Indústria Têxtil

A origem econômica da moda

Por Paula Lima

Pensar a moda e o Ceará nos leva a um passeio por fios e máquinas que movimentam uma indústria potente para o País. O bojo de biquínis e sutiãs, os fios de vestidos, blusas e bermudas e o popular jeans produzidos no Estado, elevam o Ceará ao topo do ranking da América Latina nesses segmentos. Considerando toda indústria têxtil brasileira, o Estado está em quinto lugar.

Essa movimentação, que é de bastidor, chega envelopada em conceitos e tendências de moda às ruas, passarelas e vitrines. Em 2016, movimentou R$ 9,1 bilhões do PIB cearense. É uma indústria capaz de gerar 61.683 empregos, segundo dados de 2015.

O POVO percorre os caminhos dessa cadeia. É uma longa história. Começa ainda no período colonial com a fartura do algodão. Reinventa-se com a queda do plantio da matéria prima que dá origem ao fio, devastada pela seca, para depois se consolidar com tecnologia, criatividade e arte.

Entrar nas empresas durante as reportagens era assumir compromisso com o sigilo sobre marcas de máquinas, fechar um pouco mais a lente da câmera. O parque industrial têxtil tem 320 estabelecimentos e o de confecções reúne cerca de 3 mil indústrias. Concorrência acirrada na qual vence quem aposta em inovação.

Empresários de diferentes pontas desse setor revelam como os segmentos se estruturam para construir uma indústria sólida e em expansão. Reivindicam melhores estruturas logísticas e taxas competitivas para avançar com a produção para além das fronteiras do País. Orgulham-se de tecnologias que qualificam e aceleram a produção. Vendem-se como grandes e poderosos influenciadores.

E, onde parece ser o fim da linha, a costura final, o Ceará explode em energia criativa com o Dragão Fashion Brasil. Se organiza em feira. Multiplica-se em private labels. Investe em educação e qualificação.

Nas páginas a seguir, o Ceará mostra a força da sua indústria têxtil, base econômica da moda. Depois de ler, você certamente não vai olhar pra roupa que está vestindo da mesma maneira.

A trilha do algodão

Por Lucas Mota

Pesquisador da Embrapa, Raimundo Braga Sobrinho, garante que CE pode produzir mais (Foto: AURÉLIO ALVES/ESPECIAL PARA O POVO)

Importante indústria para o desenvolvimento econômico do Ceará, o setor têxtil começou a se desenvolver no Estado impulsionado pela cultura do algodão, ainda no período colonial. A fibra natural brotava em abundância em solo cearense. Foi o primeiro produto de exportação do Estado, considerado o “ouro branco” da lavoura. O salto do algodão na região ocorreu no período da Guerra de Secessão (1861-1865), nos Estados Unidos, quando aumentou a procura pelo produto. A Revolução Industrial (1760-1900) favoreceu ainda mais o consumo do algodão com o crescimento das indústrias têxteis no País e no Estado.

Mas essa história nem sempre esteve em brancas nuvens. Na década de 1980, a praga do bicudo-do-algodoeiro praticamente extinguiu o cultivo de algodão no Ceará. A seca dificultou a retomada. A região passou de produtora para importadora da fibra natural.

No entanto, a indústria têxtil manteve-se firme. O Estado é, atualmente, o 5º lugar no Ranking do Faturamento da Cadeia Têxtil e de Confecção, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção de  2016.

De acordo com o historiador Francisco Pinheiro, o algodão teve uma importante relação para o desenvolvimento de praticamente todas as cidades do sertão do Estado. O professor do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), Frederico Castro, ressalta o papel do algodão no processo de fixação das regiões e da criação de uma rede de comércio, que resultaram também no crescimento de Fortaleza no século XIX. “O algodão se estabelece como principal produto. A produção do Interior vai escoar para Fortaleza. No Interior, a produção se adaptou bem ao semi-árido. Áreas centrais concentraram grandes produtores, convergindo todas as regiões de produção no entorno”, explica Frederico.

Atualmente, o Ceará importa o algodão de estados como Mato Grosso do Sul e Bahia, grandes produtores no País, assim como de outros países como os Estados Unidos, devido ao commodities da mercadoria. O setor têxtil no Estado também tem trabalhado com alternativas à fibra natural, como as fibras sintéticas e artificiais, e desenvolvido novas tecnologias para se manter forte. Nos últimos 10 anos, a cadeia produtiva se tornou mais integrada, com a indústria têxtil cada vez mais interligada à confecção e à moda.

