As metáforas de Jeri

Por CLÁUDIO RIBEIRO

A imagem de uma sereia deitada a poucos passos de se afogar num mar de lixo e rejeitos - que junta toda a excrescência de um lugarejo ainda de aura paradisíaca e pecados originais, e simboliza sem metáfora o que é o progresso querendo lhe encobrir a cauda - ajuda a entender o que se conta neste especial JERI.futuro do presente.

A sereia Tabatta Lua fotografada no lixão de Jeri (Foto: Wando Prado)

Por uma semana, o repórter Jáder Santana e o fotógrafo Aurélio Alves viram, ouviram e retrataram o que são os novos dias de Jericoacoara. Apontada como uma das praias mais famosas do Brasil (há quem diga até do mundo), já são 16 anos desde que decreto federal assinado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, em 4 de fevereiro de 2002, incluiu a vila e seu entorno de mais de 8,8 mil hectares dentro da área do Parque Nacional de Jericoacoara. 

Uma beleza indiscutível a se “proteger e preservar amostras dos ecossistemas costeiros, assegurar a preservação de seus recursos naturais e proporcionar oportunidades controladas para uso público, educação e pesquisa científi ca”. Assim fi cou defi nido por decreto o destino de Jeri. 

 

 

O lugar ainda é lindo, encantador, enigmático feito a sereia das lendas. Mas a moça que se estira no areal tem o monturo dos excessos lhe alcançando. É a nova rotina da vila. O que avança é preocupante, mas ainda tratável, de controle possível.  

2,4 quilos

é a média de lixo produzido diariamente por cada indivíduo em Jeri. Em outros lugares de perfil semelhante, a média não ultrapassa o quilo e meio

A duna do pôr do sol já não se renova plenamente da areia trazida pelo vento. Construções embarreiram a brisa e a formação natural vem sendo compactada pela quantidade de visitantes sobre ela. Um aeroporto ao lado desembarca gente de até oito voos semanais - mais as pessoas que descem na Capital e viajam mais 300 km para se maravilhar no cenário. Na famosa Pedra Furada, filas e apenas 30 segundos para a foto. Na noite, multidões. Megaestruturas invadem áreas limitadas pelo decreto federal e funcionam sem licenciamento. 

Cada personagem deste Especial - em seus retratos posados e depoimentos - ajuda a vislumbrar o porvir de Jeri. A sereia, o solteiro, a vendedora, o morador pescador, a turista encantada, a criança protegida por música. Há tudo o que se quer e o que se pode corrigir na vila famosa, a partir destas histórias. Jeri é a sereia a ser preservada.

 

A vila das sereias

Por Jáder Santana

A sereia de Jeri já virou lenda. Quem pisa na vila fica logo sabendo que todo fim de tarde, enquanto uma multidão se arrasta até o topo da Duna do Pôr do Sol, uma criatura metade mulher e metade peixe aparece na piscina do terceiro andar de um hotel no coração da vila. Enquanto distribui beijos e posa para fotos dos que têm duas pernas, acompanha com a cauda o ritmo da música eletrônica e da percussão ao vivo que agitam a cobertura. Pouco a pouco, depois que o sol desaparece, uma fila se forma na entrada da casa. São as famosas filas do Café Jeri, com dezenas, centenas de pessoas.

"Sempre recebo muitas mensagens. Perguntam como faço pra abrir os olhos, sorrir e mandar beijos dentro d'água", explica Tabatta Lua, a sereia, baiana de Vitória da Conquista, que há quatro anos elegeu Jeri como a praia dos seus encantos. Veio depois de uma temporada na ilha de Fernando de Noronha, onde descobriu o sereismo e se deixou seduzir pela vida à beira-mar. "Eu vi que Jeri tava muito em alta. E deu certo, vem mulher de todo o Brasil só pra se transformar em sereia", conta ela, que cobra R$ 200 para realizar o sonho de meninas e mulheres que vistam caudas de tamanho até o 48.

Os três ou quatro clientes que Tabatta atende todas as semanas chegam até ela pelo Instagram @sereiasdejeri, que a esta altura conta com mais de 6.500 seguidores. A expectativa é que a procura aumente ainda mais na temporada de dezembro e janeiro, quando a população flutuante de 6 mil pessoas que habitam Jeri deve ganhar um incremento por conta daquele que vem sendo vendido como “o maior Réveillon do Brasil”, mega evento que tem confirmadas as participações de Ivete Sangalo, Anitta e Alok.

"Serão 5 dias de muito rock! Estruturas paradisíacas serão o cenário da maior virada deste ano no Brasil", é a apresentação do site que comercializa ingressos para o Réveillon Jericoacoara John John Rocks, cujos preços do quarto lote ultrapassam os R$ 3 mil. Ricardo Gusso Wagner, secretário de Turismo, Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico de Jijoca de Jericoacoara, estima que 4,5 mil pessoas devem participar do evento, que vem aparecendo em portais de notícias desde o início do ano, quando foi oficialmente anunciado.

4,5

mil pessoas devem participar do réveillon de Jeri, que vem sendo anunciado desde o início do ano como o maior do País.

