A Pedra da vez é o Ceará. No setor da mineração, os produtos explorados no Estado têm se mostrado em evidência no mercado brasileiro e externo. Mas o solo rachado demonstra ter muito mais riquezas do que as já exploradas.
O investimento na mineração ainda é pequeno, representa apenas 0,16% do Produto Interno Bruto (PIB) cearense e há um território de 148.826 km² ainda pouco dimensionado para a mineração, mas com embasamento cristalino que ocupa até 75% de área do Ceará.
Há potencial também na procura. Atualmente, existem no Estado pelo menos 5,6 mil processos ativos na Agência Nacional de Mineração (ANM). Destes, 3,9 mil ainda estão na fase inicial de requerimento de autorização de pesquisa.
E para conhecer in loco o que já se produz no Estado, O POVO percorreu da Região Metropolitana de Fortaleza ao Interior. Foram mais de 458 quilômetros (km), passando por Maracanaú, Pedra Branca, Aracoiaba, Santa Quitéria e Massapê.
No caminho, as empresas Pedreira Britacet, Nissi Rochas e Vermont Mineração abriram suas portas e detalharam onde se firmam os produtos advindos dos minerais extraídos dos municípios cearenses. Já a Buxton Mineração mostrou o projeto de exploração da grafita no distrito de Pedra Branca, em Aracoiaba. A intenção é obter o grafeno, camada de carbono bidimensional retirada da grafita, elemento forte como um diamante, resistente como o aço, condutor, melhor que o silício e o cobre, e leve ao ponto de ser sustentado por uma pétala de flor.
Mas o que tem forte presença no Estado é o segmento de rochas ornamentais. Apesar de, hoje, o Espírito Santo permanecer na hegemonia de principal estado exportador brasileiro, o Ceará ocupa a terceira posição. Somente de janeiro a junho de 2019, quase nove mil toneladas de granito foram embarcadas no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp) com destino a países como Itália e Argentina.
Na história do Brasil
O País possui um ambiente geológico favorável e rico. Com potencial econômico e de exploração está o Ceará
O potencial minerador do Brasil remonta sua história. Foi com os recursos da extração do ouro ainda no período colonial que se ajudou a financiar a Revolução Industrial e criar a classe média consumidora. Atualmente o setor é responsável por quase 4% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e tem capacidade de oferecer produtos para variados tipos de indústrias: siderúrgica, fertilizantes, petroquímicas e metalúrgicas.
"É justamente essa relação indireta com outras indústrias que torna a extração de minérios uma das principais fontes de geração de empregos", analisa o economista Lauro Chaves. Das quase 10 mil minas do País, 87% são de pequeno e micro portes, o que possibilita gerar 180 mil vagas de trabalho diretas e 2 milhões indiretas.
Eixos estruturantes são pensados para o setor brasileiro: mineração urbana, que visa ao aproveitamento de minerais que compõem os eletroeletrônicos descartados; desenvolvimento de uma cultura multieconômica, que deriva da operação minerária; racionalização e otimização da burocracia estatal, com novas práticas e recursos tecnológicos; e expansão de estudos em geologia marítima, alinhados com as pautas globais.
Mais especificamente sobre a atuação no mercado, o Ministério de Minas e Energia (MME) prevê ainda ações de implementação de um novo arranjo institucional da Agência Nacional de Mineração (ANM); o aprimoramento das normas, com o objetivo de garantir a segurança jurídica aos investidores; e a ampliação da oferta de áreas ao mercado, atraindo investimento em pesquisa e facilitando a abertura de novos empreendimentos.
País geologicamente privilegiado, o Brasil possui grande disponibilidade de recursos naturais e tem no minério de ferro um dos produtos que ajudam a alavancar o desempenho do segmento. Sozinho, ele representa quase 9% do total das exportações, atrás apenas da soja.
Outros minerais também ganham destaque quando se fala do papel brasileiro no setor de mineração, como o nióbio, importante para a alta tecnologia. Já a grafita está na dianteira para que o Brasil ocupe um ranking importante, principalmente por sua importância para as baterias dos carros elétricos.
