capa movimento 2018

Editorial

Por Kelly Hekally

Enxergar e viver uma nova cidade. Esta ideia vai ao encontro do conceito de direito à cidade, em Fortaleza, uma das filosofias trazidas à luz graças à mobilidade urbana. O espaço coletivo - formado por vias públicas, praças e lugares que se propõem a ser área de convivência para todos - precisa estar sob os olhos do poder público e da sociedade civil. Ambos têm buscado desempenhar seus papéis. Mas ainda há muito para se fazer.

O segundo caderno da série Movimento Urbano passeia por histórias de quem encontrou no pedal, nos passos e nos gestos a grandeza de espalhar gentileza e justiça social pelas ruas. A advogada Elaine Luz e a desenvolvedora de softwares Rafaela Melo falam de suas experiências de pertencimento à cidade por meio do uso da bicicleta. 

O bem-estar alcança também a seara individual. Quem nos conta sobre as melhorias nas saúdes física e psicológica com o deslocamento ativo são a microempresária Larissa Praxedes e o historiados Maykol Camurça. Especialistas ponderam que o planejamento urbano reflete, também, diretamente na saúde pública. 

Ações em prol da conscientização dos direitos de ser pedestre com segurança e mapa de ciclovias e ciclorrotas compõem ainda o caderno em suas mãos. Assim, aproveite as linhas que seguem e veja por que se deslocar ativamente vai além de uma simples locomoção. Boa leitura.

Para fortalecer o direito à cidade

Ações no âmbito da mobilidade urbana e de requalificação de espaços públicos incentivam a ocupação da Cidade e o sentimento de pertencimento a ela

Por Lia Rodrigues

Pensar a cidade — em especial ruas, praças e áreas públicas em geral — como espaço de convivência da população. É a partir dessa ideia que se projeta o conceito de direito à cidade, termo usado pela primeira vez pelo filósofo francês Henri Lefebvre, no livro Le Droit à la Ville, em 1968. Se o artigo 182 do capítulo Política Urbana da Constituição Federal de 1988 versa que "a política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público Municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes", ainda são muitos os problemas que impedem a plenitude do direito à cidade em Fortaleza. As violências urbana e de trânsito e a má conservação da estrutura dos espaços públicos são alguns dos exemplos.

 

Para saná-los, faz-se necessária a implementação de diversas políticas públicas, especialmente aquelas voltadas à mobilidade urbana e ao deslocamento ativo. "Percebemos que as cidades crescem em uma [grande] velocidade, mas não de forma inteligente", argumenta a advogada Elaine Luz, que, desde 2013, utiliza a bicicleta como meio de transporte em algumas ocasiões. Integrante do coletivo Ciclanas, grupo de mulheres ciclistas, Elaine entende que o estímulo ao deslocamento ativo pode auxiliar na ocupação da cidade. "Acredito que todo e qualquer incentivo em relação ao uso de bicicleta ou de qualquer outro meio de transporte ativo tem um papel importante para as pessoas que começam a usar esse tipo de transporte. Elas, invariavelmente, e às vezes até inconscientemente, mudam a forma de se perceber enquanto indivíduo dentro do contexto da cidade."

Segundo a advogada, quem começa a se deslocar de forma ativa passa a perceber e a interagir com aspectos da cidade que antes não eram percebidos e, dessa forma, passa também a entender qual é o seu papel na manutenção da cidade, como pode colaborar. "Isso faz com que nós passemos a nos ver como indivíduos que integram aquela sociedade e que ela é nossa responsabilidade também. A cidade não é algo que, única e exclusivamente, o município tem que dar conta. Cada um tem a sua importância dentro desse viés de pertencimento à cidade, de se apropriar dela de modo a conseguir colaborar nem que seja plantando uma árvore ou mantendo o perímetro da vizinhança, junto com os outros, limpo", exemplifica.

Pontos que merecem atenção

Para Elaine, apesar de Fortaleza estar entre as poucas cidades em que a malha cicloviária atende a uma quantidade considerável de pessoas, que por sua vez se sentem relativamente seguras para usá-la, um ponto a melhorar é a atual falta de campanhas educativas por parte do poder público local. "Ainda percebemos a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), enquanto Prefeitura de Fortaleza, omissa em uma série de questões, especialmente em campanhas educativas. E, quando eles fazem essas campanhas, elas são voltadas praticamente para quem faz uso do transporte ativo quando, na verdade, quem oferece riscos, na maioria das vezes, são motoristas irresponsáveis que desconhecem as normas mais básicas", ressalta.

