FORTALEZA SOLAR

Lugares, imagens e o brilho estourado

Silas de Paula

"Uma cidade solar, que enfatiza o olhar, precisa ressaltar o humano, a importância dos aspectos socioculturais, a existência de marcos referenciais e as vias de passagens que tornam possível as relações em sua composição imagética, além de perceber como tudo isso auxilia na legibilidade e no imaginário das pessoas sobre a urbe"

Trabalho com luz, sou fotógrafo. E viver em Fortaleza é conviver com o brilho estourado de um sol forte que, entre outras coisas, obriga algumas pessoas a ter comportamentos inusitados, como parar o carro sob as árvores quando encontram o sinal fechado.

Gosto da luz, de andar pelas ruas e fotografar. Ponho-me a olhar esta cidade polifônica na esperança de que me diga alguma coisa e me ajude a perceber suas texturas imagéticas. Detalhes que me obrigam a exercícios frequentes de reflexão sobre os fluxos de imagens de lugares ligados à história, ao contemporâneo, ao imaginário e à permanência. Claro que o "sol na moleira" não ajuda muito, mas é o mesmo sol que me fascinou com sua claridade, décadas atrás, quando cheguei por aqui. Fotógrafo iniciante, estranhei a leitura feita pelo fotômetro da câmera, uma luz de intensidade incomum. Mas, era também uma Fortaleza verde - o verde das árvores de quintais que deixaram de existir.

A luz nos permite ver e não só olhar, é uma questão de escolha. Para o filósofo Louis Marin existe uma diferença crucial: olhar é o ato natural de receber nos olhos a forma e a semelhança; já ver é considerar a imagem na tentativa de conhecê-la bem, fazendo com que o observador constitua-se como sujeito. Vendo através de objetivas, os fotógrafos criam zonas de indeterminação e movimentam a invenção de cenas, levando aspectos da vida para os campos simbólicos da arte.

A câmera captura um momento no tempo que é irrevogavelmente perdido, um tempo que morre, segundo Barthes. Mas, ao registrá-lo, o aparato embute no sujeito da fotografia a imortalidade. Esta é a razão primária pela qual associamos fotografias com memória; elas são relíquias do nosso tempo.
Silas de Paula é fotógrafo e professor da UFC. Foto: FCO Fontenele
Mas, como encaramos, realmente, esses processos? Essas narrativas que utilizam como recurso um sistema imaginário com posições sociais específicas e formas estratégicas de reprodução do real através da imaginação e invenção individuais? Talvez alguns, como eu, continuem com a crença de que o reconhecimento das visualidades, seus conflitos e tensões possam nos levar a formas sensíveis de intervenções urbanas. Então, seria possível que Fortaleza, uma cidade solar, venha a ser, também, uma cidade natural? Um local que tentará [re]imaginar a sustentabilidade urbana em torno de uma maior integração dos sistemas de vida humanos e não-humanos?

Eu, quase sempre, faço conexões entre luz, imagem e a cidade. Procuro encontrar, nas minhas andanças, os aspectos que se relacionam, de alguma maneira, ao que alguns especialistas denominam de "cidade criativa". Para eles, a cidade criativa é específica, oposta à cidade universal e, portanto, distante daquela que se vê como um espaço uniforme de cultura e experiência humana. Ela se destaca e tem uma vantagem competitiva por suas imagens simbólicas. O aspecto diferencial é reforçado com a produção, reprodução e incorporação da imagem/cidade-identidade nos produtos culturais que, comercializados e/ou reproduzidos através da mídia, reforçam (ou criam) a cidade diferenciada.

Porém, segundo esses especialistas, muitas características negativas permanecem teimosamente ligadas à experiência urbana. E, em alguns casos, a cidade criativa as exageram e acentuam. Há, frequentemente, uma tendência a gerar um enorme número de empregos, instáveis e com baixa remuneração, com a concomitante marginalização social que continua a impactar de forma desigual os, já, pobres urbanos. As desconexões entre as imagens manufaturadas da cidade criativa, e as experiências reais vividas por muitos, criam fontes de tensão. Os beneficiários da conexão produção/trabalho/cultura podem habitar ilhas de privilégios, ao redor das quais a pobreza e a privação social prevalecem. Para evitar esses processos negativos, é fundamental a formulação de políticas específicas, compensatórias, que melhorem as condições dos excluídos, estendam os limites da cidade criativa e proporcionem aos menos favorecidos, em seus enclaves, uma formação, com educação de qualidade e outras medidas que devem ter alta prioridade.

São políticas que podem colocar em xeque o consenso sobre as cidades criativas, evitando a conformidade de ideias. Antes de ser uma plataforma para um debate racional, o consenso é um regime específico do sensível. É a pressuposição pela qual cada parte de uma comunidade - com todos seus problemas específicos - pode ser incorporada a uma ordem política. Com o consenso, abolimos o dissenso e banimos a subjetivação política, reduzindo a política ao policial. É preciso lembrar que a democracia não é uma forma de governo, nem um estilo de vida social, mas um ato de subjetivação política. Uma comunidade só pode ser denominada de democrática se ela é uma comunidade de partilha, na qual sua pertença ao mundo comum é expressa em termos opositores e a coalizão só ocorre no conflito.
Se não nos deixarmos ofuscar pelo brilho da luz e prestarmos mais atenção ao escuro que nos cerca, talvez reconheçamos o potencial natural e criativo da cidade. Foto: Silas de Paula
Como produtores de conhecimento, temos a difícil tarefa de ler a realidade social e agir de forma significativa. A ocorrência de mudanças estruturais básicas na sociedade exige alterações subsequentes na produção cultural e na sua forma de análise. Uma delas é o reconhecimento de que a produção de discursos e imagens é uma atividade importante e deve ser analisada como parte da reprodução e transformação de qualquer ordem social. A luz especular que encanta, também ofusca. 

Portanto, uma cidade solar, que enfatiza o olhar, precisa ressaltar o humano, a importância dos aspectos socioculturais, a existência de marcos referenciais e as vias de passagens que tornam possível as relações em sua composição imagética, além de perceber como tudo isso auxilia na legibilidade e no imaginário das pessoas sobre a urbe.

No fundo, estamos nos confrontando com as identidades do espaço, os sentidos de lugar e as temporalidades com os quais criamos laços emotivos e vivenciais. Fortaleza mudou; a fotografia também. Se não nos deixarmos ofuscar pelo brilho da luz e prestarmos mais atenção ao escuro que nos cerca, talvez reconheçamos o potencial natural e criativo da cidade.


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