O SETOR
Área ocupada: 0,5% de todo o território nacional
PIB da indústria extrativista de mineração: 1,4%
16,8% do PIB Industrial
Produção de 2 bilhões de toneladas ao ano
Faturamento de US$ 34 bilhões em 2018
Gera 180 mil empregos diretos e 2 milhões de indiretos
Representa 36% da balança comercial do Brasil
US$ 29,9 bilhões em exportações em 2018
400 milhões de toneladas movimentadas nos portos brasileiros em 2018
PRODUÇÃO E EXPORTAÇÕES
Somos Global Player na exportação de: nióbio, minério de ferro e vermiculita, grafita, bauxita e caulim
Somos autossuficientes em: calcário, diamante industrial, tungstênio e talco
Somos importadores de: cobre, enxofre, titânio, fosfato, diatomito, zinco
Temos dependência de: carvão metalúrgico, potássio e terras raras
Webdoc
Extrativismo no Estado
Solo cearense
A mineração desponta hoje na economia do Estado. Estudos e iniciativas tentam fazer o setor ainda mais promissor
Contabilizar a quantidade de empregos gerada pela mineração é uma forma de dimensionar a importância do setor. No Ceará, são pelo menos 13.104 empregos formais. E seu potencial geológico acompanha o brasileiro, com um embasamento cristalino que ocupa até 75% do território do Estado. Alguns bens minerais já são destaque: água mineral, calcário, rochas britadas, rochas ornamentais. Este último desponta pelas descobertas que o solo cearense possibilita.
"Temos hoje, na parte de mineração ligada à construção civil, duas empresas com quatro fábricas de cimento. Temos grandes produtos de calcário, de minério de ferro e de gesso. Temos também a maior empresa de produção de água mineral do Brasil", descreve o presidente do Sindicato de Diamantes e Pedras Preciosas do Ceará (Sindiminerais), Ricardo Cavalcante. Parte importante da identificação do potencial cearense é o Atlas Geológico e da Mineração do Estado, que aponta a localização dos principais minérios.
O documento indica a logística e o mapeamento geológico de 25 folhas identificadas pela Companhia de Pesquisa e Recursos Minerais (CPRM), na escala de 1 para 100 mil. Os dados estimulam as mineradoras e os geólogos a pesquisarem especialmente as anomalias geoquímicas, dando ao investidor a possibilidade de saber onde é vantajoso investir. Inclusive, destacando quais os caminhos que o minério extraído irá percorrer, ponto fundamental dentro da logística de investimento.
"O minerador extrai o minério de uma região e precisa levar para outra, até para outros países. Saber o que há de infraestrutura fará com que haja um melhor posicionamento do projeto", destaca Ricardo. Outro documento que ajuda a localizar de forma mais eficiente as explorações minerais no Ceará é o Plano Diretor de Mineração da Região Metropolitana de Fortaleza. Nele é feito um diagnóstico da atividade, mostrando suas potencialidades e ferramentas de convivência com o crescimento urbano.
O Plano Diretor, lançado neste ano, distancia-se por quase 20 anos do último estudo e tenta dimensionar a atividade de mineração considerando uma proposta de zoneamento que garanta o suprimento futuro de forma sustentável. Fato é que as cidades cresceram e muitas se aproximaram das áreas de exploração mineral.
O monitoramento documental, elaborado pela Agência Nacional de Mineração (AMN), identifica áreas com potencial, faz um diagnóstico da situação ambiental - propondo medidas mitigadoras, constrói uma ferramenta de fiscalização da atividade ilegal e, principalmente, integra a atividade às ações de planejamento da RMF.
A inovação em pesquisa e identificação de áreas ricas em minérios acompanham também a fiscalização, com drones que transmitem dados via satélite: equipamento, extração, produto e mercado. "Algumas plantas de extração trabalham produzindo 3,4 produtos ao mesmo tempo. Antes se explorava o minério de ferro e o rejeito todo jogava fora. Hoje o mercado procura a mina e faz uma prospecção para saber que outros produtos têm com o minério de ferro. Quando faz a retirada já separa esses materiais", explica Ricardo.
A importância das estruturas
Dentro da Zona de Processamento de Exportação do Ceará (ZPE), no Porto do Pecém, existem cerca de 10 empresas de mineração, todas do setor de mármore e granito. A exportação de minério de ferro também ganha mais espaço. A proximidade com continentes como África, Ásia e Europa, além dos Estados Unidos faz com que o Ceará tenha uma posição privilegiada.
"A ZPE tem como principal atrativo a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), lá instalada, e grande consumidora de calcário, mineral base para produção de aço", avalia o presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Ceará (Adece), Eduardo Neves. Para ele, a zona de exportação é ainda um forte instrumento para atração de empresas, tendo em vista os incentivos fiscais concedidos aos exportadores.
A política que estimula a chegada de investidores por meio de facilidades tributárias está como uma das principais formas de alavancar ainda mais o setor no Estado. Eduardo pondera que a produção cearense precisa contar com mais agilidade na expedição de licenciamentos na esfera do código de mineração e nos procedimentos de obtenção de licenças ambientais. "Uma mineração competitiva só será eficiente se dispuser de logística eficiente", reforça o presidente da Adece, destacando a importância de uma boa infraestrutura viária.
