A incerteza do silêncio

Sete corpos teriam sido ocultados no canal da Babilônia. Pessoas que teriam desaparecido nas mãos de uma facção, no Grande Jangurussu

Por Demitri Túlio

Antes de ser preso, um dos acusados da chacina das Cajazeiras se exibia em uma das comunidades do Grande Jangurussu. Na rua, além de desfilar com armas ao lado de outros criminosos da Guardiões do Estado (GDE), o rapaz se empabulava dos feitos cruéis da facção.

Numa dessas conversas sobre terror à calçada, o homem revelou que, no canal da Babilônia, a facção havia “desovado sete corpos”. Pessoas que, de repente, sumiram do convívio de favelas como Gereba, Babilônia, São Cristóvão, Unidos Venceremos e Conjunto Palmeiras.

Sem constrangimento, o jovem contou de uma mulher que estava grávida e os traficantes se incomodaram com o que ela estaria falando na comunidade e fora dela. Entre os corpos estariam, também, rivais de outra facção, suspeitos de “deduragem”, bandidos que haviam desrespeitado “o crime” e gente com as quais a quadrilha cismava ou tinha interesse se apossar de algo delas.

Ao ser preso, depois de se recuperar de um tiro por tentar resistir à investida de policiais militares, o rapaz se calou sobre o suposto descarte dos sete desaparecidos. E a polícia decidiu não fazer incursão no canal da Babilônia.

Uma fonte policial, ouvida pelo O POVO, não ignora a chance de a história macabra ter fundamento. Mas afirma que a demanda envolvendo as facções é tão difusa e aumentou tanto de 2015 para cá, que dificilmente haverá uma investigação mais aprofundada e específica sobre gente que desapareceu em bairros da periferia Fortaleza.

A não ser que a investigação esteja ligada a um crime de repercussão que exija do Estado resposta midiática. Muitas das ocorrências, afirma o policial, vão para a vala comum e não passam da superficialidade de um boletim de ocorrência, quando são feitos.

Na região do Grande Jangurussu, onde o membro da GDE ostentou a narrativa, pessoas desaparecerem. O policial conta que moradores dali já chegaram a informar que corpos seriam enterrados por trás do terreno do Centro de Triagem de Resíduos Sólidos, no sopé do antigo lixão de Fortaleza.

A fonte observa que, por medo de ser executado ou ter alguém da família morto, ninguém vai à delegacia fazer um boletim de ocorrência sobre o sumiço de um vizinho e até um parente. O mais comum é a família da vítima abandonar a casa ou ser expulsa da favela após o desaparecimento. No caso do sumiço de pessoas envolvidas com o tráfico ou de inimigos, eles dificilmente serão reclamados nas delegacias, na Defensoria Pública ou em dois núcleos da Secretaria da Justiça do Ceará.

O POVO perguntou, por e-mail, à Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) quantos inquéritos foram instaurados de 2015 para cá, ano do fim da “pacificação” entre as facções, para apurar casos de pessoas desaparecidas vítimas da guerra pelo território do tráfico de drogas. A SSPDS não informou.

Também foi perguntado quantos registros os órgãos da SSPDS fizeram de pessoas desaparecidas no Gereba, Unidos Venceremos e Babilônia, na região do Grande Jangurussu. Também não foi respondido.

O POVO opta por omitir nomes, inclusive o do integrante da facção que contou sobre os corpos no canal da Babilônia, por causa da segurança de fontes e testemunhas.

Desaparecido, torturado e queimado

Por Demitri Túlio

No mesmo território e entorno onde o criminoso da GDE espalhou sobre os corpos no canal, enredos sobre outros desaparecimentos. O POVO identificou alguns casos. A sina do comerciante Manoel Pedro Birino, 59, é uma dessas tragédias que virou rotina na periferia de Fortaleza.

Seu Birino, como era conhecido, saiu de moto de sua residência para verificar um problema com um de seus inquilinos no dia 19/10/2017 e não voltou mais. Ele era dono de uma vila, com mais de 12 casas, construída na antiga ocupação Unidos Venceremos. O pequeno empresário acabou sequestrado pela mesma facção que teria ocultado os sete cadáveres no canal da Babilônia.