"Vão fazer essa festa em um lugar que não tem estrutura. Vai acabar luz, água, comida. A vila vai virar uma lixeira", lamenta Tabatta, ecoando a reiterada preocupação de boa parte dos moradores do local. "A gente não quer Jeri feia, suja. Sei que é bom pro turismo, pros empresários, porque vai vir muita gente, vai movimentar muito dinheiro, mas esse dinheiro deveria ser usado também para a preservação e para a limpeza da praia", completa. A sereia de Jeri resgata a eficiência do poder público presenciada em Noronha - "eles têm um sistema que todo dia limpa e descontamina a areia” - e critica a situação de seu novo lar - “a areia tá suja, dá muito problema de micose, as pessoas ficam deitadas, pegando sol, e enchem a bunda de bicho geográfico". Não é o que se quer para Jeri. 

 

Tabatta Lua, sereia na noite de Jeri (Foto: Aurélio Alves)
 

Réveillon luxuoso pode chegar a R$ 9 mil

Quem pensa em aproveitar o maior/melhor Réveillon do País precisa correr. São poucas as vagas disponíveis na rede hoteleira da vila de Jericoacoara para a virada do ano. Os ingressos individuais para a festa, que deve durar cinco noites, custam em torno de R$ 3.200 para homens e R$ 3.000 para mulheres.

Os valores são referentes ao quarto lote de vendas. Pacotes que incluem passagens aéreas + festas custam em média R$ 6.400. Quem quer garantir hospedagem festas (sem passagens aéreas) paga em média R$ 7 mil. A depender do hotel, o preço pode cruzar a faixa dos R$ 9 mil. Em um dos sites de agências que comercializam os pacotes, apenas quatro dos 40 hotéis e pousadas disponíveis possuem vagas. Muitos dos moradores da vila, animado com a grandiosidade do evento, estão se organizando para aluga quartos disponíveis via Airbnb. 

Sem medo de blecaute

O secretário de Turismo e Meio Ambiente de Jijoca de Jericoacoara, Ricardo Gusso, prefere se referir ao Réveillon de Jeri como o “melhor” do Brasil”. “Antes utilizavam o ‘maior’, o que dava uma impressão de algo muito grande, além das expectativas”, justifica. A celebração, que é realizada desde 2014, chega a um novo patamar este ano. Atrações de peso nacional e cinco dias de festa.

Ricardo ameniza as preocupações dos moradores em relação à capacidade da vila e aos danos ao meio ambiente. Segundo ele, a festa é “totalmente sustentável”, visto que os promotores do evento “trazem bolsões de água para os banheiros e esgotamento sanitário”. Esse material será vedado e destinado à estação de tratamento de Jijoca. Além disso, dezenas de pessoas serão contratadas para recolher e separar material descartado, com seu posterior encaminhamento para uma usina de triagem que será erguida nas proximidades da festa. 

Bons ventos

Não são só as festas de fim de ano que estão movimentando a vila de Jeri. Grandes eventos esportivos, de porte local, nacional e internacional - estão se desenrolando nas praias da região nos últimos anos. Entre os dias 20 e 24 deste mês, a Praia do Preá recebeu a penúltima etapa da turnê mundial GKA Kite-Surf World Tour.

Com prêmio de 25 mil euros, a etapa cearense reúne artistas de peso na modalidade, como o italiano Airton Cozzolino, o cabo verdiano Mitu Monteiro e o espanhol Matchu Lopes. O local é frequentado todo o ano por esportistas interessados em ventos e ondas. No último dia 17, aproveitando o feriado de Proclamação da República, também foi realizada em Jeri uma meia maratona que contou com a participação de mil atletas concorrendo nas modalidades de 10Km e 21Km. 

 

Jeri vem recebendo uma grande quantidade de esportistas interessados em kitesurf e windsurf (Foto: Aurélio Alves)
 

De folga, alheio a polêmicas

Por Jáder Santana

Estirado em uma espreguiçadeira na área VIP da mais exclusiva das barracas da Lagoa do Paraíso, o dentista Tarso Esteves, de Maringá, Paraná, mostra aos amigos, em uma transmissão ao vivo por celular, as glórias de suas mini-férias. Naquele quarto dia em Jeri, havia contratado um carro que o levou até a nova sensação da lagoa, a Alchymist Beach Club, megaestrutura que há alguns anos devorou o espaço da tradicional Barraca do Tobias e que se tornou o primeiro estabelecimento da região a cobrar pela entrada.

 

Tarso pagou R$ 20 para ter acesso ao local e mais R$ 100 pelo requinte do espaço VIP, discretamente separado do restante da barraca, com espreguiçadeiras largas e acolchoadas e lençóis brancos pendurados nas estruturas de madeira. São imagens da Alchymist que aparecem quando se pesquisa sobre a Lagoa do Paraíso no Google. Minuciosamente fotogênico, cada espaço da megaestrutura é explorado à exaustão em selfies de turistas. Os guias precisaram aprender a fotografar. Enquanto isso, as outras barracas sofrem o ostracismo do luxo.