As riquezas inexploradas
Rochas ornamentais, materiais metálicos como ferro, chumbo e manganês, além de grafita, nióbio e lítio, são algumas das potencialidades do Ceará
As potencialidades de exploração no Estado vão desde a Região Metropolitana de Fortaleza até o Interior
O Ceará é um estado que pouco investe em mineração. A atividade extrativa mineral representa 0,16% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado. Mas, por debaixo dos 148.826 km² que demarcam o seu território há uma riqueza mineral ainda não dimensionada que poderia trazer um novo curso para esta economia.
Dentre as potencialidades, há um leque amplo de rochas ornamentais, materiais metálicos como ferro, chumbo e manganês, além daqueles minerais, que por suas propriedades, são muito associados à tecnologia do futuro, como grafita, nióbio e lítio.
Atualmente, existem no Estado pelo menos 5,6 mil processos ativos na Agência Nacional de Mineração (ANM). Destes, 3,9 mil ainda estão na fase inicial de requerimento de autorização de pesquisa.
No caso do ferro, por exemplo, pesquisas em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) já identificaram que no Sertão de Crateús o teor de qualidade do mineral encontrado, associado com apatita e cobre, é superior a 75%, embora ainda não se tenha clareza da quantidade disponível. Diferentemente das minas de Carajás (PA), que possuem reservas com mais de 18 bilhões de toneladas na superfície, os depósitos cearenses estão encobertos.
Na região de Sobral já existe empresa prospectando negócios, adianta o secretário do Desenvolvimento Econômico e Trabalho (Sedet), Maia Júnior. "As informações que recebemos deles é que a mina de ferro tem um bom volume, com perspectiva de exploração aproximadamente de cem anos, com retirada de 2 milhões de toneladas de minério de ferro de boa qualidade".
O Ceará também é detentor de uma das principais reservas de urânio do País. As tentativas de exploração da área em Santa Quitéria distam pelo menos 40 anos, mas o projeto, via consórcio entre as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e o Grupo Galvani, nunca foi adiante por problemas com licenças e infraestrutura.
A atividade é monopólio da União por determinação constitucional. No início deste ano, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) rejeitou novamente o pedido em função dos riscos de impactos socioambientais na região. Mas o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, tem afirmado que o Governo Federal está empenhado em destravar o projeto, assim como outras minas na Bahia, para que se possa gerar matéria-prima para a usina Nuclear Angra 3, no Rio de Janeiro.
Para além da exploração pela indústria nuclear, este tipo de material encontrado no Ceará tem despertado interesse da cadeia produtiva do agronegócio, por sua associação com fosfato, importante corretivo de solo.
O gerente de Geologia e Recursos Minerais do Serviço Geológico Brasileiro, Edney Palheta, explica que há outras potencialidades de menor risco ambiental que as metálicas, que ainda não são olhadas com a devida atenção. As rochas ornamentais, por exemplo, estão presentes em 80% do território cearense. "Mas ainda não exploramos nem 10% ou 15% deste potencial".
Ele reforça que a geologia cearense é rica também em grafita. Em Canindé, algumas amostras já foram encontradas com teor de 18% de carbono. "O que é interessantíssimo. Mas é preciso avançar para ver se há viabilidade econômica de negócio".
Nos municípios de Canindé, Tauá, Itapipoca e Granja também já foram identificados grandes depósitos de quartzo, matéria-prima para produção de painéis fotovoltaicos.
Aproveitamento
Se o Ceará tem tantas riquezas minerais, por que este potencial não é melhor aproveitado? Para muitos, a resposta perpassa por questões como a falta de um mapeamento geológico mais aprofundado, a confiança do mercado de fazer investimentos altos e de risco em um momento de instabilidade econômica, e também pela ausência de políticas públicas mais agressivas para fomentar a pesquisa e a produção mineral.
O mestre em Geologia, Ruy Freitas, destaca que esta não é uma particularidade do Ceará. "A mineração é um investimento de alto risco, que exige muitos anos de pesquisa, é cara, e que pode não dar em muita coisa. Mas se der certo, o retorno é bem interessante. A burocracia também é uma dificuldade, demora-se muito tempo para avaliar requerimentos, conceder licenças etc".
O secretário do Desenvolvimento Econômico e Trabalho, Maia Júnior, diz que o Estado já avançou, mas reconhece que ainda há muito a ser feito. Algumas áreas na mineração devem ser priorizadas. Dentre os setores em potencial estão rochas ornamentais, ferro, urânio, platina e grafita.
Ele reforça, no entanto, que mais do que projetos econômicos, o que o Governo busca uma nova matriz de desenvolvimento alicerçada em capital humano e inovação, que levem ao Estado não apenas empresas interessadas em exportar minério, mas em fazer o beneficiamento e entregar produtos de maior valor agregado.
