Editorial

Há algum tempo a luta era pelo acesso à educação em seus níveis mais básicos. O direito de aprender, de conviver com as outras crianças, de ter acesso a todas as etapas de ensino e aprendizado que todas as crianças têm como um direito, não como um favor. A batalha se intensificou, ganhou repercussão e hoje já celebramos uma quantidade considerável de alunos com deficiência nas faculdades, tendo a oportunidade de fortalecer a sua formação como qualquer outro indivíduo.
Os desafios são inegáveis - os recursos tecnológicos pedagógicos, as ações de acessibilidade, o acolhimento adequado, a propalada formação de professores, tão necessária para atender um público que clama por uma formação apropriada. Há muito a ser feito, e os especialistas ouvidos neste caderno admitem que ainda há falhas no processo. 

No entanto, celebram os números. Afinal, a quantidade de alunos com deficiência aumenta nas instituições de ensino superior como fruto de conquistas históricas que não devem ser esquecidas, mas estimuladas. Com este terceiro caderno, o projeto Educação Inclusiva encerra um ciclo de debate que espera ter gerado discussão e reflexão em diferentes meios. A ideia tem sido contar boas histórias e, por meio delas, mostrar que é possível transpor barreiras em prol de uma sociedade mais inclusiva e ir de encontro a uma onda de exclusão que é tóxica para todos. As discussões e a luta são contínuas, porque ainda é preciso educar toda uma sociedade para bem acolher e respeitar o outro.

Bom é saber que há gente disposta a transformar mentes e ações, mostrando que o preconceito deve ser combatido e que todos, sem distinção, têm o direito de conviver, de se socializar e de passar por todo o processo da educação formal se assim quiserem. Não é favor algum que prestamos. É mais uma ação rumo a uma sociedade, de fato, inclusiva.

Assista abaixo ao vídeo do programa Educação Inclusiva referente ao Caderno 3 do projeto, com entrevistas com especialistas:

 

Formação de professores é desafio no ensino superior

Especialistas acreditam que formação de docentes apresenta falhas e apontam soluções

Por Lucas Mota

O número de matrículas de pessoas com deficiência no ensino superior tem crescido a cada ano no Ceará. Na Universidade Federal do Estado (UFC), mais que dobrou a quantidade de alunos com deficiência de 2017 para 2018, saindo de 88 para 219. O avanço na presença deste público nas faculdades é resultado de conquistas históricas como a Política Nacional de Educação Especial (2008) e a Lei Brasileira de Inclusão (2015), e mais recentemente a inclusão de estudantes especiais no sistema de cotas.

Para o atendimento adequado e inclusivo, é necessário que os professores estejam preparados para lidar com este público. Um dos principais desafios no âmbito do ensino superior é a formação de docentes. Diferente da obrigatoriedade de disciplina voltada para a educação especial na graduação de cursos de licenciatura, a grade curricular dos mestrados e doutorados, formações exigidas para a atuação do professor em universidades, não inclui tal matéria.

Segundo a professora Selene Penaforte, uma das principais referências na área de educação inclusiva, existe uma preocupação sobre o currículo proposto pelas universidades, motivada pela cobrança do Ministério da Educação (MEC). “Quando o MEC vai aprovar um curso, ele cobra disciplinas de atenção ao aluno com deficiência. Então, essas disciplinas se impõem por uma necessidade legal”, afirma ela, que é conselheira do Conselho Estadual de Educação e doutora em Educação (UFC).

Entretanto, para a professora, a oferta sobre educação inclusiva na grade curricular ainda é pouca para a formação de docentes, principalmente para aqueles que vão atuar no ensino superior. “Há falha. A gente pode perceber porque, de vez em quando, escuta casos. Professores, que, por essa falta de formação, tomam medidas preconceituosas, mesmo sem ter intenção. Por exemplo, planejam suas aulas sem levar em conta a necessidade daquele aluno especificamente. Quando o professor planeja uma atividade, se ela não comporta o seu aluno com deficiência, ele deve repensar, porque não está tendo uma postura inclusiva, mas excludente”, comenta a especialista.

Vale ressaltar, de acordo com a professora Selene, que o professor nas universidades não precisa ser um especialista, mas é necessário ter o apoio adequado para trabalhar da melhor forma com os seus alunos com deficiência. A professora explica que já é comum encontrar nos centros de ensino superior setores específicos para atender ao universitário com necessidades educacionais especiais e, consequentemente, ajudar o docente.