 

É minha segunda vez aqui. Vim três anos atrás, quando estava comemorando um ano de casamento. E agora voltei, solteiro mesmo. É bom também", conta Tarso, que mal conhece toda a polêmica que envolveu o licenciamento e a construção da barraca. Na vila de Jeri, criticam a Alchymist pelo suposto desrespeito às normas que regem a ocupação dos parques nacionais. É que a megaestrutura está a menos, muito menos, de três quilômetros dos limites do Parque Nacional de Jericoacoara.

 

Criado em fevereiro de 2002, o Parque viu seus limites serem redefinidos em 2007, quando passou a contabilizar uma área total de 8.850 hectares. A super barraca foi erguida em espaço contíguo à unidade de preservação. Chefe do Parque Nacional de Jericoacoara, Jerônimo Martins explica que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) foi consultado durante a fase de licenciamento. "Se o licenciamento é bem no limite do Parque, a gente é ouvido durante o processo. Mandamos nosso parecer para a Semace (Superintendência Estadual do Meio Ambiente) e eles é que emitem a licença", esclarece.

 

A ausência de uma definição clara em relação aos limites de ocupação em torno da Lagoa do Paraíso tem a ver, como explica Jerônimo, com a metragem absoluta da Área de Preservação Permanente (APP) da Lagoa de Jijoca, que também compreende a Lagoa Azul, outro ponto turístico da região. "A gente sabe de empreendimentos que invadiram a APP, mas há uma disputa sobre qual seria, de fato, o nível dessa Área. Os parâmetros da lei estadual que estabelece isso não conseguem indicar essa metragem", afirma.

 

8,8

mil hectares é a área total do Parque Nacional de Jericoacoara, estabelecido em 2002
 

 

A situação da Alchymist estaria, segundo Jerônimo, em uma espécie de limbo de regulamentação: "Há pouco tempo, em 2017, houve um choque. O setor de licenciamento da Semace apresentou uma visão e o setor de fiscalização tinha um ponto de vista totalmente oposto. É um problema que a própria Semace tem que resolver, mas falta esse balizador". Além da ocupação das barracas, preocupa Jerônimo o fluxo pesado de veículos nas margens da lagoa, "um problema de contaminação da água, de contaminação do solo".

 

Mas essas questões não chegam aos turistas deslumbrados pelas cores da lagoa. Não chegam até Tarso, novo solteiro nas areias de Jeri. "Aqui é o paraíso, é o Caribe no Brasil, é uma coisa espetacular" afirma ele, aproveitando o sol antes de voltar ao Villa Métisse, opção de hotel simpática com quartos que custam a partir de R$ 440.

 

O dentista Tarso Esteves, de Maringá (Foto: Aurélio Alves)
 

Semace: licença foi negada em 2017

Procurada pelo O POVO, a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) explicou, através da assessoria de imprensa, que a licença de funcionamento da Alchymist Beach Club foi negada ainda em 2017. "Não há licença emitida pela Semace para o empreendimento em questão. A Semace não liberou o seu funcionamento", informou o órgão. Ainda segundo a Superintendência, a Alchymist estaria funcionando, neste momento, "por decisão da Justiça Federal que acatou pedido de autorização para funcionar sem licença de operação".

A equipe do O POVO esteve na barraca por duas ocasiões, nos dias 11 e 14 de novembro, e solicitou entrevista com o gerente ou proprietário da casa. A entrada da equipe na barraca foi autorizada mas, nas duas ocasiões, as solicitações de contato não foram atendidas. Na semana seguinte, novos contatos foram feitos por telefone e WhatsApp, mas deixamos de obter respostas depois da explicação de que a entrevista abordaria questões ligadas à não liberação da Semace para o funcionamento da barraca. 

Área não permitida

O POVO levantou um drone na região da Alchymist Beach Club para fotografar a interferência da estrutura da barraca na área da Lagoa do Paraíso. Outro ângulo de captura pode ser visto na capa deste Especial. É clara a proximidade dos guarda-sóis e espreguiçadeiras da margem aquática, o que se torna ainda mais chocante, levando em conta que novembro é um dos meses de maior nível de seca na Lagoa da Jijoca - as chuvas só começam a cair na região a partir de janeiro.

 

No dia 4 de março do ano passado, foi publicado no Diário Oficial do Estado um Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta (TAC) celebrado entre a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) e a Alchymist indicando que "o presente restaurante está por completo em Área de Preservação Permanente-APP da Lagoa do Paraíso".

 

A Semace negou licença de funcionamento da barraca Alchymist em 2017. Apesar disso, o estabelecimento continua funcionando (Foto: Wando Prado)
 

"A caixa, o sol e eu"

Por Jáder Santana

Virou lugar-comum dizer que em Jeri o tempo passa de forma diferente. Mas o clichê é verdadeiro para dona Joana Darc. Aos 59 anos, ela sobe em um dos seus dois quadriciclos todas as manhãs e dirige até o início da trilha da Pedra Furada, onde descarrega sacos de coco, e fardos de água mineral, refrigerante e cerveja. "Não me preocupo com nada, sou uma pessoa sossegada, tranquila, sem estresse" diz, enquanto quebra o gelo das caixas de isopor que guarda no local.