A quadrilha, além de confiscar as casas de Manoel Birino, cismou que ele era informante da polícia. Após três dias sumido, seu corpo foi recolhido pela Polícia Forense do Ceará (Pefoce). Estava sem identificação, com marcas de tortura e parcialmente carbonizado.

O cadáver havia sido encontrado em um barraco na favela do Gereba, situado no sopé do antigo lixão do Jangurussu. Só foi identificado quando um amigo da família e a filha do comerciante conseguiram, no necrotério, fazer o reconhecimento dos restos mortais de Birino.

Após o desaparecimento e execução de Birino, todos os inquilinos da vila do comerciante foram expulsos das casas da vítima. Hoje, as residências estão abandonadas.

Cruz Vermelha acompanha famílias de desaparecidos

Por Demitri Túlio

No Rio de Janeiro, por causa da escalada dos conflitos urbanos decorrentes do tráfico de drogas, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) iniciou um trabalho de acompanhamento com familiares de desaparecidos por causa da violência.

A ONG presta ajuda humanitária para parentes de pessoas que sumiram por causa da violência, dos conflitos armados, dos processos migratórios e dos desastres naturais. De acordo com o Comitê, os familiares “também são vítimas, sofrendo uma série de consequências físicas, emocionais e psicossociais, muitas vezes agravadas por dificuldades jurídicas e econômicas”.

Segundo o site da instituição, o CICV promove o desenvolvimento de mecanismos para busca de pessoas desaparecidas e, em caso de morte, a identificação. A estratégia é tentar sensibilizar o poder público e outras entidades “sobre a atenção e o acompanhamento adequado aos familiares”.

De acordo com o site do comitê, a obrigação dos Estado de dar resposta a esses casos foi reconhecida na Conferência Internacional de Especialistas Governamentais e Não Governamentais sobre Desaparecidos. Foi realizada em Genebra, na Suíça, em 2003.

Três mulheres decapitadas e enterradas no mangue

Por Demitri Túlio

Não fosse um vídeo que circulou insistentemente pelo WhatsApp, entre os dias 6 e 9 de março deste ano, o paradeiro de três garotas poderia ainda ser uma incógnita para as famílias. Depois de serem brutalmente torturadas e decapitadas, os corpos de Ingrid Teixeira Pereira, de Darciele Anselmo de Alencar e Nara Alyne Mota de Lima foram enterrados no lamaçal do mangue do rio Ceará no limite entre Fortaleza e o município de Caucaia, no bairro Vila Velha.

A tirania dos criminosos, integrantes da facção Comando Vermelho (CV) segundo investigação do 7º Distrito Policial, foi exibida nas redes sociais sem nenhuma cerimônia. E foi o rastro deixado na web que resultou na prisão de cinco adultos e um adolescente responsabilizados pela barbárie.

As garotas, segundo uma fonte policial, teriam deixado o CV para se juntar ou passar informações à facção Guardiões do Estado (GDE). “Rasgaram a camisa”, no jargão do crime, e se bandearam para a quadrilha inimiga segundo as investigações. Mas as famílias negam o envolvimento das vítimas com os traficantes.

Depois de identificar pelos vídeos e por delações, policiais do 7º Distrito Policial e da Divisão de Homicídios prenderam Antônio Honorato dos Santos, 42, sem passagem pela polícia; Luiz Alexandre Alves Silva, 23, que respondia por roubo; Diego Alves Fernandes, 21, já processado por receptação, corrupção de menores e formação de quadrilha; Bruno Araújo de Oliveira, 23, e Júlio César Clemente da Silva, 28. Um adolescente também foi recolhido.