O chefe geral da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Sebastião Barbosa, diz que o desempenho no polo têxtil  cearense pode ser ainda maior. O gestor do órgão acredita que é possível retomar a produção do algodão no Estado, o que geraria uma maior renda e oferta de empregos. “A Embrapa trabalha junto com os órgãos do Estado. Há uma capacidade enorme de mobilização de recursos e de pessoas para desenvolver o algodão no Ceará por gente qualificada. O produto produzido aqui pode ser de melhor qualidade e menor custo do que o importado”, garante Sebastião.

Para o pesquisador, é necessário que os órgãos do Estado e agricultores se organizem. Sebastião explica que a praga do bicudo ainda existe, mas a Embrapa já possui conhecimento para manejar o plantio de forma que seja possível produzir o algodão.

O economista Pedro Jorge Viana explica que uma das vantagens do setor têxtil é de ser instrumento para as indústrias de moda e confecção. “Isso de alguma forma é uma renda inelástica. Se diminuir não quer dizer que as pessoas vão andar sem roupa. Vão ter que comprar, podem até comprar em menor quantidade”, afirma. “Ela (indústria têxtil) também pode diversificar com o tecido de alto valor para a classe rica que não tem crise”, acrescenta.

De acordo com o economista, o Ceará poderia aumentar ainda mais a produtividade, caso reativasse a produção do algodão. “É uma maneira de revitalizar a economia no Estado, nos municípios. Retomar o plantio seria um fator de grande difusão de renda”, finaliza.

Plantio

Produção de algodão no Estado pode baixar custos do setor

A política da Embrapa visa buscar o retorno da fibra natural ao Ceará, dentro de um projeto de modernização da cultura do algodão. Referência nos estudos sobre o bicudo, o pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical, Raimundo Braga Sobrinho, afirma que a introdução de tecnologias ao plantio garante uma nova geração de produtores na região com capacidade para atender a alta demanda da indústria têxtil. “Queremos trazer grandes produtores do Centro-Oeste, da Bahia. O custo lá é alto. Aqui o custo é menor. Temos áreas suficientes para atender a indústria têxtil. Grandes produtores estão interessados em vir para o Ceará”, conta.

A ideia é capacitar e tecnificar os produtores para o plantio no Estado e apresentar as novas tecnologias. “Temos o algodão transgênico de alta tecnologia. Vamos mostrar em unidades demonstrativas. Começamos neste ano em Quixeramobim e Iguatu. A produtividade é muito maior e exige menos mão de obra”, garante.

A Embrapa tem estudado também o melhor período para o plantio. De acordo com Raimundo, há cultivares de algodão de ciclo curto, de 110 dias. “A vantagem é que escapa da seca e do bicudo”. Já com ciclo mais longo, o produtor iria trabalhar com o algodão irrigado entre julho a dezembro. “Se o produtor não for orientado, o bicudo vai acabar com o plantio. É uma praga versátil e de difícil controle. É necessário orientação técnica, capacitando o produtor para conviver com o bicudo em qualquer época do ano”, explica. (Lucas Mota)

SAIBA MAIS

1ª fase
1780>1825 

Conexão com a Revolução Industrial na Inglaterra e o uso dos trabalhadores pobres livres no plantio e na colheita do algodão, marcado pela formação da agricultura familiar.

2ª fase
1850>1876

Período marcado pela baixa incidência de secas no Ceará. Ausência de estiagem ajuda a produção do algodão. A guerra civil americana, conhecida historicamente como Guerra de Secessão, potencializou a produção no Estado, quando a região viveu o auge da relação com o produto. A instabilidade nos Estados Unidos elevou os preços internacionais do algodão, representando grande oportunidade comercial.

3ª fase
FIM DO SÉCULO XIX ATÉ A DÉCADA 1980 NO SÉCULO XX

Marca o surgimento da Indústria Têxtil no Ceará. Fábrica de Tecidos Progresso, de Thomás Pompeu de Souza Brasil e Antônio Pinto Nogueira Accioly, aberta em 1884, inaugura o processo de industrialização no Estado. Década de 1980 registra o declínio da produção do algodão no Ceará, que chega a quase extinção do plantio em solo cearense.

NÚMEROS

Ceará
R$ 3.207

É o valor do algodão por hectare. Custo mais alto obtido em uma das parcelas experimentais com as cultivares de algodão da Embrapa no Estado

R$ 8.910,77 por ha
MATO GROSSO DO SUL

R$ 8.4354,68 por ha
BAHIA
FONTE: EMBRAPA; IMEA; CNA/CEPEA

Tecnologia amplia usos dos tecidos

Por Lucas Mota

William Verçosa, proprietário de marcas de moda esportiva, fala das inúmeras possibilidades da poliamida (FOTO: AURÉLIO ALVES/ESPECIAL PARA O POVO)

Com mais de 100 anos de existência, a indústria têxtil cearense deu passos largos com o avanço da tecnologia, investindo em produtos e processos inovadores. Diante de uma cadeia produtiva integrada em um mercado ecologicamente consciente e concorrido, a inovação se tornou a principal ferramenta competitiva do setor. A modernização injetou no mercado produtos com melhor qualidade, maior controle de produção e menos dependente da importação. Com a queda da produção do algodão em solo cearense, houve o crescimento do uso de fibras sintéticas e artificiais como alternativas à fibra natural.