Até o fim do ano, o Serviço Geológico Brasileiro também deve entregar uma nova versão do mapa geológico do Estado. O anterior data ainda de 2013. "É possível mudar todo o perfil econômico de uma cidade em função de um empreendimento", complementa Edney Palheta, gerente de Geologia e Recursos Minerais do Serviço Geológico.
O estímulo consumo
A abertura para novos mercados internos e externos pode impulsionar a indústria da mineração no Ceará
Área de exploração da Pedreira Britacet, em Maracanaú
Há um movimento crescente em busca da viabilidade do setor de mineração e de atrair mais mercados. É assim que encontra direcionamentos o Sindicato das Indústrias de Mármores e Granitos do Ceará (Simagran). Seu presidente, o empresário Carlos Rubens, garante que o Estado está em pé de competitividade com o mundo quando o assunto é tecnologia e equipamento de produção.
Atualmente, a construção civil é o grande mercado consumidor das pedras que são retiradas do solo cearense. "Pisos, revestimentos de parede, bancadas de cozinha, divisor de banheiro, revestimento de fachada de prédio", exemplifica. O Ceará, ele explica, por causa de sua geologia, dos tipos rochosos que apresenta, tem se transformado na fronteira mais importante do País em determinados tipos de rochas.
Ele cita o tipo branco Ceará, que fica em Santa Quitéria, na principal jazida de granito branco do mundo, pertencente à empresa Nissi Rochas, com uma caracterização tecnológica que preenche todos os requisitos de normalização e com capacidade de atender qualquer volume e metragem no tempo da obra.
Já o quartzito, com composição mineralógica de 95% de quartzo, é uma das rochas mais procuradas e tem como característica ser resistente à abrasão. "Ela é submetida a muito trânsito, milhares de pessoas andando em cima dela e não arranha. Demora a perder o polimento e ainda absorve pouca água", diz Carlos Rubens, detalhando a rocha de tonalidade clara que ganha o gosto de profissionais da arquitetura.
Na Pedreira Britacet, em Maracanaú, são quase 40 anos na área industrial de britagem e agregados para construção. Com uma produção mensal em torno de 63 mil toneladas por mês. O destaque vai para o granito-gnáissico. E o mercado consumidor prioritário está no próprio Ceará. "É uma atividade que está sempre ligada ao desenvolvimento econômico. Sempre que se vai criar uma nova atividade, o material da gente está presente", afirma o diretor da empresa, Abdias Veras.
O presidente do Sindicato de Diamantes e Pedras Preciosas do Ceará (Sindiminerais), Ricardo Cavalcante, destaca que o maior estímulo do setor hoje é o consumo. Por isso busca a melhoria do mercado interno e a continuidade por atração de novos negócios no mercado externo.
"O Estado tem feito seu papel nessa política de atração, mas o setor mineral, assim como os demais setores produtivos, tem como elemento crucial a busca pelo mercado consumidor. Muitas unidades estão com capacidade de produção ociosa, mesmo munidas de equipamentos do mais alto nível", avalia.
Presença do granito branco
Técnica de corte do granito branco pela Nissi Rochas
Na fábrica da empresa Nissi Rochas são produzidas 15 mil m² de placas de granito por mês. A planta, entretanto, está passando por ampliação e deverá aumentar sua capacidade até o ano que vem. O beneficiamento das rochas acontece em Santa Quitéria há dois anos, fruto da fusão da cearense GranStone com a ThorStone, do Rio de Janeiro. Hoje, a única rocha beneficiada é o granito branco Ceará, mas outras pedras estão sendo testadas.
O corte das pedras, segundo o gerente industrial da Nissi Rochas, Carlos Falcão, é realizado com uma das mais modernas tecnologias do mercado: o fio diamantado. "Primeiramente surgiu o fio helicoidal para cortar mármore. Uma pessoa dosava a água e areia e um fio helicoidal de aço para cortar. Mas só cortava mármore e com a evolução vieram os fios diamantados para cortar granitos, quartzos", explica. A ferramenta substituiu o uso do cordel detonante, que apresentava o risco de deixar a rocha trincada. "O fio diamantado corta, mas não agride", ressalta.
Atualmente, a empresa atua em três eixos: fornece blocos diretamente para o mercado, transforma em chapa ou vende para marmorarias. "E posso ainda transformar em piso aqui também, porque temos marmoraria, que vende ladrilhos ou revestimentos", afirma. Ele informa que existem plantas piloto que já possibilitam o corte com jato de água pressurizado. "O desenvolvimento em achar o fio com qualidade de corte bom, com rendimento e velocidade", explica Falcão.