“No caso da UFC, existe a Secretaria de Acessibilidade. Eles possuem o aparato necessário ao professor. É o ideal ter esse formato”, explica. A ajuda ao professor vem de um especialista, que vai indicar a melhor forma de o docente se portar, o melhor local para o aluno com deficiência sentar, como deve ser a prova, entre outros suportes. Coordenador do curso de Pedagogia do Centro Universitário 7 de Setembro (Uni7), o professor Marco Aurélio de Patrício Ribeiro explica que, na prática, as universidades estão capacitando seus professores de acordo com a demanda.

“Para professor de ensino superior, a formação basicamente, além da própria graduação, inclui o mestrado e é muito mais voltada para formar para o ensino e para pesquisa. A preparação do professor no ensino superior para lidar com a inclusão é totalmente falha.” O professor elenca frentes que poderiam melhorar o cenário. “No Mestrado ter preparação para isso, que as instituições continuem capacitando seus professores e que haja possibilidade de especialização. Em poucos anos, a gente vai ter um ensino superior brasileiro capacitado a lidar com a questão inclusão”, diz ele.

Sistema de cotas atrai alunos com deficiência para as universidades

Por Wagner Mendes

As universidades públicas do Ceará, tanto a Estadual quanto a Federal, adotaram recentemente o sistema de cotas para inserção de pessoas com deficiência no ensino superior. A UFC saiu de 88 alunos em 2017 para 219 em 2018. O crescimento só foi possível, também, pelo modelo de cotas adotado pela instituição.
Na Uece, que tem 35 alunos com deficiência, pelo menos 3% dos novos estudantes integrarão esse público-alvo a partir do vestibular 2019.1. A utilização do método de inclusão também foi por meio de lei aprovada pela Assembleia Legislativa no ano passado. O ingresso apenas, porém, não é suficiente para a integração social completa. É preciso dar condições de aprendizagem para esses alunos e de produção científica.

O caminho se inicia a partir de investimentos públicos e experimentos que só são percebidos com a rotina. A professora Vanda Leitão, coordenadora da Secretaria de Acessibilidade UFC Inclui, explica que, com as cotas, o principal problema de ingresso foi "minimizado". O desafio agora é o "acolhimento" desses estudantes. "Por que é um desafio grande? Porque as universidade também só vêm investindo nessas políticas muito recentemente. A política do MEC (Ministério da Educação) é de 2005", pontua a coordenadora.

Apenas em 2012 é que as universidades foram incentivadas a criar o próprio núcleo de acessibilidade para a inclusão. A UFC criou a sua secretaria de acessibilidade em 2010. É por meio da secretaria que as experiências de cada estudante são democratizadas com objetivo de melhorar as condições de acessibilidade, aprendizagem e inserção no mercado de trabalho.

"O desafio é estruturar fisicamente a universidade, mas também é fazer o acompanhamento pedagógico, o conhecimento e a informação. Quando a gente fala em formação profissional na graduação, tem que falar da formação do professor para acompanhar essas pessoas, de ofertas de tecnologias que dê condição de acessar informações, de leituras de texto, de intérprete de libras, e todas as tecnologias que estão aí no mercado", reforça a professora.

A expectativa na Uece é que, com o método da lei estadual de cotas, esse número de estudantes cresça. Em razão da nova legislação, a instituição está realizando um mapeamento das unidades para saber qual o número de intérpretes de Libras que seria necessário para atender a demanda.

A Uece vai oferecer, no segundo semestre deste ano, curso de Língua Brasileira de Sinais (Libras) por meio da Pró-Reitoria de Extensão (Proex), com duas turmas, 30 vagas em cada, abertas ao público em geral.

Os dois campi da Capital - Itaperi e Fátima - aguardam início de reformas de acessibilidade, que abrangem readequação das rampas de acesso, instalação de piso tátil e compra de plataformas elevatórias.

UFC

Em 2018, na chamada regular do Sistema de Seleção Unificada (Sisu 1º/2018), que pela primeira vez adotou cotas para pessoas com deficiência, pelo menos 131 candidatos com deficiência ingressaram na UFC. A maioria possui deficiência física (80), mas há também pessoas com deficiência visual (28), mental (13), auditiva (8) e múltipla (2).

