A PRAIA

A possibilidade social do desvio

Paulo Linhares

"Neste caso, a praia é para o corpo social o que a rua representa de uma maneira mais ampla: o lugar da possibilidade social do desvio, da transgressão do normal, do risco da mudança de tudo que parece definitivo. A suspensão da nossa condição diária de homem pré-ocupado"

Contar a história de uma cidade é tentar mostrar como se forma um espaço social ou como se forma um sistema de relações num determinado espaço.

O que se deseja aqui não é fazer o perfil histórico de Fortaleza. Interessa compreender o papel dos dispositivos ecológicos na constituição de uma determinada territorialidade. O território é certamente a matriz de uma série de futuros enjeux (articulações) sociais e como tal deve ser pensado.

A capacidade de percepção de uma cidade me parece se situar na possibilidade de enxergar os jogos, as articulações entre o individual e o coletivo, a partir de uma matriz ecológica. É através de seu trajeto antropológico que se reconstitui o imaginário de uma cidade. A realidade é uma construção. Narrar esta construção é sempre um a priori ideológico. Para enfrentar este desafio sem criar um outro lugar, o da imaginação pura, é preciso considerar a cidade como experiência vivida e não como estrutura fixa, planificada.

No entanto, todo discurso sobre as cidades é um discurso de segundo grau. Captar o urbano é superar em parte este discurso (da história, da geografia, etc.). É tentar levar em conta as práticas sociais num determinado espaço, todas as relações entre uma cidade e seus usos, todos os usos que são práticas de classes sociais, mesmo sabendo que sempre haverá um filtro, ou filtros, entre a cidade e aquele que a percebe, e que este filtro tende a se tornar um cristal ideológico.

Tentar compreender a história de Fortaleza é correr esse risco. As conexões entre cidade percebida e cidade praticada, produzida, sonhada, desejada são inumeráveis.
Paulo Linhares é antropólogo e presidente do Instituto Dragão do Mar. Foto: Rodrigo Carvalho
Nessa perspectiva, encontrei na Praia do Futuro o meu campo de estudo para a pesquisa que desenvolvi durante o mestrado em Estudos Aprofundados em Antropologia Comparada, na Université de Paris V (Rene Descartes), que resultou no livro Cidade de Água e Sal: por uma antropologia do litoral do Nordeste sem cana e sem açúcar (Fortaleza: Armazém da Cultura, 2013).

Realizar um estudo de campo de Praia do Futuro só tem sentido se brincarmos com a atitude naturalista, adotarmos a sua premissa básica de que é necessário registrar meticulosamente todos os detalhes, porque eles representam o verdadeiro material da experiência.

Comecemos, tautologicamente, pelo começo: quem chega primeiro à Praia do Futuro, quase para um café da manhã, senão os caminhoneiros e os que moram mais longe, os que demoram mais tempo para chegar? Ali, na primeira fase da Praia do Futuro, onde a urbanização planejada ainda não deitou raízes, vemos um conjunto de barracas dispostas de forma sucessiva; lá, a frequência humilde prenuncia instantes normais, gostos simples, emoções cruas, ao som de velhas canções populares. A linguagem é igualmente volátil, multiplicando-se numa melopeia caótica. À medida que o dia avança, o sol esquenta. As famílias se esparramam pela areia, as conversas vão dos problemas domésticos (o fogão que entupiu, a hemorróida que estourou, o vizinho que pirou) para as novelas de tv, o crime passional, a sorte na loteria.

A pergunta colocada pelo quadro exposto é: de que modo atribuir sentido a este mundo minúsculo, despreocupado, sonolentamente matinal?

Como já assinalamos, tentamos afinar o olhar sobre o que não é culturalmente percebido, escrutar nas pequenas coisas o sinal de que há justamente alguma coisa a descobrir. Assim, para que este começo banal se ajuste a uma vasta armadura, é preciso pensar certas coordenadas temporais, que já se prenunciam: como observar a separação entre o tempo do trabalho e o tempo do repouso e suas divisões quase imperceptíveis.

Uma primeira observação deve merecer uma parada. Aqui, o que vemos é um outro tempo, um tempo civil, desregrado, que se separa do tempo convencional dos relógios. Trata-se, neste caso, de uma temporalidade cósmica, que destrói momentaneamente a temporalidade linear da história pessoal de cada um. Evidentemente, a grande gestão do lazer popular que o Estado, as empresas, a lógica do capital em si visam tornar concordantes é esta divisão temporal. Este tempo perdido é uma despesa já mensurada. Este princípio, um dos maiores do que chamamos modernidade, supõe a desmitologização, que significaria uma liberação total de todas as exigências do mito. Exigências que se reduziriam assim a uma só: a adequação entre o tempo da rotina, do trabalho, e o tempo do lazer, de forma a transformar tudo em um só tempo, uma espécie de tempo uniforme.
A Praia do Futuro, território de articulações e vivências plurais. Foto: Edimar Soares
Chegamos à hipótese de que nossa circulação polarizada - domicílio, rua, trabalho, domicílio - corresponde a uma circularidade cronológica, onde somente no domingo, nas festas, nos ritos de passagens (casamento, morte, nascimento, carnaval) haveria um rompimento provisório. Assim, o domingo supõe um presente sem tensões, uma suspensão do tempo do labor ("prima feria", "premier labeur", "segunda-feira").

Uma espécie de inversão se produz no domingo de praia: este tempo que é de festa, é também do reencontro com a natureza, que durante o outro tempo foi mantida à distância, porque inoportuna. Ora, desde 321, o Imperador Romano Constantino proibiu a semana hebraica e ordenou o repouso dominical em homenagem ao "venerável sol". A partir desta data e deste Imperador, a vida cotidiana do ocidente estabeleceu um itinerário, regulando a expansão e o recolhimento, o trabalho e o repouso, em que o trabalho é rompido apenas pelo ritmo regressivo da natureza.

Se há tanto tempo a coisa se passa verdadeiramente assim, o que mudou, essencialmente, neste retorno que vemos aqui na Praia do Futuro?

Nós tentaremos responder a esta questão, introduzindo uma nova questão: vivemos, hoje, uma naturalização da cultura. Longe desta naturalização, representar somente uma absorção da natureza pela cultura, ela introduz um tempo vivido no tempo cultural, que importa em uma série de transgressões sociais. Em outras palavras, este processo significa que se abriu um espaço a uma presença que só pode se produzir numa abertura física de um espaço e numa abertura mental, que se produz no quadro de uma certa disponibilidade ao outro.

Neste caso, a praia é para o corpo social o que a rua representa de uma maneira mais ampla: o lugar da possibilidade social do desvio, da transgressão do normal, do risco da mudança de tudo que parece definitivo. A suspensão da nossa condição diária de homem pré-ocupado.

Uma tal perspectiva de religação, que refunda o social no sentido religioso (religares), coloca a natureza, a praia, no caso de Fortaleza, como espaço que religa os homens ao cosmo e religa os homens entre eles. Trata-se de "insistir sobre o fato de que a natureza não é mais um simples espaço a explorar, mas que ela se inscreve mais e mais dentro de um processo 'paternarial'" . É neste sentido que ela não pode mais ser considerada estranha ao debate social; ela é certamente uma modulação específica do hedonismo contemporâneo.

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