O risco de sumir na mão do crime

A história de duas jovens em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, revela um rastro de pelo menos 26 assassinatos e o fenômeno do desaparecimento de pessoas nas comunidades invadidas pelas facções no Ceará

Por Demitri Túlio

As periferias de Fortaleza e da Região Metropolitana viraram lugares de desaparecer pessoas. Sumir se tornou parte do cotidiano. O fenômeno, não percebido no lado mais assistido da cidade, ganhou contornos de terror na zona empobrecida. Foi depois que as facções criminosas passaram a se inscrever como poder na disputa dos territórios pelo tráfico de drogas no Ceará, notadamente a partir de 2015. Por medo de represália ou envolvimento direto com o crime, as histórias dificilmente são narradas em boletins de ocorrência ou chegam aos organismos públicos que lidam com vítimas da violência urbana no Estado.

A vida de quem mora nesses cantos “sombreados” pelo medo passou a ser um inferno. Principalmente para os cidadãos, mas também para os bandidos. O POVO conta, a partir de hoje, narrativas sobre desaparecidos e o tormento de ter de conviver com a possibilidade de ser sumido pela mão das facções de traficantes.

Sexta-feira, 13 de dezembro de 2017, 18h17min. Na sede da Delegacia de Polícia Metropolitana de Caucaia, um pai, de 37 anos, relata que a filha, Vitória Rayane, está sob ameaça de uma facção. É que a garota, de apenas 13 anos, havia testemunhado o assassinato da amiga Antônia Monalisa Fernandes, de 14 anos. A garota também está na delegacia.

Para uma delegada e uma escrivã, o pai de Rayane conta que a filha, após se encontrar com a amiga Monalisa, teria ido para uma festa em uma praia do litoral de Caucaia (Região Metropolitana de Fortaleza). Saiu, segundo o pai, sem seu consentimento. Apesar dos 13 anos, ele diz, a filha “tinha o costume de sair sem dizer para onde ia”. E sempre foi “uma peleja” para que informasse o destino e de quem se acompanhava.

Naquela sexta de dezembro a história mudaria de enredo. Segundo depoimento do pai, um dia depois de ganhar o mundo, Rayane “voltou assustada para casa”. Era madrugada do sábado, por volta das 5 horas. “Pai, me bota eu pra dentro que mataram a Monalisa agora. Se não, vão me matar também”, reproduziu o pai na delegacia.

Rayane, de acordo com depoimento, teria dito que pelo menos nove pessoas, entre elas mulheres, haviam participado da execução de Monalisa. A vítima teria sido assassinada e o corpo ocultado “por causa de facção”. Mas a causa não é clara. Entre os matadores estariam um homem conhecido por “Mateus e outro por GTA”.

Na delegacia, a adolescente, ouvida em termo de declaração e numa conversa confusa, afirma que Monalisa depois de ser executada foi levada para ser enterrada “pro lado do Bom Jesus”, uma bairro de Caucaia. E que “vocês (os policiais) não vão encontrar o corpo dela inteiro, não”, disse.

Sem proteção do Estado na condição de testemunha, adolescente e moradora de uma comunidade tomada pelo ódio entre facções, Rayane foi assassinada no dia 28/12/2017. Semanas depois de ter ido à delegacia. O pai da menina e outros familiares, segundo o escrivão Josenildo Menezes, 54, tiveram de ir embora do Ceará.

Os restos mortais de Monalisa só foram encontrados este ano, no último dia 12, durante a Operação Soure – protagonizada pela Delegacia Metropolitana de Caucaia. A garota foi esquartejada e parte do corpo ocultado em um terreno próximo ao prédio da Justiça, em Caucaia. Os policiais chegaram ao local depois da prisão e confissão de Francisco Fábio, 20. Um dos autores das barbáries.

O caso das adolescentes Rayane e Monalisa, de acordo com o Josenildo Menezes, é uma das pontas de uma teia criminosa que revelou a relação entre pelo menos 26 execuções. Muitos dos assassinatos precedidos pelo desaparecimento das pessoas, no caso seis.  Vítimas que tinham ou não envolvimento na disputa entre as facções Comando Vermelho (CV) e Guardião do Estado (GDE) pelo território do tráfico, principalmente, nas comunidades de Itambé I e II, na periferia de Caucaia.

Número de desaparecidos cresceu de 2016 para 2018

Por Demitri Túlio

Nos primeiros quatro meses deste ano, pelo menos 670 pessoas desapareceram no Ceará segundo dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). Os casos de 2018 superam 2016 (655) e 2017 (622) quando comparados a igual período. Os dados não identificam quantos sumiram por causa da violência das facções ou quantos boletins de ocorrência (BO) tratam disso.

De acordo com nota enviada pela SSPDS, o Sistema de Informação Policial (SIP) agrega, na tipificação “desaparecimento de pessoa”, as mais variadas informações e circunstâncias narradas pelos noticiantes quando fazem o BO na Polícia Civil. Mas não contempla “subtemas para especificar as vítimas”. No total, em 2016 sumiram 1.845 contra 2.149 pessoas. 

