Como o dinheiro privado financiou campanhas no estado do Ceará

Por Carlos Mazza (textos)

No próximo domingo, mais de 6,3 milhões de cearenses irão às urnas para eleger os próximos 22 representantes do Estado na Câmara dos Deputados. Marcada por ser a primeira a contar com um fundo público de financiamento de campanhas, a disputa deste ano ainda assim contou com financiamento expressivo de candidaturas por doadores privados.

De olho em ampliar a transparência e ajudar o eleitor a se informar sobre os candidatos à Câmara, O POVO realizou um levantamento especial sobre como o dinheiro de pessoas físicas entrou na campanha deste ano no Ceará.

Levantamento leva em conta 19 candidatos à reeleição no Estado, assim como três candidatos que têm apoio explícito de parlamentares que desistiram de disputar novo mandato.

Dados gerais

R$ 18,6 milhões

Foi o valor total levantado, até agora, pelos 22 parlamentares em busca de reeleição

R$ 17,4 milhões

Deste total veio por meio do fundo eleitoral, via partidos políticos

93,5%

De todos os recursos, portanto, vieram por meio de dinheiro público

10

Dos 23 candidatos pesquisados financiaram a campanha apenas com recurso público

Como funciona o Fundo Eleitoral

1- Criado pelo Congresso no ano passado, fundo sustentado por dinheiro público ajudou a financiar campanhas eleitorais na disputa de 2018.

2- Com valor total de R$ 1,7 bilhão, o fundo é repartido em Brasília de acordo com o tamanho da representação de cada partido no Congresso Nacional.

3- Depois, fica a critério do comando nacional dos partidos definir quanto será repassado para direções do partido nos estados, que definem então a doação para cada candidato.

O dinheiro privado

1) R$ 1,2 milhão do recurso de campanhas dos 23 candidatos analisados veio através de doações de pessoas físicas.

2) Desde 2016, são proibidas no Brasil doações de empresas (pessoas jurídicas) para campanhas eleitorais. Pessoas físicas, no entanto, podem doar seguindo limites estabelecidos em lei.

3) Na maioria dos casos, as doações feitas são de sócios ou até mesmo proprietários de grandes empresas dos mais diversos setores.

Quais são os setores em que atuam os maiores doadores

Familiares de candidatos: R$ 250,1 mil

Autodoação: R$ 186,5 mil

Siderúrgica: R$ 100,5 mil

Construção Civil: R$ 85 mil

Financeiras: R$ 75 mil

Saúde: R$ 65 mil

Água Mineral: 58 mil

Educação Privada: R$ 65 mil

Doação de correligionários: R$ 44,7 mil

Imobiliárias: R$ 25 mil

Empresas de Serviços: R$ 25 mil

Indústria Farmacêutica: R$ 15 mil

Seguradoras: R$ 10 mil

Empresas de Comunicação: R$ 10 mil

Financiamento coletivo: R$ 6,5 mil

Comércio: R$ 5 mil

Os candidatos do Ceará

Adail Carneiro (Pode) – R$ 700 mil

Ex-filiado do PP, migrou para o Podemos virando seu principal articulador no Ceará. Acabou usando da influência para garantir grande doação da sigla, que financia 100% da campanha.

Principais doadores:

- Direção Nacional do Podemos (R$ 700 mil)

André Figueiredo (PDT) – R$ 582 mil

Dirigente do PDT no Ceará, indica diversos pedetistas no governo estadual e ajudou a trazer clã Ferreira Gomes ao partido. Ex-ministro das Comunicações, recebeu doação de diretor do setor.

Principais doadores:

- Direção Nacional do PDT (R$ 500 mil)

- Daniel Pimenta Slaviero, ex-presidente da Associação Brasileira de Rádio e TV e diretor do SBT (R$ 10 mil)

- Francisco Jose Pontes Ibiapina, secretário de Trabalho e Desenvolvimento Social do Ceará por indicação do PDT (R$ 9 mil)

- Ricardo Pontes Celestino de Barros, dono da empresa de filtros d’água Superzon (R$ 5 mil)

Balman (PDT) – R$ 525,3 mil

É um dos principais articuladores de recursos do grupo político dos Ferreira Gomes nos bastidores. Homem de confiança de Cid e Ciro, já ocupou diversos cargos em gestões do clã.