Uece

Atualmente, a instituição possui 35 alunos. A maioria possui baixa audição (10) e cegueira completa (10), seguido de baixa visão (8), surdez (3) e deficiência intelectual (4).

MEC

Informação mais recente do Ministério da Educação, de 2016, coloca o Estado do Ceará na vice-liderança na região Nordeste como um dos que mais matricularam alunos com deficiência no ensino superior. Ao todo, somando instituições públicas e privadas, o Ceará inseriu 1.399 alunos com o perfil no terceiro grau. Ficou atrás apenas da Paraíba, que inseriu 1.962 alunos. No País, são 35.891 alunos.

"Famílias, não escondam seu filho em casa"

Vencer por etapas, mesmo em meio a dificuldades impostas pela deficiência

Por Wagner Mendes

FOTO: Júlio Caesar/O POVO

David Sousa de Almeida, 29 anos, é estudante do 6º semestre do curso de Pedagogia da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e preside o Centro de Apoio a Mães e Pais de Portadores de Eficiência (Campe). Seria um currículo interessante, no mínimo, de um adulto em pleno gozo de suas capacidades físicas e competências.

A descrição, no entanto, é de quem passou 16 anos sem estudar pelas dificuldades que enfrentou na sociedade por ter paralisia cerebral. As dificuldades para falar e se locomover foram vencidas dia após dia. David, na contramão do que a maioria dos deficientes consegue realizar, tem ido e longe quebrado barreiras na família e na sociedade.

O POVO - Como tudo começou?

David Sousa de Almeida - Eu passei até os 16 anos sem estudar. Eu ia para uma escola especial, mas, quando eu tinha oito anos, minha mãe não conseguiu mais me conduzir e a escola do bairro, que era de ensino regular, não me aceitava porque se dizia não preparada. Através da luta da nossa instituição, a gente descobriu que era um direito, e aí tem sido um desafio desde a educação básica, porque o povo diz que não pode, que não é possível. Mas o melhor convívio foi com os alunos. Eu pensava que eles iriam ter preconceito e que o professor ia tentar mediar, mas o que aconteceu foi o contrário. Muitos adultos tiveram preconceito e os alunos me acolheram superbem, o que foi surpreendente. Quando entrei no Ensino Médio, fui para uma escola profissionalizante para a formação de técnico em informática, mas não cheguei a concluir o curso. Voltei para a escola anterior e concluí o Ensino Médio. Aí eu fiz o Enem e não tirei uma pontuação boa, e no semestre seguinte eu fiz o vestibular da Uece, para o curso de Pedagogia, e fiquei nos classificáveis. Consegui entrar no dia da chamada dos classificáveis. Eu era o sétimo dos classificáveis.

OP - Como você se sentiu ao entrar na faculdade?

David - A emoção foi muito grande, porque as pessoas dizendo para você a vida toda que a inclusão não era certa, que não era possível e eu demonstrando ali que era possível porque eu cheguei lá. Então, quando deu certo, foi uma emoção. O meu curso não estava fazendo trote, aí uma colega me levou para outro curso para me sujar.

OP - E a repercussão na sua escola?

David - Depois que saí da matrícula, eu fui para a escola que eu estudava todo sujo e passei de sala em sala do Ensino Médio dizendo que, se eu consegui com todas as dificuldades, é possível, incentivando os alunos a também fazer.

OP - Quais as dificuldades imediatas ao entrar na universidade?

David - A Uece não é acessível, não é boa a rampa, é superalta e estreita. Ainda hoje, depois de cinco anos praticamente de aula, até agora nada foi feito na rampa. E eu uso a do outro bloco, porque a do meu bloco é um batente. Mas, por incrível que pareça, por mais que a acessibilidade não seja boa, a gente passa por cima. Quando comecei o curso, me matriculei em todas as disciplinas do semestre, e não estava dando conta, a turma estava me cobrando. Quase entrei em depressão, não queria voltar para as aulas. Um amigo me sugeriu que eu fizesse a matrícula institucional para não perder a vaga, e eu fiz. Fiquei um semestre sem cursar, sem querer voltar. Mas, no semestre seguinte, diminuí as disciplinas e agora está dando certo. Estou no sexto semestre.

