Editorial

O período mais longo do ensino regular é também o período de transição da fase infantil para a adolescência. São muitas as transformações por que passam os estudantes nesta etapa. O ensino fundamental é, assim, um estágio de acolher de forma bem-sucedida, fazendo com que os alunos se sintam bem, em uma nova fase de seu desenvolvimento. É o momento em que profissionais e instituições devem se unir para repensar estratégias e vencer desafios - que sempre existirão, ao lidar com alunos com deficiências ou não.

Quando se trata de educação inclusiva no ensino fundamental, o assunto é vasto. A capacitação dos professores é tema mais cobrado assim como o preparo dos demais profissionais que atuam no ambiente escolar. Além dos recursos humanos, as ferramentas educacionais tecnológicas devem estar à disposição dos alunos para que eles utilizem os equipamentos a seu favor no processo de aprendizado.

O estudante com deficiência precisa de mais cuidados, mas não de assistencialismo. As diferentes tecnologias para trabalhar com esse público visa incluir e quebrar barreiras, não impor mais dificuldades no ensino. É para isso que as discussões se impõem. Essas barreiras, muitas vezes, nem são os recursos tecnológicos. São as próprias pessoas, como afirma Keila Chaves, em entrevista nas páginas 6 e 7.

Keila é mãe do David, hoje com 22 anos, diagnosticado com uma síndrome ainda não identificada que afeta a coordenação motora e a fala. Em sua longa história de luta a favor de incluir o filho não só na escola, mas na sociedade, ela tem enfrentado todas as adversidades possíveis para tirá-lo de casa. A escola não tinha aluno com deficiência? Agora teria, porque era direito dela matriculá-lo. Era dever da escola aceitá-lo. Keila mesmo voltou à escola só para aprender os direitos que o filho tem. Resultado: os dois, mãe e filho, concluem o ensino médio neste ano.

Assim como Keila, mostramos histórias de gente que se inclui e luta pela inclusão dia a dia. Como a educadora Muldiane, que se realiza ao trabalhar na área após tantos anos de sonho. Como os alunos Nathan e Ismael, que encontram na escola certa um meio de vislumbrar novas perspectivas. E como a menina Alice, que, aos 12 anos, vive seus vários mundos sem deixar que a síndrome a impeça de ser feliz. Por serem fases longas e essenciais, a adolescência e o ensino fundamental precisam ser também um momento rico de conhecimento e bons encontros. Para todos, sem exclusão.

Boa leitura!

Assista abaixo ao vídeo do programa Educação Inclusiva referente ao Caderno 2 do projeto, com entrevistas com especialistas:

Para acolher bem

Processo de acolher alunos nas escolas requer cuidados e estratégias. No ensino fundamental, estudantes com deficiência precisam do suporte adequado para fazer a transição da fase infantil para a adolescência

Por Lucas Mota

FOTO: Júlio Caesar/O POVO

O acolhimento do aluno com deficiência é peça-chave no processo de inclusão nas escolas, principalmente no ensino fundamental, quando a criança está em momento de construção. Neste período, o mais longo do colegial, o estudante vive a transição do infantil para a adolescência e adquire conhecimento da base curricular.
Em Fortaleza, mais de 6 mil crianças com deficiência são atendidas pela rede pública do Município. Para realizar o acolhimento bem-sucedido deste público, a Secretaria Municipal da Educação (SME) adota estratégias para garantir que a inclusão ocorra dentro das escolas, mantendo a integração entre o aluno especial, a família, os professores, os gestores e os demais estudantes.

A Capital tem 291 colégios do ensino fundamental, todos aptos para receber meninos e meninas com algum tipo de disfunção intelectual, física, auditiva, visual e múltipla, transtorno global do desenvolvimento (TGD) e altas habilidades. Segundo o gerente da Célula de Desenvolvimento Curricular da SME, Wesley Rocha, quando o aluno com deficiência busca realizar a matrícula, ele passa por uma entrevista junto com a família e professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE).

