo, na Unifor, mas já não utiliza a linha 074, pois se mudou para mais perto da universidade. Mesmo com a distância menor, ela reafirma que a faixa exclusiva também facilitou o percurso. “Passei a pegar outros ônibus, mas, mesmo de lugares mais próximos de onde eu precisa ir, o trânsito misto atrapalhava muito. Com as faixas exclusivas, o ônibus que eu pegava e levava 40 minutos para chegar à faculdade passou a realizar o itinerário em 15 ou 20min.”

Exclusividade
As faixas exclusivas passaram a existir em 2014, com o intuito de organizar o trânsito e dar celeridade aos transportes públicos. Elas são exclusivas de segunda a sexta, das 5 às 21 horas, e aos sábados, das 5 às 16h. Aos domingos, são de uso comum a todos veículos. O percurso na faixa exclusiva é permitido para ônibus, topiques e táxis. Carros e motos que estão a 200 metros de realizar a conversão para alguma rua também podem utilizá-la.

Reclamações e sugestões
Para relatar episódio desagradável ocorrido no coletivo, fazer elogios ou sugerir melhorias, o Sindônibus e a Empresa de Transporte Urbano Fortaleza (Etufor) disponibilizam os seguintes contatos: 85 4005 0956 (Alô Sindiônibus) e 156 (Etufor). É importante informar horário da ocorrência e os números da linha e do ônibus.

Ponto de vista
Andar de ônibus em Fortaleza no horário de pico é algo que exige da gente, né? A ida para o trabalho é um desafio: nunca vi um Parangaba/Mucuripe vazio pela manhã, mas ele logo fica mais tranquilo e dá para seguir dessa forma para o trabalho. Na volta, quando o cansaço se mistura com a lotação, nem sempre a gente tem ânimo pra encarar essa barra que é voltar para casa assim. Mas, como geralmente saio às 19 horas, tenho o privilégio do trânsito ter voltado a fluir mais tranquilamente e consigo pegar um ônibus com mais tranquilidade. Além disso, as faixas exclusivas para ônibus são maravilhosas, um agilizo para quem, muitas vezes, não vai tão confortável para casa como num veículo próprio. Gosto de usar o app Meu Ônibus”, para ficar monitorando o horário em que eles passam. Como o aplicativo é sempre bem certeiro, não perco tempo nas paradas.

Acho que a coisa de que eu mais gosto de fazer no ônibus é colocar os fones e observar o caminho. Eu amo observar as nuances dos trajetos, aprender as ruas em que os ônibus dobram, ver quais paredes mudaram de cores, observar os passantes na rua, cada um em seu universo, como uma senhora que sempre via com seu cachorrinho no parapeito, ali na Dom Manuel. Adoro também observar os laços que as pessoas acabam criando, quando costumam pegar o mesmo ônibus sempre. A gente acaba criando um afeto por aquele motorista e cobrador que tão ali sempre transportando a gente. Mas também já protagonizei a cena (barra) que é chorar no ônibus. Constrangido a gente sempre fica, até porque não gosto de me expor assim, mas, quando a alma pede, a gente não tem nem hora, nem lugar de derramar lágrima, né?

 

Letícia Bernardo, 29, designer gráfico

Mobilidade urbana e Meio Ambiente: uma equação saudável

Planejar e estabelecer metas com projetos sustentáveis e implementá-los impacta direta e positivamente na preservação ambiental

De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), última sobre o assunto, entre os anos de 2000 e 2010, o número de veículos aumentou em 22%, ao passo que a população brasileira cresceu 12,3%. Levantamento realizado pelo Sindicato Nacional da Indústria de Componentes Para Veículos Automotores (Sindipeças), a frota brasileira de veículos cresceu 1,2% no ano de 2017, chegando ao número de 43,4 milhões de unidades.

Atualmente, 23% da emissão de gases na atmosfera vêm dos transportes, públicos e privados. Conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU), nove de cada dez pessoas respiram ar poluído e 3,5 milhões de pessoas morrem prematuramente por causa da poluição. Um dos maiores desafios dos gestores atuais é aliar políticas públicas de mobilidade urbana e pautas ambientais a um cenário de crescente desenvolvimento econômico no País. Planejar, investir e estabelecer metas para projetos sustentáveis pode impactar direta e positivamente as causas ambientais. 