Conforme empresários do ramo no Estado, a busca por alternativas ao algodão pode ser considerada uma tendência do mercado diante do avanço em tecnologia. A nanotecnologia, umas das principais inovações da indústria têxtil, já é utilizada no polo têxtil do Estado. A tecnologia pode ser aplicada no tingimento de tecidos, processo em que se usa menos água e reduz a poluição; como também aumentar a qualidade de um tecido lhe acrescentando características como antibactericida, antitabaco, antiumidade, antitranspirante e antichamas. No mercado mundial, o grafeno, um cristal de carbono prospecta significantes avanços nos tecidos. O material pode modificar as características de uma peça de roupa, como mudar a cor, dar mais resistência a fibras de algodão ou possibilitar sensores minúsculos de sinais vitais acoplados em camisas. A pesquisa é liderada no Brasil pela Universidade Mackenzie.

O segmento de sportwear foi um dos que mais se apropriou das opções tecnológicas. As inovações podem ser benéficas tanto para atletas de alta performance, como para uma pessoa comum que faz exercícios físicos. Frequentador assíduo de feiras do setor têxtil, o empresário William Verçosa é proprietário de marcas do segmento esportivo: Corpo Malhado e Tuffo.  Segundo William, uma das fibras principais utilizadas em suas peças é a poliamida, sintética.

“Não absorve calor, está sempre geladinha e é antialérgica. Com ela (poliamida), consegue-se fazer tecidos mais delicados com visual do algodão, em toque de papel, com bioelasticidade e sem costura”, comenta ele.

O empresário explica que a poliamida possui elementos que dão uma maior durabilidade à peça, diferente do algodão. “A fibra natural perde a cor, fica fubá. A durabilidade é menor. A poliamida tem resistência à luminosidade, desgasta menos que o algodão”, afirma. William cita que já existem tecidos sintéticos com capacidade até para tratamento para a pele. “A poliamida com cápsulas com bioativos que, em contato com a pele, são ativados e melhoram a circulação periférica. A mulher usando (o tecido) quatro horas por dia, destrói a celulite”.

Gerente de produto da Jangadeiro Têxtil, Ieda Baquit, conta que a empresa tem trabalhado bastante com estamparia digital. A Jangadeiro utiliza a tecnologia para estampar tecidos sintéticos e artificiais como poliéster e viscose, enquanto no algodão o seu uso está em teste. “O mercado está mais exigente, trabalha com rapidez e exclusividade. A estamparia digital abre a possibilidade de se fazer grandes tiragens e exclusivar o desenho. Quando trabalho com estamparia rotativa, impossibilita a exclusividade. A digital consegue trabalhar com volume de 200 metros. Tudo é tecnologia de qualidade”, garante.

De acordo com Ieda, o mercado tem exigido rapidez e inovação para atender uma demanda com necessidades que mudam em um curto espaço de tempo. “A estamparia digital é um processo de ponta, ganha tempo, é rápida. Além da qualidade, tem um retrato real, com traços mais ricos”, acrescenta.

SAIBA MAIS
tipos de fibra

Naturais: algodão e linho
Sintéticas: poliéster, poliamida, acrílico e polipropileno (essas duas últimas ainda não são produzidas no CE)
Artificiais: viscose

RAPIDEZ E BAIXO CUSTO
Tingimento inteligente no setor

A Filati Malhas, empresa do Grupo Têxtil Bezerra de Menezes, conta com tecnologias implantadas em todos os processos que envolvem o produto, desde o controle de produção até o acompanhamento de pedido. Gerente Comercial da marca, Sheila Vale explica que é necessário buscar um “diferencial”. É neste contexto que a inovação entra com força. O diferente citado por Sheila pode ser encontrado a partir de um tingimento inteligente de uma peça.

O processo é feito sem intervenção manual, de forma automática. “É uma cozinha de cores toda inteligente, automatizada, um software com todas as receitas de cores. Tudo é medido. A máquina sozinha coloca a quantidade exata, pesa numa balança automática e vai fazendo a mistura e leva direto para máquina de tingir”, explica.