O contato inicial é fundamental para a introdução do estudante ao novo ambiente. “É realizada toda uma avaliação pedagógica do aluno para orientar os professores da sala de aula para que possam propor atividades que desenvolvam as deficiências específicas de cada um”, explica. Wesley atenta para o cuidado em tratar cada estudante com deficiência por suas especificidades, focando em suas qualidades.

“É um atendimento individual. É feito um plano para cada aluno focado na aprendizagem e no desenvolvimento. Isso é fundamental porque temos que olhar para cada criança como um indivíduo que tem suas potencialidades”, afirma. As escolas de ensino fundamental do município têm 159 Salas de Recursos Multifuncionais (SRV). Os equipamentos voltados exclusivamente para o público com deficiência funcionam no contraturno da escola e contam com mobiliário, materiais didáticos e pedagógicos, recursos de acessibilidade e estruturas específicas para o atendimento.

Efetividade no aprendizado

FOTO: Júlio Caesar/O POVO

Garantido por lei, o aluno com deficiência tem direito de estudar em uma escola regular. Uma vez este estudante na sala de aula de comum, é necessário pensar em estratégias e recursos de acessibilidade, defende a professora Adriana Limaverde, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC). A criança, conforme a docente, precisa se sentir segura nos espaços de aprendizagem e ganhar autonomia.

Para Adriana, já houve uma grande evolução no acesso da criança com deficiência à escola, mas ainda é preciso crescer na questão da efetividade do ensino. “Acredito que não há uma universalização dessas Salas de Recursos Multifuncionais (SRM). Não existe 100% das escolas públicas do município de Fortaleza que ofereçam esse AEE. O principal desafio das escolas é garantir condições. Elas já estão nas escolas, mas estão aprendendo? Pesquisas mostram que nem sempre nem todas se desenvolvem”, afirma.

A professora Rita Vieira de Figueiredo, aposentada da Faculdade de Educação da UFC e PhD em psicopedagogia, argumenta que o desafio da escola no acolhimento é o mesmo para oferecer um ensino de qualidade para todas as crianças, com ou sem deficiência. O atendimento adequado na educação inclusiva passa pelo respeito aos ritmos e diferenças de cada estudante, além da criação de práticas didáticas motivadoras e diversificadas. A docente defende uma mudança na filosofia das escolas, saindo da premissa competitiva para a colaborativa.

Dessa forma, é possível avançar no campo da inclusão na educação para todos. “O currículo precisa ser organizado de forma que ofereça as mais diversificadas propostas. Os ritmos das crianças devem ser respeitados. Tudo o que deve ser trabalhado na escola, enquanto orientação, aprende mais no contexto da colaboração, e as crianças devem colaborar entre elas”, ressalta Rita. Os equipamentos escolares são pontos importantes também ressaltados pela professora. Os espaços de aprendizagem, de fato, devem ser usados. O aluno com deficiência precisa do acesso aos recursos de ensino.

Entretanto, apenas o alcance não basta. “Falo de uma escola que tem material pedagógico, prevê espaço físico adequado para que os professores possam trabalhar, que têm bibliotecas que possam ser utilizadas pelas crianças. Estou falando de uma escola real, não imaginária. Nós temos já algumas escolas que têm todo esse equipamento, mas ele precisa ser utilizado. O que tem na escola é para ser usado, não para ser guardado”, lembra a professora.

Bullying é desafio na educação inclusiva

FOTO: Júlio Caesar/O POVO
 

O bullying é um sério problema enfrentado no interior do universo escolar. A vítima pode sofrer agressão física, desde empurrões a socos, difamação e até ser obrigada a passar por situações constrangedoras e humilhantes. No âmbito da educação inclusiva, um dos desafios da escola é promover a integração do aluno especial com os demais colegas, sem que haja barreiras e preconceitos, com respeito às diferenças. E o bullying é uma preocupação a mais no acolhimento e na inclusão do estudante com deficiência.

