ESPORTE PARA SAIR DE CASA

ESPORTE | Prática esportiva tem papel de protagonista na inclusão e ressocialização de pessoas com deficiência. Especialistas analisam benefícios

Por Lucas Mota

O esporte é forte aliado na reabilitação e inclusão social para pessoas com deficiência física e/ou sensorial (PCD). Os benefícios para este grupo vai além da saúde. Fazer parte da sociedade e se sentir aceito são aspectos importantes que a prática esportiva impulsiona para quem vive a realidade da deficiência, seja congênita ou adquirida.

O desporto tem a capacidade não só de tirar do enclausuramento residencial e do abalo emocional que a deficiência por vezes causa. As modalidades esportivas trazem avanços significativos nos âmbitos particular e familiar. Referência em paradesporto, o educador físico Vicente Cristino ressalta o papel da prática esportiva na reabilitação.

"O principal trunfo é sair de casa. Mostrar o que ela (PCD) pode resgatar é bem superior ao que ela imagina. Isso acontece dentro desses processos de ressocialização", afirma o professor de Educação Física e especialista em atividade motora adaptada.

O trabalho inicial é detectar o tipo de deficiência, saber as preferências do aluno e apontar qual a modalidade mais indicada. Segundo Vicente, é fundamental avaliação médica antes de qualquer contato inicial com a atividade. "Por exemplo, uma pessoa com deficiência intelectual ou traumatismo crânio-encefálico pode ter convulsão. Então, se avalia antes", salienta.

Técnico de basquete em cadeira de rodas e vice-presidente da Associação D'eficiência Superando Limites (Adesul), Lídio Andrade conta que o contato com o esporte motiva, ressignifica e reorganiza a vivência diária do praticante. "Tenho atleta que nem saía de casa e falava que a vida tinha acabado. Depois de praticar o esporte, adaptou o carro e roda por toda Fortaleza", comemora.

De acordo com Lídio, a rotina de treinos ajuda a iniciar ou retomar uma vida profissional. O ambiente familiar é outro a sentir os efeitos da ressocialização. "Eles têm problemas de autoestima. No esporte, acabam extravasando e veem que têm mais condições de chegarem mais longe, voltarem ao mercado de trabalho. Na família também, muitos têm filhos, e a vida continua".

Apesar dos benefícios claros, o professor Vicente faz ressalvas sobre o esporte paralímpico. Entraves como o preconceito e a falta de apoio ainda estão presentes no cenário esportivo para PCDs. "Ainda existe discriminação na sociedade e falta acessibilidade para se deslocarem ao local de treino", diz o especialista.

Para Vicente, Fortaleza ainda possui poucos espaços voltados para trabalhar com deficientes desde a base. "Os colégios precisam incluir práticas esportivas nas aulas de educação física para alunos com deficiência. Muitas vezes são dispensados. Não podem ser dispensados, têm que praticar."

DEMOLINDO PRECONCEITO

GEOVANE | Ele descobriu as artes marciais após ficar cego. Com o esporte, encontrou e desbravou novos horizontes e hoje integra a seleção cearense de judô

Por Lucas Mota
Foto: Julio Caesar / O POVO
Luiz Geovane começou pelo muay thai

"Você vai ficar cego". O diagnóstico sem rodeios foi dito pelo oftalmologista para Luiz Geovane, então com 17 anos.  

"Achei graça. Me abalei um pouco. O doutor não me enganou. Perguntou se eu trabalhava. Eu era artesão e jardineiro, podava árvores", lembra, sobre a consulta que há 13 anos mudou sua vida.

Os trabalhos foram deixados. Mas surgiram novas paixões. Filho de primos de primeiro grau, Geovane nasceu com cegueira congênita, assim como uma das irmãs. A deficiência avançou de forma gradativa até o hoje massoterapeuta ficar sem a visão.

O esporte o ajudou a se reinventar à nova realidade. Antes atleta de "futebol de fim de semana" na vizinhança, Geovane, agora cego, foi buscar no esporte o apoio necessário para se inserir na sociedade. A única certeza era a mudança. "Minha mãe me apoiou. Dona Socorro pegou minha mão e disse que iria começar uma nova vida. E ela estava certa."

Geovane procurou uma academia no bairro onde morava, o Conjunto Palmeiras, e começou a praticar muay thai. Com pouco tempo, estava trocando socos com adversário com 100% da visão. Desde então, ficou conhecido como "Demolidor" — em referência ao super-herói cego da Marvel.

