MOVIMENTAR-SE PELA CIDADE - O IR E VIR

Mover-se é preciso; viver não é preciso

Cinthia Medeiros

"É perceptível que vivemos em uma cidade magoada pela apartação. E isso se reflete no mover, na disputa desigual pelo espaço das ruas, no calvário cotidiano que se tornou para milhões de pessoas o se deslocar por Fortaleza, principalmente se elas estão dentro de um transporte público coletivo"

Não há forma melhor de se conhecer uma cidade, e celebrá-la, que poder circular por ela, mover-se. E com o mover, admirá-la, cuidá-la, sentir-se pertencente a ela, e também seu dono. Talvez por isso, dei pra me interessar por essa "conversa" de mobilidade urbana. É que mobilidade me remete ao movimento, e movimento à liberdade. E essa me agrada um tanto.

Fisgada, então, por esse desejo aquariano de me sentir livre, e fiel a esse meu bem-querer à Fortaleza onde nasci (e à qual adoro pertencer, e admirar, e cuidar), dei também pra tentar compreender como nossa cidade se move, pra onde seus percursos nos levam, até constatar que ainda temos um longo caminho a seguir rumo ao exercício pleno do direito de ir e vir.

Nossa mobilidade não nos garante liberdade. E eu explico: Mobilidade requer, antes de qualquer coisa, a possibilidade de escolha diante de como queremos nos mover pelo nosso bairro, pela nossa cidade, além de limites, divisas, fronteiras. Carrega consigo a premissa da diversidade. "Vou a pé ou ônibus? De metrô ou de carro? Um trecho de ônibus e outro de trem?". Pressupõe oferta de modais integrados de forma inteligente e sustentável, sem disputa de espaço e público e sim, com complementaridade de sistemas.

Cinthia Medeiros é jornalista, pedestre por opção e entusiasta de uma cidade mais gentil e mais humana para o futuro da Maria Clara e do Pedro. Foto: Sara Maia
A verdadeira mobilidade urbana impõe o direito ao acesso (e aqui o conceito de acessibilidade é muito mais amplo que uma rampa na calçada. Numa cadeira de rodas, a pé, numa bicicleta, num carro, ônibus, ou avião, é preciso conseguir chegar, de forma autônoma e segura, ao destino onde queremos ir). Mobilidade urbana eficiente implica, diretamente, em melhor qualidade de vida para a cidade como um todo. Significa pais chegando em casa mais cedo depois de um dia de trabalho porque não ficaram presos no trânsito, podendo aproveitar o horário de descanso com a família. Ou crianças brincando pelas calçadas a caminho da escola porque existe uma rede de serviços que as atende perto de casa, permitindo que façam esse percurso caminhando.

É ver equipamentos públicos de lazer ocupados e ocupando jovens com atividades saudáveis porque há meios que os conduzem até ali com segurança. E até a redução da poluição por gases emitidos pelos veículos motorizados. São só alguns exemplos.

É certo que ainda nos ressentimos de um crescimento urbano desordenado que, pelo jeito, nenhum dos tantos planos diretores que já tivemos conseguiu evitar. De Silva Paulet a Adolpho Herbster, passando por Nestor de Figueiredo e Hélio Modesto, até o mais recente Plano Diretor Participativo de Fortaleza (PDP-FOR),só pra citar alguns. Se ainda há tempo para se projetar um novo desenho pra cidade levando em conta que trabalho, moradia e mobilidade devem fazer parte de um mesmo projeto, garantindo benefícios sociais, econômicos e de mobilidade propriamente dita, não tenho credenciais para afirmar. É perceptível que vivemos em uma cidade magoada pela apartação. E isso se reflete no mover, na disputa desigual pelo espaço das ruas, no calvário cotidiano que se tornou para milhões de pessoas o se deslocar por Fortaleza, principalmente se elas estão dentro de um transporte público coletivo.