Na legislação, estão previstas a redução da velocidade ao se aproximar de um ciclista, fazer ultrapassagens de forma segura — respeitando a distância mínima de 1,5 metro, como orienta o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) — e dar a preferência aos ciclistas e pedestres. "[O ideal seria] que as campanhas educativas fossem voltadas para a educação do motorista, porque é ele que tem que, realmente, respeitar, mais do que ninguém, o elo mais frágil que é o pedestre e, em seguida, o ciclista", afirma Elaine.

Mais verde, mais sombra 

"Eu acho bike um veículo incrível e Fortaleza uma cidade com clima agradável, mas, quando eu precisava ir em casa na hora do almoço, era um sofrimento! Não tem sombra nas ciclovias." Por esta razão, em 2016, Rafaela Melo, 37, reuniu um grupo de amigos para plantar árvores em trechos do canteiro central da ciclovia da avenida Washington Soares. Surgiu assim o projeto Num Guento Mais Calor.

A desenvolvedora de softwares pedala em Fortaleza desde 2015. Antes, andava de ônibus e "sofria com demora dos transportes coletivos e assédios", conta. Quando melhorou de condição financeira, comprou um carro e teve uma vida tranquila até se ver no trânsito cotidiano. "Parada no engarrafamento, eu comecei a observar os ciclistas passando por mim e os perdia de vista", conta. Foi assim que comprou sua bicicleta e passou a ir e vir pedalando no trajeto entre sua casa e o trabalho. O pedal mudou sua relação com a Capital. "Eu comecei a perceber como o direito à cidade é negado a mulheres e a ciclistas."

Incomodada com a ausência de áreas sombreadas, Rafaela juntou-se a três amigos ciclistas, foi ao Parque Botânico do Ceará, em Caucaia, pegou algumas mudas e plantou. Depois do plantio, perceberam a necessidade de ajuda na tarefa de cuidar das árvores. Além de carregar galões de água no alforje das bicicletas para regar as mudas no trajeto, o quarteto passou a colocar plaquinhas "Me dê água, te darei sombra" ao lado de cada planta e a publicar fotos nas redes sociais com a hashtag #numguentomaiscalor. A iniciativa fez sucesso e logo ganhou apoio de outros ciclistas, de coletivos, da Seuma e do Departamento Estadual de Rodovias (DER).

Um dos coletivos que apoiaram o projeto foi o Verdejar, criado em 2015. Meio Ambiente, espaço público e educação ambiental estão entre as pautas do coletivo e foram o que o uniu ao Num Guento Mais Calor. Franklin Maia, integrante do Verdejar, explica que uma cidade mais arborizada traz melhor qualidade de vida e melhora as condições para caminhar e pedalar. “Além disso, há o direito à cidade. Despertamos nos participantes o sentido de propriedade sobre o local público. Se é meu, eu também cuido."

No primeiro semestre de 2016, foram realizados três grandes plantios. Foram cerca de 50 mudas de pau branco e ipê amarelo plantadas em três segmentos da avenida - próximo ao Habib's, na altura do viaduto que liga a avenida à CE-025 e próximo ao Liceu da Messejana. Ao mesmo tempo, por ser uma iniciativa "sem dono", existiram ações autônomas. "Algumas pessoas plantaram árvores nos seus percursos e a gente só sabia depois porque marcavam a hashtag", lembra Rafaela.

Dois anos depois da primeira ação, o grupo de amigos continua cuidando das árvores conforme passam pelos trechos. Rafaela conta que as condições climáticas pouco favoráveis e a ausência de ações do poder público para cuidar das plantas levaram as árvores a crescer pouco. Questões pessoais diminuíram a presença da bicicleta no dia a dia da desenvolvedora. "Hoje a gente não se junta. Aqui e acolá alguém publica algo com a hashtag. Pessoas que a gente nem sabe quem é continuam plantando e regando."

Ações de incentivo

O Plano Municipal de Caminhabilidade, elaborado pela Prefeitura Municipal de Fortaleza por meio da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), é uma das ações que estimulam o deslocamento ativo. De acordo com a pasta, o plano "visa a colaborar com a construção de uma Fortaleza mais acessível, compartilhada e gentil”. Entre os pontos de atuação estão os passeios, a acessibilidade, a segurança e a disponibilidade de parques, praças e arborização, fatores que, segundo a Seuma, “muitas vezes determinam esses deslocamentos a pé, proporcionando que pessoas com mobilidade reduzida/deficiência visual e idosos tenham mais convivência e possibilidades".