“Me abraçaram no muay thai. Deu uma doida e participei do Cearense com o pessoal que enxerga. O professor me adaptou bem para a luta. Eu já sabia a sequência que meu adversário faria e sabia onde ele estava. A luta demorou só 40 segundos. Consegui ganhar dele com um nocaute técnico", conta.

Apesar do sucesso repentino na arte marcial tailandesa, foi vestido no quimono onde ele se sentiu em casa. O judô surgiu na vida de Geovane em 2015. De lá pra cá, colecionou medalhas e vitórias contra adversários cegos e não cegos.

A modalidade se tornou paixão. Depois dos braços da esposa e dos dois filhos, o tatame é o local onde Geovane fica mais à vontade.

"O esporte me ajudou e me incentiva muito. Têm pessoas que desacreditam mesmo sem deficiência. Não tem preço. Tem uma importância muito grande para cada atleta, principalmente, o paralímpico", se declara.

Do judô, Geovane passou a ser multiatleta. Treina — e é destaque — ainda do jiu-jitsu e atletismo. 

A falta de patrocínio ainda é um entrave. O judoca precisa investe em rifas e bingos para custear as viagens para as competições em outros estados.

Outro obstáculo é o preconceito. "Em 2015, na Copa Fortaleza, o cara (adversário) falou que judô não era esporte pra cego. Em menos de 15 segundos, dei um ippon (golpe que encerra a luta) e venci. Ele me respeitou e mudou de opinião. 'Esporte é para todos', me disse após a derrota. Levantei a mão dele pra cima como se tivesse vencido por conta do preconceito quebrado."

Luiz Geovane é atleta da seleção cearense de judô e coleciona conquistas na modalidade, como o título do Norte-Nordeste e a Copa Ceará e o 5º lugar no Brasileiro, no Rio de Janeiro.

Desafio e prazer

O trabalho desenvolvido com pessoal com deficiência (PCDs) no esporte é via de mão dupla. O praticante recebe os benefícios desde fatores fisiológicos à ressocialização. Os personagens paralelos envolvidos, como professores, companheiros de treino, amigos e familiares, também são impactados.

Professor de judô de Geovane, o faixa-preta Cláudio Roberto, da equipe Clube Sol Nascente, explica o desafio e o prazer de participar do desenvolvimento do aluno. Ele conta que é necessário fazer adaptações nas atividades para deixar o esporte acessível ao praticante cego.

"É um desafio prazeroso ver o empenho diário e a dedicação aos treinos. Dificilmente ele falta um treino", comenta.

O sensei avalia o esporte como fundamental para a vivência externa do paratleta. "Além da parte fisiológica, a questão de você se sentir bem, não só fisicamente, mas socialmente. O judô socializa, tem uma filosofia de todos participarem de forma inclusiva e conjunta", salienta.

Para Cláudio Roberto, a era digital tem facilitado a busca de conhecimento para se trabalhar com o público PCD. "Abriram muitos cursos. A internet ajuda muito, o ambiente online, com cursos sobre como atuar com o deficiente visual, de como atender a esse público. Cabe ao profissional estudar, pesquisar e fazer as adaptações nas aulas. O mundo virtual está aí para ajudar nesse sentido", afirma.

Analista de sistemas, Elton Simões treina judô há dois anos. Nos últimos 12 meses, passou a conviver com Geovane. Os laços criados resultaram em efeitos positivos no judoca, que não possui qualquer tipo de deficiência.

"É revigorante. Pra mim em especial, devido à deficiência dele, e muitas vezes, tem pessoas que não possuem deficiência, e colocam obstáculos para qualquer coisa na vida. Me motivei ainda mais para fazer o esporte, estar envolvido em algum projeto e ler mais sobre o assunto", diz Elton.

VIDA PELO ESPORTE

Santiago Aprígio é um exemplo de amor ao esporte. Deficiente físico, ele chegou a viver rotina nômade de morar em duas cidades para manter os treinos

Por Lucas Mota
Foto: Alex Gomes / O POVO
Santiago treina quatro vezes por semana, em duas modalidades

A paixão pelo esporte direcionou as escolhas de vida de Santiago Aprígio, 19. O sonho de se tornar atleta paralímpico o motivou a mudar de cidade, a sair do conforto da casa dos pais e foi combustível até para vivenciar um grande amor. Para manter os treinos, o jovem chegou morar um mês em Fortaleza, outro em Cascavel — distante 64,3 km da Capital.