Principais doadores:

- Direção Nacional do PDT (R$ 500 mil)

Cabo Sabino (Avante) – R$ 880,5 mil

Opositor de Camilo até 2017, se aproximou da base aliada no último ano. Recebeu R$ 200 mil do MDB, mas nega que repasse tenha articulação de Eunício Oliveira e relação com a “virada”.

Principais doadores:

- Direção Nacional do Avante (R$ 630 mil)

- Direção do MDB, em acordo com o comando nacional do partido (R$ 200 mil)

- Autodoação (R$ 40,5 mil)

- Sergio Suslik Wais, dono de uma empresa de seguros (R$ 10 mil)

Chico Lopes (PCdoB) – R$ 1 milhão

Deputado pelo PCdoB por diversos mandatos, recebeu expressiva doação do partido em R$ 1 milhão.

Principais doadores:

- Direção nacional do PCdoB (R$ 1 milhão)

- Autodoação (R$ 20 mil)

Danilo Forte (PSDB) – R$ 1 milhão

Eleito pelo MDB pela primeira em vez, já passou pelo PSB, DEM e PSDB, sempre em posição próxima do comando das siglas. Recebeu doação de sócios de três empresas da construção.

Principais doadores:

- Direção Nacional do PSDB (R$ 1 milhão)

- Marcelo Silva Montenegro, sócio da construtora Montenegro (R$ 15 mil)

- Eduardo Rodrigues Rolim, do grupo C. Rolim, com diversas empresas de construção civil e comércio (R$ 10 mil)

- Edson Lopes, da construtora Edson Lopes (R$ 10 mil)

Domingos Neto (PSD) – R$ 885 mil

Uma das principais lideranças do PSD a nível nacional, acabou tendo o prestígio revertido em grande repasse da sigla para a campanha.

Principais doadores:

- Direção Nacional do PSD (R$ 885 mil)

Genecias Noronha (SD) – R$ 700,7 mil

Um dos principais nomes do Solidariedade no País, ganhou grande repasse da sigla. Complementa a campanha o vice-prefeito de Parambu, parente do deputado.

Principais doadores:

- Direção Nacional do SD (R$ 690 mil)

- Luiz Alves Noronha Júnior, parente e vice-prefeito de Parambu, berço político do deputado (R$ 10,7 mil)

Gorete Pereira (PR) – R$ 2,4 milhões

Com articulação de Eunício Oliveira (MDB), Gorete foi fundamental em trazer o PR – um dos principais partidos da oposição até 2017 – para a base aliada de Camilo Santana.

Principais doadores:

Direção Nacional do PR (R$ 2,4 milhões)

Guimarães (PT) – R$ 901,8 mil

É um dos parlamentares mais influentes na direção nacional do PT. Assim como os outros dois deputados petistas, foi financiado basicamente por doações da sigla.

Principais doadores:

- Direção Nacional do PT (R$ 900 mil)

José Airton (PT) – R$ 900 mil

Ex-prefeito de Icapuí, é quadro histórico do PT cearense. Assim como os outros dois deputados petistas, foi financiado basicamente por doações da sigla.

Principais doadores:

- Direção nacional do PT (R$ 900 mil)

Leônidas Cristino (PDT) – R$ 548,4 mil

É dos deputados mais próximos do clã Ferreira Gomes no Estado, tendo inclusive sucedido Cid no comando da Prefeitura de Sobral. Recebeu ainda doação de empresário do município.

Principais doadores:

- Direção Nacional do PDT (R$ 500 mil)

- Custódio Gomes de Azevedo Neto, sócio da loja de eletrônicos Ibyte e da construtora Mãe Rainha (R$ 30 mil)

- Autodoação (R$ 11,4 mil)

Luizianne Lins (PT) – R$ 1 milhão

Ex-prefeita de Fortaleza, Luizianne foi a candidata mais prestigiada por recursos partidários entre os três candidatos do PT à reeleição.

Principais doadores:

- Direção Nacional do PT (R$ 1 milhão)

Macedão (PP) – R$ 0

Teve candidatura indeferida pela Justiça.

Moses Rodrigues (MDB) – R$ 1,5 milhão

Hoje dos deputados mais próximos de Eunício Oliveira (MDB) no Congresso, Moses garantiu grande repasse do partido para a campanha.

Principais doadores:

- Direção Nacional do MDB (R$ 1,5 milhão)

- Autodoação (R$ 50 mil)

Odorico Monteiro (PSB) – R$ 1,35 milhão

Ajudou a trazer o PSB para a base de Camilo Santana, migrando para o comando da sigla no Ceará. Ex-gestor do SUS no governo Dilma, recebeu R$ 15 mil de empresário da área.

