Onde está João Paulo?

Na terceira matéria da série, O POVO sai do território das facções para narrar os pedaços da dor de Margarida de Sousa, mãe do frentista João Paulo que desapareceu depois de ser preso por policiais militares de Maracanaú. A busca pelo filho já dura quase três anos

Por Demitri Túlio

Margarida de Sousa, 37, não é mais a mesma pessoa. Ela falta um pedaço. Depois que o filho mais velho, o frentista João Paulo de Sousa Rodrigues, 20, desapareceu após de ser preso, não há um dia em que ela não seja torturada pelo revés da presença e a falta de notícias sobre o paradeiro da cria. “Só sabe da dor quem passa por ela”, ressente após quase três anos no limbo de quem se transformou na mãe de alguém que sumiu.

A última imagem pública de João Paulo, para o azar dos denunciados, foi gravada por uma câmera de segurança na avenida Conêgo de Castro, no Parque Santa Rosa, em Fortaleza, no dia 30 de setembro de 2015. Prova conseguida por um tio e o pai do filho de dona Margarida de Sousa já que a polícia, de início, relutou para investigar com interesse.

A investigação iniciada na angústia da mãe amadureceu até que o promotor Marcos Renan Palácio, da 1ª Vara do Júri, denunciou que João Paulo estava a caminho do trabalho – o posto de combustível Ceará II – quando sua moto OSH-5864 foi interceptada por uma viatura da Polícia Militar (CP1471/FTA), lotada em Maracanaú, e por um Palio preto. Veículo onde foi colocado à força e no qual trafegavam o sargento da PM Haroldo Cardoso da Silva, 53, e o empresário Severino Almeida Chaves, denunciados pelo Ministério Público.

Na rádio patrulha estavam os cabos Francisco Wanderley Alves da Silva, 49, Antônio Ferreira Barbosa Júnior, 45, e o soldado Elidson Temóteo Valentim, 30. De acordo com o inquérito da Delegacia de Assuntos Internos (DAI) da Controladoria Geral de Disciplina do Ceará (CGD) os três, o sargento Haroldo e o dono do posto seriam os responsáveis pelo “arrebatamento e sumiço” do frentista.

Desde então, a casa de Margarida de Sousa virou uma ausência. O filho teria sido executado, relata o MP e a DAI, por policiais “justiceiros” contratados como seguranças clandestinos do proprietário do posto. João Paulo, explica o promotor Marcus Renan, foi apontado pelos militares como informante de uma quadrilha que assaltou o posto onde o rapaz acabara de ser contratado.

“Eu penso assim, será que esses policiais não têm famílias? Nunca passaram pela dor de alguém tirar a vida de um filho seu? É muito triste, muito doloroso. Ninguém nunca queira estar na minha pele”, remói Margarida de Sousa arrancada de uma metade dela.

A família ficou desestruturada. “O pai dele ficou assim (desenha em gestos a angústia), não gosta mais de sair. Ele não é o pai biológico, mas o criou desde a idade de três anos”, descreve Margarida, auxiliar de serviços gerais de uma escola pública de Maracanaú e pequena empresária. “Quando se perde uma pessoa que já se espera perder é natural, mas quando se é pego de surpresa? É muito doloroso”, lava os olhos.

O quarto de João Paulo, agora, é do outro filho. João morava lá com a esposa e a neta de Margarida. Algumas roupas a mãe guardou porque a saudade dói latejada. Outras, o irmão dele usa. A cama do casal, a companheira levou quando foi embora porque o tempo venceu a espera. “Eles não tinham quase nada”. A casa de Margarida onde a família cabia completa tem um quintal e nos fundos do terreiro uma construção ficou pelo meio do caminho. Não deu tempo João terminar.

Em quase três anos de buscas, de cartazes espalhados pelas cidades e de trotes sobre o paradeiro de João, o amedronto não acuou Margarida Sousa nem a impediu de dar entrevistas denunciando os policiais e o dono do posto pelo sumiço do frentista e da moto da vítima.

“Nunca tive medo porque não devo nada a ninguém e se quiser vim tirar minha vida, pode vim tirar. Mas vão tirar a vida de uma pessoa inocente, como tiraram a vida de meu filho. Tenho certeza que meu filho pagou pelo erro dos outros. Se ele fosse envolvido com alguma coisa errada, a gente já tinha sabido. Ele não era bandido”, decreta mãe.

A saudade é o pior castigo. “Pra mim, ele está vivo no meu coração porque nunca o encontrei e nunca foi velado. Pelos comentários que as pessoas falam, ele não está mais vivo. Mas nada é impossível para Deus”, tenta se convencer e ao mesmo tempo apela para que digam o que fizeram do filho.

“Eles tiraram a vida de uma pessoa inocente, quero que paguem por isso. E quero que digam onde está meu filho, eu preciso saber e guardar ele num canto digno. Ele não era bandido, não era animal, era um cidadão. Um animal quando morre se joga em qualquer canto. Ele era um ser humano, precisa de um canto digno”, reivindica a mãe.