OP - Por que escolher o curso de Pedagogia?

David - Por causa da luta do Campe, eu me apaixonei pela tema da educação. E me deu aquela vontade de cursar Pedagogia para ajudar também outras pessoas. E me interessei dizendo a mim mesmo que ou era Pedagogia ou então não queria Ensino Superior. Talvez História, ainda pensei em História, Matemática, mas voltei para a Pedagogia mesmo.

OP - A grade curricular do curso foi uma surpresa positiva ou uma decepção?

David - Eu estou encantado com o curso. Me encantei pelas disciplinas, porque tem disciplinas necessárias. Agora, eu senti falta de educação no campo indígena, que não tinha e que eu acho importante ter. É importante conhecer outros povos. As duas disciplinas que eu tive de educação inclusiva abordam mais o preconceito, o conceito de inclusão, a deficiência. A educação inclusiva é mais abrangente porque não é apenas para deficiente. E as abordagens são mais de forma teórica, e não de forma prática de se trabalhar em sala de aula. Senti falta disso. A preparação vem da prática. Não adianta a teoria sem a prática.

OP - Você costuma ver alunos com deficiência na universidade?

David - A gente não vê quase ninguém.

OP - Por que você acha que isso acontece?

David - Acho que pela desinformação muitos não conseguem acessar o Ensino Médio, e o medo da família pode contribuir muito para essa situação para a não inclusão. Quero dizer para as famílias que tenham pessoas com deficiência que não desistam, não escondam o seu filho dentro de casa. Lute porque a pessoa que nasce com deficiência já tem a família para lutar por ela.

OP - Qual é a opinião da sua família em relação a essas conquistas? 

David - Os meus irmãos não se envolvem muito, mas ficaram felizes. A minha mãe me apoia em tudo o que eu decidir. Minha mãe tem sido o meu porto seguro.

OP - Você assumiu a presidência do Campe. O que isso representa?

David - Eu sempre gostei do Campe, e sempre tive interesse em assumir. Eu faço aquilo que eu sempre fiz pelo Campe. Foi uma vontade própria assumir a direção.

OP - Depois de tantas conquistas, qual será o seu novo desafio após a faculdade?

David - Essa pergunta é bem interessante. Eu quero ver hoje. Quero aprender, ter conhecimento, futuramente eu vou vendo. É claro que eu me planejo, há um planejamento, sim, porque também é importante a gente pensar, mas também estou aproveitando cada momento. É por etapas.

Participar também como professor

Pessoas com deficiência entram no ensino superior não apenas como estudantes, mas também na função docente. Apesar das múltiplas barreiras, elas acreditam na mudança por meio do trabalho para um futuro próximo

Por Isabel Costa

FOTO: Júlio Caesar/O POVO

Pessoas com deficiência devem ocupar todos os lugares. Todos. Escolas, empresas, universidades, centros culturais, órgãos públicos. E não apenas na condição de alunos ou de receptores, mas também como produtores de conteúdo e indivíduos que podem colaborar com o crescimento e com as melhorias em nível coletivo.

Nas últimas décadas, as pessoas com deficiência conseguiram encontrar novos caminhos no ensino superior. E não apenas como estudantes matriculados, mas também como professores que ampliam os horizontes, os olhares e a forma como as graduações existem.

Willer Cysne Prado, 52 anos, surdo, é docente da Universidade de Fortaleza (Unifor) nos cursos de Educação Física, Fonoaudiologia, Psicologia, Medicina, Nutrição, Direito e Fisioterapia. Nas salas de aula, é responsável por transmitir os conhecimentos da Língua Brasileira de Sinais (Libras) aos futuros profissionais que entraram em contato com o público - surdo ou ouvinte.