O granito tem forte presença no Porto do Pecém. Há cerca de dois anos, o Complexo Industrial passou a receber um navio exportador da rocha a cada 45 dias. Essa marca era de apenas cinco embarcações por ano.
"Estamos agora num processo de aprovação da ZPE II para atrair empresas que queiram beneficiar o granito nessa área, que tenham interesse em estar dentro de uma Zona de Processamento de Exportação, com todos os incentivos que a Lei permite, com a facilidade tributária", conta Danilo Serpa, CEO da Companhia de Desenvolvimento do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp S/A).
A Nobreza das rochas
Por sua qualidade, rochas extraídas do Ceará viram peças utilizadas para design e arquitetura de alto padrão
Vermont Mineração investe no quartzito branco para produzir o Taj Mahal
Mármores, milonitos, granitos exóticos e quartzitos, por sua beleza e resistência, já deixaram de ser apenas uma tendência e se tornaram realidade no mundo do design e da arquitetura de alto padrão. O preço médio do m³ do quartzito branco, Taj Mahal, produzido pela cearense Vermont Mineração, por exemplo, chega a US$ 1,5 mil no mercado.
E são as especificidades que fazem dele um produto tão valorizado. "Hoje, das rochas ornamentais, seguramente o Taj Mahal está entre as mais valorizadas no mundo, principalmente no mercado americano. Por conta da cor, durabilidade, acabamento. A cor dele casa com vários tipos de madeira, tem um veio bem suave. E estas propriedades, essa cor só é encontrada no Ceará", explica o presidente da Vermont, Jorge Jordão.
A produção da empresa foi iniciada há 15 anos em uma pedreira instalada no município de Uruoca. Cerca de 35 km distante, já em Massapê, de outro grande paredão de rochas, são extraídos milonitos, um tipo de rocha metamórfica (metamorfismo dinâmico ou cataclástico) que sofreu um esmagamento, fraturou e deformou.
Este material, embora menos nobre que o quartzito, tem tido muita procura para uso em bancadas e revestimentos, principalmente, de acabamento escovado.
Hoje, são extraídas pelas pedreiras da empresa em torno de 2 mil m³ de minerais, metade tem como destino o mercado internacional. Mas ainda não chega nem perto do total da capacidade das áreas.
A Vermont, que hoje explora entre 40 a 50 áreas, tem planos de abrir mais três pedreiras neste ano. "O potencial é muito grande, a mineração no Ceará ainda é muito jovem e tem muito a ser explorada. Tem muita riqueza que a gente sequer sabe que tem", afirma Jorge.
A burocracia dos processos, no entanto, ainda é um entrave. "E olha que aqui ainda é um pouco mais rápido que na Bahia, por exemplo", acrescenta.
Desafio
A desmistificação do setor é outro desafio. Jorge Jordão, da Vermont Mineração, afirma que muitos encaram a mineração "como uma coisa só", que os erros cometidos em Brumadinho podem se repetir em todas as cadeias produtivas.
"Mas são materiais completamente diferentes, não só em volume de extração, como em processos. A mineração de rochas causa menos danos ambientais que uma plantação de milho, por exemplo. Hoje entre 50% a 60% é reaproveitado", explica.
Ele reforça que a escassez de água que assombra a região não chega a ser um entrave, já que a maioria das empresas dispõem de poços artesanais próprios. "E, pelo contrário, no auge da crise no Ceará nós fizemos doação de água para o município", acrescenta.
A aposta de Santa Quitéria
Empresas de outros estados estão de olho nas rochas cearenses pela qualidade da matéria-prima
Exploração do mármore branco Ceará pela Nissi Rochas
Quando se fala das possibilidades de mineração no município de Santa Quitéria, geralmente, a associação imediata é ao projeto de urânio de Itataia, mas em seus arredores há uma cadeia produtiva de rochas ornamentais que está em franca ascensão.
Na fazenda Lagoana, no distrito de Trapiá, distante 35,7 km da sede do município, está a mina Asa Branca, de 565 hectares lavráveis, uma das mais antigas em atividade no Estado e maiores do Brasil, sob a direção da Nissi Rochas, fruto da fusão há dois anos das empresas Granistone, do Ceará, com a Thor, do Rio de Janeiro.
É de lá que saem os cerca de 800 m³ do granito branco Ceará e do cotton mottion, que são extraídos mensalmente da pedreira.
O diretor de produção da Nissi Rochas, Jaílton Pires de Paula, explica que hoje 95% da produção da pedreira fica no mercado nacional, mas já tem uma demanda crescente para exportações. ”A ideia é fazer, ano que vem, 30% para o mercado externo, principalmente Argentina, China e retomar Estados Unidos”.