Principais doadores:

- Direção Nacional do PSB (R$ 1,3 milhão)

- Jorge Raimundo Filho, sócio da GSK Farmacêutica (R$ 15 mil)

Raimundo Matos (PSDB) – R$ 1,1 milhão

Único deputado federal pelo PSDB no Estado, Raimundo é também o que tem mais diversificada origem de recursos, entre empresários de diversos setores.

Principais doadores:

- Direção Nacional do PSDB (R$ 1 milhão)

- Everardo Ferreira Telles, herdeiro do grupo Ypióca e dono de empresas de água mineral (R$ 58 mil)

- Celso Pinto Monteiro Filho, da imobiliária Pátio do Bem (R$ 25 mil)

- Bruno Fonseca de Oliveira, dono de uma escola de praticagem (R$ 25 mil)

- Eduardo Rodrigues Rolim, do grupo C. Rolim, que atua na construção civil e no comércio (R$ 20 mil)

- Ednilton Gomes de Soarez, de empresas de educação como a Universidade 7 de Setembro (R$ 10 mil)

Ronaldo Martins (PRB) – R$ 1 milhão

Pastor da Igreja Universal e representante maior do PRB no Ceará, mantém indicação no governo estadual. Recebeu ainda recursos do MDB de Eunício Oliveira

Principais doadores:

- Direção Nacional do PRB (R$ 842 mil)

- Direção Nacional do MDB (R$ 200 mil)

Vaidon Oliveira (Pros) – R$ 855,7 mil

Alçado a deputado federal após eleição de Moroni Torgan como vice-prefeito de Fortaleza, recebeu R$ 80 mil da campanha do opositor Carlos Matos, do PSDB.

Principais doadores:

- Direção Nacional do Pros (R$ 775,5 mil)

- Campanha de Carlos Matos (R$ 80 mil)

Pedro Bezerra (PTB) – R$ 313,1 mil

Filho do prefeito de Juazeiro e ex-deputado Arnon Bezerra, é apoiado pelo pai na disputa. Recebeu maior parte do financiamento via familiares e entidades que atuam na Saúde.

Principais doadores:

- Valério Roberto Faheina Júnior, sócio da Fundação Leandro Bezerra de Menezes, organização sem fins lucrativos que mantém UPAs em Juazeiro (R$ 65 mil)

- Francisco Furtado de Sousa Neto, da família do candidato (R$ 36,8 mil)

- José Mauro Sampaio Bezerra de Menezes, outro familiar (R$ 35,9 mil)

- Autodoação (R$ 30 mil)

- Arnon Bezerra, o pai do candidato (R$ 30 mil)

- Letícia Landim, cunhada do candidato (R$ 20 mil)

- Isabela Geromel Bezerra de Menezes, esposa do candidato (R$ 10,7 mil)

Mauro Filho (PDT) – R$ 315,5 mil

Secretário da Fazenda do Ceará e “número 1” da equipe econômica de Ciro Gomes, recebeu expressivas doações de empresas ligadas à siderurgia, tradicionais doadores do PDT no Estado.

Principais doadores:

- Paulo Tarso Rego de Lima, sócio do café Três Corações (R$ 100 mil)

- José Vilmar Ferreira, dono da empresa siderúrgica Aço Cearense (R$ 43,5 mil)

- Wander Jean Matos Ferreira, filho de José Vilmar (R$ 43,5 mil

- Gonçalinha Mororó Monteiro, matriarca de tradicional família política de Icó (R$ 40 mil)

- Georgeanne Santa Cruz Benevides, parente do candidato (R$ 25 mil)

- José Walfrido Mororó Monteiro, filho de Gonçalinha e dirigente da Codece (R$ 15 mil)

- Luiza Maria da Silveira Caminha, ligada à Aço Bom Preço (R$ 13,5 mil)

Mosiah do Moroni (DEM) – R$ 180 mil

Filho do vice-prefeito Moroni Torgan (DEM) e secretário da gestão Roberto Cláudio, possui apoio do prefeito inclusive com doações de membros da gestão municipal.

Principais doadores:

- Francisco Borges Neto, da Borges & Santiago Contabilidade (R$ 70 mil)

- Richard Wagner de Queiroz Ramos, dono de empresas ligadas à educação (R$ 30 mil)

- Christian Ferreira Melo, ex-secretário executivo do gabinete do prefeito Roberto Cláudio (R$ 25 mil)