NA FICÇÃO DO FUTURO

Belas montanhas

Natércia Pontes

"As belas montanhas de areia cresciam numa maçaroca de grãos coloridos, que, somados à mistura de cores, ganhavam um tom acastanhado, de barro - era um forte que antes era duna e então, uma duna forte, resistindo à erosão"

Para Maurício Albano, que me alertou sobre os peixes.

No fundo da duna imensa repousavam as pedras portuguesas riscadas de carvão. Desenhos maiores que seus desenhistas - uns indiozinhos magros - jaziam sufocados pela areia colorida. O He-Man tosco exibia músculos protuberantes, o contorno feito de curvas raivosas. O Homem-Aranha arregalava os olhos e crispava as mãos ossudas, enquanto o Incrível Huck inflava trapézios e tríceps, afugentando o inimigo.

Antes do cataclismo, a cidade tinha sido uma cidade e agora era um gigantesco depósito de areia. O vilarejo crescera em torno do forte, na beira de um riacho tímido, alcançando o mar. Depois ganhou asfalto, rajadas de vento, cemitério, polícia. O mormaço da praça castigava os habitantes, que inventavam músicas loucas ou zanzavam como moscas, de uma ponta a outra.

Distante do centro, na beira da praia, havia uma moça cujos olhos continham o oceano. Neste mar cinza, todos os peixes padeciam contaminados por mercúrio; aqueles que ousassem comê-los morreriam envenenados, engasgados com a língua inchada. Só a mulher de olhos marítimos comia cavalas aos montes, e sobrevivia. Mergulhava as mãos em cada um dos globos úmidos, apanhando os peixes que em vão se debatiam entre seus dedos longos. Depois chupava os peixes, fingindo que eram doces, e cuspia a espinha. As cartilagens foram se amontoando num depósito desgovernado e malcheiroso, até atingirem o céu.
Escritora Natércia Pontes e a irmã Isadora, fotografadas pela mãe, em brincadeira infantil com uma "garrafa mágica" que encontraram na Beira-Mar. Foto: Arquivo Pessoal
***
(Madrugada, 13 de abril de 2030. Uma gigantesca garrafa de areia colorida flutua sobre a cidade, vibrando um barulho surdo - todos os habitantes empunham suas espingardas em direção ao imenso bojo de vidro que ameaça explodir de raiva e ferir o céu acima de suas cabeças.)

O indiozinho magro acordou antes do sol e, valendo-se da luz mortiça dos postes, viu o imenso fundo colorido pairando no céu. Correu para contar ao pai, todo esticado na rede, que incomodado com o grito fanho do menino, contraiu o cenho e resmungou de olhos fechados, como fazia com as muriçocas.

- Arre!

Os vizinhos e os vizinhos dos vizinhos acordavam em profusão, sentindo a sombra negra que invadia suas casas. A sala escura, a cozinha escura, a varanda escura. Sonolentos, deixavam de espiar a janela, julgando ser chuva. Outros, indiferentes, passavam o café. O indiozinho magro mantinha-se boquiaberto como se, arreganhando a pequena mandíbula, pudesse engolir o céu e salvar o mundo.

Um pouco antes de a cidade explodir, tinha quem jurasse ouvir um maracatu esquisito, o compasso fugidio, ou pressentisse a máscara oclusa de um colosso rei negro, cheirando a tinta guache. Assim, sem mais nem menos, uma misteriosa Belina fúnebre confundia a cidade, num embalo doido, avançando os sinais e levantando voo nas lombadas.

O prefeito não sabia explicar. O arcebispo não sabia explicar. O polícia não sabia explicar. Confusos, os habitantes abaixaram as espingardas num gesto resignado. Não foi sorte dos homens. Nem castigo divino. Mas um estalo vítreo; o susto.

Quando a areia veio de cima, uma única árvore resistiu: cravada no asfalto, a imensa castanholeira, recendendo a cuspe.
Pedras portuguesas no "fantástico" da escritora Natércia Pontes. Foto: Rodrigo Carvalho
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Tudo parou em suspenso. O pregão do vendedor de pamonha cessou no meio da linha melódica. O esmoler cego, sentado feito um nobre ao rés da calçada, calou-se com a boca aberta. E os cações pálidos, que dançavam ao sabor do gemido das jangadas, congelaram no tempo.

A chuva de areia caía espessa, em todas as cores do arco-íris, fustigando os olhos dos peixes e dos homens. Os peixes entupidos de mercúrio encaravam o céu, altivos, deitados de lado - a íris ferida e baça. Os homens encolhiam-se acossados, protegendo as escaras.

As belas montanhas de areia cresciam numa maçaroca de grãos coloridos, que, somados à mistura de cores, ganhavam um tom acastanhado, de barro - era um forte que antes era duna e então, uma duna forte, resistindo à erosão.

***

A grande encosta vermelha se fez soberana diante das outras dunas. Senhora de si, tornou-se maior que o vento, subjugando o mar e aterrando tudo. Os barrancos sub-reptícios, as sutis variações de cor, o chiado de morte. A majestosa falésia soprou um bafo amargo, sulfuroso, entorpecendo os habitantes e levando-os à loucura: impedidos de gritar, mascavam volumosos grãos de areia

(Esboços de espuma salpicam brilhantes no repuxo da costa.)

O coqueiro, sentindo-se humilhado, encolheu as palhas e, num soluço triste, secou a água doce dos frutos. O Marajaik, que antes serpenteava as belas montanhas, seguiu dragado pelo absurdo. Os heróis de carvão desistiram. O indiozinho magro, soterrado pelos bolsões de areia, murmurou moribundo: paba, paba, paba.

O vento correu na areia, levantando as saias das moças, e assobiou: é assim, é assim, é assim.

***

O mar rugiu insatisfeito. Ele queria mais. E não foi lhe dado ter. Vingou-se cuspindo gomos de cana na água turva. Os peixes remanescentes bicavam os colmos contaminados e sucumbiam em espasmos violáceos. A mulher de olhos cinza, alheia a tudo, tremelicava as pálpebras, num sono profundo. Sonhava com soins saltitando em sua cabeleira lisa. Sonhava com um amor que nunca teve. Sonhava com queijo, sapoti, bilro. Aconchegada numa densa flor de jambo, cantava para si, uma prece ao vento, dentro do sonho: vento que balança as palhas do coqueiro, vento que encrespa as águas do mar, vento que assanha o cabelo da morena, me traz notícias de lá...*

***

Lá fora, a castanholeira respirava por uma única folha, deitada sobre a areia quente. A Belina derretia arriada numa ribanceira. A máscara do rei negro perdia a cor, exposta ao sol. Debaixo da duna colorida, contrariando toda a lógica das coisas, o indiozinho espalmava as mãos úmidas, esperando, quem sabe, a sua assunção.

*Música de Alcyr Pires Vermelho/ Letra de Gilvan Chaves e Fernando Luiz da Câmara Cascudo

Natércia Pontes é escritora. Nasceu em Fortaleza e mora em São Paulo. Autora de obras como Az Mulerez. (edição do autor), Copacabana dreams (Cosac Naify - finalista do Jabuti 2013) e organizadora de Semana (Hedra). Participou das coletâneas Desordem (Bookstorming), O Cravo Roxo do Diabo: o conto Fantástico no Ceará (Edição do Caos), Viva Fortaleza (Terra da Luz).

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