A capacidade da fábrica de beneficiamento também deve ser duplicada até o fim de 2020. Jaílton explica que ao Ceará tem atraído o interesse de muitas empresas do setor justamente por conta das peculiaridades do material encontrado no Estado.
“O que aconteceu é que os chineses desenvolveram um material sintético que foi tomando lugar de muitas rochas que eram extraídas do Espírito Santo. No Ceará, as rochas são mais duras, diferenciadas, com tonalidades diferentes e muitas empresas estão de olho neste material por conta da qualidade”, explica.
O empresário de Minas Gerais, Tallisson Almeida, é um desses novos investidores no Estado. Ele tem duas áreas em Santa Quitéria que estão em fase de licenciamento. O objetivo da Central Mineral do Nordeste (CMN) é explorar mármore branco e calcário.
Para ele, o Porto do Pecém é outro diferencial competitivo do Estado. “A gente está vendo o Ceará como uma verdadeira joia do Nordeste, não só pela qualidade das rochas encontradas aqui, mas pelo movimento que a gente percebe no Estado. O porto do Pecém é hoje um dos mais bem localizados do brasil e que, com certeza, vai diminuir o custo de transporte”.
Quando estiver em operação mais de 90 empregos diretos devem ser gerados, mas ele destaca que há ainda vários outros impactos sociais e de renda a serem mensurados.
“Quando a gente faz a retirada da rocha, tem hoje um aproveitamento entre 25% a 30%, mas o que sobra a gente vai britar, fazer corretivo de solo que é utilizado em outras indústrias e toda uma cadeia produtiva que a mineração movimenta”, diz.
O minério do futuro
O Ceará possui grandes reservas de grafita ainda não exploradas, mas o cenário deve mudar
Fábio da Costa mostra a facilidade para encontrar a grafita em Pedra Branca
Forte como um diamante, resistente como o aço, condutor, melhor que o silício e o cobre, e leve ao ponto de ser sustentado por uma pétala de flor. São muitos os predicados que têm levado diversos países a investir tempo e dinheiro em pesquisas sobre o grafeno, camada de carbono bidimensional extraída da grafita. Minério que o Ceará possui grandes reservas, mas que ainda não explora.
De acordo com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), hoje, existem 84 processos sobre grafita. Dentre os mais antigos, está o da Buxton Mineração, de 2002, que pretende explorar o minério no distrito de Pedra Branca, em Aracoiaba.
O CEO da empresa, Aluízio Dantas, que tem outros projetos na região Sudeste, acredita que já está bem perto de entrar neste mercado. Das 11 áreas que tem em Baturité, Capistrano e Aracoiaba, em quatro já está autorizado a mexer. O momento agora é de finalização dos estudos para implantação da estrutura, que deve começar dentro de 12 e 15 meses, e de negociação com parceiros investidores.
A aposta é alta. O investimento inicial da planta é de R$ 22 milhões. Lá, pretende não apenas extrair o minério, mas fazer um primeiro beneficiamento deste material para deixá-lo apto a entrar, ainda enquanto grafita, no mercado de baterias para veículos elétricos.
Ele explica que uma tonelada de grafita bruta pode custar US$ 500, mas beneficiada chega a US$ 6,8 mil. "Não é só arrancar e colocar no mercado. A mineração de grafita é mais complexa, tem muita tecnologia embarcada, porque você pode ter um minério que pode chegar a US$ 10 mil, mas se nas primeiras tiradas não fizer corretamente, pode inviabilizar o valor".
As análises preliminares feitas no material cearense apresentaram resultados bem interessantes que, na avaliação dele, podem levar o Estado a viver um boom de mineração. "Hoje estamos vivendo uma revolução industrial onde as novas matrizes energéticas serão hipervalorizadas", afirmou Aluízio, que diz que a planta está sendo construída também de olho no grafeno.
Mas da grafita ao grafeno tem um longo caminho. O material é considerado a fonte de uma nova tecnologia capaz de fabricar produtos mais eficientes, duráveis, maleáveis e sustentáveis. A comunidade científica estima que este é um mercado que deve chegar a US$ 1 trilhão nos próximos dez anos.
No entanto, ainda não há no mundo uma cadeia produtiva para produção de grafeno em larga escala, apesar de alguns produtos feitos com esta tecnologia aos poucos estarem entrando no mercado.
Pesquisas
Na Universidade Federal do Ceará (UFC) há várias pesquisas em andamento sobre o grafeno. A maioria se concentra na área de propriedades eletrônicas e ópticas; de sensores de moléculas; bem como em sistema para adsorção de poluentes para descontaminação de água, explica o professor Antonio Gomes.
Para ele, é mais interessante a exploração ocorrer no sentido de desenvolver soluções tecnológicas em alguma aplicação específica, do que propriamente ter uma linha de produção.