Perspectivas sobre as ruas de Fortaleza

Especialistas em mobilidade urbana de diferentes cidades apontam aspectos positivos e negativos relacionados às medidas adotadas na Capital

Por Gabriela Custódio

Para melhorar a mobilidade urbana na Cidade, medidas adotadas pela Prefeitura Municipal de Fortaleza (PMF) incluem investimentos em malha cicloviária, faixas exclusivas para ônibus e projetos como áreas de trânsito calmo, além de travessias elevadas e faixas em diagonal para pedestres. Especialistas em mobilidade urbana, o gestor ambiental Guilherme Tampieri, de Belo Horizonte, o geógrafo Yuriê Baptista César, de Brasília, e a jornalista Roberta Soares, de Recife, avaliam iniciativas aplicadas no trânsito da Capital cearense.

 

Visão acadêmica 

O destaque que Fortaleza ganhou pela promoção da bicicleta como meio de transporte chamou atenção do gestor ambiental Guilherme Tampieri, 29. Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Tampieri compara, em sua dissertação, as políticas existentes nas capitais cearense e mineira. "Esse destaque, para mim, merecia ser estudado mais a fundo para compreender como esses processos se deram, por que algumas coisas funcionam em Fortaleza e não funcionam em outras cidades."

Trabalhando com planejamento da mobilidade há cerca de dez anos, Tampieri destaca a adoção e a expansão das ciclofaixas, espaço em que a segregação acontece por meio de sinalização na via e tartarugas, e a diminuição da velocidade de tráfego em algumas ruas. Segundo o gestor ambiental, com a última medida, ciclistas e pedestres sentem-se mais seguros. “Se a gente não reduz a velocidade máxima dos automóveis em boa parte das vias, não consegue ter uma justiça socioespacial”, argumenta.

Tampieri, porém, percebe que a estratégia de implantar ciclofaixas — mais estreitas que as ciclovias — tem um “limite”. “Em algum momento, a Prefeitura não vai conseguir fazer isso e, se ela quiser levar adiante essa política para a bicicleta, vai ter que tirar espaço de automóvel. E aí pode ser que venham alguns conflitos.” Apesar disso, por conta das iniciativas já implantadas, ele pondera que a população local pode não ter uma reação tão ruim como em outras cidades. Um ponto criticado por Tampieri é o mau estado das calçadas. “Se você pensa nas pessoas com deficiência, a gente está falando de uma cidade pouquíssimo acessível”, afirma. Tampieri aponta ainda o costume de automóveis pararem em ciclovias e a contínua construção de viadutos.

Ainda dá para melhorar

O geógrafo e mestre em Engenharia Urbana pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Yuriê Baptista César, 33, já esteve em Fortaleza duas vezes. A primeira foi em 2016, durante o Fórum Nordestino da Bicicleta. À época, deslocou-se sobre duas rodas e lembra que, ainda que já tivesse ouvido falar sobre as ações locais, conseguiu constatá-las facilmente. "[Ao] andar na cidade, você já vê as ciclovias, as ciclofaixas, os corredores de ônibus, vê até testes que estão sendo feitos em algumas ruas bem específicas", afirma.

Entre medidas positivas, César destaca a integração entre bicicletas compartilhadas e transporte público por meio do projeto Bicicleta Integrada, presente em terminais de ônibus, que permite o empréstimo do equipamento por até 14 horas consecutivas. “Essa integração é fundamental e o que a gente vê no Brasil inteiro são estações muitas vezes até distantes do transporte público coletivo. As pessoas que saem do ônibus não têm uma estação para pegar a bicicleta e poder continuar sua viagem.”

O geógrafo aponta que, apesar dos investimentos, o cenário, em Fortaleza, ainda “está longe de estar perfeito”. O transporte público, de acordo com o ciclista, deve ser mais valorizado e priorizado, com mais faixas exclusivas e paradas de ônibus adequadas para a população. “Eu lembro que peguei ônibus em um ponto que só tinha uma placa. Tem que ser um local para a pessoa esperar tranquilamente, sentada, na sombra; tem que ter informação de que ônibus que passa ali; tem que ter uma tarifa justa também.” Assim como Guilherme Tampieri, César aponta que, em algum momento, a Prefeitura terá que tirar a prioridade do automóvel e “fazer ações mais incisivas”.