Segundo a gerente comercial da empresa, o trabalho manual não consegue obter a mesma precisão do maquinário tecnológico. “Quando a pessoa faz, corre o risco de erro, aumento de custo e ainda acaba não tendo um produto de qualidade, sem padrão. O desperdício é maior”, garante ela.

Diante do cenário de importação do algodão no Ceará, Sheila reforça a ideia de tendência no mercado pela busca por fibras alternativas, eliminando a dependência maior do processo de importar. “Cada vez mais o mercado pede um produto diferente, principalmente um que mexe muito com cores. A vantagem em relação ao importado é que qualquer produto que se importa demora cerca de 90 dias. Tenho a velocidade que o mercado de moda precisa o tempo todo. A entrega é mais rápida (com a fibra sintética). Consigo lançar com mais velocidade e a demanda é grande. Quem faz só o básico, trabalhando com uma camiseta 100% algodão, é o tipo de empresa que mais sofre. É preciso sempre agregar valor”, afirma. (Lucas Mota)

FRASE

“A POLIAMIDA COM CÁPSULAS COM BIOATIVOS, EM CONTATO COM A PELE, MELHORAM A CIRCULAÇÃO PERIFÉRICA. A MULHER USANDO (O TECIDO) QUATRO HORAS POR DIA, DESTRÓI A CELULITE”. WILLIAM VERÇOSA - EMPRESÁRIO DO SETOR

A força da indústria têxtil

Por Lucas Mota

Kelly Whitehurst, presidente do Sinditëxtil, diz que momento atual é positivo (FOTO: JULIO CAESAR)

Com transformações ao longo dos anos, a indústria têxtil no Ceará se estabeleceu na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), principalmente em Maracanaú, município distante apenas 24,6 km da Capital cearense, além de cidades do Interior, como Jaguaruana e Sobral. O parque industrial têxtil é formado por 320 estabelecimentos, enquanto a confecção possui cerca de 3 mil indústrias, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) 2015. O polo se mantém relevante, está entre os cinco maiores da cadeia têxtil e de confecção do País, obtendo um share de 7%.

 A presidente do Sindicato da Indústria de Fiação e Tecelagem em Geral no Ceará (Sinditêxtil), Kelly Whitehurst, avalia como positivo o atual momento da indústria. “Nós nos posicionamos de uma maneira interessante porque há grandes indústrias aqui. Somos o 5º do ranking nacional, mas ao mesmo tempo somos o 1º na América Latina como é o caso do bojo, indústrias de fiação, índigo. Temos um parque industrial bem tecnológico, adequado para o mercado internacional. Diante dessa competitividade tecnológica de inovação, temos buscado o diferencial”, analisa Kelly.

 O setor tem um Produto Interno Bruto (PIB) representativo de R$ 9,1 bilhões no Estado. O polo têxtil no Ceará é responsável por 13.447 empregos. Junto à confecção, o número sobe para 61.683, conforme a Rais de 2015, representando 18% da geração de empregos de todo o parque industrial do Estado.

As inovações colocaram o setor em um novo patamar: a “indústria 4.0” (tendência real de se aplicar inteligência na produção industrial em diversos segmentos). “O futuro da indústria têxtil é pautado em tendências de desenvolvimento dessa indústria e do mercado em geral. É nossa prioridade conhecer novos métodos de industrialização, de adequação das indústrias, de seus maquinários, da capacitação de pessoas. Mas não é só isso, há também o lado mais humano e sustentável que é uma tendência muito real e forte do nosso setor”, projeta Kelly.

O presidente do Sindiconfecções, Marcus Vinicius Rocha, avalia que o setor sofreu com o fechamento de empresas e perdeu mais de 15 mil postos de trabalho após três anos de recessão, mas que neste ano vem se recuperando. Segundo Marcus Vinicius, o setor reivindica junto ao Governo a redução da carga tributária. A medida quer melhorar a produtividade no Estado. “Estamos há mais de cinco anos esperando. Nos colocaria em iguais condições de competitividade com outros Estados e daria novamente condições de vender no mercado nacional com possibilidade de exportar”, conta.

O empresário Fernando Trajano, proprietário da marca Turma da Malha, acredita que as empresas estão atentas à recuperação e esperando o melhor momento para a retomada de investimento em busca de aumentar a produtividade. “Com o fim da recessão, esperamos que o apoio de crédito possa voltar para incentivar nossas empresas micro e pequenas”, ressalta.