O turista que passa pela barraca de dona Joana, tosca mas arejada e confortável, não sabe a história por trás daqueles dois metros quadrados com chão de areia. "Um dia, cansada do sol, vim aqui com meu genro. Chegamos na noite do dia 6, trabalhamos pela madrugada, e deixamos a sombra pro dia 7", conta ela sobre aquela noite de oito anos atrás. Antes da barraca, dona Joana vendia as bebidas protegida do tempo apenas pelo guarda sol que carregava. "No começo aparecia só um cliente, às vezes dois, às vezes era só o poder de Deus e minha caixa. A caixa, o sol e eu".

O fortalecimento do turismo na vila e a consolidação de uma rota única de passeio entre os bugueiros e guias turísticos - que vai da Pedra Furada às lagoas Azul e do Paraíso, passando pela Árvore da Preguiça - ajudou no negócio de dona Joana. É em sua barraca que os turistas param para se refrescar depois da caminhada de aproximadamente 30 minutos que leva até a Pedra Furada, um dos cartões postais de Jeri. No mesmo local há 17 anos, seguida de perto por Fofinha, a vira-lata de um ano e dois meses que adotou, dona Joana se transformou em uma espécie de guardiã daquela trilha. "Todo mundo me conhece. Minha foto tá no Brasil inteiro".

Quando passam os turistas estrangeiros, a vendedora contorna a diferença de idiomas com gestos das mãos. "Só que o gringo é mão de vaca. Eles passam em multidão, as mochilas em tempo de quebrar o espinhaço deles. Eu faço sinal de água, de coco, e eles só apontam com os dedos pras costas, dizendo que já têm. Quando chegam na Pedra Furada, só faltam tirar um travesseiro pra dormir, porque já levam de tudo dentro da mochila", conta ela, explicando ainda que o mês de agosto, "a temporada de férias do gringo", é a época em que menos vende.

Com cara de gringo e sotaque paulistano, Carlos Eduardo montou sua barraca de dindin na entrada da Lagoa Azul, terceira parada do passeio mais frequente realizado pelos bugueiros. Também vende mousses, trufas e cocada. O dindin mais vendido, criação da esposa, que sempre o acompanha, tem sabor de batata doce com coco. "O pessoal acha estranho, mas gosta". O casal escolheu Jeri pelo ritmo de vida, pela tranquilidade e porque no lugar, finalmente, conseguiram se libertar de algo que os colocava para baixo.

300

turistas passam em média, pela pedra furada todos os dias. O POVO esteve no ponto turístico num dia calmo. Cada visitante tinha 30 segundos para a foto.
 

Os dois se conheceram em Fortaleza, no Monte Castelo, bairro onde ele foi morar depois de abandonar São Paulo e onde ela já residia. Além da vizinhança, tinham em comum o mesmo fornecedor de cocaína. "Fomos nos conhecendo, começamos a namorar, mas aí o negócio lascou, porque todo dia, os dois juntos, dependentes… Passávamos três dias sem dormir, não parávamos nunca. E aí o negócio ficou ruim, eu emagreci, ela começou a ter umas visões, paranoias, a gente começou a brigar", desabafa. Em maio do ano passado, viajaram a Jeri por uma semana.

"Não usamos nada durante esses sete dias. Mas aí voltamos pra Fortaleza e, cinco minutos depois, liguei pro fornecedor pra pedir quatro saquinhos de R$ 50". A recaída impressionou o casal, que logo começou a fazer planos de se mudar definitivamente para Jeri, o que aconteceu no início deste ano. "Estamos aqui desde o dia 17 de janeiro. Desde esse dia não cheiramos. Marquei no calendário o dia como 'ressurreição'".

 

Dona Joana Darc, que há 17 anos mantém uma barraca no início da trilha da Pedra Furada
 

Só 30 segundos para foto na Pedra Furada

O principal cartão postal de Jeri tem perdido seu encanto. Não à toa, já se referem à trilha que leva até a Pedra Furada - uma caminhada de aproximadamente 30 minutos - como uma grande "furada". Não pela paisagem, que continua linda. O que irrita e decepciona são os esforços que fizeram para burocratizar a natureza. Um lugar que deveria prezar pela contemplação, agora se vê limitado às filas de turistas que se formam em direção a um retrato "especial" vendido pelos fotógrafos informais que acampam no lugar. Ou seja, é impossível se aproximar da Pedra para observar a erosão da rocha, para sentir o microclima de seu interior, para ouvir como reverberam as ondas sem ter a atenção chamada por alguém: "mas você furou a fila?" A mecânica é simples. Vinte minutos de fila, sob um sol infernal, e 30 segundos para a foto. Nada mais que isso. A mesmo acontece na Árvore da Preguiça, mas com um agravante: a música alta e totalmente descabida dos veículos particulares e de aluguel.

 

 

Uma manhã comum na Pedra Furada (Foto: Aurélio Alves)

Era uma vez a Duna do Pôr do Sol

Um dos maiores tesouros de Jeri, a Duna do Pôr do Sol está com seus dias contados. A tragédia não é novidade para os moradores da vila nem passa despercebida pelos turistas que retornam ao local depois de muito tempo. Dia após dia, a duna tem seu tamanho reduzido.

