COMO O MEDO VAI DEFININDO FORTALEZA

Nossos canhões imaginários

Henrique Araújo - henriquearaujo@opovo.com.br

"Parafraseando Antonio Luiz, talvez não seja exagerado afirmar que, passados 289 anos, nossos canhões continuam apontados para a vila. Não é o que vem de fora que nos preocupa. É a cidade profunda que ronda e assusta"

Numa cidade, a face mais visível do medo não é a quantidade de homicídios, um número que exige tradução, mas a arquitetura, sempre explícita no seu propósito. É no desenho urbano que o medo se encontra fielmente plasmado e vestido com sua melhor roupa: as fachadas azulejadas e guaritas espetando quem vai na calçada. O medo está nas correntes elétricas de baixa voltagem e na concertina encrespada nos paredões que se espicham além da copa das árvores. Está na constelação de aparatos tecnológicos a serviço da clausura e na diversificada oferta de serviços intramuros.

O medo está na gramática dos novos empreendimentos imobiliários, cheia de referências antipânico. Está nas catracas eletrônicas e muretas guarnecidas com brigada armada. Está nesse som urgente e quase metálico da trava da porta do carro à presença do flanelinha. Está na estática dos interfones. Está no zumbido da cerca eletrificada. O medo urbano tem som, cheiro e cor.

Em Fortaleza, metrópole fortificada por holandeses e santificada por portugueses, o medo está presente desde o lema da cidade (Fortitudine) até o brasão. Nele, vê-se o forte que, erguido em 1649, tinha a finalidade de debelar as ondas de invasores, fossem índios ou piratas franceses. Fincado à margem do riacho Pajeú, berço do povoamento depois alçado à condição de vila, o forte é secundado por dois ramos de folhas. Como antípodas, a leveza da vegetação e a dureza da edificação militar estabelecem um contraste interessante. É como se estivéssemos, desde o nascedouro, divididos entre o armar-se e o amar-se.
Henrique Araújo é jornalista do O POVO, cronista e pai de primeira viagem. Foto: FCO Fontenele
Já no século XVII, o medo de saques, da fome e da seca definia a nossa paisagem social. A necessidade de se defender dos perigos - principalmente os internos - está no batismo da metrópole aniversariante. É conhecida a história de que, no Forte de Schoonemborch, os canhões não apontavam para o litoral, de onde se esperavam que chegassem os inimigos, mas para a própria vila. Em Fortaleza, imagens da cidade (Coleção Museu do Ceará), o historiador Antonio Luiz Macedo e Silva Filho reproduz trechos da obra Viagens ao nordeste do Brasil, do anglo-português Henry Koster. No livro, traduzido para o português por Câmara Cascudo, o cronista registra que a "fortaleza, de onde a vila recebe a denominação, contém quatro peças de canhão, de vários calibres, apontadas para muitas direções". Em seguida, como se se surpreendesse, Koster nota que "a peça de maior força estava voltada para a vila", enquanto a que "estava montada para o mar não tinha calibre suficiente para atingir um navio no ancoradouro comum".

Sintomático, o fato não passa despercebido a Antonio Luiz. "Se, nos estudos de história do Brasil colonial, tradicionalmente se atribui a ereção de bastiões militares à defesa territorial dos ataques navais de concorrentes europeus (franceses, ingleses, holandeses), no caso de Fortaleza se percebe uma preocupação ainda maior com ameaças que não provêm do mar, mas da própria terra". O pesquisador conclui que "talvez não seja exagero imaginar que a posição do artefato bélico expressava um modo repressivo de manter a ordem social, intimidando o surgimento de rebeliões e ondas de descontentamento popular" (grifo meu).

Salto no tempo e na geografia. Em História do medo no ocidente, o pesquisador francês Jean Delumeau descreve pormenorizadamente os numerosos mecanismos de proteção a que qualquer forasteiro tinha de se submeter caso planejasse entrar na "cidade mais rica e povoada da Alemanha" no final do século XVI, Augsburgo. Segundo o historiador, a série de portas levadiças e pontes sobre fossos trata-se de "precauções singularmente reveladoras de um clima de insegurança" e que toda essa parafernália defensiva não "parece excessiva para proteger contra qualquer surpresa uma cidade de 60 mil habitantes". Afinal, continua Delumeau, "num país atormentado por querelas religiosas e num império cujas fronteiras são rondadas pelos turcos, todo estrangeiro é suspeito, sobretudo à noite. Ao mesmo tempo, desconfia-se do homem comum cujas emoções são imprevisíveis e perigosas".
Em Fortaleza, metrópole fortificada por holandeses e santificada por portugueses, o medo está presente desde o lema da cidade (Fortitudine) até o brasão
As duas narrativas ilustram à perfeição o que defende Zygmunt Bauman em Confiança e medo na cidade: estar seguro implica enxergar o outro como semelhante. No breve ensaio que abre o volume, o sociólogo polonês escreve que, a despeito de todo o aparato bélico à disposição da modernidade, o indivíduo se sente permanentemente "inseguro, ameaçado e amedrontado, mais inclinado ao pânico e mais interessado em qualquer coisa que tenha a ver com tranquilidade e segurança que os integrantes da maior parte das outras sociedades que conhecemos". O medo, diz Bauman, é um problema de confiança.

O que ajuda a explicar parte dos nossos problemas e a futurar alguma saída. Desde a fundação, passando pela elaboração da planta da Capital, as políticas de habitação, a distribuição das riquezas e as primeiras reformas urbanas, Fortaleza segrega esse outro de que falam Bauman e Delumeau, representado aqui pelo flagelado, o retirante, o morador de rua, a puta, o viado - toda uma franja imerecida de cidadania. Parafraseando Antonio Luiz, talvez não seja exagerado afirmar que, passados 289 anos, nossos canhões continuam apontados para a vila. Não é o que vem de fora que nos preocupa. É a cidade profunda que ronda e assusta.

A cada ano que vê chegar, Fortaleza se pergunta: conseguirá se reconciliar com o espaço público? Terá ânimo para desfazer as pontes levadiças? Destruirá os seus canhões, reais e imaginários? Deixará para trás essa herança de cidade fortificada dentro da qual os poderosos se abrigam, erguendo os seus enclaves contra a fúria nativa? Ou, pelo contrário, estamos condenados a parecer cada dia mais com o retrato doente de uma metrópole refugiada no próprio medo?

Acredito que não. Acredito que a mesma cidade que se reinventa a cada carnaval, e reage com fúria a cada árvore cortada e viaduto levantado, encontrará o caminho para que cada um se veja naturalmente projetado no outro.

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