REINVENTAR AS COMEMORAÇÕES

O desaniversário de Fortaleza - passado e futuro

Régis Lopes

"É preciso reinventar as comemorações. Alice, no seu País das Maravilhas, dá uma pista: levar em consideração os dias de desaniversário. Foram e são nestes dias que a cidade foi se transformando naquilo que ela é hoje: um espaço típico do desenvolvimento capitalista, que tudo transforma em mercadoria, inclusive o próprio passado"

No dia 13 de abril de 1726 houve a instalação da vila de Fortaleza. Estaria criada, a partir de então, uma data de aniversário? Não. Nesse âmbito festivo, nada houve, por exemplo, no dia 13 de abril de 1826. Estranho? Também não. Na primeira metade do século XIX, não existiam datas comemorativas de caráter cívico, nem faziam falta. As festas eram outras, quase todas ligadas ao calendário do catolicismo.

Aliás, a própria ideia de juntar os anos em grupos de 100, criando a noção de século, não tinha muita importância antes do século XIX. A utilização da palavra século só começou a vingar, de modo mais sistemático, no século XVIII, como bem ressalta o medievalista Jacques Le Goff.

Pouca importância era dada à precisão das datas. Na chamada "Idade Média" quase ninguém sabia, com certeza, a data de nascimento. E assim, em lógicas que escapam do número, o tempo permaneceu, até que vieram as necessidades da ciência histórica do século XIX, juntamente com a proliferação dos nacionalismos. É aí que ganha corpo o comemoracionismo, como diria o historiador Fernando Catroga.

O primeiro aniversário cívico acontecido no Ceará, que ganha certa notoriedade, foi em 10 de junho de 1880, no tricentenário da morte de Camões, quando o Gabinete Cearense de Leitura abriu um curso noturno de instrução primária.

Régis Lopes é professor do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará. Foto: Sara Maia
A primeira grande data é 1903, quando se rememora, com festas, publicações, hinos, missas e medalhas, o tricentenário da chegada dos portugueses ao Ceará. Começa, a partir daí, a moda permanente da comemoração. Renova-se o ideal de Alencar: surgem novos mitos fundadores, obviamente sem a força de Iracema. Renova-se a mania, muitas vezes enjoativa, de explicar essa entidade chamada Ceará (ou Fortaleza) por meio da localização de supostas origens.

Em 1926, ao contrário de 1826, há uma mobilização para marcar o aniversário de Fortaleza. Na Câmara Municipal, são proferidas palestras a respeito do bicentenário, com elogios ao passado e confiança no futuro. A história, naqueles discursos, tinha sentido utilitário: aprender com o passado para alimentar a aceleração do progresso, tudo em nome da pátria.

De modo descontínuo, os letrados começam a lembrar da data. Exemplo disso é o ano de 1954, quando Raimundo Girão e Ubatuba Miranda realizaram palestras na Casa de Juvenal Galeno sobre as glórias de uma cidade forte e bela.

Como se sabe, a lei que cria o "Dia da Cidade" é de 1994, que pode ser vista como um indício de disputas e acordos sobre uma tradição mais ou menos cambaleante em torno do 13 de abril.

Na Beira Mar, Iracema, o mito fundador. Foto: Iana Soares
A data pegou, inclusive com direito a bolos gigantes, servidos e devorados na praça do Ferreira. Instituições públicas e privadas se envolveram de variadas maneiras, promovendo ou criticando. Enquanto o povo se lambuzava com o açúcar, alguns intelectuais imaginavam que seria um momento para refletir. Apareceram, de última hora, as empresas de eventos e os interessados em "resgatar a memória". O pretérito passa a ter seu preço em sintonia com a sociedade do espetáculo.

Diante desse quiproquó, lembro que Capistrano de Abreu, em 1922, quando o Rio de Janeiro preparava o centenário da independência, escreveu ao amigo português João Lúcio de Azevedo: "Agosto será o mês dos congressos, não quero estar aqui, porque envergonha-me o papel triste que vamos fazer". Capistrano sabia que mais aniversários não significavam mais conhecimentos sobre o passado. Percebia que a pesquisa histórica não poderia ser substituída pelos eventos promovidos por aqueles que ouvem o galo cantar, mas não sabem onde. Sentia que essas festividades tornar-se-iam momentos ideais para a repetição de estereótipos e as disputas entre medíocres.

É preciso reinventar as comemorações. Alice, no seu País das Maravilhas, dá uma pista: levar em consideração os dias de desaniversário. Foram e são nestes dias que a cidade foi se transformando naquilo que ela é hoje: um espaço típico do desenvolvimento capitalista, que tudo transforma em mercadoria, inclusive o próprio passado. Mas, como a cidade cresceu sob o comando improvisado de "novos ricos", o passado não ganhou o valor simbólico que é possível encontrar em outros lugares. O que prevaleceu foi o peso das novidades, inicialmente vindas de Lisboa e Paris e agora trazidas de Miami.

Se a história não é simplesmente o estudo sobre o passado e sim uma reflexão crítica sobre as muitas relações entre passado, presente e futuro, vale a pena pensar sobre uma das características marcantes de Fortaleza: a multiplicação das desigualdades. Desde os fortes coloniais às guaritas elevadas dos atuais condomínios fechados, por exemplo. Ou dos ricos que se deliciavam com a escravidão aos ricos que se revoltam contra a recente lei do trabalho doméstico.

As ilusões românticas em torno de uma possível identidade fortalezense alimentam saudades e projetos chamados de culturais. Alguns, supostamente mais ousados, chegam a falar de diversidade. Mas, no final das contas, permanecem os velhos estereótipos, contraditoriamente renovados pelas seduções da sociedade de consumo.

Se as atuais tendências continuarem ativas, os próximos desaniversários ocorrerão em uma cidade ainda mais insuportável: um amontoado de edifícios altos (e a consequente paralisação do trânsito), mais e mais linhas aéreas para a América do Norte (com passageiros falando sobre as vantagens de sair do Brasil), trabalhadores vivendo em periferias distantes (e explorados cada vez mais), alianças inconfessáveis entre o público e o privado (sustentando a permanência daquela figura que Sérgio Buarque chamava de "homem cordial"), calçadas povoadas pelo medo (não só de assaltantes, mas também de buracos e motoristas), crescimento de preconceitos, revitalização de ódios, diminuição de áreas verdes, fascínio pelos viadutos etc.

Se, enfim, a reflexão sobre a nossa história não for realmente levada a sério, gerando as reviravoltas que só a reflexão histórica pode gerar, o nosso devir será aquilo que já se vê hoje: o crescimento do inferno urbano.

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