 

Nativos ligam a erosão às construções que cada vez mais avançam em direção à formação arenosa natural, impedindo a chegada das correntes de vento que transportariam areia até seu topo. A subida da duna, que antes deixava muita gente com a língua para fora no meio do caminho, por conta do relevo íngreme e ainda alto, agora pode ser cumprida sem maiores esforços.

 

O chefe do Parque Nacional de Jericoacoara, Jerônimo Martins, confirma a interpretação dos nativos e amplia seu dedo acusador. "Não são só as construções que estão imediatamente atrás da duna que interrompem o fluxo. A vila inteira, ao se verticalizar e intensificar, está promovendo essa degradação. Se não houver regulação da prefeitura em relação ao uso e ocupação do solo, como um todo, além da duna ser afetada poderá haver um colapso hídrico no abastecimento".

 

A Duna do Pôr do Sol vem sofrendo redução em seu tamanho (Foto: Aurélio Alves)
 

O preço de viver no paraíso

Por Jáder Santana

Enquanto o inverno não chega, Elias Ferreira separa em dois os dias de pesca magra. O primeiro é para venda. O segundo, para consumo da família. Aos 40 anos, o morador da Vila do Preá, na vizinhança de Jeri, começou a pescar ainda criança, quando era convidado pelos mais velhos a virar a noite nas canoas em alto mar. "Com 12 anos eu já ia, aí comecei a gostar. Depois me cadastrei na colônia e hoje sou pescador. Pesco quase todo dia, quem vive disso tem que pescar todo dia".

 

Na manhã de novembro em que nos encontramos, a canoa voltou quase vazia, exceto por algumas tainhas e espadinhas que nem chegavam a cobrir o fundo da embarcação. "A pesca não está muito boa, o vento tá muito arejado. Arejado é quanto tá brabo, aí fica difícil pra gente, porque não dá pra ir pra muito longe, no máximo duas milhas", justifica. Nos meses em que abranda o vento, os barquinhos de três tripulantes avançam até o quádruplo da distância, cobrem oito, dez milhas. "A gente sai meia-noite e volta perto do meio-dia, e o tempo passa rápido, depois que coloca a rede a gente fica pescando de anzol. Passa rapidim".

 

Quando a pesca é farta, nos meses de janeiro a junho, as canoas voltam abarrotadas de guarajubas, bonitos, pescadas, serras. Nos melhores dias, os dias de sorte, as redes também trazem cavalas e pargos, iguarias no sabor e minas de ouro no preço - conseguem até R$ 18 pelo quilo. Quando voltam à praia encontram a figura do atravessador, "uma pessoa que vem de fora comprar, tipo um leilão, a gente bota uma quantia e vê quem dá mais". Consumada a negociação, os peixes vão parar nas cozinhas de restaurantes da região com preços que não raro são seis vezes maiores que o valor de compra.

 

Mas Elias não se deslumbra pela mais famosa praia do Ceará, sua vizinha. "Já fui em Jeri, mas nem gosto, é muita exploração, tudo é muito caro. Só dá pro pessoal de fora. Viver aqui no Preá é mais em conta. Tem muito nativo que vende o terreno por lá e vem morar aqui na região, é um lugar mais calmo", explica.

 

Quem também vem reclamando dos altos preços - apesar da falta de coragem em abandonar a Vila - é Ricardo Maia. Em Jeri, ele é mais conhecido como Limpezinha, "ou Little Clean, como os gringos chamam". Natural de Fortaleza, fugiu para o paraíso há mais de três décadas, "porque na época era a melhor opção". Na praia, casou-se com a proprietária de uma pousada, divorciou-se e escolheu continuar por lá, meio sem rumo definido. Nos últimos anos, o custo de vida vem pesando: "Me incomoda o preço das coisas. Culpa dessa especulação, que tá demais, e vai piorar. Eu tô só sobrevivendo".

 

150

Restaurantes estão instalados em Jeri e oferecem menus com influências de diferentes nacionalidades
 

 

Apesar de realçar a inabalável atmosfera do lugar, "a beleza continua a mesma", Limpezinha amplia suas críticas para o que chama de um crescimento rápido e sem planejamento. "A transformação tá feia. Os estrangeiros chegam querendo mandar e não olham pra nada, só pensam no dinheiro. Não fazem nada pela vila", diz ele, antes de lançar acusações contra um grande empresário do setor hoteleiro por suposta sonegação de impostos e compra de licença ambiental.

 

O meio ambiente, aliás, é uma de suas maiores preocupações. "A areia tá suja. Agora que a coisa tá começando a melhorar, com saneamento básico, mas antes as fossas escorriam pro mar, pela praia, na frente de todo mundo. E falta banheiro público. Quem quer fazer as necessidades tem que pedir pra usar o banheiro dos restaurantes ou voltar pro hotel. Não é isso que a gente espera de Jeri".

