Missão de todos

Olhar ao redor. Essa é a essência de empresas privadas e instituições sem fins lucrativos que investem nos segmentos de educação, cultura e esportes no Ceará. Motivados a ampliar as perspectivas de futuro de crianças, adolescentes e jovens, investem ou desenvolvem projetos, paralelos ao poder público, que estimulam o desenvolvimento humano pleno através do acesso a um conjunto diverso de manifestações culturais como a música, o cinema, a literatura e a prática de atividades esportivas. Além do desenvolvimento de práticas profissionalizantes capazes de abrir mercado de trabalho e aumentar as possibilidades de fontes de renda.

A arte e as manifestações culturais são importantes ferramentas de integração social. É possível romper a mais excludente bolha através da música e da dança, por exemplo. Forte aliado da educação formal, o esporte também é um direito humano capaz de fortalecer o desenvolvimento pessoal. Principalmente de crianças e adolescentes. 

Exemplos narrados nas páginas a seguir revelam o impacto positivo e transformador, tanto de dimensões individuais como coletivas. 

Cases como da Solar Coca-Cola, Instituto Diageo, Instituto EDP e Vidança são um respiro em comunidades, muitas vezes, submersas em realidades sociais vulneráveis e que mostram a força do investimento privado na construção de um mundo melhor. 

Boa leitura! 

Esportes e arte para formação sociopolítica

Como o esporte e a arte ajudam a construir o repertório sociocultural de crianças e jovens, integrando, empoderando e mudando suas realidades

Por Ana Beatriz Caldas

Desde os três anos de idade, a estudante Alicy dos Anjos – hoje com 16 – se dedica à dança, tendo a atividade como hobby e modo de expressão. A partir do contato com o balé clássico na primeira infância, resolveu conhecer outros ritmos e investir em uma formação artística mais ampla na escola de música da Vila das Artes, em Fortaleza, onde se formou no ano passado. Por cinco anos, Alicy estudou danças folclóricas, hip hop, teoria e prática da dança – mas o aprendizado foi além do conhecimento artístico.

“Eu não gostava do meu cabelo porque ele era crespo, muito diferente do cabelo das meninas da minha sala, e eu queria ser igual a elas, não tinha nenhuma base de negritude. Um dia, uma professora me falou que o espetáculo que íamos apresentar exigia que usássemos nossos cabelos soltos, porque era uma dança sobre movimento e repetição. Foi aí que eu tive que encarar o medo de ser rejeitada e confrontar aquilo que mais me doía por dentro”, conta. 

Foto: Priscila Smiths/Especial para O POVO
Alicy dos Anjos, 16 (Foto: Priscila Smiths/Especial para O POVO)
 

A partir da iniciativa de uma das professoras de dança de Alicy, a menina resolveu assumir o seu cabelo e reconheceu sua identidade, sentindo-se completamente à vontade consigo mesma pela primeira vez. “Foi um processo um pouco demorado. Em um outro espetáculo, dancei a música ‘Menina Pretinha’, da MC Soffia, que é uma negra linda, e na metade da coreografia a gente soltava o cabelo do jeito que estava. Esse foi um momento onde eu definitivamente botei na cabeça que sou negra, que tinha que assumir minha origem e parar de ter vergonha disso”, relembra, emocionada. 

Para Paulo Meireles Barguil, docente da Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutor em Educação, é necessário que crianças e jovens, principalmente, tenham acesso a um conjunto diverso de manifestações culturais para que haja o desenvolvimento humano pleno, e é essencial estimular o contato destes com a música, o cinema, a literatura e a prática de atividades esportivas. 

Barguil afirma que é necessário que haja uma parceria entre escola e família para o desenvolvimento de crianças e jovens mais saudáveis, fisicamente e mentalmente, com a valorização da arte e dos esportes. O professor explica que, especialmente em um momento particularmente marcado pelo antagonismo, é necessário que estes saibam conviver com as diferenças e apreciar o outro, valores pautados em movimentos artísticos e grupos esportivos.

“Todos nós vivemos em bolhas e interagir em diferentes ambientes, com e através dessas manifestações culturais, como a dança e a música, é importantíssimo para que a gente vá ‘furando’ essas bolhas. O esporte, por outro lado, favorece que a criança interaja com situações de tristeza, alegria, vitória e derrota, seja no individual ou no coletivo, lidando com o diferente e não o entendendo como inimigo. Isso é especialmente importante para o adolescente, que está no meio do caminho entre o ser criança e o ser adulto, em um momento de mudanças corporais e também de perspectivas”, pontua Paulo. 