NÚMERO
9,1 bilhões
é a quantia em real equivalente ao setor têxtil no PIB do CE

MÃO DE OBRA
Ensino e capacitação

Com o avanço da tecnologia na indústria têxtil, a capacitação de profissionais habilitados para atuarem no setor se tornou ainda mais fundamental. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), considerado uma das maiores escolas de capacitação da América Latina, possui cursos na área têxtil e vestuário, preparando turmas tanto dentro da sua unidade na Parangaba, quanto nas indústrias. Para ampliar o atendimento, o Ceará recebe a partir do próximo ano o Centro de Tecnologia da Cadeia Têxtil, que teve investimento de R$ 8 milhões, uma parceria entre o Senai Ceará e o Senai Cetiqt (RJ).

O centro tecnológico será o único do Norte/Nordeste. Atualmente, apenas São Paulo e Rio de Janeiro possuem estruturas semelhantes. Segundo o coordenador administrativo financeiro do Senai, Dennes Landim, a escola tem papel relevante na capacitação do polo e no atendimento da demanda da indústria.“Estamos prontos para que a indústria cearense, assim como a do Norte e Nordeste, estejam capacitadas para produzir com qualidade”, afirma.
Além da capacitação técnica, o Ceará também tem destaque no Ensino Superior de Moda. No Estado, são sete graduações em moda.

O curso de Design de Moda da Universidade Federal do Ceará (UFC), por exemplo,  foi eleito em 2016 como o segundo melhor do País, de acordo com o Ranking Universitário da Folha (RUF). (Lucas Mota)

SAIBA MAIS
ENSINO DE MODA NO CEARÁ
DESIGN DE MODA

UFC
Unifor
Faculdade Farias Brito
Faculdade Ateneu
Estácio FIC
Fanor|Devry
Cisne Faculdade de Quixadá

MBA EM GESTÃO E NEGÓCIOS
DE MODA (FASHION BUSINESS)

Unifor

4ª Revolução Industrial

Por Beatriz Cavalcante

Vicunha Têxtil tem duas fábricas no Ceará e investe em pesquisa e desenvolvimento para atender aos desejos do mercado da moda (FOTO: JULIO CAESAR)

Existe potencial. O modelo do mercado têxtil e de confecção do País, o que inclui Ceará - 5º no polo de confecção do Brasil - ainda trabalha, em sua maioria, com produtos de alto volume e de baixo valor agregado. Pequenas empresas dominam ante as de médio e grande porte – muitas originadas e baseadas em famílias. No cenário atual de crise econômica muitos fecharam, mas a indústria da moda ainda tem o que crescer. É tempo de planejar e começar a costurar seu futuro.

O que o estudo “A quarta Revolução Industrial do setor têxtil e de confecção: a visão de futuro para 2030”, divulgado em 2016 pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), mostra é que anos à frente o setor deverá ser apoiado pela internet das coisas, no desenvolvimento de sensores, tendo o big data como negócio estratégico na integração total das fábricas. A otimização de consumo de água e energia será quase que obrigatória, além de limitação de emissão de poluentes. “Fábricas que não poluem podem voltar às cidades, aproximando-se de nichos consumidores”, prospecta a pesquisa.

Para o autor da pesquisa, Flavio da Silveira Bruno, tradicionalmente identificada como de baixa intensidade tecnológica, a indústria têxtil e de confecção poderá dar um salto qualitativo em direção às categorias de maior emprego de ciência e tecnologia no futuro. “Minifábricas automatizadas, modulares, móveis e sustentáveis serão acopladas a sistemas de virtualização da criação e da produção, promovendo profunda reconfiguração da estrutura industrial”.

Nesta visão de futuro, relatório da consultoria Mckinsey  (2016) mostra que 1,8 bilhão de pessoas entrarão no mercado de consumo até meados de 2022, atingindo US$ 64 trilhões. “Será cada vez mais necessário que a manufatura explore tendências de personalização nas quais o consumidor atue como fornecedor, designer e vendedor, não somente um simples comprador. Além de novas competências do trabalhador, novas áreas de oportunidades e de riscos também exigirão um novo perfil empresarial”, complementa Flavio.

Desenvolver
Apesar das tradições de indústria ainda arcaica, no Ceará, há empresas que prezam pelo valor percebido do produto, o que direciona holofotes da cadeia têxtil para o Estado. Pedro Dupláa Soares Ferreira, empresário internacional e coach integral sistêmico, frisa que para melhores resultados no setor, é necessário união da cadeia têxtil. “Sem dúvida o grande potencial de evolução do mercado de moda e confecção, não só em Fortaleza e Nordeste é o design e a inteligência de mercado, que hoje, conta com a inteligência artificial”.

Para ele, é muito perigoso não compreender que o design (estilo, modelagem, desenho de Superfície e cor) é o grande concentrador de valor de todo produto que inclui imagens. “A indústria de moda deve descontinuar o pensamento de que estilo é somente trabalho de estilista. O estilo está compreendido na grande estrutura do design. E tudo é design, incluindo inteligência de Mercado e tecnologia”, afirma.