O gerente da Célula de Desenvolvimento Curricular da SME, Wesley Rocha, destaca um fato interessante percebido nas escolas municipais do ensino fundamental. O profissional explica que alunos sem deficiência têm a iniciativa e o cuidado de ajudar aqueles que possuem algum tipo de disfunção. “A gente percebe que a grande maioria dos alunos com deficiência não passa por essa situação. O bullying é um assunto muito delicado na escola, que envolve todos os alunos e professores. Precisamos estar atentos o tempo todo cuidando disso para que não traga nenhum trauma para essas crianças”, afirma Wesley.

A rede municipal de ensino de Fortaleza busca combater o bullying por meio de ações da SME. O Projeto Em Paz desenvolve iniciativas em três eixos: fortalecimento organizacional, promoção da cultura de paz e resolução de conflitos que se agravaram. De acordo com o Wesley, as escolas vêm fazendo um trabalho sistemático para diminuir esses impactos negativos do bullying. “Existem vários tipos de deficiência. Algumas, como a deficiência intelectual, é menos perceptiva para outros alunos, o que pode acarretar em bullying. Mas estamos atentos a este tipo de situação nas escolas”, comentou.

Capacitação de professores é fundamental

FOTO: Júlio Caesar/O POVO

O papel do docente é fundamental para o acolhimento da criança com deficiência na escola. A educação inclusiva prevê dois tipos de professores à disposição desses estudantes. Portanto, a formação e a capacitação dos profissionais se tornam tão importantes para que o desenvolvimento do aluno ocorra em sala de aula. O professor comum atua na sala de aula. Há ainda o docente exclusivo do Atendimento Educacional Especializado (AEE).

“No que diz respeito à formação desses professores, vale destacar que aqueles que atuam na sala comum sejam pedagogicamente bem preparados para atender qualquer criança no contexto das diferenças. Não precisa de formação específica quanto à deficiência”, explica Rita Figueiredo.

O desafio do docente na sala de aula comum é tornar o ensino interessante e desafiador e possa favorecer aos diferentes ritmos e estilos de aprendizagem de todas as crianças. Todavia, o professor do AEE, que atua nas Salas de Recursos Multifuncionais (SRM), é capacitado para entender sobre as estratégias de aprendizagem e conhecer as diferentes tecnologias assistivas para trabalhar exclusivamente com o estudante com deficiência, no sentido de quebrar as barreiras das dificuldades do ensino.

“Ele é especialista nessa abordagem e capaz de realizar um estudo de casa, identificar barreiras. É um conhecimento específico voltado para ajudar na aprendizagem da criança. É muito importante para uma cooperação ao ensino comum”, esclarece.

"As barreiras são as pessoas"

Por Wagner Mendes

FOTO: Júlio Caesar/O POVO

Keila Chaves, de 50 anos, é mãe do David Chaves, de 22 anos. Com uma síndrome ainda não diagnosticada, e que afeta a fala e a coordenação motora, David é instrumento de inclusão da fundadora do Centro de Apoio a Mães e Pais Portadores de Eficiência (Campe). O exercício de tirá-lo de casa, mesmo que com dificuldade, é política de inclusão para outras mães que passam pelas mesmas dificuldades e que não enxergam a possibilidade de transformação.

David já fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para estimular o Ministério da Educação (MEC) a se adequar para receber candidatos com deficiências semelhantes, e costuma sair muito de casa. A inserção do filho na escola acabou inserindo Keila de volta ao ensino médio para concluir a formação. Os dois concluem o ensino médio ainda neste ano. A rotina é exercício de cidadania.
O POVO - O que é o Campe e como ele surgiu?