Hoje, a menina Alicy está no terceiro ano do Ensino Médio, estudando para o vestibular de Medicina, Alicy outros benefícios que a dança lhe trouxe. “A dança foi uma preparação para a vida. Querendo ou não, também foi um incentivo para manter boas notas, estudar e alcançar meus objetivos. Ser médica é o meu sonho, mas não vou deixar a dança. Um dia, pretendo fazer também a graduação em dança, que é a coisa que mais amo na vida”, completa. 

A experiência narrada por Alicy ilustra a importância da arte na formação multidisciplinar de um indivíduo, especialmente em relação à construção do repertório sociocultural de crianças e jovens. Artista da dança e professora da Vila das Artes, Dayana Ferreira reafirma a importância de movimentos culturais como instrumento de educação e transformação social. Quando criança, Dayana também fez parte de uma escola de educação em dança, a Edisca, onde era atendida em diversos segmentos.

“Naquele instante, aos nove anos, eu era a única entre 12 filhos que tinha a oportunidade de estudar em uma escola de artes, e isso mudou a realidade da minha família. Quando eu voltava para casa, havia uma devolutiva, uma mudança de percepção de mundo que chegou ao meu seio familiar. A partir da dança, eu descobri que era possível que a minha identidade, ainda que periférica e pobre, fosse reconhecida e considerada forte, potente”, lembra a educadora. Para ela, a aproximação com as artes desde cedo faz com que crianças e jovens sejam mais sensíveis, comprometidos e respeitos – tanto consigo mesmos como com os outros. 

“A educação através da arte é uma arma poderosa de consciência de vida e de transformação de contextos. São longos passos dados na direção de um adulto mais responsável, mais comprometido, mais consciente politicamente e socialmente. Para além de uma educação escolarizada, a própria dinâmica das relações sociais também transforma, na lida com companheiros e professores nas aulas. É nesse sentido que a educação acontece, para além do formal. A gente aprende o tempo todo”, ressalta. 

Esporte: além do bem-estar físico, habilidades profissionais

Outro fator de aprendizagem além da sala de aula que pode traz ensinamentos para toda a vida é a prática de esportes. Segundo Ricardo Catunda, doutor em Ciências da Educação e professor do curso de Educação Física da Universidade Estadual do Ceará (UECE), apesar de o esporte ser um direito humano e, portanto, um fator de desenvolvimento humano, menos de 25% dos cearenses pratica esportes frequentemente.  

“Além dos aspectos físicos, a prática esportiva tem valores intrínsecos como a sociabilidade, a produtividade e a busca pela qualidade de vida. Há também a questão da cidadania ativa, que faz com que crianças e adolescentes desenvolvam competências e habilidades que podem auxilia-los a lidar com a convivência social, como a tolerância à frustração, a empatia em relação ao outro, a disciplina, o autoconhecimento e o respeito às diferenças, entre outros”, explica Catunda. 

Apesar de haver grande índice de desistência na prática de esportes entre o fim da adolescência e o início da idade adulta – especialmente por causa da mudança de rotina que impera nesse momento da vida dos jovens –, esta pode ser uma forte aliada para a entrada no mercado de trabalho.

“Orientado por um profissional qualificado, o esporte pode ser um forte aliado da educação formal, ensinando os atletas a tomar decisões, liderar times, resolver problemas, trabalhar em equipe e gerir seu tempo, fatores que podem auxiliar o desenvolvimento em ambientes de trabalho”, completa o professor. 

Capacitação para impactar comunidades

Solar Coca-Cola oferece curso preparatório e oportunidades de emprego

Por Letícia do Vale
Solar Coca-Cola já formou mais de 90 mil jovens (Foto: Divulgação Solar)

Capacitação profissional é a palavra-chave para a iniciativa da Solar Coca-Cola. Desde 2009, a empresa administra cursos que abordam assuntos como Comunicação e Tecnologia, Marketing e Vendas e Produção de Eventos para jovens entre 16 e 25 anos, que estão cursando ou já concluíram o ensino médio. O projeto Coletivo Jovem já está presente em mais de 100 comunidades em todo o País, sendo seis dessas somente no Ceará. Em 2019, foram 2.626 jovens formados pelas unidades do Coletivo Jovem no Estado.