 

O pescador Elias Ferreira na Praia do Preá (Foto: Aurélio Alves)
 

Do prato típico à mesa internacional

A oferta gastronômica de Jeri vem crescendo e se modernizando. É possível encontrar espalhadas pela região central da vila diversas modalidades e nacionalidades de cozinha: da nordestina à francesa, da italiana à japonesa. Os frutos do mar, frescos em sua maioria, continuam sendo o carro-chefe e aparecem com destaque na maioria dos estabelecimentos. O Dona Amélia, famoso pelo seu forró, é um dos mais tradicionais entre turistas e moradores. O prato principal da casa é o camarão no abacaxi - o crustáceo é flambado no conhaque -, acompanhado de arroz e feijão preto ou baião de dois. Outra opção para os apaixonados pelos sabores do mar é o Maramor Bar e Restaurante, que prepara um risoto especial com lagosta, camarão, lula, sururu e polvo. Quem tem preferência pela cozinha internacional pode apostar no restaurante do Hurricane Hotel, comandado pela chef espanhola Susana Montenegro e que cobra R$ 70 por menu completo com entrada, prato principal e sobremesa em um dos espaços mais agradáveis da vila.

 

Risotto de frutos do mar do restaurante Maramor (Foto: Aurélio Alves)
 

 

 

"O mar é pra ser bom"

O lixo citado pela sereia Tabatta Lua e por Limpezinha é preocupação constante entre os frequentadores e nativos da vila. Boa parte desse material vai parar no lixão do Baixio. Saindo da praia, a viagem até o aterro sanitário dura menos de 40 minutos. Diariamente, seis caminhões cumprem o trajeto, despejando em montanhas de dejetos o que sobra da vida no paraíso. Tabatta acompanhou O POVO em visita ao aterro. Foi lá que posou para a foto da página 2 deste Especial. Deitou-se com sua cauda de sereia ao lado do monturo. Em meio às moscas e o mau cheiro, se emocionou com a história dos catadores.

 

Conhecemos dona Maria Valderina, mãe de nove filhos que vai ao lixão até três vezes por semana "trabalhar, catar latinhas, roupinhas, alguma carne, comida". Moradora do distrito de São Joaquim, tira o sustento do que encontra entre as sobras. Com as latinhas que coleta, consegue R$ 2,50 por quilo. O dia é melhor quando encontra carne: "chego em casa, retalho, salgo e boto no sol por dois dias". Ou brinquedos para os filhos: "tudo quebradinho, mas ainda dá pra brincar".

 

Maria Valderina, o marido e a maior parte dos outros catadores do lixão do Baixio não conhece Jericoacoara. Nunca viram o mar, à distância de menos de 50 quilômetros. "Sempre tive vontade. Ouço falar que é grande, pra gente tomar banho. Tenho vontade. Imagino que o mar é pra ser bom".

 

Dona Maria Valderina, catadora do lixão de Jeri que nunca viu o mar (Foto: Aurélio Alves)
 

Encanto que permanece

Por Jáder Santana

A Lagoa Azul registra um de seus mais baixos níveis de água no mês de novembro. São as chuvas de início de ano que inundam a região - às vezes, a água é tanta que acaba transformando as lagoas Azul e do Paraíso em uma só. Bruna Dutra não conhece os dias de cheia, então a paisagem que encontrou já foi suficiente para valer a viagem desde Cuiabá, no Mato Grosso. Aos seus olhos, Jeri parecia deslumbrante.

 

Manhã de domingo, a engenheira agrônoma aproveitava o sol ao lado do namorado, o empresário Vitor Magrinelle, e do irmão dela, o comerciante Marcelo Henrique Neves. Faziam a rota clássica de turismo da região - já haviam passado pela Pedra Furada e pela Árvore da Preguiça e, depois da Lagoa Azul, seguiriam para a Lagoa do Paraíso e Duna do Pôr do Sol. "Ficamos sabendo de Jeri pela Internet, pesquisamos bastante, vimos fotos, comentários das pessoas. Superou nossas expectativas", confirma Bruna.

 

Visitando o Ceará pela primeira vez, os três chegaram à vila depois de uma semana no Aquiraz, Região Metropolitana de Fortaleza, hospedados no Beach Park. "Curtimos muito o parque aquático, mas a paisagem aqui é outra coisa, é especial, me surpreendeu. A orla, as dunas, o que a gente viu foi de encher os olhos, tá top", disse Marcelo, sobre o segundo dos três dias em que permaneceriam no local.

 

Inicialmente, chocou um pouco a distância entre a capital e a vila, mas o trio decidiu arriscar. "Por mais que fossem 300 e tantos quilômetros até aqui, a gente não podia deixar de vir", explicou Vitor, que se surpreendeu ainda com a estrutura de Jeri. "São muitos restaurantes, um do lado do outro. Muitas opções, o que acaba gerando competitividade de preços. Não imaginei que era tão grande e movimentado assim".

 

O trio gastaria o último dos dias curtindo a própria praia de Jeri, com o cenário de ondas tranquilas e vento forte. São esses ventos, aliás, que cada vez mais atraem praticantes de esportes aquáticos, como kitesurfe e windsurfe. O mar de Jeri está sempre cheio de velas de distintas cores e nacionalidades. Morador da vila há mais de duas décadas, Mário Carioca largou tudo no Sudeste para se dedicar aos esportes. Em Jeri, é proprietário da Aloha Surf School, que oferece aulas e aluga equipamentos de surfe e windsurfe na orla da praia.