Santiago nasceu com mielomeningocele — malformação congênita que afeta ossos da coluna e medula espinhal. Na infância, em Cascavel, costuma jogar futebol com os amigos e, mesmo na cadeira de rodas, fechava o gol. Para ele, o apoio dos colegas e da escola foi fundamental no processo de inclusão.

"Hoje, eu sou muito feliz pela minha deficiência", afirma.

Houve, entretanto, períodos de dúvida. Assistir ao futebol pela TV ou ver amigos correndo atrás da bola sem qualquer limitação física doía. "Antes, quando era pequeno, ficava muito triste, mas ao longo do tempo fui crescendo e entendendo", explica.

No processo de entendimento e de conhecimento da deficiência, Santiago percebeu que a paralisia dos membros inferiores não o impedia de buscar o sonho. Com consultas anuais no Hospital Sarah Kubitschek, referência no atendimento de reabilitação, o jovem descobriu os esportes adaptados.

Depois daí, a decisão já estava tomada. "Foi um amigo meu do Sarah (hospital), que treinava no Cepid (Centro de Profissionalização Inclusiva para a Pessoa com Deficiência) e me chamou. Então pensei: 'Vou só terminar meus estudos'. Quando terminei, falei com ele, perguntei como tinha feito, me informei e comecei, conta.

Após concluir o ensino médio, em 2018, tudo foi rápido. Para treinar, ele precisaria morar em Fortaleza. No início deste ano, combinou com a namorada, — hoje noiva dele —, que ficaria um mês na casa dela para participar dos treinamentos. No seguinte, retornaria a Cascavel e levaria essa rotina para lutar pelo sonho.

A mãe de Santiago foi contra no começo. "Pra mim, não foi muito bom porque sempre vivi com meus pais. Mas eu queria muito e tinha que fazer alguma coisa."

Hoje, Santiago mora em Fortaleza com a noiva. Treina quatro vezes por semana. Dedica-se a duas modalidades: o basquete em cadeira de rodas e o tênis de mesa. A meta para este ano é conquistar uma medalha e conseguir uma bolsa de paratleta.

"O esporte me ajudou na inclusão. Hoje, não me sinto excluído. Pelo contrário, me sinto muito bem como qualquer pessoa. E me motiva cada vez mais", diz.

A rotina de treinos é árdua. E começa antes mesmo de entrar em quadra. Morando no bairro Presidente Vargas, Santiago precisa de cerca de duas horas para chegar aos treinamentos, passando por dois terminais e pegando três ônibus. Mas no final vale a pena.

"O esporte é muito bom pra mim. Vou pegando resistência e tenho contato com outros cadeirantes. Conversamos bastante, e isso me deixa ainda mais feliz. Agora, eu posso praticar o esporte com outros cadeirantes. O lugar do cadeirante não é só na arquibancada (assistindo), mas ele também pode praticar", sintetiza.

 

COMEÇANDO NO ESPORTE

ONDE PRATICAR | Espaços em Fortaleza e Região Metropolitana oferecem condições para a prática esportiva para pessoas com deficiência. Associações se destacam na condução de treinos

Por Lucas Mota
Mundial de Paranatação de Londres 2019 - Ruiter Gonçalves

Prática esportiva e capacitação profissional. Dois pontos essenciais nos desafios de reabilitação e inclusão de uma pessoa com deficiência (PCD). Em Fortaleza, o Centro de Profissionalização Inclusiva para Pessoas com Deficiência (Cepid), localizado na Barra do Ceará, trabalha tanto com esporte, em diversas modalidades, quanto qualifica para o mercado de trabalho.

Inaugurado em 2014, o Centro de 4.988 m² tem capacidade de atender cerca de 1.200 pessoas e oferta cursos nas áreas de comércio e serviços administrativos, confecção e moda inclusiva, Libras (Língua Brasileira de Sinais), formação de audioescritores e braille. O local tem ainda amplo espaço para a prática de natação, tênis, handebol, basquete, entre outros.

"Temos duas áreas distintas de inserção: o esporte e a área técnica", resume a coordenadora do Cepid, Regina Tahim.