A Coordenadora de Sustentabilidade e Responsabilidade Social da Solar Coca-Cola, Alana Barros, explica que essa parceria com o Coletivo Jovem surgiu da necessidade da empresa de impactar positivamente a sociedade e contribuir com as comunidades a partir de uma especialidade da Solar. Os cursos são ministrados em salas de ONGs parceiras, por educadores da própria comunidade. A duração é dois meses, com encontros duas vezes por semana. 

Em dez anos de projeto, a Solar Coca-Cola já formou mais de 90 mil jovens nos sete estados nordestinos em que coordena a iniciativa. A meta da empresa é empregar, em média, 30% dos formandos anualmente.  Para Alana, escolher educadores da própria comunidade é uma forma de conectar os jovens com o conteúdo e desenvolver um aspecto de identificação, tornando as aulas mais leves e interativas. 

Após a finalização do curso, o jovem é encaminhado para uma série de entrevistas de emprego em empresas parceiras, permanecendo, muitas vezes, como voluntário nas ONGs em que tiveram as aulas. De acordo com Alana, em 2019, foram 5.900 encaminhamentos para o mercado de trabalho e 3.000 vagas de emprego geradas no Nordeste. Desses, 150 foram empregados na própria Solar.

“Nosso compromisso vai além do jovem. Quando ele consegue um emprego, muitas vezes é a única renda fixa da casa. Então, a gente consegue fomentar a economia e transformar a vida da família inteira. Nosso compromisso é mudar o futuro de várias pessoas que estão na comunidade”, explica Alana. A coordenadora revela que outro impacto do projeto é resgatar jovens que tinham largado os estudos porque, para participar, é necessário estar no ensino médio ou já ter completado.

Vanessa Siqueira, formada em Administração e atual analista de planejamento logístico pleno da Solar, é uma história de sucesso do Coletivo Jovem. Ao conhecer o projeto por meio de amigos, aos 19 anos, enxergou na iniciativa uma oportunidade de capacitação e entrada no mercado de trabalho.

“Já tinha visto alguns amigos que tinham feito o curso trabalhando, e isso dá esperança. Quando eu vi que o curso dava essa orientação de como se comportar numa entrevista, dava uma capacitação, me chamou bastante atenção porque a gente sai do ensino médio meio desorientado, e o curso me atraiu porque dá um caminho que o mercado cobra”, relata Vanessa. 

Após finalizar o Coletivo, a jovem retornou ao projeto como educadora, onde permaneceu durante um ciclo. Depois foi a vez de trabalhar na Solar, na qual permaneceu como jovem aprendiz por oito meses e logo foi promovida a assistente administrativa. Depois de quatro anos, mais uma promoção: analista júnior e, quase dois anos depois, analista pleno.

Para a profissional, passar pela capacitação do curso antes de se inserir no mercado de trabalho tornou o caminho bem mais fácil. “Falar do Coletivo até mexe comigo porque eu participei bem nova, no início das minhas experiências profissionais e pessoais, então o Coletivo é responsável por uma grande parcela de quem eu sou hoje. Fazer o curso foi o primeiro passo de uma jornada bem grande que ainda está acontecendo”, explica.

Atualmente, o foco da Solar é prospectar mais parceiros para que as oportunidades de emprego para os jovens cresçam, além de se especializar ainda mais em capacitação para continuar fomentando a transformação de vida. De acordo com Alana, a empresa bate a meta empregatícia de 30% anualmente, desde 2009.

Hoje, aos 27, Vanessa tem grandes planos para o futuro: “Ainda quero passar um tempo aqui, crescer ainda mais. Tenho passos a dar e sei que a Solar ainda tem muito o que me oferecer. Vou continuar me capacitando e almejando outras coisas.” 

Atuação

A Solar é a segunda maior fabricante do Sistema Coca-Cola no Brasil. Atua nos estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Mato Grosso, Tocantins e Goiás. 