A criatividade é o motor da indústria da moda. “Não se pode economizar em inteligência criativa porque não há futuro sem ela”, diz Pedro. Por isso que o especialista frisa que falta desenvolver no Estado um polo criativo de desenho de superfície que gere design de moda autoral. “Falta uma base de inteligência artificial para servir a pesquisa e ao mercado”.

NÚMERO
R$ 8 MILHÕES

é o investimento total do Centro de Tecnologia da Cadeia Têxtil, que será instalado no Ceará em 2018 pelo Senai Ceará em parceria com o Senai Certiqt no RJ, sendo o primeiro de Norte e Nordeste.

SETOR QUE EXPORTA
Os desafios de chegar ao mercado exterior

Na indústria da moda, as commodities são mais exportadas. Para garantir a competitividade do mercado brasileiro lá fora, ainda é necessário superar a taxação dos países sobre nossos produtos. Uma solução seria a formatação de acordos bilaterais ou de blocos para permitir o livre comércio entre nações. Sem impostos, o País conseguiria competir em preço e ganha na qualidade frente aos maiores concorrentes no mercado da exportação: os chineses.

Nas exportações cearenses, no acumulado do ano até julho de 2017, calçados, polainas e artefatos semelhantes ficam em segundo lugar, com valor de vendas para o Exterior de US$ 160,677 milhões. Já Algodão, fios e tecidos de algodão ficam em 9º no ranking de exportações, com o valor de US$ 18,673 milhões, aparecendo em 7º nas importações, com US$ 43,906 milhões em compras de janeiro a julho de 2017. Os dados são da pesquisa Ceará em Comex, edição de agosto, divulgada pelo Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado (Fiec).

Concorrência
Com produção de mais de cinco milhões de pares de bojos para moda íntima, fitness e beachwear, a unidade de Maracanaú da Delfa emprega 870 funcionários e exporta cerca de 10% do faturamento. Os principais mercados estão concentrados na América Latina.

Marina Barreira de Alvarenga, gerente de exportação na Delfa, destaca o impacto da concorrência. “Para importar, o Brasil é protegido. Taxa os produtos chineses. Mas para exportar, como para o México, com o qual temos relacionamento, somos taxados lá, enquanto não há imposto ao produto chinês. Meu produto fica até 30% mais caro”, diz.

A estratégia da marca é se tornar atuante. Comparecem a feiras, visitam e agendam clientes em viagens. “Temos tido gradativo sucesso”, diz Marina. Segundo ela, o Governo Federal deveria buscar acordos bilaterais ou com blocos para diminuir a distância do preço brasileiro com produtos asiáticos.

Mesmo sem taxação no comércio com outros países, o produto da Delfa ainda seria mais caro. “Mas ficaríamos em vantagem competitiva, porque a gente tem muito mais qualidade”. Hoje um cliente no México importa cerca de 30% da Delfa e o restante da Ásia.

Outro agravante é a logística. Com produto leve e que ocupa muito espaço e um Porto do Pecém ainda em expansão, os valores logísticos não se tornam competitivos. “O frete ainda inviabiliza muito algumas operações. Até porque, o cliente começa com pedidos pequenos para conhecer”. (Beatriz Cavalcante)

Produção em alta

Por Lucas Mota

Foto: FÁBIO LIMA
Moda íntima coloca o Ceará no mapa de autoridade a nível nacional

Os setores industriais têxteis e de confecções estão entre os responsáveis pela alta apresentada na produção industrial cearense. A Pesquisa Industrial Mensal Produção Física Regional mostra evolução desta camada da indústria em análise comparativa do primeiro semestre deste ano com o mesmo período dos últimos três anos, quando houve registro de quedas sucessivas. Os dados foram divulgados no início deste mês de agosto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Com sinais de recuperação, a produção industrial geral no Ceará cresceu 4,3% em junho deste ano, na comparação com junho de 2016, apresentando o segundo maior crescimento, na comparação anual, entre os 14 estados pesquisados. Segundo o levantamento, ocorreram resultados positivos em cinco setores que, no Ceará, têm uma geração expressiva de empregos, que são os setores de metalurgia, têxtil, de calçados, vestuário e alimentício.

Conforme o secretário do Desenvolvimento Econômico do Estado do Ceará, Cesar Ribeiro, os setores têxtil, vestuário e acessórios e de calçados são importantes indutor de desenvolvimento econômico e social do Estado, uma vez que, juntos, representam cerca de 50% dos empregos na indústria da transformação em 2015. "No que refere-se ao setor de produtos têxteis, o Estado do Ceará é o 5º maior do País em mercado de trabalho. Esses postos de trabalho estão distribuídos em 8 das 14 macrorregiões cearenses, o que significa geração de renda distribuída de forma descentralizada em todo o território e também o quanto o setor é importante para a economia cearense", comentou Cesar.