Um exemplo a ser seguido

A jornalista Roberta Soares, 46, passou quase dez anos — dos 23 em que atua como repórter em Recife — fazendo reportagens policiais. Depois da primeira gravidez, começou a escrever sobre mobilidade urbana e hoje assina o blog “De olho no trânsito”, do Jornal do Commércio, e a coluna homônima publicada aos domingos no jornal impresso. Entre os dias 10 e 13 de setembro deste ano, esteve em Fortaleza para produzir o especial multimídia “O exemplo de Fortaleza”, com foco na ciclomobilidade.

Durante a estadia na Capital, Roberta deslocou-se quase exclusivamente de bicicleta, tanto por bairros centrais quanto pela periferia. Na única vez em que precisou de um carro, por conta do tempo, optou pelo Vamo, serviço de carros elétricos compartilhados. Para a jornalista, a expansão da malha cicloviária e a criação de faixas exclusivas para ônibus demonstram que houve “uma decisão política da Prefeitura de abrir espaço para a ciclomobilidade e também de transporte público.”

Durante seus trajetos, Roberta foi acompanhada por integrantes do Plano de Ações Imediatas em Transporte e Trânsito de Fortaleza (Paitt), vinculado à Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP). “Isso é outra coisa legal: quem planeja a ciclomobilidade [em Fortaleza] pedala. Quem vive dentro do automóvel não vai saber o que é pedalar nem andar a pé. [...] Aqui em Recife são pessoas que estão dentro de um automóvel [que realizam esse papel].”

Na percepção da jornalista, a saída encontrada pela Prefeitura foi “simples”. Apesar de não considerar ideais a estrutura e a segurança adotadas — pois ciclofaixas protegem menos os ciclistas do que ciclovias e, na maioria dos casos, em Fortaleza, elas são unidirecionais — Roberta destaca a conexão da malha ciclável. “Você vê que de fato houve uma lógica de planejamento. [...] Achei que realmente foi uma tapa na cara do Brasil”, afirma. Como exemplos de possíveis melhorias, Roberta cita a criação de mais ciclovias e faixas exclusivas para ônibus e a implementação de ciclovias bidirecionais.

PONTO DE VISTA

Ando de bicicleta, não de "bike"

Algum tempo atrás, tentei usar a bicicleta como meio de transporte, mas desisti. Havia muita insegurança e mesmo violência no trânsito, fazendo do ciclismo um ato arriscado. Voltei ao selim depois que as ciclovias e ciclofaixas começaram a se tornar comuns em Fortaleza, a partir da política de mobilidade implementada pela Prefeitura.

Apesar de não ter-se tornado a única forma de me deslocar pela cidade, pedalo com regularidade. Por vezes para ir ao trabalho e, nos fins de semana, por diversão ou para qualquer atividade que não demande o transporte de alguma coisa que não caiba em uma mochila. Nesse percurso, observo ter havido pequena melhora na “tolerância” dos motoristas com os ciclistas. Já há aqueles que respeitam as bicicletas e tomam cuidado nas conversões (meu maior medo). Em relação à selva anterior, considero um avanço.

Lembro que, no início da implementação das faixas para bicicletas, havia pessoas a dizer que elas ficariam vazias. Para os críticos, os ciclistas eram poucos e o “clima” de Fortaleza seria um impeditivo ao pedal. (Esse argumento não levava em conta nem mesmo que nos segmentos mais pobres da população a magrela sempre foi um meio de transporte popular.)

Agora, vejo com alegria, que, em alguns locais - como no encontro das faixas da av. Domingos Olímpio com a Antônio Sales - chega a haver “congestionamento” de bicicletas em determinados horários. Além de mais faixas, a Prefeitura poderia cuidar melhor da manutenção das existentes. Quanto aos motoristas, deveriam deixar de usá-las como estacionamento; dos motociclistas esperar-se que não transitem por elas; aos moradores um pedido: nãos as transformem em rampas de lixo. A propósito, eu ando de bicicleta, não de “bike”.

Plínio Bortolotti
Diretor institucional do Grupo de Comunicação O POVO

Confira a versão digital:

Desaparecidos da Violência - Jangurussu