PARA INSCREVE-SE NO PROJETO, BASTA ENTRAR EM CONTATO COM O COLETIVO MAIS PRÓXIMO

Coletivo Autran Nunes

Centro Social Betesda - Espaço Esperança

Endereço: Rua Barão de Cotegipe, 522– Autran Nunes

Contato: (85) 3081.1389

Coletivo Bom Jardim

Projeto Bom Jesus

Rua Coronel João Correia, 1913 Conj. Santa Cecilia, Bom Jardim

Contato: (85) 3497.1658 / (85) 9 8803.4743

Coletivo Jangurussu

Conselho Nova Vida - CoNVida

Rua Irmãos Olímpio, 197 - Conj. Santa Filomena, Jangurussu.

Contato: (85) 3275.6123 (85) 9 8685.1253

Coletivo Pirambu

ONG Bom Samaritano

Rua Marcilio Dias, 1031, Pirambu

Contato: (85) 9 8895.5008 ou (85) 9 8812.9971

Coletivo Planalto Ayrton Senna

Conselho de Integração Social –

IntegraSol

Rua Leste Oeste 05, 72- Conj. Novo Renascer, Planalto Ayrton Senna

Contato: (85) 3473.7507/ (85) 9 8525.5356/ (85) 9 8941.3620

Coletivo Maracanaú

Associação Comunitária Ebenézer – Colégio Ebenézer

Av. VI com Avenida VIII, s/n,

Conj. Jereissati I - Maracanaú

Contato: (85) 3382.1911 /

(85) 9 8645.8894 

Entre drinks e oportunidades

Presente no Ceará desde 2019, o Instituto Diageo desempenha atividades voltadas para educação de jovens e profissionalização em diferentes áreas

Por Hamlet Oliveira

Foto: (Foto: Priscila Smiths/Especial para O POVO
No caso do programa Fala Sério!, 80 mil alunos, de 13 a 17 anos, já participaram das atividades do projeto (Foto: Priscila Smiths/Especial para O POVO)

Um dos momentos mais importantes do desenvolvimento humano, a adolescência é período de amadurecimento e aprendizado. Diante disso, empresas se unem para criar soluções para o cotidiano desse público. No Ceará, a Diageo, líder mundial no segmento de bebidas alcoólicas premium, mantém parceria com a Secretaria de Educação do Estado do Ceará (Seduc) no programa Fala Sério!, que leva conscientização sobre o consumo de álcool entre jovens para escolas públicas do Estado.

A iniciativa é uma das três que compõem o Instituto Diageo, entidade que desde 2019 desempenha ações sociais e profissionalizantes em estados brasileiros. No Ceará, além do Fala Sério, também são aplicados o Learning For Life, que leva cursos de bartender para jovens de baixa renda, e o Tecendo o Futuro, voltado para internas em prisões femininas, que realizam trabalhos de artesanato para a redução da pena.

No caso do programa Fala Sério!, 80 mil alunos, de 13 a 17 anos, 160 escolas e 45 cidades cearenses, já participaram das atividades do projeto. Em parceria com o Instituto Aliança, uma peça de teatro é apresentada nos colégios, como forma de conscientizar os jovens sobre o consumo de álcool na adolescência. Além da apresentação, é implantada uma disciplina eletiva, “Adolescência e consumo de álcool na sociedade contemporânea”, que utiliza princípios do teatro para que os alunos desenvolvam suas próprias peças junto aos colegas.

Uma das iniciativas foi protagonizada por Ilan Alcântara, 16, aluno do 2º ano do ensino médio da EEMTI Estado do Maranhão, no bairro Mondubim. Com outros colegas, o estudante montou a peça “E se fosse diferente?”, que conta a história de uma jovem que, influenciada por amigos, sofre problemas com álcool. Ao final, é feita uma reflexão sobre como uma mudança de comportamento poderia ter dado um outro fim para a história.

“Estou gostando muito porque me ajudou a perder a timidez, a falar melhor em público. Até nos ensaios a gente entende o sofrimento de cada um, quando entramos no personagem, é muito legal”, explica Ilan. O estudante comenta que a recepção tem sido positiva tanto pelos alunos quanto pelos professores. Em casa, os pais também foram favoráveis à nova disciplina na escola.

Parceira dos responsáveis pelo Instituto Diageo desde antes de sua fundação, Adenil Vieira, diretora do Instituto Aliança, entidade responsável por operar os programas Fala Sério! e Learning for Life, relata que o Ceará é o principal espaço para aplicação dos recursos do Aliança. No início, a peça utilizada no Fala Sério! veio de outro projeto do exterior, mas acabou sendo adaptada para agregar aspectos regionais e facilitar a identificação da audiência com a história. “ É impactante não só para jovens, mas para adultos também”, diz a diretora.