A coordenadora conta que muitos dos atletas despontam, competem em outros estados e até chegam à seleção brasileira. Um dos nomes revelados no Cepid é a de Oara Uchôa, atleta paralímpica de basquete de cadeira de rodas que vestiu a camisa do Brasil no Parapan de Lima, Peru, no mês passado.

"O esporte é de fundamental importância para autoestima deles (PCDs), para se ocuparem e saírem do meio de ondem vivem. Muitos deles são deficientes provenientes de algum acidente. Eles passam pela fase depressiva, de querer desistir e, de repente, se encontram em algum esporte. Possuem histórias de vida belíssimas", comenta Regina.

Além do Cepid, outros espaços são utilizados na Capital e na Região Metropolitana de Fortaleza para prática de esportes para pessoas com deficiência. O caminho percorrido por eles para chegar às modalidades esportivas é frequentemente por meio de associações voltadas para PCDs. Através de parcerias, estas organizações conseguem promover treinos em universidades, escolas, institutos estaduais e federais e locais de uso público, como as areninhas.

Segundo o professor de Educação Física e membro da Associação D'eficiência Superando Limites (Adesul), David Xavier, a instituição é a única do Estado a trabalhar com nove modalidades. Ele explica que ao trazer treinos para o ambiente acadêmico acaba despertando também o interesse pelo estudo nos praticantes. 

"O meio acadêmico acaba olhando também para o deficiente como protagonista", comenta David.

Para chegar ao deficiente e levá-lo para o esporte, a Adesul, assim como outras associações, divulga os trabalhos via redes sociais. Ademais, profissionais ligados às organizações promovem, de forma gratuita, apresentações em escolas e universidades. "Através destas vivências, eles vão conhecendo. Tem gente que vê e indica, e vai divulgando no boca a boca."

Especialista em esporte adaptado, David ressalta que no Interior a dificuldade na oferta de esportes para pessoas com deficiência é ainda maior. Para o professor, a falta de qualificação profissional para a área e o custo de equipamentos para determinados esportes são fatores dificultadores para a ampliação do processo para o restante do Estado. "Infelizmente ainda é pouco. O pessoal tem muito medo disso (de se especializar na área), receio de não saber trabalhar (com o público PCD)", afirma.

David destaca a questão do preconceito como mais um fator que distancia o profissional de Educação Física do trabalho voltado para pessoas com deficiência. "Também existe. Tem profissional que não acredita no deficiente", completa.

QUAL PRATICAR?

INCLUSIVO | Modalidades são adaptadas para atender público com deficiência. Independente do grau de comprometimento, haverá pelo menos uma opção de prática esportiva. No universo paralímpico, modalidades são divididas por classe

Por Lucas Mota

 

Foto: Marcelo Justino / O POVO
Modalidades para tipos de deficiência

O esporte para pessoas com deficiência (PCDs) possui especificidades. As modalidades são adequadas para cada tipo de comprometimento físico ou intelectual do praticante. Ao ser inserido no ambiente esportivo, a potencialidade do aluno será avaliada e direcionada.

"Qualquer pessoa com deficiência que chega para trabalhar conosco, sempre identificamos a potencialidade dela. Tem membro parado, qual o potencial? A gente o escuta e direciona para um esporte onde ele possa ser eficiente", afirma o educador físico Felipe Catunda.

No esporte paralímpico, as modalidades são divididas por classe. Cada categoria é definida pelo grau do comprometimento. Por exemplo, no judô adaptado para cego, existem três categorias, variando da cegueira completa a baixa visão.

No basquete ou handebol de cadeira de rodas, o time em quadra precisa somar uma pontuação específica. Cada atleta terá uma quantidade de pontos conforme a lesão física. Felipe Catunda explica que essas especificidades são necessárias para deixar a competição justa.

Existem dois tipos de categoria de esporte paralímpico: adaptado e exclusivo. Modalidades como natação, judô, futebol e basquete passam por adequações para atender o desportista com deficiência. Já o golbol (goalball) é modalidade direcionada a deficientes visuais.

"Por mais comprometido (por causa da deficiência), a gente extrai o potencial. Analisamos o quadro clínico para entender a deficiência e trabalhar o que ele pode fazer e direcionar para a modalidade", ressalta Felipe.

Confira a versão digital:

Especial Inclusão Social Pelo Esporte