Nesse contexto, a frota de veículos foi crescendo. A média é de 12% ao ano (cerca de 6.500 novos veículos nas ruas por mês). Não que se queira aqui vilanizar quem quer ter seu carro. Automóveis têm sim seu espaço nessa miscelânea que compõe os modais de deslocamento urbano. Mas o sistema de transporte público precisa e deve ser a coluna vertebral de uma cidade que se dispõe a oferecer mobilidade a seus cidadãos, acompanhado dos sistemas não motorizados, como as bicicletas, e do estímulo aos percursos feitos a pé, com a oferta de passeios adequados, arborizados, iluminados, seguros. Está no Plano Nacional de Mobilidade Urbana (Lei no 12.587/12), mas não está no nosso dia a dia. Pelo menos não plenamente.

O sistema de transporte público precisa e deve ser a coluna vertebral de uma cidade que se dispõe a oferecer mobilidade a seus cidadãos. Foto: Diego Camelo
Algumas ações importantes andam dando o ar da graça pras bandas de cá, é preciso dizer. E eu as comemoro todos os dias, nessa minha necessidade inquietante de mover-me pela minha cidade. Assim, tenho testemunhado as mudanças, as experimento. E torço pra que deem certo, que estabeleçam uma nova relação entre cidadão e cidade. Qual não foi minha alegria, por exemplo, quando vi as primeiras ciclofaixas serem pintadas, demarcando caminhos importantes principalmente para trabalhadores que usam a bicicleta como meio de transporte todos os dias. E quão maior não foi minha satisfação ao perceber que os mesmos que as criticaram por "atrapalhar o trânsito", agora as usam em bandos, lépidos e fagueiros, nas horas de lazer, ocupando as ruas, descobrindo uma cidade diferente, que não viam de dentro de seus carros. Qual não tem sido meu orgulho cada vez que leio sobre o crescimento do número de viagens do sistema de bicicletas compartilhadas, implantado há poucos meses, e já tão bem assimilado pela população. E me vem, lá no íntimo, um gostinho de vitória sobre aqueles que agouraram a novidade alegando que por aqui as bikes seriam depredadas, que nossa cidade "não tem educação pra isso". Tem sim. E quer mais.

Também avalio com otimismo as mudanças adotadas na tentativa de dar mais eficiência ao transporte público coletivo. Faixas exclusivas para ônibus, com redução dos tempos de viagem e aumento da frequência nas linhas; inclusão de ar-condicionado nos veículos para dar conforto térmico aos passageiros; a criação do bilhete único, permitindo várias viagens com a mesma passagem. Tudo acompanhado pela expectativa de que o BRT (Bus Rapid Transit) comece a funcionar a contento, pela esperança de vê-lo integrado com as linhas do metrô e do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), e pelo desejo de estar viva pra ver essas obras concluídas.

E se me mostrei tão entusiasmada nos dois últimos parágrafos em relação às mudanças percebidas nesse novo movimento de dar mais mobilidade a Fortaleza, volto à minha cantilena sobre a necessidade urgente de olharmos com mais carinho e responsabilidade pras nossas calçadas (assunto que já me rendeu o título de "Rainha das Calçadas" por um colega de redação). Caminhar é meu "modal" favorito para me locomover por Fortaleza. Mas é preciso ser aguerrido para persistir. Seja pela irregularidade do piso, ou pela falta dele. Pelos obstáculos físicos (carros, rampas, mesas de bar, produtos em exposição) ou pelas barreiras impostas pelo medo da violência. Pela falta de sombras das árvores ou pela escuridão total dos caminhos noturnos. Mudar essa realidade não tem se mostrado prioritário. Nem para o poder público nem para muitos "donos de calçadas". E os caminhantes recuam das ruas, o que lamento. Fazer percursos a pé permite que vejamos a cidade por um ângulo muito particular, quase exclusivo, que encanta e surpreende. Cruzar olhares, trocar bons-dias, descobrir um mosaico diferente na parede, ou uma planta que nasceu, configuram uma relação de afeto e de pertencimento com a paisagem, que se reverte para a própria humanidade da cidade.

E cidades mais humanas é o que precisamos. Projetos pensados na escala do homem, para ele. A mobilidade passa por esse esquadro de forma imperativa. Até arriscaria um "mover-se é preciso. Viver não é preciso".

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