Paulo Mindlin, gerente geral do Instituto Diageo, explica que a empresa assumiu alguns projetos que já eram realizados pela Ypióca, antes da aquisição da empresa cearense pela multinacional, em 2012. Uma das vantagens do Ceará para a atuação do Instituto, conta, é abertura de órgãos oficiais como Seduc e a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), responsável por dar suporte ao programa Tecendo o Futuro, exclusivo do Estado. 

“A gente trabalha como instituto sempre com perspectiva de convergência com políticas públicas. Entendemos que, dessa maneira, vamos alcançar escala de impacto social. O fato de termos estabelecido parcerias com o poder público permite intensificar mais a atuação no Estado.” Os bons resultados alcançados pelo Fala Sério! permitiram que o projeto esteja em processo de estudo para ser levado a outras partes do Brasil, como São Paulo e Pernambuco. “Entendemos que é um papel nosso enquanto empresa atuar que não aconteça esse uso indevido de bebidas alcoólicas por menores de idade”, encerra Paulo.

Fortalecimento do mercado de trabalho

Apesar de já possuir alguma experiência no preparo de drinks básicos, Geane Alves, 23, viu no programa Learning For Life a oportunidade de especializar e conseguir mais espaço no mercado. Participante da turma do primeiro semestre de 2019, Geane conta que o curso a permitiu conhecer vários outros profissionais de Fortaleza, também em busca de mais capacitação. 

As aulas focam no preparo de drinks já consagrados no mercado, mas incentiva, principalmente, a criatividade dos alunos, os estimulando a unir diferentes insumos para explorarem novos sabores. “Eles trazem bebidas que a gente não consegue comprar no dia a dia, como runs premium. A gente faz pequenas degustações, e dentro dessas degustações, deixamos nossa criatividade rolar.”

Junto a outros cinco participantes, Geane fundou em 2019 a Chiba, sigla para Cachaça International Bartender Association. A microempresa leva para eventos e festas, drinks a base de cachaça e outros ingredientes regionais, como forma de valorizar a gastronomia local. Entre os insumos utilizados estão caju, rapadura, tamarindo, graviola e outros.

Após o curso, Geane conseguiu ser efetivada em um hotel de Fortaleza, na área de preparo de drinks. Desde então, também junto a outros profissionais, a jovem realiza cursos e produz workshops para o segmento, como forma de se especializar e desenvolver a cena local. 

Futuro de presidiárias

No Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa (IPF), 30 internas participam do projeto Tecendo o Futuro. Durante a semana, as mulheres desenvolvem peças de artesanato com palha de carnaúba e aprendem um novo ofício. Um dos itens produzidos, por exemplo, é a embalagem que reveste as garrafas de Ypióca. O trabalho, em parceria com a Secretaria de Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), é remunerado e, a cada três dias de trabalho, um dia da pena das beneficiadas é abatido.

De acordo com Paulo Mindlin, gerente do Instituto Diageo, o objetivo é que o número de 100 internas participantes seja atingido em breve. Outra estratégia a ser adotada pelo Instituto será a convergência dos projetos, com uma apresentação do Fala Sério! dentro do IPF. “A gente entende que, apesar de ser focado em adolescentes, as internas que estão lá serão reintegradas à sociedade e a gente dissemina essa comunicação. Elas vão interagir com suas famílias, filhos.”

Antes da aplicação no Ceará, Paulo comenta que foram feitas visitas em presídios que já possuem empresas instaladas, como no estado de Santa Catarina. A partir da pesquisa e em diálogo com a SAP, foi percebida a viabilidade da implantação de parte da cadeia de produção dentro do instituto penal. Assim, o espaço foi reformado, com a aplicação de uma nova identidade visual, além de ter sido climatizado. 