Keila Chaves - É uma organização de mães que tinha esse direito negado, a educação, e a gente nem sabia ainda que tinha esse direito. A gente se conheceu numa instituição dita especial e nessa instituição uma professora me deu a declaração de Salamanca, que aí foi quando eu percebi que a escola regular recebia, que a declaração explicava o direito da criança com deficiência ao ensino regular. A indignação por saber que eu estava desinformada, que eu fui enganada nos levou à luta por esse espaço da escola. Começamos a fazer mobilizações e chamar a atenção da sociedade por esse direito, teve ato no Terminal da Parangaba quando a gente panfletou sobre a declaração, e esse ato chamou atenção de alguns órgãos, como o Cedeca (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente) que veio nos conhecer e nos fortalecer. Em 2005, nós estávamos matriculando 20 crianças com deficiência no ensino regular porque até a dita instituição especial não recebe a todos. A nossa realidade era de pessoas a quem estava sendo negado o acesso mesmo a qualquer espaço. Entramos na escola com todos eles. A nossa chegada na escola foi aterrorizante para a escola.

OP - O que avançou de lá pra cá?

Keila - De 2003 para cá, foram muitas conquistas que a gente nem sonhava que fosse conseguir. Um mundo se abriu. Começamos a participar da Comissão de Defesa do Direito à Educação de Redes e se formar nesses espaços. Começamos a monitorar o orçamento do Estado para essas políticas, sobre o direito à educação. Continuamos com as panfletagens pela cidade, fizemos concurso de redações sobre o tema nas escolas, várias atividades, e o resultado foi que aqui em Fortaleza a gente já tem a semana pela educação inclusiva adotada pelo município. Conseguimos também a antecipação da matrícula. Essa garantia da matrícula é para que a escola se preparasse para receber aquele aluno. A própria política nacional, que é o marco nacional de educação inclusiva, que é oriundo também aqui do Ceará. A gente participa de todas as audiências sobre o direito à educação, participamos do Plano Municipal de Educação, da construção do primeiro plano, do PNE (Plano Nacional de Educação) a partir das conferências, sempre tirando delegados. Também fazemos parte da campanha nacional pelo direito à educação via comitê Ceará, que é articulada também com a Ação Global. A sociedade ainda não reconhece a educação como um direito, ainda é como um privilégio. Se reconhecesse como um direito, a gente não precisaria do termo “inclusivo”. Luto para que a educação não precise desse termo futuramente.

OP - Quanto tempo as pessoas com deficiência ficam na escola?

Keila - Essa questão foi um desafio. A gente não teria permanecido nem um ano na época. Hoje não, a gente já tem um trabalho que é pronto. A educação especial (na época) era justamente mostrando a negligência do governo em relação a esse segmento. Os pais começaram a fundar associações, organizações não governamentais e começaram a fazer o que era o papel do governo. Hoje está tendo essa progressão. Meu filho David entrou na educação infantil. Ele não fala, não escreve. Quando ele passou para o fundamental, foi um desafio. Cada etapa é um desafio. Então, o que eu vi foi um profissional diferente nessas etapas. Na educação infantil, eu via essas crianças negligenciadas porque o profissional que estava lá ele não demonstrava ter a preparação, parecia não estar com a formação que é exigida. Quando passei para o fundamental 1, já vi uma melhoria nesse profissional, no fundamental 2 mais ainda, e agora no ensino médio mais ainda. Foi uma diferença que eu percebi, que aí a gente vê a negligência com as crianças da educação infantil, que na época, em 2004, parecia uma coisa improvisada.

OP - Qual o principal desafio das escolas nesse processo de construção e desconstrução? Keila - De não reforçar os medos. Você acaba reforçando os medos, os paradigmas que existem. Até para a própria família, de que o filho é de vidro. A escola muitas vezes reforça, da forma como está trabalhando, que realmente não dá para colocar no coletivo. Eu digo que o trabalho da inclusão hoje não é com foco na pessoa com deficiência, o olhar da escola tem que ser nas diferenças. Ela traz essa qualidade para a educação, de que somos todos diferentes. A escola sempre trabalhou com o homogêneo, o aluno que tira 10, aquele que não tira não está apto. Só que a educação inclusiva está nesse olhar das diferenças, que todos temos potencialidades e dificuldades. Focar a questão do indivíduo no coletivo para atender essas necessidades, para que ele vá se equiparando, mas não é só o deficiente, como a gente percebe esse erro de pensar que o foco é no deficiente. E não é com esse olhar de piedade, de pena. É algo para ir se desconstruindo.