Somente a fabricação de produtos têxteis apresentou alta de 15,4% em junho deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Já a confecção de artigos do vestuário e acessórios também fechou com alta de 7,9%. (LM)

SAIBA MAIS

Principais produções no Ceará

Destacam-se beachwear - biquínis, maiôs, camisetas e bermudas com base no surfwear masculino e feminino, além de moda íntima


1 A MODA ÍNTIMA E BEACHWEAR - estão em crescente e colocando o Ceará no mapa de autoridade a nível nacional nos seguintes ramos, com grande fluxo de exportação.

2 MODA POPULAR -
A estratégia de produzir com o mínimo fecha muitas portas. A estrutura física dos produtos é pobre e o desenho de superfície, que poderia estabelecer valor, tem mínima valorização. O principal e quase único recurso de geração de valor por meio do desenho de superfície deste grupo de empresas populares e de médio porte é a modelagem e a estamparia de transfer de sublimação e bases de poliéster. O transfer de sublimação é um recurso, flexível, eficiente e proporcional a baixos investimentos. No entanto, não só em Fortaleza, o desenho e a estampa inseridos na peça por obrigação, pelo mínimo preço, por falta de opção estética e insuficiência técnica e criativa mata as possibilidades de valorização do produto final e do negócio.

3 MODA FEMININA, MASCULINA ADULTA E INFANTIL – vestidos (cerca de 45% da produção, tops e bottons (25% da produção), camisas esportivas e camisetas masculinas que são fabricados por empresas reconhecidas do Estado do Ceará. Há uma preocupação mais evidente com a estrutura, modelagens e desenho de superfície incluindo estamparia. Há um pequeno número de indústrias bem posicionadas nos itens de valor do produto de hoje - Design, que inclui a modelagem, cores e estamparia (80 a 90% do valor do produto de moda) estrutura e outros (20 a 10%).

4 FORTALEZA CONTA COM UMA GRANDE ESTAMPARIA DIGITAL DIRETO EM TECIDOS CELULÓSICOS E DE POLIÉSTER - a Jangadeiro Têxtil é uma empresa destacada no cenário nacional, tanto em infraestrutura quanto em pessoal de apoio à criação. A indústria local de produtos de maior valor e inteligência já aceita esta contribuição, o que é importante para a valorização presente e futura do produto de moda do Nordeste, via desenho de superfície.

FONTE: Estudo “A quarta Revolução Industrial do setor têxtil e de confecção: a visão de futuro para 2030” (Abit, 2016)

DICIONÁRIO

BIG DATA -  o termo se refere ao grande conjunto de dados armazenados.

INTERNET DAS COISAS - refere-se ao objetivo de conectar tudo que fazemos no dia a dia com a internet. Considera-se como revolução tecnológica.

Na mira do pódio nacional

Por Beatriz Cavalcante

Temos sangue de confeccionista e de artista na veia, diz Cláudio Silveira, criador do Dragão Fashion Brasil (FOTO: FÁBIO LIMA)

Um dos principais polos do País da cadeia têxtil (fibras e filamentos, têxtil e confecção), o Ceará quer sair de quinto colocado e voltar ao pódio nacional, entre os três primeiros. Para isso investe em eventos, feiras e tem o suporte da academia, com cursos superiores e técnicos na área da moda.

Os segmentos de maior destaque no Estado são moda íntima, índigo, fiação e bojo. Dados do Sindicato da Indústria Têxtil do Estado do Ceará (Sinditêxtil) apontam como os primeiros do Brasil. Para alavancar a cadeia como um todo, Kelly Whitehurst, presidente da entidade, diz que quer atrair os olhares dos negociantes e compradores de moda para o mercado cearense.

“O Dragão Fashion Brasil (DFB) hoje é uma iniciativa consolidada para promover a moda, por exemplo”, diz. Dentre outras realizações de fortalecimento há o Ceará Moda Contemporânea, que promove ações como concurso de talentos em costura, modelagem e design, no DFB. Além de programa especial do Sebrae, com mais de 400 horas de consultorias e treinamentos, para qualificar micro e pequenas empresas cearenses do setor.

Mas para atrair negócios de atacado a aposta é na Ceará Fashion Trade. Em sua segunda edição neste ano, no Centro de Eventos do Ceará (CEC), a feira reuniu 2.263 participantes entre os dias 16 e 18 de agosto, vindos de 23 estados brasileiros e três países. Os 80 expositores representaram 65 empresas do setor.