“É muito importante a presença de surdos em faculdades, pois, existindo surdos para ensinar e aprender Libras, muitas pessoas podem se tornar intérpretes ajudando outros surdos a se comunicarem”, diz Willer. Os alunos, afirma, não costumam se interessar pela língua nas primeiras aulas. Mas basta o conteúdo avançar que eles percebem o quanto Libras é instigante. Eles se encantam, explica o professor. "Um dos desafios é fazer com que os acadêmicos entendam a importância da disciplina e o impacto desse conhecimento em diferentes áreas", lembra Willer, que é formado em Letras - Libras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Ser professor no ensino superior é um sonho que começa a ser alimentado por Samuel Chaves, 35 anos, aluno do curso de Administração da Universidade Federal do Ceará (UFC). Após se formar no Ensino Médio, em 2012, ele partiu para o mercado de trabalho. Oito anos depois, teve um problema de saúde que deixou a baixa visão como consequência. Precisou buscar a aposentadoria. Foi uma grande mudança de vida, mas também o momento para encontrar sonhos antes adormecidos. Entrou na Academia Enem, programa gratuito da Prefeitura de Fortaleza para preparar jovens que desejam fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Lá, Samuel diz, foi recebido da melhor forma possível por professores e gestores - sempre dispostos a fazer mudanças e melhorias que ajudassem na aprendizagem. Quando entrou na universidade, então, ele esperava ter a mesma receptividade, mas a realidade foi diferente. Ausência de material didático digitalizado, falta de acessibilidade no percurso até o campus, ausência de orientação nas dependências internas.

O aluno do segundo semestre alimenta o sonho de tornar-se professor para mudar o contexto. “A UFC está na lista das melhores universidades. Quero que amanhã um amigo meu entre na faculdade e possa se sentir melhor. Eu quero mudar”, diz. Na perspectiva de Josy Lima, 44 anos, as diferenças entre as escolas e as universidades são gritantes. “Nas escolas, talvez já devido à imposição da lei, existe um mínimo de 'olhar' para estes alunos, pois a escola já sabe que será cobrada pelos pais, pela sociedade ou mesmo pela lei. Já no ensino superior vê-se um total despreparo dos professores em lidar com esses alunos, eles passam despercebidos tanto para turma como para o professor”, elucida Josy, que é mãe de João Pedro, aluno do Instituto Federal do Ceará (IFCE) que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Josy, que é formada em Administração de Empresas, chegou a ser questionada por um professor sobre que tipo de profissional seria formado em uma área tão específica. As soluções, ela acredita, passam por ações simples e de fácil execução. “Possibilitar que o aluno possa fazer as 'cadeiras' no seu tempo, ou seja, eles podem demorar mais para aprender, mas eles aprendem. E também que se autorize cursar menos 'cadeiras' por período”.

A LEI

A Lei Brasileira de Inclusão, conhecida como LBI, informa que, nos processos seletivos para ingresso e permanência nos cursos oferecidos pelas instituições de ensino superior e de educação profissional e tecnológica, públicas e privadas, devem ser adotadas as seguintes medidas:

I - Atendimento preferencial à pessoa com deficiência nas dependências das Instituições de Ensino Superior (IES) e nos serviços;

II - Disponibilização de formulário de inscrição de exames com campos específicos para que o candidato com deficiência informe os recursos de acessibilidade e de tecnologia assistiva necessários para sua participação;

III - Disponibilização de provas em formatos acessíveis para atendimento às necessidades específicas do candidato com deficiência;

IV - Disponibilização de recursos de acessibilidade e de tecnologia assistiva adequados, previamente solicitados e escolhidos pelo candidato com deficiência;

V - Dilação de tempo, conforme demanda apresentada pelo candidato com deficiência, tanto na realização de exame para seleção quanto nas atividades acadêmicas, mediante prévia solicitação e comprovação da necessidade;

VI - Adoção de critérios de avaliação das provas escritas, discursivas ou de redação que considerem a singularidade linguística da pessoa com deficiência, no domínio da modalidade escrita da língua portuguesa;

VII - Tradução completa do edital e de suas retificações em Libras.

Inclusão desde cedo

Por Wagner Mendes

FOTO: Júlio Caesar/O POVO

"A Laura é amada por todos. Ela é percebida na escola", revela Emília Clementino, 39, mãe de Anna Laura, 4. A criança foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O desenvolvimento da aprendizagem de Laura, que frequenta a escola desde os dois anos e meio, é consequência da rotina na instituição de ensino, conta a mãe.

A escolha dos pais de Laura pela escola ideal não foi tão árdua pelo suporte da Associação Fortaleza Azul (FAZ), que orienta os pais com uma espécie de filtragem para as indicações. "Lá na Associação tive um filtro. A Laura foi superbem recebida, nunca precisei levar laudo. Em uma semana, ela já ficava sozinha sem a minha necessidade de estar lá. Ela participa de tudo. Tem sido uma experiência muito positiva, porque minha filha é bem tratada pelos funcionários e por toda a escola. É encantador o amor que as crianças têm por ela", relata Emília, emocionada.