Segundo André Casimiro de Macedo, doutor em Engenharia Química e professor do Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal do Ceará (UFC), os automóveis liberam gases poluentes como monóxido de carbono, óxido de nitrogênio, hidrocarbonetos, metano, aldeídos, dióxido de carbono, dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre, todos emissores de riscos para o Meio Ambiente. “O monóxido de carbono é bastante tóxico para a atmosfera. Em locais fechados, ele pode causar intoxicação, e o limite que as pessoas podem aspirá-lo é pequeno. O dióxido de carbono e o metano causam o efeito estufa, gerando problemas ao Meio Ambiente e à temperatura da Terra.” Macedo explica que esses elementos químicos são gases densos e tóxicos, responsáveis por chuvas ácidas. 

Como veículo prejudicial, o professor pontua carros movidos à eletricidade. “Para produzir a maior parte deles, faz-se uso de ligas metálicas. Se gasta muito para produzir os materiais e a própria indústria causa certo dano ao Meio Ambiente. Isto nunca é observado, já que se acredita que único problema é o combustível.” Macedo cita projeto do uso do hidrogênio como substituto. “Nesse caso, o grande poluente seria o vapor d’água na conversão do hidrogênio em energia. Fora as questões de segurança, pois ele é um gás muito explosivo.” 

Para a professora Nadia Khaled Zurba, do Centro de Tecnologia da UFC, os impactos positivos da mobilidade urbana ao Meio Ambiente são amplos e podem ser compreendidos em diferentes dimensões. Na social, por exemplo, as pessoas tendem a cuidar melhor e a valorizar mais aquilo que elas conhecem. “Logo, se você oferece meios de mobilidade integrados à natureza e ao Meio Ambiente, a probabilidade de preservá-los é maior”, aponta. Na dimensão do turismo, descreve Nadia, o Brasil enquanto país repleto de recursos naturais que atraem turistas deve ser ambientalmente preservado também pelos visitantes, tarefa facilitada por meio do uso de veículos compartilhados, a exemplo de bicicletas e carros compartilhados, que podem agregar novo arranjo social de interação e comprometimento entre seus grupos usuários para preservar o Meio Ambiente. 

Em relação à desmotorização e mobilidade integrada, os impactos e benefícios são bastante evidentes, reforça a docente: redução direta da poluição do ar e de ruídos sonoros, redução do tempo e distâncias de deslocamento, com consequente diminuição no consumo de matriz energética não renovável. 

A professora pontua que, segundo a ONU, desde 2009, a maioria da população do mundo vive em cidades. “Existe uma correlação entre o aumento da população e o número de veículos. Logo, a tentativa de tornar as cidades mais inteligentes e sustentáveis e de proporcionar melhor qualidade de vida a seus habitantes incide diretamente sobre a mobilidade urbana e a acessibilidade, uma vez que os dois são formas de enfrentar essa realidade e solucionar os desafios da maior parte da população mundial viver em cidades”, pontua Nadia. 

Exemplo latino americano
Bogotá é exemplo de cidade que se reinventou. Desde 2014 buscando opções de transportes públicos à base de energias limpas, a Prefeitura de Bogotá implementou mais de 200 ônibus híbridos, que emitem 50% menos fumaça e consomem 35% menos combustível. De acordo com o estudo Green City Index, da alemã Siemens, que analisou variáveis ecológicas de 17 cidades da América Latina, Bogotá ficou entre as seis melhores. Só em áreas verdes, a capital colombiana conta com 107m² por pessoa. 

Para inverter a lógica
A partir de 2019, a Prefeitura pretende implantar projeto piloto com combustível produzido pela Gás Natural Renovável Fortaleza (GNR Fortaleza), usina de biogás a partir do lixo recolhido na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Paulo Mota, da Companhia de Gás do Ceará (Cegás), afirma que a instituição é a primeira do Brasil a injetar na sua rede de gasodutos o gás natural renovável (GNR). "O GNR é obtido com a purificação do biogás gerado pela decomposição do lixo do aterro da Região Metropolitana de Fortaleza. Atualmente, 15% do gás natural comercializado no Ceará para esses segmentos já é completamente renovável." 

Segundo Nadia Khaled Zurba, a prioridade governamental deve ser ampliar e melhorar o transporte público - que proporciona diversas vantagens ao Meio Ambiente, como redução do consumo de combustíveis e de emissão de gases poluente - conectado aos modos cicloviários e aos percursos de pedestres. “Isto é válido a nível mundial, nacional e local, dado o tendencial aumento no número de veículos de transporte motorizado, sendo ainda mais expressivo em países emergentes, como o Brasil.”

A professora da UFC destaca que no próximo semestre irá ministrar a disciplina “Cidades Inteligentes”, para preparar profissionais nas temáticas de mobilidade urbana e acessibilidade. As soluções a serem trabalhadas, conta Nadia, incluem calçadas, que devem ser de qualidade ao trânsito de pedestres, com dimensionamento do passeio compatível ao tráfego, pavimentação adequada, agregando o uso de pisos táteis de sinalização dos percursos, rampas de acesso a cadeirantes, faixas de segurança em boas condições de visibilidade, demarcação em elevação, entre outras soluções possíveis. 