Por uma arte do povo

A iniciativa atua há mais 30 anos no bairro Vila Velha estimulando a capacidade de criação de crianças e adolescentes

Por Eduarda Porfírio

A Associação Vidança é um projeto social de “artes e ofícios”, conforme explica Anália Timbó - diretora e fundadora da iniciativa - que atua no bairro Vila Velha. Por meio da dança, artes marciais, percussão, costura e de trabalhos com materiais recicláveis procura trazer uma outra perspectiva para a região. O lugar concentra um dos maiores números em população da Capital, de acordo com dados do Documento Diagnóstico da Cidade e Fortaleza em Números e está entre as cinco áreas mais violentas da cidade consoante o Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança – Ciops.

A Vidança surgiu em 1981, devido ao desejo de Anália Timbó de dar continuidade ao sonho de ser artista. Na época, a professora dava aulas de dança no Vila Velha no fim da tarde, após o expediente na Escola de Dança do Serviço Social da Indústria (Edan Sesi).  A intenção no começo não era formar uma organização não governamental (ONG), porque segundo diretora, “na época isso não existia com essa definição". O objetivo era levar os alunos para participar de festivais fora da Edan Sesi, porque “no Sesi não podíamos ir dançar fora”, explica a Anália.

O projeto nasceu como “o primeiro grupo de dança moderna do Ceará fora do Sesi, dei o nome de Vidança para  representar a dança, a arte”, conta. Anália dava aulas não só de balé clássico e  contemporâneo, visto que “um espetáculo não é formado só pela dança. E como tudo era eu quem fazia, cenário, figurino, as músicas, ia colocando como curso na Vidança.” Assim, incluía as outras atividades na grade do grupo, de modo a formar a identidade da iniciativa, que para além do belo procura estimular a capacidade de criação, pois os estudantes irão encontrar “saída para as dificuldades” por meio do uso dela, conclui a diretora.

Foto: Foto: Priscila Smiths/Especial para  O POVO
Vidança surgiu em 1981 (Foto: Priscila Smiths/Especial para O POVO)
 

Hoje, a ONG atende a cerca de 200 pessoas, entre crianças a partir de 6 anos, adolescentes e adultos. De forma a fomentar intervenções do bairro, se propondo a sair dos limites da sede física. Elcir Rocha, professor e bailarino da ONG de 2000 a 2007, elucida que é “inspirador como a Vidança leva a arte para as ruas de forma acessível, para que a comunidade entenda o trabalho da iniciativa e veja que ela está lá para a comunidade e vice-versa para que haja uma progressão social”.

A instituição também tem o projeto Escola pela Leitura, com o qual levam a leitura e a dança na rede de ensino público na comunidade e imediações. Além de contarem com a biblioteca comunitária, promovem o incentivo à leitura na região com intervenções artísticas.

“Nós conseguimos passar pelo outro lado porque é um território faccionado, mas eles têm essa consciência porque temos alunos de todo o bairro e que são parentes de membros de facção”. Anália fala sobre o respeito que as pessoas da área têm pela Vidança.

A coreógrafa ainda enfatiza a relevância da ONG estar dentro da comunidade, embora houvesse momentos em que tiveram de fechar as portas devido a falta de segurança. “Nós fomos aprendendo e descobrindo que o medo não leva a nada, devemos nos sobrepor a ele para não deixar de fazer nada. Porque essa realidade das crianças, eu já vivi. Esse impacto vem de mim com a minha família, que reverbera até hoje no projeto.” Anália morava na Barra do Ceará com os pais.

Para conseguir se manter, a entidade conta com o apoio o Governo do Estado do Ceará por intermédio da Secretaria de Cultura (Secult), Companhia de Gás do Ceará (Cegás),  Banco do Nordeste (BNB), Conselho Estadual dos Direitos Da Criança e do Adolescente (Cedeca). Além de parcerias com a Casa Brazil, Bolha D’água - doação de retalhos, Programa Mais Nutrição e  Enel Distribuição Ceará.

O apoio do BNB veio por meio do edital do Fundo da Infância e da Adolescência (FIA) , a Vidança recebe R$ 76.368 que são distribuídos às atividades de artes manuais capoeira, hip hop, mediação de leitura, oficina de cidadania e ética, lanches, material pedagógico e didático, uniforme e aluguel de ônibus para aulas externas. Para Ulisses Vasconcelos, gerente de produtos e serviços do BNB, o serviço que a ONG presta à sociedade é relevante porque “está relacionado não só a aspectos econômicos, como geração de emprego e renda, mas também sociais, como educação, segurança, cultura e lazer”.