Roberta Cavalcante, diretora da Ceará Fashion Trade - Ikone Eventos, diz que os dados consolidados da feira mostram que o volume de negócios gerados foi de R$ 2,975 milhões, com prospecção para negociações que venham ser fechadas de R$ 4,55 milhões. “Consolidou-se como um vetor importantíssimo na geração de novas oportunidades de negócios, alavancando vendas, abrindo novos canais, posicionando marcas e estimulando a realização de parcerias criativas para todos os elos da cadeia produtiva da moda”, diz.

Cláudio Silveira, diretor do DFB, diz que a moda autoral do Ceará, ao contrário da comercial, tem sua identidade cultural influenciada nas artesanias, mas ainda passa por desafios para chegar à confecção. “Há 18 anos com o DFB e a gente vem buscando essa identidade. Temos sim exemplos de estilistas na confecção que fazem com que essa indústria seja vista de outra forma. Mas ainda há muitas empresas que não atendem ao chamado do estilista”, desabafa. (BC)

SAIBA MAIS

A Vicunha Têxtil vai discutir o primeiro grande projeto de reúso de água industrial do Brasil para economizar 70%. Fora a siderúrgica, o setor chega a ser o terceiro maior consumidor de água da indústria.

Insumos utilizados pela Vicunha são basicamente algodão. Compram principalmente da Bahia e Mato Grosso na época da colheita brasileira. Partem para os EUA fora do período.

Hoje a crise logística aumenta o custo de transporte no Brasil. Trazer algodão do Centro-Oeste para o Nordeste custa cerca de US$ 100 por tonelada para a empresa. Dos Estados Unidos para o Porto do Pecém, em São Gonçalo do Amarante, custa em torno de US$ 70/tonelada.

A maioria das matérias-primas  da Nayane Rodrigues são produzidas aqui no Ceará. Bojo é Delfa. Outros fornecedores são Zanotti Elásticos (Pacatuba), Estrela Aviamentos (Maracanaú) e Passamanaria do Nordeste (Fortaleza, com a Stik Elásticos). De forro de algodão tem a Filati. O que falta ao Ceará é uma grande fábrica de tecido.

A Nayane Rodrigues Lingerie nasceu em um quarto, em Iguatu, e hoje está em Caucaia, produzindo 15 mil peças/dia, conta Rodrigo Lima, diretor de marca da Nayane Rodrigues Lingerie (FOTO: FÁBIO LIMA)

VICUNHA TÊXTIL
Cases da moda

Líder mundial na produção de índigo e brim, a Vicunha Têxtil, com duas fábricas no Ceará, investe em pesquisa e desenvolvimento para atender às demandas do mercado da moda. Fio de ouro no tecido, jeans que esticam até não poder mais, o conforto em forma de roupa são algumas das demandas dos estilistas e designers à indústria têxtil.

Apesar de vender para a confecção, as empresas têm de entender o que o consumidor final vai querer. A Vicunha se garante que já pensa no que as pessoas vão vestir daqui a um ano.
Se um investidor quer abrir uma confecção, mas não entende nada de calça, a Vicunha faz papel de consultor . “Eu vou perguntar que mercado é teu sonho, faixa de preço, onde quer vender. Estamos seguindo moda e fazendo moda. No jeans, temos mais de 200 bases de tecido”, diz Marcel Imaizumi, diretor de Operações da Vicunha Têxtil. Com 27% do market share brasileiro pertencente à Vicunha, em termos do índigo no Brasil – o equivalente a cerca de 100 milhões de calças jeans ao ano, - os outros 72% de participação de mercado são de empresas em solo brasileiro.

Charme cearense
Uma indústria de confecção que nasceu em um quarto, em 2000, no município de Iguatu, e que hoje cresce 40% ao ano – assim foi em 2016 e se espera para 2017. Hoje a Nayane Rodrigues Lingerie está localizada em Caucaia e produz cerca de 15 mil peças/dia. A demanda é tão grande que a empresa teria que no mínimo triplicar sua produção para atender à procura. Mas como todo crescimento tem de ser sustentável, ainda planeja a expansão. “ A gente trabalha bem seis estados do Nordeste. Mas São Paulo, Sul e Sudeste são os principais mercados. Norte quase não trabalhamos ainda. Centro-Oeste aumentou a procura agora com nossas campanhas com Marília Mendonça e Wanessa Camargo do sertanejo. Temos showroom no Maraponga Mart Moda. Hoje temos 1,5 mil clientes no Brasil e em alguns países do Mercosul, como Bolívia, Uruguai e Paraguai. Para chegar ao Mercosul vamos de estrada”, conta Rodrigo Lima, diretor de marca da Nayane Rodrigues Lingerie. (Beatriz Cavalcante)

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