Poder público e Meio Ambiente
A Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) iniciou em 2013 - ano em que Fortaleza foi selecionada como cidade modelo do programa Urban-LEDS, implementado pelos governos locais pela Sustentabilidade (ICLEI), em parceria com a ONU Habitat e financiado pela União Europeia - o planejamento de adaptação perante as mudanças climáticas. 

A Célula de Sustentabilidade Ambiental (Cesa), integrante da Coordenadoria de Políticas Ambientais da Seuma, e o Icleiiabilizaram, em 2014, o I Inventário de Gases de Efeito Estufa (GEE) da Cidade. A iniciativa, que quantifica as emissões de  vGEE geradas por setores como transporte, energia e construção civil, é elemento essencial para o planejamento de ações futuras na seara ambiental e constitui importante instrumento de contribuição para a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), instituída pela lei federal 12187/2009. Ainda no fim de 2014, foi criado o Fórum de Mudanças Climáticas de Fortaleza (Forclima). Os objetivos são a divulgação de inventários de GEE e a discussão de ações municipais acerca do tema. 

Otimizar a rede de circulação utilizada por pedestres, ciclistas e motoristas tem sido foco da Prefeitura, a partir da implantação de um denso programa de mobilidade urbana na Cidade. Uma das ações que contribuem diretamente para a preservação do Meio Ambiente é o Bicicletar, que em cinco anos realizou 2.340.325 viagens, possibilitando que deixassem de ser emitidas mais de 847 toneladas de gás carbônico na atmosfera, montante produzido caso esses deslocamentos tivessem sido realizados por veículos automotores. O dado, do último dia 13, foi disponibilizado pela PMF. 

O caminho para a igualdade nas ruas

Investimento em ações que priorizem a caminhabilidade e o deslocamento por meio de bicicleta pode auxiliar na divisão mais equitativa do espaço público

Por Lia Rodrigues

Estabelecido pela CF 88, o Plano Diretor, obrigatório para cidades com mais de 20 mil habitantes, é instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana. Sancionada em 2001, a lei federal 10257/2001, também conhecida como Estatuto da Cidade, determina diretrizes gerais para a política urbana e normas que regulam o uso da propriedade urbana em prol do bem coletivo, da segurança e do bem-estar dos cidadãos. O dispositivo define que compete à União, entre outras atribuições, instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano saudável, entre elas sobre transporte e mobilidade urbana, que incluam regras de acessibilidade aos locais de uso público.

A partir do Estatuto da Cidade, surge o Plano Diretor Participativo de Fortaleza (PDP), instituído pela lei complementar nº 62, de 2009, instrumento base para a política urbana da Capital e aplicável a todo o território municipal. Alicerce para o plano plurianual, a lei de diretrizes orçamentárias e a lei anual do orçamento municipal, o PDP estabelece em seu capítulo sobre mobilidade, entre outras diretrizes, a prioridade no espaço viário à circulação de pedestre, em especial às pessoas com deficiência e mobilidade reduzida, aos ciclistas e ao transporte público de passageiros.

O que já foi feito
De acordo com a Secretaria de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), o objetivo do Plano de Ações Imediatas de Transporte e Trânsito (Paitt), iniciado em 2014, é aperfeiçoar a rede de circulação utilizada por pedestres, ciclistas e motoristas. Hoje, a Cidade conta com 245,3 km de infraestrutura cicloviária, 107,4 km de faixas exclusivas para ônibus, 800 bicicletas de uso compartilhado, distribuídas em 80 estações do Bicicletar, e 350 bicicletas disponíveis para trabalhadores por até 14 horas, entre os sete terminais de ônibus da Capital. As avenidas Leste-Oeste e Osório de Paiva também têm visto avanços com o Plano de Gestão de Velocidade, que busca moderar o trânsito e a velocidade das vias a fim de alcançar segurança viária a todos.

Em relação ao conforto e à segurança de pedestres e pessoas com mobilidade reduzida, Fortaleza conta com o desenvolvimento do Plano de Apoio ao Pedestre, sob responsabilidade da SCSP. Faixas elevadas para pedestres, prolongamentos de calçadas, faixas para travessia em X, áreas de trânsito calmo e de incentivo ao uso dos espaços públicos fazem parte da realidade de algumas áreas da Capital desde 2015.