OP - Qual contribuição que vocês deram à escola privada?

Keila - Na escola privada, (o problema) é essa relação da educação como direito, e não como mercadoria. A gente entende que quem se propôs a prestar esse serviço de educação responde pela mesma legislação que a pública. A escola privada já vinha incluindo pessoas com deficiência, mas a realidade da cobrança, exacerbada pela deficiência, era uma relação de discriminação do mesmo jeito. Porque se eu presto um serviço escolar (às crianças sem deficiência), geralmente eu não cobro do outro pai a auxiliar que vai limpar o banheiro, não cobro. Mas à pessoa com deficiência eles estavam cobrando pelo profissional que ia ficar com aquela criança na sala, eles não estavam fazendo a inclusão mesmo. Tem caso que precisa mesmo (do cuidador), mas tem que ter muito cuidado para aquela criança não ser excluída. Cobrava-se um salário mínimo daquela família, tanto que saiu uma resolução do Município, da qual a gente participou junto com o sindicato das escolas. Isso foi muito debatido, confrontado, mas a gente conseguiu essa vitória. Não pode ter nenhum tipo de discriminação. Isso se configura como discriminação.

OP - Qual ponto fundamental ainda é um desafio para manter esse segmento na educação?

Keila - A questão cultural. Ainda é. O que a gente percebeu, em cada escola que a gente chega, é que é como se estivesse reiniciando aquele processo de 2004. Só para você ver uma realidade, ainda temos sala especial para deficiente nas escolas. Quando meu filho saiu do 9º ano, eu imaginei que começaria tudo de novo. Procurei conhecer as escolas mais próximas. Cheguei em uma, tinha sala de AEE (Atendimento Educacional Especializado), na outra não, tinha sala especial, eu disse: “Eu venho pra essa, meu desafio vai ser justamente dar esse significado a essa escola, não é mais pra ter essa sala, porque ainda persiste com isso”.

Declaração de Salamanca

Documento elaborado na Conferência Mundial sobre Educação Especial, em Salamanca, na Espanha, em 1994, com o objetivo de fornecer diretrizes básicas para a formulação e reforma de políticas e sistemas educacionais de acordo com o movimento de inclusão social. A Declaração de Salamanca é considerada um dos principais documentos mundiais que visam à inclusão social, ao lado da Convenção de Direitos da Criança (1988) e da Declaração sobre Educação para Todos de 1990. Ela é o resultado de uma tendência mundial que consolidou a educação inclusiva, e cuja origem tem sido atribuída aos movimentos de direitos humanos e de desinstitucionalização manicomial que surgiram a partir das décadas de 1960 e 1970.

Mais alunos no ensino médio

Assessora técnica da Educação Especial da Seduc, Gêwada Weyne, afirma que avanços como a Lei Brasileira de Inclusão e as Salas de Recursos Multifuncionais contribuíram para o aumento do número de alunos com deficiência no ensino médio

Por Lucas Mota

FOTO: Júlio Caesar/O POVO

O ensino médio é a reta final do estudante antes de entrar na faculdade em busca da profissionalização. É um caminho longo para os alunos com deficiência. Muitos podem ficar pelo caminho diante de dificuldades, barreiras e preconceitos, caso o ambiente escolar não esteja preparado para o acolhimento. Pesquisas indicam que, neste período, as matrículas e a permanência deste público na escola caem consideravelmente.