Por meio da Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), a PMF desenvolve também diferentes projetos na seara da mobilidade urbana, com parceiros como a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra) e as Regionais. São exemplos as Travessias Elevadas para Pedestres, que visam a reduzir a quantidade e a gravidade dos acidentes de trânsito e garantir mais segurança para pedestres e pessoas com mobilidade reduzida; as Faixas em Diagonal para Pedestres, que buscam evitar que os transeuntes façam travessias desprotegidas; e o projeto Cidade da Gente, localizado na rua Almirante Jaceguai, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e realizado com apoio da Iniciativa de Segurança Viária Global.

A ação tem como finalidade transformar o espaço público disponível nas ruas em espaço de convivência mais acessível a pedestres, ciclistas e portadores de deficiências físicas. Jarros de planta, pinturas com tinta de fácil remoção bancos e demais mobiliários compõem a intervenção na rua.

Com estratégias a serem implementadas a curto, médio e longo prazo, o plano Fortaleza 2040, composto por Plano Mestre Urbanístico, Plano de Mobilidade e Plano de Desenvolvimento Econômico e Social, é uma ação da Prefeitura em conjunto com a sociedade civil que objetiva planejar Fortaleza a fim de, nas próximas décadas, transformá-la em uma cidade mais acessível, justa e acolhedora, com "o incremento da oferta de oportunidades apoiadas pela boa ordenação da rede de conexões de seus espaços públicos e privados; e a obtenção de controle eficiente do seu crescimento econômico."

Deixar o carro e adotar a locomoção ativa faz bem

Larissa e Maykol perceberam benefícios à saúde ao adotar a bicicleta nos trajetos diários. Especialistas defendem que o planejamento urbano em prol de deslocamentos ativos é uma ferramenta exitosa para a saúde pública

Por Paulo Emanuel Lopes

Larissa Praxedes apresentava problemas com ansiedade e sentia medo de envelhecer e desenvolver os mesmos problemas de saúde que levaram sua mãe a falecer, em 2015. Antes, o deslocamento de casa até o trabalho era feito em automóvel particular e, apesar de entender a necessidade de ir à academia, a falta de disposição impedia Larissa de vivenciar atividades físicas no espaço. Até que, no ano de falecimento da mãe, o nível de estresse subiu ao ponto de receber um ultimato do médico: tirava férias forçadas ou teria um problema grave de saúde.

“Então viajei escondida, tirei as férias forçadas, e esse foi o momento da virada”, narra a proprietária da loja Elabore, localizada no bairro Aldeota. “Quando cheguei de volta, fui logo tratando de vender meu carro e, por medo de não conseguir dar conta dos trajetos, comprei uma bicicleta elétrica.” Quatro meses depois, Larissa já estava com uma bicicleta tradicional, a mesma que possui ainda hoje. “Eu tinha medo da violência, dos carros, mas até hoje nunca fui assaltada.”

Para além da redução de custos com a nova modalidade de transporte, a microempresária detalha uma série de benefícios à sua saúde. “Eu fazia um acompanhamento médico por conta do problema de ansiedade e, desde que adotei a bicicleta nos trajetos diários, meu médico foi percebendo a melhora no meu estado de saúde até o ponto de retirar totalmente o medicamento. Eu era uma pessoa muito estressada, mas hoje esses são momentos exceção. Comecei a prestar atenção à minha alimentação, que melhorou. Também o sono, principalmente o sono, melhorou bastante.”

O prazer com a atual forma de se locomover vai além dos trajetos diários. Larissa, que se reúne com amigos para passeios de bicicleta no fim de semana, aponta uma série de benefícios psicológicos que observou a partir da adoção do veículo de duas rodas. “É divertido. Estou ao ar livre e não presa dentro de uma academia! Meu humor melhorou. Demorei muito a descobrir o que amo, mas encontrei. É a bicicleta!” 

O historiador Maykol Camurça é outro fortalezense que utiliza diariamente a bicicleta em seus trajetos urbanos. As crises de asma que costumava sentir da infância até a juventude cessaram e, embora não haja comprovação médica que embase sua opinião, Camurça credita o fato à paixão que desenvolveu por esportes. “Eu sempre gostei de esportes. E agora adotei o ciclismo tanto para lazer como para me deslocar para o trabalho.”

