Editorial: Escassez, tensão e expectativa

Por Cláudio Ribeiro (textos) Por Mateus Dantas (fotos)
Trecho 1, quando estiver totalmente concluído nos cinco lotes, terá custado R$ 2 bilhões

Serão dias aflitivos, até que o rio São Francisco comece a descer pelos canais do Cinturão das Águas do Ceará e avance em direção aos rios Salgado e Jaguaribe. Até que Orós e Castanhão ganhem volume e aumentem seus espelhos - hoje refletindo menos sol e evaporando o pouco que ainda têm. Será assim, tenso, até Fortaleza e Região Metropolitana se verem livre da ameaça de colapso no abastecimento.

Parece dramático, grave. E é. Dentro de liberações orçamentárias causadoras de atrasos constantes, a obra do Cinturão está sendo abreviada o quanto possível. No prazo e nas dimensões. A chegada da água será pelo Eixo Norte da Transposição, também com obras retomadas no início deste semestre. Os caminhos para o rio foram encurtados. Os canais farão uma curva antes do previsto, no Riacho Seco, km 53, para a água seguir antes rumo aos açudes que abastecerão a Capital.

O traçado é diferente do original. O redesenho emergencial foi pensado para apressar a provisão hídrica. O Castanhão está com 4%. O tempo é tão ralo quanto o volume armazenado nas barragens. O Cinturão precisa “funcionar” ainda no primeiro semestre de 2018. De preferência, segundo o secretário dos Recursos Hídricos, Francisco Teixeira, no período chuvoso. Porque a velocidade de escoamento seria maior e a perda d’água menor. Depois de ter cruzado os Eixos Leste e Norte da transposição, de saber quem já tem água e os que ainda aguardam o aporte, no especial As Águas de Francisco - Expectativa e Realidade na Peleja da Espera, publicado no último dia 11 de setembro , O POVO foi também ver o andamento dos trabalhos do Cinturão das Águas, o grande caminho que vai trazer o São Francisco à Capital. A obra está executada 49,85% , dado até 28/setembro.

O revés mais comum ao longo dos cinco anos de execução foi...dinheiro. O projeto é bancado, na maior parte, por recursos federais. O complemento estadual vem sendo pago dentro do exequível. Obra cara, de R$ 2 bilhões, tocada entre a instabilidade política e a crise econômica nacional. Com os devidos contratempos locais. Os dias difíceis continuam. Verba contada, redimensionada, mas agora pingando com mais regularidade.

Por causa da disponibilidade financeira, nem sempre certa, apenas três dos cinco lotes do Trecho 1 (Jati-Cariús) vêm sendo executados. Os túneis são a etapa mais adiantada. O Cinturão vai ganhando corpo, já é uma serpente de concreto no meio do Cariri Sul. Está quase na reta final neste momento - se nenhum novo trancamento de verba atrapalhar.

Outros incidentes atípicos aconteceram durante os trabalhos. Um cemitério clandestino, não legalizado, apareceu no meio do trajeto em Porteiras. Retardou o serviço na região, o canal precisou até ser desviado. Também foram descobertos sítios arqueológicos. Artefatos ancestrais, pinturas rupestres, material de antigos moradores. História ainda sob análise. Alguns dos locais com os achados foram apontados na fase de prospecção, outros com a obra já em curso.

O novo percurso feito para o rio chegar a Fortaleza acalmará uma demanda de mais de 3 milhões de habitantes, de Fortaleza e Região Metropolitana. Ou acima disso, se contadas as populações no caminho das águas. Se o problema de água do Estado será contornado pelo Cinturão, o tempo e São Francisco irão responder. O esperado é que seja.

Projeto Gráfico

Por Gil Dicelli

A grandiosidade da obra do Cinturão das Águas fica evidente ao sentarmos os olhos nas imagens do fotojornalista Mateus Dantas. A massa de concreto e suas formas rompem o horizonte em histórias a perder de vista. As linhas, ora retas, ora sinuosas, dirigem o olhar e servem de inspiração para a identidade visual. Foi a partir do arranjo espacial que se criou a malha gráfica. As colunas de texto encontram a estrutura e caminham alinhadas.

A tipografia do título é dura e sólida, reflexo do desenho. Ela demarca simbolicamente, em feitio de força, a matriz da construção. Faz-se o amálgama concreto e papel. Fusão de sentidos a serviço da reportagem. É para ler vendo e ver lendo. Boas leituras.