A rede estadual do ensino público no Ceará, entretanto, consegue se sobrepor às dificuldades. Segundo a professora Gêwada Weyne, assessora técnica da Educação Especial da Secretaria da Educação do Estado (Seduc), a presença de alunos com necessidades especiais aumentou nas escolas estaduais. “A gente tem percebido o ingresso maior no ensino médio do aluno com deficiência em detrimento de outros anos. Acontece por alguns fatores, como a LBI (Lei Brasileira de Inclusão), o aparecimento das Salas de Recursos Multifuncionais (SRM) há três anos, a questão da obrigatoriedade do profissional de apoio em sala de aula, que dá suporte maior ao aluno. Isso está fazendo com que aluno chegue mais ao ensino médio”, afirma.

Os principais desafios, relata a professora, estão nas barreiras arquitetônicas e atitudinais ainda presentes no ambiente escolar. Mas o principal deles é a resistência dos pais. A avaliação anual do Ministério da Educação (MEC) aponta que o maior responsável pela ausência de estudantes com deficiência nas escolas são os próprios familiares. “A resistência dos pais na questão da inclusão ocorre por medo, por não saber se os filhos serão bem assistidos. Há outros fatores associados, como não ter transporte escolar, não possuir uma cadeira de rodas ou não morar perto da escola”, explica a assessora técnica da Seduc.

Gêwada conta que a maioria dos alunos já entra no ensino médio vindo de uma experiência de acolhimento no ensino fundamental. Quando ocorre de ser um estudante novo na inclusão, o profissional de apoio faz o primeiro contato e ajuda na construção de uma rede com conexões entre o aluno, os familiares, professores e gestores da escola. A rede estadual tem atualmente 5.438 alunos matriculados com algum tipo de deficiência como cegueira, baixa visão, surdez, deficiência auditiva, surdocegueira, deficiência física, deficiência intelectual, deficiência múltipla, autismo, transtorno global do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação.

O atendimento ocorre da educação infantil (comunidades indígenas) ao ensino médio, em escolas regulares e especializadas, como o Instituto dos Cegos e o Instituto Cearense de Educação de Surdos, dotados de profissionais capacitados e habilitados para ensinar aos alunos que têm estas deficiências específicas.

De acordo com a Seduc, a pasta tem investido esforços em melhorias para o atendimento da educação inclusiva. Entre as ações adotadas, estão a reorganização das propostas pedagógicas específicas, o redimensionamento dos serviços de apoio à inclusão como contratação de intérpretes para surdos, e a formação continuada de professores para a otimização do atendimento educacional especializado, efetivando a política da educação inclusiva.

Matrículas no ensino médio representam menos de 1%, segundo pesquisa

FOTO: Júlio Caesar/O POVO
 

Estudo do Instituto Unibanco reconhece um crescimento triplicado de alunos com algum tipo de deficiência no ensino médio nos últimos dez anos, no Brasil. Porém a pesquisa indica que é a etapa que possui o menor número de estudantes incluídos proporcionalmente. Na primeira parte do ensino fundamental, os estudantes especiais representam 2,9% do total de matrículas. Na segunda, a porcentagem cai para 1,8%, chegando a 0,8% do total, representando cerca de 62 mil matrículas.

De acordo com o estudo, entre os entraves encontrados no ensino médio, está o próprio modelo desta etapa do ensino, com muitas disciplinas e voltado à preparação para o vestibular. Outro fator existente é a cultura da reprovação, que impede a chegada de estudantes com deficiência nas séries mais avançadas.

Equipamentos de suporte do Estado à educação especial

- 178 Salas de Recursos Multifuncionais (SRM): Espaços físicos localizados nas escolas, dotados de mobiliário, materiais didáticos e pedagógicos, e equipamentos específicos para o atendimento aos alunos, no contraturno da escola. O professor tem como função realizar esse atendimento de forma complementar ou suplementar à escolarização, considerando as habilidades e as necessidades específicas dos estudantes.

- 8 Núcleos de Atendimento Pedagógico Especializado (Nape): Espaços equipados com recursos materiais e equipe multidisciplinar composta de pedagogo, assistente social, psicólogo, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional, em funcionamento nas escolas estaduais.