A importância das raízes e dos laços

Entre os estudantes da ONG estão os pais dos alunos, que participam das oficinas de costura, da montagem dos instrumentos. Anália explana que “trabalhar essa inter-geração é relevante para fortalecer vínculos afetivos.” Aluna de 13 anos da Vidança é uma prova disso. Vitória Eduarda diz que as atividades propostas a ajudaram a “ser obediente aos pais”. 

A diretora salienta que na maioria das vezes os responsáveis pelas crianças não são parentes de sangue, elas são cuidadas pelos vizinhos. “Acontece uma troca de experiência com os pais, eles levam os avós para contar histórias, trazem um tutor afetivo para estar dentro do projeto e ter essa troca, chegar mais perto, conhecer histórias”, complementa a ex-bailarina.

Apesar disso, há crianças que “chegam que são bem largadas, a gente vai colocando elas sem que percebam que estão sendo favorecidas, não abandonamos elas para que se apaixonem pela dança e saia daquela situação.”. Para ela o acolhimento e contato com a arte, para além da técnica, ajudam a desenvolver por meio da criatividade o respeito à identidade da comunidade. “Conhecendo o mangue, ter orgulho de morar ali apesar das dificuldades. A fim de que “elas tenham orgulho de morar ali apesar das dificuldades.”

Desse modo, o projeto trabalha as distintas técnicas artísticas com aspectos da cultura cearense, como o maracatu, o reisado, as danças dramáticas. Para fazer as crianças, adolescentes e adultos pensarem na relação entre a dança, a literatura e a herança regional. Além disso, a iniciativa procura promover a conexão dos alunos com o mangue, com as praias, para que eles “descubram aquele ambiente como possibilidade de criação”. 

Todo material usado pela associação nos espetáculo é feito por eles. Figurinos, cenários e até mesmo a música, com a inclusão de instrumentos de percussão. Anália explica que é assim desde o início, “porque a gente não tinha recurso, e a Vidança sempre foi isso, fazer as coisas com o que temos.” Ela conta ainda sobre a importância do investimento em projetos sociais, uma vez que é “essencial para a qualidade do atendimento da comunidade, ajuda na manutenção e na sustentabilidade da ação”. 

A instituição produz dois espetáculos por ano. O primeiro ocorre em meados de junho e conta com a participação de outros grupos de Fortaleza que dançam estilos como o axé e funk. “Eles passam cerca de um mês ou algumas semanas com a gente, conforme a disponibilidade de cada um, aprendendo junto com os nosso estudantes a nossa base de balé e danças dramáticas. No fim, apresentamos uma grande mostra de dança na praça do Vila Velha."

A segunda apresentação ocorre em outubro, passa pelo Cineteatro São Luiz, Theatro José de Alencar e finaliza com uma tour pela Rede Cuca. Todos os festivais são gratuitos e a ONG leva as escolas e projetos da área, disponibilizando ônibus para o transporte desses alunos.

O sonho de Anália Timbó é que a Vidança continue por longos anos, “independente de mim, que seja assumido pela comunidade”. Ela almeja que o projeto ultrapasse os limites do Vila Velha e de Fortaleza, alcançando do interior do estado. 

A música como ferramenta

Orquestra infanto-juvenil transforma o cotidiano de crianças e adolescentes através da música em São Gonçalo do Amarante

Por Ana Beatriz Caldas

Além de planejar e analisar o impacto de seus produtos e serviços na vida dos usuários, também é papel essencial das empresas do setor privado auxiliar no desenvolvimento sustentável das comunidades onde estão localizadas. Cada vez mais, a preocupação com ações de responsabilidade social empresarial  tem se tornado mais forte em entidades de médio e grande porte, que investem parte de seus recursos em iniciativas de educação, arte e esporte em todo o País, capacitando pessoas e realizando sonhos.

Seguindo esse preceito, e com o objetivo de melhorar a qualidade de vida de crianças e adolescentes de São Gonçalo do Amarante, a UTE Pecém tem realizado uma série de ações voltadas para o desenvolvimento artístico e profissional da comunidade de Várzea Redonda, distrito do município, através do Instituto EDP. Dentre elas, uma tem feito sucesso particular entre os participantes: a Orquestra Infantojuvenil de São Gonçalo do Amarante, núcleo de formação musical da Orquestra Contemporânea Brasileira (OCB), também apoiada pela entidade.