 

105

mil viajantes chegaram a Jeri pelo aeroporto desde sua inauguração, em junho de 2017, em oito vôos semanais
 

 

"A condição do vento por aqui é muito boa, uma das melhores do mundo. A vila recebe muitos profissionais, esportistas de primeira linha mesmo. Mas também atendemos muitos iniciantes, gente que quer aprender a surfar", explica Carioca. Ele cobra entre R$ 100 e R$ 150 para aulas de uma hora - a depender da modalidade. Satisfeito com as mudanças pelas quais a vila está passando em relação à infraestrutura, o instrutor elogia algumas iniciativas da prefeitura: "Esse ordenamento está funcionando. Antes, os restaurantes e hotéis faziam o que queriam. Se não tiver essa regulação, Jeri acaba, igual como aconteceu em Canoa Quebrada (em Aracati, no litoral Leste), que era outra há 20 anos".

 

Quando a tarde caminha para o fim, a praia começa a se esvaziar. Jeri tem vida noturna animada. "Da última vez que vim, casado, eu tava mais de boa. Agora, solteiro, acabei procurando mais balada. Tem o Café Jeri. Nossa senhora! Sensacional! Que local tesão pra ver o pôr do sol, com aquela música, aquele negócio lúdico. Fodido!", elogia o dentista Tarso Esteves, de Maringá.

 

O encantamento do turista com as festas da vila se repete entre os que frequentam as sessões de deep house (música eletrônica) do Café Jeri nos fins de tarde, de quarta a domingo. Assumidamente inspirado nas festas de Ibiza, a ilha das baladas no leste da Espanha, o espaço recebe DJs de peso e espalha por seu ambiente personagens variados, como a sereia Tabatta, mímicos, dançarinas e malabaristas. A entrada é gratuita, o local está sempre cheio, mas a fila de acesso pode desanimar os mais preguiçosos.

 

A engenheira agrônoma Bruna Dutra, natural de Cuiabá, na Lagoa Azul (Foto: Aurélio Alves)
 

"Não queremos estragar o destino"

A inauguração do Aeroporto de Jericoacoara (oficialmente chamado de Aeroporto Regional Comandante Ariston Pessoa), em junho de 2017, foi acompanhada de expectativas altas em relação ao incremento do turismo e economia da região. Porém, também gerou temores em quem não conseguia dissociar esse crescimento dos problemas ambientais e estruturais que ele poderia causar. "Os temores não se concretizaram.

Fizemos um estudo de capacidade de carga, foi instaurada uma taxa de turismo na vila, o número de pessoas que chega é compatível com a capacidade hoteleira. Estamos sempre atentos à questão ambiental, não queremos estragar o destino", explica o coronel Paulo Edson, gerente de aeroportos do Departamento Estadual de Rodovias (DER). 2018 registrou um crescimento de 30% na movimentação do equipamento em relação a 2017. Segundo a administração, a taxa deve se manter no próximo ano. Gol e Azul oferecem voos para Jeri. São oito voos nacionais das duas companhias, menos às segundas e sextas-feiras. 

Uma nova gestão

Um dos assuntos mais comentados entre os moradores da vila de Jeri é a proposta de licitação para a concessão de serviços de gestão dentro do Parque Nacional de Jericoacoara. No último mês de junho, a população fez um abaixo-assinado contra o projeto do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A proposta vem acompanhando um pacote de possíveis concessões de parques nacionais espalhados por todo o Brasil, como o Parque Nacional do Pau Brasil, em Porto Seguro (BA), o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (MA) e a Chapada dos Veadeiros (GO). Nos últimos meses, audiências públicas foram realizadas com a presença da Prefeitura de Jijoca, de representantes do ICMBio, moradores da vila e empresários da região. A elaboração do edital foi interrompida e a previsão de retorno é para o próximo ano.

 

Dunas de Jeri, que fazem parte do Parque Nacional de Jericoacoara (Foto: Aurélio Alves)
 

O que deve mudar

O chefe do Parque Nacional de Jericoacoara, Jerônimo Martins, conversou com O POVO sobre o projeto de concessão que visa, como explicou, "implementar a estrutura de visitação da unidade e melhorar a qualidade de seus serviços". O investimento previsto na proposta inicial, de R$ 37,5 milhões para o contrato de 15 anos, foi considerado baixo por alguns setores, mas Jerônimo garante que o ICMBio "não se fechou para discutir esse valor". Segundo ele, o investimento também contemplaria a execução, manutenção e limpeza das estruturas que seriam construídas. Entre as melhorias que seriam feitas está a colocação de estruturas de proteção dos atrativos, como a Árvore da Preguiça, a definição de uma área para estacionamento na entrada da vila - o que reduziria o fluxo interno de carros -, a contratação de monitores especializados e a melhoria do acesso à Pedra Furada.

O lado que não aparece e surpreende

Por Jáder Santana

Iuna Flory entrou no mar com cuidado, um passo de cada vez. Carregava seu violino. Por isso a cautela, não podia molhar o instrumento. Não agora, quando finalmente se sentia íntima da peça, depois de muitos ensaios com flauta doce. Ela tem sete anos. Integrante da Orquestra Jeri, formada por crianças e adolescentes residentes na vila, Iuna diz que se sente feliz quando toca.