O jovem reside próximo ao campus Itaperi da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e trabalha no Aeroporto Internacional de Fortaleza - Pinto Martins. Mas os trajetos diários ciclísticos já foram mais amplos, quando trabalhou em bairros como Centro e Rodolfo Teófilo. Camurça defende que, para além das vantagens observadas em seu bem-estar físico, são as questões relativas à saúde psicológica que mais chamam atenção. “A gente passa a viver a cidade de outra maneira. Você passa por lugares e os olha de outra forma, que de carro ou ônibus não olharia. Conhece mais lugares, segue outros caminhos, diferente dos mais corriqueiros que você costuma utilizar.”

 

Saúde e planejamento urbano 

Apesar da comprovação das vantagens de trocar o automóvel por modos alternativos de locomoção, como é o caso da bicicleta, essa não é uma solução igualmente aplicável aos indivíduos. É o que aponta o professor Paulo Furquim de Azevedo, doutor em Economia pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), que coordenou projetos na área de políticas de desenvolvimento produtivo. “Do ponto de vista individual, nem sempre abandonar o carro é uma atitude positiva, pois é necessário haver uma infraestrutura urbana adequada.” 

Essa falta de planejamento estratégico urbano gera impactos à saúde pública e privada, cujos custos de manutenção vêm subindo acima da inflação nos últimos anos, aponta o economista. “O maior problema de saúde pública hoje é o sedentarismo e aí estão inclusos problemas cardiovasculares, de diabetes. Então, o planejamento urbano tem sua ponta de responsabilidade nesse quadro epidemiológico por não oferecer às pessoas alternativas interessantes do ponto de vista da locomoção.”

 

Qualidade do ar

Segundo relatório divulgado este ano pela Organização Mundial da Saúde (OMS), no mundo, nove de cada dez pessoas respiram ar com alto nível de contaminação. Em 2016, cerca de quatro milhões de mortes foram registradas por contaminação do ar - o número não contempla óbitos decorrentes da ingestão de gases domésticos oriundos do preparo de alimentos. O dado é preocupante do ponto de vista da saúde do usuário de meios de locomoção ativos, uma vez que, nessa condição, ele acaba por exigir respiração mais intensa.

A hipótese de senso comum, no entanto, não se confirma. É o que aponta a médica e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Magda Moura de Almeida. A docente, doutora em Clínica Médica e mestre na área de doenças cardiometabólicas, cita estudo que avaliou os efeitos na saúde da atividade física do ciclismo realizado na cidade de Barcelona, Espanha. “O estudo demonstrou que os benefícios advindos do ciclismo são maiores que os riscos de doenças causadas pela inalação de poluentes atmosféricos e por acidentes de trânsito. Ademais, a troca do carro pela bicicleta reduz as emissões de dióxido de carbono ao longo do tempo, causando benfeitorias de saúde para a população geral da cidade.”

“Quando assumimos que o tempo gasto com ciclismo substitui o tempo de dirigir um carro, os benefícios sempre excedem os riscos quando as concentrações de poluição do ar estão abaixo de 80 µg/m3”, aponta a professora. “Para a concentração média registrada em meio urbano (22 μg/m3), de acordo com a base de dados da OMS, o ponto onde os riscos superariam os benefícios só é alcançado após 7 horas de ciclismo ou 16 horas de caminhada por dia.”

A adoção do ciclismo diário, também conhecido como ciclismo urbano, exerceria ainda função de esforço físico diário recomendável ao corpo humano, explica Magda, que, como referência, utiliza as diretrizes de atividade física para americanos. “Para promover e manter a saúde, crianças e adolescentes com idade entre 6 e 17 anos devem fazer 60 minutos ou mais de atividade física moderada a vigorosa diariamente. Os adultos, inclusive gestantes e puérperas, devem fazer semanalmente pelo menos 150 minutos com intensidade moderada, ou 75 minutos de uma atividade de intensidade vigorosa. Assim, uma pessoa que se desloca de bicicleta por uma curta distância diária, de 7,5 km por exemplo, atenderia à recomendação mínima para atividade física em cinco dias.”

Pesquisa publicada em 2017 pela Universidade de Glasgow, na Escócia, lançou mais luzes sobre a questão. Segundo confirmou o estudo acadêmico, pedalar todos os dias ajuda o organismo a reduzir riscos de enfermidades. Os especialistas acompanharam mais de 264 mil pessoas durante intervalo de cinco anos e chegaram à seguinte conclusão: quem utiliza a bicicleta com frequência possui menos chance de desenvolver tumores (45%), de desenvolver doenças cardiovasculares (46%) e riscos associados à morte prematura (41%).

Movimento Urbano #02

A mobilidade é um assunto que interessa a todos, independente do meio que se use para se locomover.

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