Atualmente, a atividade atende 100 crianças e adolescentes do município, com idade entre sete e 16 anos, e também possui turmas em Fortaleza e Pindoretama. “Nós acreditamos que a música pode transformar vidas. Essas crianças estão em situação de extrema vulnerabilidade e, provavelmente, jamais teriam acesso a esses instrumentos e à oportunidade de aprender a tocá-los. A arte ocupa um espaço vazio e faz com que elas possam navegar em um mundo desconhecido”, explica a analista de Responsabilidade Social da EDP, Danielle Araújo.

Promover capacitação educacional e profissional para a juventude através do contato com a arte ameniza fatores que contribuem para o reforço de estigma, reduzindo índices de desigualdade social e criminalidade, e são ações que podem reverberar positivamente no cotidiano de toda a comunidade. Para Danielle, esse deve ser um dos principais pilares de empresas que se instalam em áreas vulneráveis. “A empresa não se desenvolve sozinha. Se ela não tiver em um ambiente em que a comunidade está se desenvolvendo bem, a empresa não está crescendo, só acumulando riqueza”, ressalta.

Foto: Foto: Divulgação
Aulas de violino, contrabaixo, viola e violoncelo ocorrem duas vezes por semana (Foto: Divulgação)
 

Valores educacionais multidisciplinares

Durante as aulas de violino, contrabaixo, viola e violoncelo, que ocorrem duas vezes por semana em uma igreja da comunidade de Várzea Redonda, os alunos da Orquestra Infantojuvenil de São Gonçalo do Amarante também aprendem a ter disciplina, a se dedicar mais para obter resultados e reforçar o foco nos estudos, valores compartilhados com toda a comunidade e que podem fazer diferença no futuro de dezenas de famílias.

O projeto, que está no segundo ano consecutivo na cidade, tem apoio da Lei Rouanet e é coordenado pelo maestro Arley França, que trabalha com projetos sociais que ensinam música a crianças e jovens há mais de 20 anos. Tudo começou quando Arley se envolveu com a área através de um projeto social em Fortaleza ainda adolescente.

“A oportunidade que eu tive foi a primeira porta para trabalhar com música e veio a determinar tudo o que aconteceria profissionalmente na minha vida. Essa experiência me tornou uma pessoa diferente e me fez querer transformar a vida das pessoas”, conta.

Os professores do projeto, músicos profissionais de alto nível, são responsáveis pelas três horas de aula semanais de cada aluno. Segundo Arley, uma das principais funções da orquestra é tirar os alunos da ociosidade, conhecendo uma nova cultura.

“Tenho raízes em São Gonçalo e soube dessa comunidade a 30 km da cidade com várias crianças ociosas, sem nenhuma oportunidade ou acesso. Quando fui lá e conheci as crianças, senti a mesma coisa que senti quando pensei em começar meu primeiro projeto, que elas precisavam de um projeto que mudasse suas trajetórias”, completa.

Aprendizado musical

A curiosidade pelos instrumentos diferentes foi, inclusive, o motivo pelo qual Marcelle Martins, de 14 anos, resolveu participar do projeto. Para ela, a orquestra foi a oportunidade perfeita para descobrir um mundo novo – além da prática do instrumento, ela pontua que os passeios feitos com os membros da orquestra são sua parte favorita do processo do aprendizado musical. “A música me transformou em uma pessoa mais calma e atenciosa. Através dela, consigo expressar os meus sentimentos”, afirma a garota, que pretende seguir trabalhando com arte.

Apesar de muitas crianças e jovens terem interesse em uma carreira profissional como músicos, para participar da orquestra é necessário investir também na educação formal básica. Para garantir o direito à educação a todos, os alunos devem estar matriculados em uma escola e cultivar boas notas. Além disso, durante a prática musical, valores que auxiliam a formação escolar – e, futuramente, profissional – são repassados às crianças de maneira multidisciplinar, operando no lado emocional e cognitivo.

“Uma criança que estuda música potencializa uma inteligência múltipla, facilitando o aprendizado de línguas estrangeiras e conhecendo muito sobre cultura, de uma maneira geral, e sobre o contexto social, cultural e político da construção de cada música. O nosso projeto, na realidade, é de transformação social. A música é apenas uma ferramenta”, pontua.