- 1 Centro de Referência em Educação e Atendimento Especializado do Estado do Ceará (Creaece): Oferece serviços de Atendimento Educacional Especializado, de apoio pedagógico específico e formação nas diferentes áreas da educação especial como curso de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e de Intérprete de Libras. A Seduc organizou a revisão e a impressão do material didático de apostilas para o Curso de Libras.

A realização de um sonho

A educadora Muldiane Pedroza, após passar por vários cargos, sentia que havia uma missão especial a cumprir. Hoje, ajudando alunos no desenvolvimento de suas potencialidades, ela se realiza profissionalmente e, dia a dia, conquista seu sonho

Por Isabel Costa

FOTO: Júlio Caesar/O POVO

Professora, coordenadora, diretora e secretária de Educação no Interior foram funções assumidas por Muldiane Pedroza, 45 anos, em sua jornada nas escolas. Os vários cargos ocupados estiveram sempre acompanhados por um desejo mais forte: trabalhar com educação inclusiva. A educadora percebia que o lugar onde mais se realizaria era onde pudesse trabalhar as potências de alunos com deficiências, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades/superdotação.

O trabalho travestido de sonho se realizou há três anos, quando ela assumiu cargo na Escola de Ensino Fundamental e Médio Professor Paulo Ayrton de Araújo, no bairro Cajazeiras, em Fortaleza. O percurso traçado por Muldiane foi uma formação múltipla: especializações, cursos de libras e braile, formações livres, congressos, seminários e mestrado. “Muitos anos de estudo e preparação esperando uma oportunidade”, pontua a educadora, que agora tem a chance de colaborar com a formação de estudantes na Sala de Recursos Multifuncionais (SRM) e no Núcleo de Apoio Pedagógico Especializado (Nape).

Além dos alunos da escola, ela pode acompanhar estudantes de 36 outras instituições. Todo o esforço de Muldiane para buscar formação específica foi recompensado. A alegria dos seus dias é perceber a evolução progressiva de jovens que chegaram até a escola com dificuldades. Quando um estudante tem o primeiro contato com as estruturas especializadas da escola, cabe à educadora projetar um plano de trabalho para reduzir limitações e melhorar o nível de aprendizagem.

“Nós temos psicólogos, terapeutas ocupacionais, pedagogos e fonoaudiólogos a disposição, além de diversos recursos de acessibilidade. O tratamento consegue fluir”, aponta. A formação específica e consistente de Muldiane não é impedimento para atuar em outros campos e funções do setor educacional. Pois agora, segundo ela, conseguiu perceber que o trabalho com a Educação Inclusiva precisa ser realizado em todos os lugares da escola – e não apenas nos setores especializados. “Afinal, Educação Inclusiva precisa ser realizada na educação em todos os seus níveis e setores”, conclui.

Os vários mundos de Alice

A rotina de Alice não tem espaço para limitações. Ela estuda, canta, sapateia, faz teatro e se diverte com os amigos, como qualquer menina aos 12 anos de idade. A Síndrome de Down faz com que a família tenha mais cuidados, mas não a impede de viver bem e feliz

Por Isabel Costa
FOTO: Júlio Caesar/O POVO

Alice Peres tem 12 anos, faz aulas de teatro, estuda canto e adora sapateado. Na escola particular onde estuda, prefere matemática, que considera uma matéria muito divertida. Alice também faz aulas de piano e já subiu ao palco diversas vezes em apresentações musicais. Na rotina dela ainda cabe a atividade como modelo. Tem naturalidade diante das câmeras e sempre é convidada para desfiles. Alice tem cabelos longos e castanhos, sorriso fácil e simpatia contagiante. Outra característica da menina é a trissomia 21, popularmente conhecida como Síndrome de Down. A condição é apenas uma parte do conjunto de talentos, alegrias e atributos de Alice.