"Por ser um material bidimensional, um grama desse material é capaz de cobrir a área de um campo de futebol, portanto, pensar a mineração passa mais em ter uma solução tecnológica onde o grafeno entra (por exemplo na melhoria de borracha) e aí instalar uma capacidade de produção que atende a essa demanda", explica o professor.
No distrito de Pedra Branca, no entanto, a percepção dos moradores sobre o projeto ainda transita entre a desconfiança e a esperança. Para o agricultor Wilson Barros, 61, o medo é que alguma forma desta exploração prejudique o meio ambiente. Já para o agricultor e caseiro, Fábio da Costa, 39, a expectativa é que novos empregos possam surgir. "A vida aqui é difícil. A gente espera que traga empregos", complementa.
Entrevista com Orlando Siqueira
Presidente da Câmara Setorial de Mineração da Adece
O POVO -Como o Ceará se posiciona em relação a outros estados quando se fala em mineração e produção industrial?
Orlando Siqueira - Segundo indicador econômico da produção mineral no Brasil, a Compensação Financeira pela Exploração Mineral, o Ceará, no ano passado, quando foram arrecadados R$ 7.925.740, ocupava a 15º posição entre os estados da Federação. É de se esperar para os próximos anos um aumento forte desse indicador. Responsável por aproximadamente 1% do PIB estadual, o setor mineral cearense tem perspectivas positivas para elevação da produção no Estado. Os minerais não metálicos já possuem uma cadeia produtiva diversificada e com inserção internacional. Gera mais de 13 mil empregos diretos e formais, dividindo com a Bahia e Pernambuco as três primeiras posições na extração e beneficiamento do Nordeste. Além disso, o Ceará ganhou duas posições no ranking nacional do setor, ocupando a 12° posição, com expansão da sua participação de 1,5% para 2,1% do PIB do setor nacional. Destaca-se que 5% dessa produção é voltada ao mercado externo, número que poderia se expandir intensamente com a atração de empresas que beneficiam as riquezas minerais do Ceará, como as rochas ornamentais. No que se refere a extração de outros minerais, o Ceará possui grande capacidade de crescimento para extração dos minerais metálicos e já ocupou posição de destaque no que se refere a extração de gás e de petróleo.
OP - Qual a importância do Porto e da ZPE no setor?
Orlando Siqueira - O Porto do Pecém será de grande importância para o desenvolvimento da nova fronteira mineral do Estado, com os minerais metálicos, permitindo com o uso da ZPE, agregar valor aos minerais, preliminarmente beneficiados na mina, visando a exportação. O Porto com a ZPE ocupam posição geográfica muito importante, inclusive pela característica fundamental de um Porto, o calado dos navios, a sua profundidade, permitindo a operação de navios de grande porte, adequados à exportação de volumes consideráveis. A nova administração do Porto, já privatizado, deverá aumentar a frequência e o destino, atendendo inclusive a atual demanda de exportação de rochas ornamentais. As empresas estão usando outros portos por falta de oferta. Em relação a ZPE, é urgente as providências para viabilizar a implantação de plantas de beneficiamento de empresas do Espírito Santo, que passarão a agregar valor às rochas cearenses visando a exportação.
OP - Quais os principais estímulos para o aumento de unidades produtivas?
Orlando Siqueira - É muito importante que o Governo Federal, o Estado e os Municípios, assumam um compromisso de forma permanente, na busca constante da segurança jurídica e da desburocratização. Para o Ceará dar um grande salto na atividade de mineração será imprescindível a atração de empresas do exterior. O investidor internacional, com “cultura da mineração” é atraído naturalmente pelo potencial mineral, mas o ambiente de negócio é fundamental. Onde as exigências em relação ao meio ambiente tenham regras claras, com racionalidade e equilíbrio. Será preciso avançar mais, regulando de forma específica e com a clareza necessária, os critérios de controle, estabelecendo os parâmetros possíveis para a mineração, tendo em vista a mitigação dos impactos ambientais inevitáveis.
OP - Qual a importância de eventos internacionais para impulsionar o setor?
Orlando Siqueira - Os incentivos fiscais do Estado são importantes na viabilidade econômica dos empreendimentos. Parte do protagonismo do governo cearense acontecerá durante o maior evento de mineração do mundo, que ocorre anualmente em Toronto, no Canadá. O País tem estruturado bolsa de valores específica de mineração. Onde as transações com direito mineral em pesquisa e lavra, e as participações acionárias, acontecem motivadas em painéis de oferta nos diversos locais do evento. O investidor em mineração, principalmente em pesquisa como também na lavra, devido ao alto risco, tem uma cultura especial, e tem um lastro financeiro que permite correr o risco inerente ao negócio. A grande oportunidade de atrair este tipo de investidor, chamar a sua atenção para as potencialidades do Ceará, com certeza se inicia durante o evento. É o Ceará partindo na frente. Na feira, por oportuno, pode ser avaliado a possibilidade de criar uma sucursal da bolsa de valores em Fortaleza. E eventualmente fazer um estudo e formatação de uma feira internacional de mineração junto com a feira internacional de rochas ornamentais, que este ano terá a quinta edição, fomentando assim o turismo de negócio também.