A SSPDS informa que o número de registro de boletins de ocorrências não significa que as pessoas continuem desaparecidas. “Há muitos casos em que as pessoas voltam para casa e a família não comunica à delegacia”.

Quanto ao achado de corpos de indigentes, que pode ser um dos indicativos de desaparecimentos nas cidades, a Coordenadoria de Medicina Legal (Comel) informa que, em 2018, foram sepultados 62 pessoas não reclamadas por famílias. Contra 192 do ano passado.

Para cada corpo, existe um prontuário contendo as informações relativas ao cadáver, à guia policial de encaminhamento, aos laudos de perícia e de necropsia e fotografias. Também é coletado material genético para confronto de DNA e impressões digitais, caso seja necessário.

Segundo a Comel dados referentes aos cadáveres enterrados são cadastrados em um banco de dados que torna possível a localização deles posteriormente. “Respeitando a dignidade humana e seguindo as normas de sepultamento no Brasil, os corpos sem identificação e os não reclamados são sepultados de forma humanitária, em covas individuais com local devidamente registrado”.

O POVO entrou em contato com o Núcleo de Assessoria dos Programas de Proteção (Napp) e com o Centro de Referência e Apoio à Vítima de Violência da Secretaria da Justiça do Ceará. Nos dois órgãos também não há registro de casos sobre desaparecidos por causa das facções.

Testemunhas não tiveram proteção após depoimento

Por Demitri Túlio

Vitória Rayane, 13, executada pela facção após denunciar na Delegacia Regional de Caucaia o assassinato de Antônia Monalisa Fernandes Marques, 14, deveria ter sido incluída no Programa de Proteção à Criança e ao Adolescente Ameaçado de Morte (PPCAM). E  o pai da garota, no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas do Estado do Ceará (Provita). Não foram.

Em nota, o Ministério Público de Caucaia informou que “a inclusão nos dois programas   não ocorre compulsoriamente. O primeiro requisito é a voluntariedade e o MPCE não tomou ciência da vontade de Vitória Rayane e seu pai terem requisitado a inclusão nos programas”.

Na delegacia da Região Metropolitana de Fortaleza, de acordo com o escrivão Josenildo Menezes, 54, teria sido oferecida a proteção para pai e filha. Mas os dois não teriam aceitado.

Vitória Rayane denunciou o assassinato e o desaparecimento de Monalisa em  13 de dezembro do ano passado e 15 dias depois foi morta por integrantes da facção Guardiões do Estado (GDE). O pai e outros familiares tiveram que ir embora de Capuan, em Caucaia, onde vivam.       

O Ministério Público também informou, na resposta enviada ao O POVO, que mesmo coma atuação intensa das facções não há registro nas promotorias de Justiça de Caucaia, do recebimento de denúncias de pessoas que desapareceram nas comunidades onde moram no município.

Segundo a nota, “em casos de pessoas desaparecidas, a investigação fica sob a responsabilidade da Polícia Civil, que deve instaurar inquérito para apurar as causas do desaparecimento. Ao fim da investigação, a depender do resultado do inquérito, o MPCE atuará”.

A Operação Soure foi fruto de uma investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas  (Gaeco) com as promotorias de Caucaia e Polícia Civil.

Por segurança, O POVO não divulga o nome do pai de Vitória Rayane. 

Africano desaparecido foi enterrado no piso de uma casa

Por Demitri Túlio

O desaparecimento do africano Francisco José Barbosa de Oliveira Filho, também conhecido por Wesley, seria a origem da investigação que daria na Operação Soure e na descoberta da suposta autoria de pelo menos 26 assassinatos engendrados em meio à guerra entre Comando Vermelho (CV) e Guardiões do Estado (GDE), em Caucaia.

Segundo o escrivão Josenildo Menezes, 54, o quebra-cabeça começou a ser montada depois que uma testemunha foi à Delegacia Metropolitana de Caucaia, em 9/11/2017, revelar onde Wesley estaria enterrado. O africano, de acordo com o policial seria dependente químico e teria uma dívida com traficantes do Comando Vermelho. Ele foi executado, teve parte do corpo queimado e decepado. Depois, foi enterrado debaixo do piso de uma casa abandonada.

A informação da testemunha levou à prisão Felipe dos Santos Gomes, 23, Mofado, Jacaroa, Mateus, Playboy, Rato, Rômulo de Lima Santos, 21 e Amilson Ferreira Lourenço, 18.

A prisão de parte da quadrilha deu na descoberta de mais cinco corpos masculinos. Quatro deles estavam desaparecidos e dois tiveram as cabeças cortadas. Segundo o escrivão Josenildo Menezes alguns eram rivais da facção Guardiões do Estado, mas havia um que foi julgado e morto por sido julgado dedo duro.

Confira a versão digital:

Desaparecidos da Violência - Caucaia