Outra iniciativa comprometida com a segurança e a fluidez no trânsito para pedestres, ciclistas e motoristas é o programa Sinalize. Desde 2017, o Departamento Nacional de Trânsito no Ceará (Detran/CE), em parceria com o Estado e a Prefeitura, instala sinalizações verticais e horizontais, ciclofaixas e faixas de travessia.

Ainda que existam avanços na Cidade nesse sentido, especialistas avaliam que ainda há muito o que melhorar. Para o engenheiro civil Phelipe Rabay, mestre em Engenharia de Transportes e ex-diretor da Associação dos Ciclistas Urbanos de Fortaleza (Ciclovida), a divisão do espaço público no trânsito ainda é injusta em Fortaleza. "Percebemos, em Fortaleza, uma atenção maior do poder público municipal nos últimos anos, principalmente de 2013 para cá. Mas, embora vejamos alguns avanços, ainda observamos muitas obras retrógradas sendo executadas e o desrespeito à lei de mobilidade urbana", afirma.

De acordo com Rabay, naquele ano houve diversas manifestações, iniciadas pelo movimento Massa Crítica, que tiveram repercussão nacional. "[Essas manifestações] colocaram o poder público contra a parede. O pessoal pintava ciclofaixas, pintava faixa de pedestres, colocava esse debate na mídia e a Prefeitura foi forçada a tomar uma posição, que foi uma posição muito feliz. Fez uma parceria com a Universidade, muitos dos técnicos da Prefeitura são meus colegas de mestrado da Engenharia de Transportes da UFC, uma equipe realmente muito boa, que tem buscado colocar mais faixas de pedestre, respeitar as leis de mobilidade", explica.

O que precisa melhorar
Para o engenheiro civil Phelipe Rabay, há um longo caminho a percorrer nesse sentido. "Ainda há o vício das grandes obras viárias, que acabam não servindo nem ao propósito de melhorar o fluxo. A gente vê os viadutos recém-inaugurados sempre engarrafados. Elas acabam não resolvendo o problema da mobilidade do veículo particular e ainda causam outros problemas, como a falta de espaço para o pedestre, para o ciclista e para soluções como faixas exclusivas de ônibus", argumenta.

Mestre em Planejamento Regional e Urbano e membro do Coletivo A-braço, o arquiteto e urbanista José Otávio avalia que a atual divisão do espaço público de Fortaleza ainda é predominada por espaços concedidos aos automóveis particulares, que demandam mais espaços que os outros e são menos eficientes do ponto de vista do "uso racional do espaço para o transporte da população, que são as pistas cicláveis (ciclovias e ciclofaixas, transportes privativos não motorizados) e as faixas de ônibus (transportes coletivos motorizados)."

Para o arquiteto e urbanista, o poder público sempre deu atenção à questão da divisão do espaço público. "A gestão do prefeito Roberto Cláudio foi marcada pela mudança no perfil de muitas ruas e avenidas para melhor setorização do espaço, o que garante mais eficiência ao transporte público de massa e segurança ao transporte particular não motorizado. Entretanto, órgãos municipais dão, ocasionalmente, sinais contrários a esses avanços com obras direcionadas à indução e à ampliação do tráfego automotor particular, com pouca usabilidade e distinção aos meios mais eficientes", pondera. José Otávio acrescenta que as mudanças que favorecem o transporte a pé — obras direcionadas a calçadas — ainda avançam de forma lenta, apesar da formulação do Plano Municipal de Caminhabilidade de Fortaleza.

Caminhos para a divisão ideal
"A melhor divisão equitativa seria aquela que permitisse o acesso justo e equânime de toda a população aos meios de transporte e seus deslocamentos. Para isso, devemos verificar como a população se locomove, de onde, para onde e de que maneira", afirma o arquiteto e urbanista José Otávio. Segundo ele, a maioria da população utiliza o sistema de transporte público, razão pela qual esse meio de transporte deve ter prioridade.

"Todavia, mais do que fazer uma divisão equitativa, precisamos ter em vista também a transformação para um futuro desejado do espaço público. Isto pode implicar em intervenções que vão além das faixas de transporte público, como a criação das pistas cicláveis e o favorecimento do transporte pedonal, pois esses trazem enormes benefícios como a economia de seus utilizadores com combustível, a não emissão de poluentes e a maior relação com os comércios e serviços de escala local/humana", pontua José Otávio.

Para o mestre em Planejamento Regional e Urbano, a atual prioridade deve ser ampliar e conectar pistas cicláveis e corredores de transporte público e construir calçadas regulares e adequadas a todos os moradores da Cidade. "Não é possível falar em divisão equitativa sem que seja garantido, o mais rápido possível, a acessibilidade universal (que inclui o fim dos desníveis, rampas nas esquinas ou travessias elevadas, semáforos auditivos, pisos táteis ou outros balizadores, espaços dignos e suficientes, calçadas arborizadas e fluxo desimpedido por objetos) de todas as pessoas", afirma.