OP - Como a exploração mineral pode se reinventar para minimizar os impactos ambientais?
Orlando Siqueira - A tecnologia estará sempre limitada no tempo e a inovação é um processo contínuo em busca da racionalização dos processos, otimizando resultados. O conhecimento, a informação de novas soluções, deve ser uma prática constante. Normalmente, os novos equipamentos envolvidos trazem melhorias no sentido de mitigar, não só os impactos ambientais, mas ainda priorizando a segurança e o conforto dos operadores.
OP - Quais novas tecnologias contribuem para esse processo?
Orlando Siqueira - Equipamentos automatizados, controlados por GPS e computador central, usados no transporte de grandes volumes. São os chamados caminhões fora de estrada, pelo seu tamanho e capacidade carga. Correias transportadoras envelopadas, sem emissão de poeira, para longas distâncias. Máquinas frezadoras, que fazem operações contínuas, com mesmo sistema de controle e operação, substituindo diversas operações clássicas, como: a detonação primária, o chamado fogo, a detonação secundária ou redução de medidas com rompedores hidráulicos, a redução de granulometria a britagem primária e o carregamento para transporte; com sistema de controle automático de poeira. Para citar algumas das mais importantes inovações. O grande problema para usar estes equipamentos é a falta de mão de obra especializada para operação e manutenção, a mecatrônica, e a burocracia na importação de peças de reposição, principalmente em situações de emergência, não previstas na manutenção preventiva. As máquinas não podem ficar paradas, associado aos custos de importação, os impostos, gerando então falta de competitividade. Somente as grandes mineradoras têm acesso a estes equipamentos, o que é lamentável. Sistemas de despoeiramento e umidificação. Sistemas de controle de barulho, ruídos. Nos processos de beneficiamento dos minerais de baixo teor, principalmente aqueles de elevado valor econômico, raros, e os de aplicação em processo de desenvolvimento, o grafeno por exemplo, as universidades e o Centro Tecnológico da Mineração, do MCT, ocupam importante espaço no apoio à inovação e ao desenvolvimento tecnológico.
OP - Sobre o que ainda não foi explorado no Estado, o que está sendo feito para potencializar a exploração?
Orlando Siqueira - Os não metálicos com grande potencial econômico, em fase de estudo e pesquisa: grafita, para uso como grafite, refinado como grafeno, vinte vezes mais resistente que o aço, excelente condutor elétrico e térmico. A exploração da plataforma marítima em águas rasas, calcário de alta pureza para uso medicinal, rações animais, entre outros, com pesquisa em desenvolvimento, pela UFC, ANM, CPRM, e possível apoio da Marinha e Capitania dos Portos. O quartzo para fibra de vidro e célula fotovoltaica com aproveitamento dos rejeitos dos quartzitos; fosfato, urânio, mármore, calcário, em jazida já com portaria de lavra em Itataia, Santa Quitéria. Lá falta a licença ambiental que infelizmente se arrasta há mais de vinte anos, a Câmara Setorial de Mineração, com apoio da Sedet/Adece e ANM, vêm articulando para que a empresa possa atender às exigências ambientais. Finalmente, desejo salientar a importância das Câmaras setoriais, em particular a de mineração, que apoiadas pela Adece, gera oportunidade mensal de conhecer os avanços tecnológicos, os problemas, as oportunidades, acompanhar e apoiar a pesquisa e lavra, com a imprescindível presença das entidades que fazem o desenvolvimento sustentável da mineração em nosso estado.
A importância do momento
Para fosfato e Urânio: investimentos em R$ 900 milhões, com mais de 300 empregos diretos, na mina de Santa Quitéria
Para magnetita e calcário: investimentos R$ 40 milhões, com 130 empregos diretos em Sobral
Para grafita: investimentos R$ 30 milhões, com 50 empregos diretos, em Itapiuna
Para Grafita grau químico, grafeno: investimentos em R$ 30 milhões, com 30 empregos diretos em Itapiuna/ Fortaleza
Minerais de Pegmatitos: investimentos em R$ 2 milhões, com empregos na região do médio/baixo Rio Jaguaribe
Minério de Manganês deve apresentar novas produções
Há entendimentos para exportação de água mineral para o Oriente Médio