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O Projeto Grandes Empresas Cearenses é uma série de documentários que conta a história econômica do Estado através de suas empresas símbolos. Os programas narram as trajetórias empresariais de grandes marcas do mercado local e nacional.

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Onde fé e a ciência se encontram

Na Colina do Horto, o geossítio é o encontro de um evento geológico da Chapada do Araripe com as manifestações da cultura da fé

(Foto: Fábio Lima/O POVO)

De Marechal Deodoro, no agreste alagoano, João Batista da Silva, 56, veio ter com a memória perpétua de padre Cícero, em Juazeiro do Norte. A crença de que o “padim” o fez voltar a andar, “depois de um ano paralítico”, virou paga de promessa perene pela “graça alcançada”. Enquanto viver e as pernas aguentarem, projeta João Batista, ele trará o corpo agradecido à “terra santificada” pelo padre milagreiro, por Mãe das Dores, pela beata Maria de Araújo, pelo beato José Lourenço e por uma nação de romeiros que se renova na oralidade no Nordeste e numa tenência de credo em família.

A primeira vez de João Batista a Juazeiro do Norte foi puxado pelas histórias e a devoção da avó, Maria Joana da Conceição, hoje falecida, e que fez a pé uma das viagens de Joaquim Gomes (Alagoas) até o Cariri cearense. Já vinha na bagagem dela, desde menina, as romarias narradas pela mãe.
   
Quando nos encontramos, em julho deste ano, era o mês dos 85 anos do “encantamento” do padre Cícero e a trigésima vez que João Batista retornava a Juazeiro. Como de costume, repetia o caminho no Santo Sepulcro, lugar onde padre Cícero se recolhia para se aquietar. Uma trilha penitente de 3 quilômetros, no geossítio Colina do Horto, peregrinada por pagadores de promessa, devotos e turistas.
 
É ali, naquele enclave de religiosidade que o Geopark Araripe se inseriu, desde 2006, no Sul do Ceará. Onde a fé e a ciência se encontraram para justificar a relevância da criação de um geoparque da Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Um território simbólico e ao mesmo tempo científico.
(Foto: Fábio Lima/O POVO)

As rochas mais antigas da Bacia do Araripe afloraram até o alto do geossítio da Colina do Horto, em Juazeiro. “São pedras magmáticas, originadas há cerca de 650 milhões de anos”, detalha Álamo Saraiva, coordenador do Laboratório de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri (LPU). “Aqui, não há ocorrência de fósseis como em Santana do Cariri e Nova Olinda”, compara Flaviana Costa, também paleontóloga do LPU.

São rochas “ígneas (no caso o granito) formadas a partir do resfriamento do magma. Por isso é impossível conservar alguma coisa orgânica. Os fósseis se preservam em rochas sedimentares como o calcário e o arenito”, explica a paleontóloga e professora da Urca.
      
João Batista pouco sabe dizer sobre o valor geológico do assoalho rochoso onde está sentada aquele trecho de peregrinação, na Bacia do Araripe. Sabe da estátua gigante do padre Cícero que mira o Vale do Cariri lá embaixo. E, sim, vê rochas exageradas que o acompanham no percurso de ida e volta do caminho do Santo Sepulcro.

Ele confessa nunca ter se perguntado por que tanta pedra na estrada de chão alaranjado, aberta no meio de uma Caatinga preservada. Há uma rocha, inclusive, recomenda o funcionário público, com uma fenda estreita no meio e por onde os devotos do padre Cícero se espremem para atravessar. É a “pedra do pecado”. E os que se entalam no apertado das paredes é porque estão cheios de culpa. Não haveria relação com a compleição física de cada um ou um provável sedentarismo. É a parte brincante da escrita do maravilhoso costurada às manifestações da fé no desenho geológico do lugar.
(Foto: Fábio Lima/O POVO)

Pelo trajeto do Santo Sepulcro, outra curiosidade. Várias pedras pequenas e médias são penduradas nos galhos das árvores, empilhadas na beira do caminho ou postas nas placas de orientação. Há também centenas delas deixadas em cima das rochas gigantes, formando miúdos e grandes totens. Uma assinatura de quem passou pelo sacrário telúrico da Colina do Horto.

Damião Francisco da Silva, 34, tem uma venda de água, salgadinhos, raízes, mel, cabaças e outras ofertas em uma das paradas do caminho. Os seixos deixados pelos peregrinos teria haver com a expiação das faltas graves cometidas pelos arrependidos até a próxima ida a Juazeiro. “Dizem que quanto maior o pecado, maior é a pedra deixada”, ouviu dizer o comerciante.

Antes de ser geossítio, na Colina do Horto, já havia a trilha indo dos pés da estátua de padre Cícero até a coleção de pedras magmáticas do Santo Sepulcro. Mas, remonta Damião Francisco, o comércio era acomodado em “barracas de lata e taipa”. Quando o Geopark Araripe pediu passagem e se incorporou ao forte traço da cultura religiosa entrançada em Juazeiro do Norte, a montanha onde o “padrim vive e não está morto” agregou outras percepções.
   
“Eu não sei explicar direito o que é Geopark. Mas depois dessa proteção, é uma proteção, né? Hoje, tem banco pra o romeiro se sentar. Muita placa e as nove barracas, agora, são de tijolos. Ficou mais organizado”, observa Damião Francisco. Um cearense, filho de mãe paraibana e pai juazeirense. “Minha mãe veio com meus avós para uma romaria aqui e acabaram ficando pra morar”, biografa o homem do Cariri.


 
Demitri Túlio

ESTÁTUA DO PADRE CÍCERO


27 metros é altura da estátua de padre Cícero. Esculpida por Armando Lacerda em 1969.

7 metros era o tamanho inicial proposto para o monumento ao padre e líder político, falecido em 1934.

50 anos tem a estátua do padre Cícero. Em seu entorno, há um museu, uma igreja e muito comércio.

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