Para Phelipe Rabay, um dos caminhos é apostar em intervenções que priorizam o pedestre. "Quando você faz uma coisa que é boa para o pedestre, dificilmente vai ser ruim para alguém. As obras que pensam, de fato, no pedestre são o caminho. E, junto com elas, as campanhas educativas em rádio, em TV, em outdoors", opina. Como exemplo, o engenheiro civil cita intervenção recente no bairro Cidade 2000. "As calçadas foram alargadas e tiraram espaço de estacionamento. Isto dá ao pedestre uma segurança maior e uma qualidade melhor de caminhada, traz as pessoas para a rua."

O que diz o CTB
A equidade na utilização das ruas é um dos princípios defendidos pelo Código Brasileiro de Trânsito (CTB). A legislação determina que garantir a segurança do trânsito é papel de todos, e estabelece uma hierarquia de responsabilidades dos participantes do trânsito, sendo a maior delas a do condutor do maior veículo. Conheça.

Ciclistas
1. Em trechos onde não há ciclovias ou ciclofaixas, a circulação das bicicletas deve ser próximo ao meio-fio e sempre no mesmo sentido de circulação dos carros.2. O CTB não exige que ciclistas utilizem capacete ou outros vestuários de proteção. São equipamentos obrigatórios para as bicicletas campainha, espelho retrovisor do lado esquerdo, e sinalização noturna (dianteira, traseira, lateral e nos pedais).3. Ciclistas só podem circular nas calçadas e passeios se desmontados empurrando a bicicleta ou em trechos autorizados e sinalizados. 4. É obrigatório aos veículos automotores guardar distância lateral de 1,5m em relação às bicicletas e reduzir a velocidade do veículo ao passar ao lado ou ultrapassá-las.

Pedestres
1. Têm o direito de transitar por passeios e passagens apropriadas para circulação. Parte das calçadas pode ser utilizada para outros fins desde que não seja prejudicial ao fluxo de pedestres.2. Quando não houver passeios ou não for possível sua utilização, pedestres têm prioridade sobre os veículos e podem caminhar próximo ao meio-fio, em fila única - exceto em locais proibidos pela sinalização e em situações perigosas.3. Para cruzar a pista, o pedestre deve tomar precauções de segurança, considerando a visibilidade, a distância e a velocidade dos veículos. Deve também utilizar as faixas ou passagens de pedestres sempre que existirem a uma distância de até 50 metros dele.4. Em caso de mudança do semáforo liberando a passagem dos veículos, a preferência é dos pedestres que não tenham concluído a travessia.
FONTE: CTB

Ponto de vista
Mais de 60% da população de Fortaleza é de baixa renda e, em sua maioria, vive na periferia em condições precárias. Então, não há como pensar em planejamento da mobilidade urbana sem que essa parcela da população seja priorizada, fazendo da equidade um princípio-guia. A um longo prazo, para garantir um planejamento equânime, precisamos construir uma cidade em que postos de trabalho e escolas da população de baixa renda estejam próximos de suas residências, para facilitar o deslocamento a pé e por bicicleta.

A um curto, para vencer essas distâncias ainda presentes no dia a dia de muitos, Fortaleza vem apresentando grandes avanços. Um exemplo que merece ser destacado é o Bilhete Único, que permite que o usuário de ônibus faça quantas integrações sejam necessárias no período de duas horas. Apesar de não aproximar espacialmente as pessoas do seu local de trabalho, o bilhete pode ajudar a diminuir os tempos de deslocamento, o que melhora a qualidade de vida das pessoas. Outra ação que qualifica o transporte público é a implantação de faixas exclusivas que tornam o transporte público mais rápido e mais atrativo. Dar espaço para faixas exclusivas é se comprometer com uma divisão equitativa do espaço viário, e o mesmo vem sendo feito com a infraestrutura cicloviária. Em poucos anos, a malha cicloviária cresceu aproximadamente 250%. As ações implementadas hoje, por mais eficientes que sejam, não excluem a necessidade de um planejamento sustentável. Se combinarmos as ações que já estão em curso com as propostas do Plano Fortaleza 2040, transformaremos Fortaleza em uma cidade mais justa, conectada e acessível.

Beatriz rodrigues, arquiteta e urbanista e mestre em Engenharia de Transportes

Movimento Urbano #03

A mobilidade é um assunto que interessa a todos, independente do meio que se use para se locomover.

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