Desde que começou a frequentar a escola, Anna Laura tem aprendido a ter disciplina. "Ela passou a perceber as pessoas, a gostar, a abraçar. São comportamentos que ela não tinha. Hoje ela reconhece as pessoas, estabeleceu laços de afetividade, ela é extremamente carinhosa... Consegue sentar e fazer lanche sozinha", diz a mãe. O pai Joatham Bezerra, 44, embora caminhoneiro, procura estar presente na rotina de desenvolvimento da filha. Em casa, os pais auxiliam em um exercício para desenvolver a fala de Anna, que ocorre de forma mais lenta pelo alto grau do autismo.

O estímulo ao canto, por meio da musicalidade, tem motivado a pequena Laura a esboçar suas primeiras palavras. A comunicação ainda é feita pelo PECs (sistema de comunicação por troca de figuras). Disciplina e concentração têm sido fundamentais para a inserção social de Laura. Quando não vai à escola, a ausência é sentida pelos colegas de classe. "A escola é um lugar de que ela gosta. Ela obedece às rotinas. Laura está sendo respeitada", conta Emília. A fonoaudiologia e a terapia ocupacional são atividades que a pequena Laura faz e que são fundamentais no processo de inclusão social.

João Miguel e as lições para os pais

Por Wagner Mendes
FOTO: Júlio Caesar/O POVO

Com apenas três anos de idade, João Miguel já tem uma agenda cheia de atividades. Pratica surfe e pedala com o pai, Paulo Emílio Rocha, 43, visita parques na companhia da mãe, Gorete Feitosa, 43, vai para a creche e frequenta, em um segundo turno, sessões para o desenvolvimento da cognição e coordenação da fala.
"A gente acaba esquecendo da síndrome e extrapola em algumas coisas, porque a gente o trata com normalidade", conta Paulo. João Miguel tem Síndrome de Down. A descoberta só veio após o nascimento, mesmo com os exames da gestação em dia. Psicóloga, Gorete confessou o desconhecimento da síndrome logo quando soube do filho.

"Eu era completamente leiga. Achava que o menino ia morrer quando ele nasceu", revela. As primeiras informações vieram da doula que ajudou no processo do nascimento. Depois de conversar com outras mães em condição semelhante e ajudar na consolidação da Associação Fortaleza Down, o que lhe deu mais informação da condição do filho, Gorete explica que a Síndrome de Down "não é doença, é uma condição genética". "Doença se cura ou não tem jeito", acrescenta.

A partir desse conhecimento, veio o desafio de escolher a escola ideal para João Miguel. As andanças na procura de uma educação formal foram árduas. "Ou a gente encontrava escolas muito caras ou que não recebiam ele porque não se consideravam preparadas", conta. As buscas se encerraram ao localizar a creche municipal Menino Maluquinho, no bairro Papicu.

"Na creche ele passa o dia todo. Ele é tratado com prioridade. Sempre tem a vaga dele, a gente não tem que correr atrás. Isso faz toda a diferença porque você não tem o seu filho rejeitado. A professora disse que até o final do ano o João Miguel vai falar", comemora. Os avanços no processo de aprendizagem também passam por acompanhamento semanal de fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicopedagogia (na própria creche). João Miguel também passou por neurologista e ortopedista.

Gorete cita que núcleos de estimulação foram fundamentais para o desenvolvimento do filho, que hoje não precisa mais de sessões de fisioterapia. Os núcleos como a Associação Pestalozzi, Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami), Núcleo de Tratamento e Estimulação Precoce (Nutep), Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) são referência para o desenvolvimento motor e cognitivo de crianças com a síndrome.

Praticante de bodyboard, Paulo não pensou duas vezes antes de levar o filho à praia. O lazer também é fator preponderante no desenvolvimento da criança que tem a síndrome. "Ele pega onda comigo na praia. É um problema porque a gente leva e ele não quer mais sair do mar, não sabe o que é medo... É bastante ativo, brinca. Agora ele está começando a falar. Ele tem nos ensinado bastante", confessa o pai.

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