 

“Porque expresso meus sentimentos", "porque consigo ser quem sou", "porque ajuda a passar o tempo", "porque me desafia". Foram as respostas que O POVO ouviu quando perguntou a cada integrante da orquestra o que a música lhes significava. Eles haviam acabado de realizar um ensaio, especialmente preparado para os repórteres. O grupo exercita a música diariamente, em dois horários distintos, e se apresenta esporadicamente em eventos na praça ou na praia de Jeri. No fim da tarde do último dia 20, tocou clássicos da música popular brasileira em uma apresentação solidária. A renda foi revertida para a compra e atualização de instrumentos para a própria orquestra.

 

A Jeri que não aparece nos guias de turismo e nos sites de viagens surpreende. Há muito mais para se ver quando o turista decide se perder entre os becos de areia e muros baixos. Em muitos desses muros, as pinturas dos artistas plásticos Miguel de Paula e Sueli Souza chamam atenção. Ele, natural de Crateús, decidiu viver na vila há dois anos. Ela, paulistana, fugiu para Jeri há mais de quatro. "A Su trabalhava na rua. E Jeri é noite. Nas minhas andanças pelos becos, esbarrei com ela. Ficamos amigos e hoje somos namorados", conta Miguel.

 

O POVO conversou com o casal no Beco das Flores, uma das áreas revitalizadas nos últimos anos pelo projeto Quem Ama Cuida. O ambiente ganhou nivelamento do solo, novas plantas e intervenções de Miguel e Sueli. "Esse beco era escuro, sujo, conhecido como 'Beco do Mijo'. As flores do nome original tinham sumido há muito tempo. Nós entramos com essas pinturas todas", explica Miguel. Sueli elenca as intervenções: "Uma Fridinha (Frida Kahlo) na bicicleta, para crianças; uma borboleta colorida, onde todo mundo para e tira fotos; um jumentinho, que fala muito do Ceará; e uma negra, porque Jeri é a África. É uma homenagem aos nossos antepassados".

 

As obras dos dois estão espalhadas por toda a vila. As redes sociais levam as imagens em viagem por todo mundo. "As pessoas param, fotografam e acabam marcando a gente no Instagram. É este nosso objetivo como artista: levar uma mensagem ecológica e de consciência ambiental. As pessoas dizem que amam Jeri, mas quem ama cuida", diz Miguel. O artista compara o rápido crescimento da vila ao desenvolvimento de uma criança: "Recebeu um ornamento, uma roupagem bonita. Mas o intelecto não conseguiu acompanhar esse crescimento. Muitos investidores, do Brasil e do Mundo, estão aplicando em Jeri e trazem essa responsabilidade. Muitos outros, incluindo os nativos, infelizmente, ainda não".

 

 

1,5

mil quilos de material reciclado são recebidos todos os dias pela Cooperativa de Catadores de Jeri

 

Responsabilidade ambiental é o que move os 14 membros da Cooperativa de Catadores de Jeri, inaugurada há dois anos nas dependências da usina de reciclagem da vila. Por dia, recebem cerca de 1.500 quilos de material reciclado, o que, de acordo com o presidente da entidade, Edi Carlos, ainda é um número baixo. "Apenas 30% do material da vila é reciclado. O ideal é que chegássemos aos 2.500 quilos por dia, ainda falta um pouco", explica.

 

Edi também critica os níveis de produção de lixo na vila. "Temos uma população flutuante de 6 mil pessoas por dia. Cada pessoa gera 2,4 quilos de lixo diariamente, o que é muito diferente de outras cidades do Brasil e do exterior, onde o lixo gerado fica entre 1,2 e 1,6 quilo", explica.

 

Apesar disso, Edi é otimista com o futuro da vila e vê com bons olhos as mudanças dos últimos anos. "Jeri está mudando para melhor. O turista está ficando mais consciente, deixa a cidade mais limpa. O nativo ainda precisa melhorar, mas está no caminho".

 

Iuna Flory, violinista na Orquestra Jeri (Foto: Aurélio Alves)
 

O crochê que corre o mundo

Na rua principal de Jeri, ao lado da praça, uma barraquinha informal concentra as peças das 80 crocheteiras da vila, que se revezam em diferentes dias e horários para apresentar suas criações e ganhar algum dinheiro. Crocheteiro há 30 anos - um dos poucos homens envolvidos no trabalho -, Raimundo Nonato foi o terceiro vendedor de crochê da praia, quando Jeri ainda não havia se transformado em uma das praias mais famosas do mundo. "Comecei vendendo vestido, rede pra dormir, colcha de cama. Faço crochê também pra relaxar, descansar a cabeça. Em casa, depois que vou pra roça, fico o dia inteiro fazendo. Jeri tá mudando pra melhor, tem muito trabalho pra gente", conta.

Quem divulga essa produção para o mundo é a estilista Liliane Morais, que há um ano trocou São Paulo pela vila. Dona do site limoraiscrochet.com.br, Liliane se encantou pela arte em um momento difícil da vida: "Eu tava numa fase não muito feliz, com a autoestima super baixa. Comecei a ver as crocheteiras, comecei a usar, a me achar bonita. Comecei a ir no samba, a surfar, e mudei meu astral. Elas são poderosas". 

 

As crocheteiras de Jeri (Foto: Aurélio Alves)
 

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