O AFETO

Ensaio sobre o amor. Ou melhor, sobre amar

Ana Mary C. Cavalcante - cavalcanteanamary@opovo.com.br

"Da mesma forma como o bosque do curso de Letras reúne corações de estudantes. Ou como a Ponte Metálica contém uma coletânea de abraços. Ou como o Parque do Cocó é feito de olhares. Ou como a Praça do Ferreira guarda encontros. Ou como aquela rua nos faz nascer outra vez... A Cidade tem sentimentos - os nossos, os particulares"

Em uma rua sem saída, perto de onde moro, deixaram o seguinte pensamento escrito no muro do supermercado: "Eu nunca te esquecerei... Y...". Tantas vezes paro nesta frase, antes de dobrar a esquina e seguir em frente. Fico imaginando a história de amor que está nas reticências. Talvez o par de tão curta narrativa expressa no muro tenha experimentado a maior descoberta da vida, aquilo que nos faz existir além do tempo, aos oito anos ou aos 80. Talvez os dois tenham brincado naquela rua sem saída, ainda a salvo das proibições, dois passarinhos em voos pela inocência. Ou, talvez, velhos amantes tenham se refugiado naquele fim de mundo, todas as tardes, antes da novela e do jantar feito, para salvar a ternura.

A frase escrita no muro do supermercado tem resistido à chuva, ao sol, aos anos; já faz alguns dezembros que a escreveram ali. O mato quer cobri-la nos invernos, mas ela continua lá: uma história inteira - ou um tanto de vida. Desconfio que, mesmo se passassem uma tinta por cima, ainda assim não seria possível apagá-la por completo porque quem viveu cada letra daquela história sempre saberá dela. Amor e saudade são escritos que estão sob camadas e camadas de desilusões, e de despedidas, e de certezas. A frase que demarca aquela rua sem saída abriga saudades.

Da mesma forma como o bosque do curso de Letras reúne corações de estudantes. Ou como a Ponte Metálica contém uma coletânea de abraços. Ou como o Parque do Cocó é feito de olhares. Ou como a Praça do Ferreira guarda encontros. Ou como aquela rua nos faz nascer outra vez... A Cidade tem sentimentos - os nossos, os particulares. Não é apenas terra e mar, asfalto e concreto. É o campo de várzea onde se brinca de ser menino aos domingos; é um quintal de goiabeiras e seriguelas; é onde se fincou uma cruz.

Ana Mary C. Cavalcante é repórter especial, aprendiz de blogueira, bicicleteira e uma das últimas românticas. Foto: Rodrigo Carvalho
É a conquista da onda; é aprender a nadar; é a primeira vez que se viu o infinito. É o pedaço de avenida onde se sambou rainha; é o caminho da passeata que alcança as utopias; é uma travessia de mãos dadas. É a morada que se construiu com os próprios sonhos; é a faculdade; é a casa-da-vó.

As relações de amor é o que liga indivíduos e Cidade. Não me refiro ao amor dos dicionários, palavra gasta, ou mesmo de uma poesia distante, idealizado a ser isto ou aquilo. Digo do amor que se faz e se refaz cotidiano, entre certezas e descobertas, porto seguro e mar aberto. O amor que não precisa ser declarado, explícito; explicado, justificado. Uma espécie de cordão umbilical, afeto de nascença, que existe porque existimos (cada um e a Cidade). Que nos dá o mar como referencial, ou o sertão. Que inventa um bem querer ao sol e à chuva (mais: que sente o cheiro da chuva). Um amor do qual não nos perdemos, que vigora quando nos despedimos. Um amor que, talvez, só o avistamos quando olhamos a Cidade da janela do avião. Um amor que nos faz voltar.

Digo mais desse amor que une indivíduos e Cidade: é um sentimento, por exemplo, que está por trás de plantar cedros, ipês, flamboyants e toda sorte de cor e sombra no Passeio Público, para melhorar o clima, purificar o ar, embelezar a Cidade. Ou que inaugura um cinema embaixo do viaduto da avenida Santos Dumont e balanços em árvores da praça Eudoro Correia, para juntar todo mundo. Ou ainda que ensina o menino e o avô a andar de bicicleta, da praça Luiza Távora ao Castelão, pela simples felicidade de ensinar sobre o que já se aprendeu. É a revolução pela gentileza, a ternura em tempos de cólera.

Mas nem sempre sabemos o amor que sentimos - ou que somos capazes de sentir. Amor, por vezes, é impulso, arrebentação. É mais decisão que pensamento, coragem que ponderação. Por vezes, é amar o que nos custa. E, se pensamos nesse sentimento que liga indivíduos e Cidade, amor é uma brecha entre as contradições.

Fortaleza envelheceu e foi perdendo o encanto de uma Cidade que ensaiou Paris. Prédios históricos, rios, dunas, passeios, tranquilidade, bens materiais e imateriais, enquanto este texto se escreve, se tornaram paisagens e afetos nas memórias. Um amor antigo, que tem seu valor no passado. Tornou-se difícil encontrar um cidadão que ame Fortaleza no presente, assim, como ela é.

Perguntei a amigos (e a outros tantos) daqui e d´além mar, das saudades em geral: me contem algum lugar afetivo, infinito e particular, um canto amoroso nesta Cidade grande demais; uma rua, uma casa, um pedaço de chão, um bem querer que resista à desilusão. A maior parte das respostas foi um amor com ressalvas.
Na verdade, talvez não seja o amor (palavra), o caminho. Talvez o caminho seja amar. Foto FCO Fontenele
Há quem deseje que Fortaleza seja o Rio de Janeiro, Curitiba ou o Canadá. Que seja tudo, menos o que ela é. Arredia por natureza, Fortaleza é descalça e cresceu comendo pastel com caldo de cana no Centro e panelada no Mercado São Sebastião. É metida a chique, mas lambe o dedo sujo de caranguejo, na Praia do Futuro, e se esbalda com a última moda vendida nas feiras da Sé e da Zé de Alencar. Cheira a peixe e a camarão ao alho e óleo em um dos seus cartões postais: a Beira Mar. E ri, desavergonhadamente, de si mesma - pelo o que se salva.

Ao pedir emprestadas palavras para este texto, um amigo projetou como a Cidade poderia ser melhor da perspectiva do amor. Esta seria uma alternativa para o futuro de Fortaleza, "o amor é o caminho", ele apontou. Mas que amor? O dos dicionários? O das poesias? O das memórias? Aquele sob camadas e camadas de desilusões, e de despedidas, e de certezas? É difícil definir um amor por esta Fortaleza imperfeita e bela. Talvez ele exista em nós como nas reticências daquela frase do primeiro parágrafo deste texto, escrita no muro do supermercado.

Fico com o amor cotidiano, subtendido, por fazer e refazer, em definição; esse amor em luta constante com as contradições. Na verdade, talvez não seja o amor (palavra), o caminho. Talvez o caminho seja amar. Amar como quem não busca troca ou razão, entendimento ou explicação. Amar como quem inicia uma conjugação. Sem ressalvas, amar como quem perdoa. Amar, ao tempo em que se aprende.

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