Por meio da rede social Instagram, a rotina da adolescente ficou conhecida entre milhares de pessoas. A mãe, Alessandra, costumava postar fotos mostrando as múltiplas atividades que Alice desenvolve tão bem. Amigos e familiares foram os primeiros a pedir um perfil específico para o conteúdo. São quase dez mil inscritos no perfil @mundodealice. “Ela participa de tudo o que é postado, mas sou eu que fico à frente”, explica Alessandra, alertando para um cuidado que todas as mães precisam ter. Alice nasceu artista e foi incentivada pela família a seguir esse caminho.

“Hoje ela está mais envolvida com o teatro musical, onde ela se realiza quando está nos palcos se apresentando. Faz teatro musical, sapateado, canto e piano na The Biz Escola de Artes”, conta Alessandra, orgulhosa. A rotina de ensaios e aulas, entretanto, não atrapalha os estudos regulares, diz a mãe. O ritual é o mesmo de outros estudantes: frequentar as aulas, fazer trabalhos com outros alunos, estudar para as provas, aguardar as notas, passar de ano e ter as merecidas férias.

“No Ensino Infantil é tudo mais fácil, pois o desenvolvimento é individual e cada criança vai aprendendo no seu tempo. Já no Ensino Fundamental, eles têm que aprender no tempo estipulado pela escola, fazer provas e cumprir metas. Aí, sim, começa a dificultar, e as escolas e professores têm que fazer adaptações para um melhor aprendizado”, explica a mãe, tranquila e confiante sobre as escolhas. Alice, conta Alessandra, conseguiu boa adaptação em todas as escolas por onde passou.

“Até hoje não tive dificuldade, sempre procurei uma escola que visse a criança como criança e que a estimulasse independentemente da síndrome”, pontua a mãe. Todas as possibilidades de uma escola Muitas histórias se cruzam na Escola de Ensino Fundamental e Médio Professor Paulo Ayrton de Araújo, no bairro Cajazeiras, em Fortaleza. A instituição tem dois diferenciais: Núcleo de Apoio Pedagógico Especializado (Nape) e Sala de Recursos Multifuncionais (SRM). É nesses locais que estudantes com deficiências, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades/superdotação recebem atenção de profissionais especializados. Mas as narrativas que perpassam os dois lugares vão muito além de aspectos como fala, mobilidade e aprendizagem.

As duas unidades têm fonoaudiólogos, pedagogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais prontos para auxiliar alunos de 36 escolas estaduais em suas jornadas de crescimento educacional e superação de desafios cotidianos. É lá onde Antônio Nathan Alves da Silva, 19 anos, que tem dificuldade de aprendizagem e dificuldade de fala, entendeu que a escola é também um lugar de possibilidades e avanços. Quando chegou à unidade escolar, há dez anos, era violento e tinha difícil trato com professores e colegas. Hoje, no 2º ano do ensino médio, ele consegue vislumbrar perspectivas.

“Quero fazer uma faculdade. Ainda não sei qual, mas quero estudar”, conta. A irritação com outros estudantes e educadores foi substituída pela calmaria de quem deseja estar na escola. Todos os dias, o jovem caminha sozinho até lá, na certeza de encontrar amizade e o conforto dos estudos. A instituição também representa lugar de aprendizagem e crescimento pessoal para Ismael da Silva Nobre, do 8º ano do Ensino Fundamental, diagnosticado com deficiência intelectual. Antes de chegar a “Paulo Ayrton”, como a escola é conhecida, ele sentia repulsa de livros e cadernos. Passou por diversas instituições de ensino e não houve adaptação.

“Não gostava de estudar de jeito nenhum, agora gosto e muito”, conta o aluno de 16 anos. Há dois anos, quando foi matriculado na instituição, Ismael considerava o futuro como algo distante, quase inatingível. Agora, enxerga suas próprias possibilidades. E quer entrar logo no mercado de trabalho. “Quero terminar os estudos, entrar em uma boa empresa e trabalhar muito”, diz o aluno. Afinal, para cada indivíduo, a escola é capaz de construir uma possibilidade diferente.

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