Contra João Paulo, nunca foi provado qualquer ligação com o crime.

A "perversidade" de fazer o outro desaparecer

Na prática, de acordo com a investigação da CGD e denúncia do Ministério Público (MP), João Paulo desapareceu nas mãos dos quatro policiais militares e de um empresário que os contratou. Mas, segundo Arimá Rocha, advogado da família do frentista, “tecnicamente” o MP não o trata como desaparecido.

João Paulo, narra o processo criminal da 1ª Vara do Júri de Fortaleza, foi vítima de um homicídio e a ocultação de seu corpo é apontada como um ato planejado dos réus para esconder provas e dificultar a instrução na Justiça.

“Ele é mais uma vítima da violência promovida por agentes do Estado em conluio com particular. Este é o conteúdo da denúncia e está fundamentada em provas e minuciosa investigação da CGD”, diz  Arimá Rocha.

O advogado diz que o “desaparecimento” do corpo da vítima “tem também um significado de perversidade e a realização de um ato de extrema violência, a ponto de não permitir sequer que os familiares enterrem o seu ente querido. Demonstra-se a frieza e a perversidade do crime”.

Os quatro policiais militares e o empresário foram denunciados pelo promotor Marcus Renan Palácio por homicídio duplamente qualificado. Segundo Renan, a execução foi tramada entre matadores e contratante “mediante paga ou promessa de recompensa e por motivo torpe”.

A outra qualificadora aponta que o crime teria ocorrido “à traição, de emboscada e por dissimulação ou outro recurso que dificultou a defesa da vítima”. Os PMs e o empresário também foram denunciados por roubo, pois a moto de João Paulo sumiu. Além disso, respondem por organização criminosa e ocultação de cadáver.

Os PMs (sargento Haroldo; cabos Wanderley e Antônio Ferreira; soldado Elidson Temóteo) estão presos pela segunda vez.O empresário Severino Chaves também está na cadeia.

Policiais e empresário alegam inocência

Os quatro policiais militares negam ter executado e desaparecido com o corpo do frentista João Paulo. O POVO teve acesso aos depoimentos gravados dos denunciados pelo Ministério Público. À época dos interrogatórios, o caso estava na  5ª Vara Criminal,  e era acompanhado pelo promotor Rinaldo Janja e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco).  

Os três policiais que interceptaram a moto de João Paulo apresentaram na Justiça, praticamente, a mesma versão sobre a abordagem feita em João Paulo no dia 30/9/2015. 

Segundo os cabos Francisco Wanderley e Antônio Ferreira e o soldado Elidson Valentin, naquele dia, a viatura na qual patrulhavam teria perseguido duas motos que trafegavam em alta velocidade. A pilotada por João Paulo teria parado e a outra ignorou a investida policial.

O cabo Wanderley, comandante da viatura, afirmou que,  durante a busca de arma em João Paulo, um carro preto parou do nada para verificar o que estava ocorrendo.

João Paulo, de acordo com Wanderley, teria dito que os três ocupantes do carro eram amigos dele. “Essas pessoas afirmaram que ele (o frentista) iria emprestar a moto. Com o fim da abordagem, ele entrou no veículo civil e outra pessoa levou a motocicleta”.

O frentista teria seguido sem que os três policiais fizessem qualquer verificação da placa do carro que apareceu e da documentação dos ocupantes. Nem busca de arma foi feita.

No depoimento, o sargento Haroldo Cardoso, da reserva, afirmou que “não tinha nada a ver” com o caso e que o carro preto seria dele como consta na deníncia do Ministério Público.  

João Marcelo Pedrosa e Paulo Quezado, advogados do empresário Severino Chaves, entendem que “a acusação é improcedente e no curso da ação penal demonstrarão o equívoco do MP”.

Defensoria Pública do Ceará acompanha dois casos de desaparecidos

Através da Rede Acolhe – um Programa de Atenção Integral às Vítimas da Violência, a Defensoria Pública do Ceará acompanha o caso de duas pessoas desaparecidas. Uma das ocorrências, envolvendo um adolescente, está ligada à disputa de território pelas facções de traficantes em um bairro de Fortaleza. A outra história, investigada em um inquérito sigiloso, tenta refazer os últimos passos de um homem que sumiu na mão do Estado.

De acordo com Thiago Holanda, técnico da Defensoria Pública/Rede Acolhe e integrante do Comitê de Prevenção de Homicídios na Adolescência da Assembleia Legislativa do Ceará, são dois enredos delicados e que as famílias só chegaram à Defensoria dois meses depois dos desaparecimentos. Os parentes chegaram a fazer boletins de ocorrência nos dois casos, mas recorreram ao órgão para tentar fazer andar a investigação.

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