Gil Dicelli é editor-executivo do Núcleo de Imagem

WebDoc

Este especial Cinturão das Águas, além de ser um desdobramento da cobertura sobre a Transposição do Rio São Francisco, integra a série A Peleja da Água, iniciada em 2013 pelo O POVO para tratar a questão hídrica no Ceará. Nele, é explicada a estrutura, detalhados os custos e contadas histórias do caminho que a água do São Francisco vai percorrer para chegar aos cearenses, especialmente neste momento de intensa ameaça ao abastecimento na Região Metropolitana de Fortaleza e no estado como um todo. Ao especial impresso, somam-se um webdoc e um especial digital publicados no O POVO Online.

 

 

Drama hídrico e novo trajeto

Serpente de concreto. No interior dos canais, o avanço médio é de 30 a 35 placas de concreto colocadas por dia. O concreto, na verdade, serve de proteção a uma manta posta por baixo, que evita infiltração

12 mil litros por segundo será a vazão inicial operada na estrutura do Cinturão das Águas do Ceará. Mas o CAC terá capacidade para conduzir até 30 m³/s (mil litros/segundo), segundo a Sohidra.

A contagem regressiva está aberta. A execução do chamado “Trecho Emergencial” do Cinturão das Águas do Ceará (CAC), de aproximados 53 quilômetros, tem mais estes meses finais de 2017, no máximo o primeiro trimestre de 2018, para ser concluída. Já se vão quase cinco anos de frentes de trabalho desde os serviços iniciais. É preciso pressa mesmo, urgência, sob pena de a crise hídrica no Estado, sem precedentes, tornar-se ainda pior.

É esse mesmo tempo equivalente que Fortaleza tem de reserva d’água, segundo a Secretaria Estadual dos Recursos Hídricos (SRH). A água dá até meados do ano que vem. Será o Cinturão que espalhará o rio São Francisco para as regiões precisadas do território cearense. A obra da transposição também segue em andamento. Para a Capital, com 2,7 milhões de habitantes, a situação é bastante crítica. Ao entorno metropolitano, também.

Seria constrangedor a transposição ser concluída antes do CAC – hipótese não levantada oficialmente pelos gestores locais. A obra cearense passou por atrasos. Esteve sem dinheiro um bom tempo. Parou totalmente em 2015, só voltando no fim de 2016. Foi retomada, sofreu os contratempos normais e os imprevisíveis. Idas e vindas dentro de orçamentos e prazos possíveis.

Hoje, o Cinturão está sendo executado parcialmente no Trecho 1, que mede por 149,85 km, traçado de Jati ao rio Cariús, próximo a Nova Olinda. No geral, está 49,85% realizado – dado da Superintendência Estadual de Obras Hidráulicas (Sohidra) até 28 de setembro. A extensão tem cinco lotes, mas três deles é que estão de fato acontecendo – 1, 2 e 5, este último exclusivo de execução dos túneis.

Para acelerar a chegada do rio São Francisco à Capital, a solução adotada foi realizar os primeiros 53 km. Carimbado de emergencial, está 65% concluído, conforme o monitoramento da Sohidra. “O que precisa ficar pronto? A parte interna do canal, para passar água. Enquanto isso a gente termina a drenagem e a parte externa. Vai fazendo depois a perfumaria da obra, os complementos”, afirma o secretário da SRH, Francisco Teixeira. A frase explicita a aflição em concluir o trecho rapidamente. A reserva de água é muito pouca.

RIACHO SECO
O caminho emergencial do CAC segue por todo o Lote 1 (38,65 km), a partir do reservatório Jati, que guardará até 27 milhões de m³ de água da transposição. Depois passa pelos túneis Sítio Alto 1 (463,37 m) e Sítio Alto 2 (583,7 m), atravessa mais 9,2 km do Lote 2 até chegar ao túnel Veneza (2.322,36 m). Com as diferenças no terreno, completa os 53 km. O diretor de Águas Superficiais da Sohidra, Antonio Madeiro de Lucena, diz que Os 9,2 km serão os mais difíceis, “pelo prazo, dinheiro, pelo contexto todo”.

Essa parte “final” joga a água do Cinturão para dentro do Riacho Seco, em Missão Velha. Já sem canais, o a água descerá para o leito do rio Salgado, depois pelo rio Jaguaribe, encontrará o açude Castanhão quase seco e é como se vislumbra a provisão perene para abastecer Fortaleza e as bacias hidrográficas no percurso. “Serão 12 mil litros por segundo (m³/s) de vazão inicialmente, mas com capacidade para chegar a 30 m³/s”, diz Igor Lima, engenheiro da Sohidra.

Depois do km 53, a obra do Trecho 1 segue adiante. Porém, efetivamente, os Lotes 3 e 4 não começaram. Por falta de recursos financeiros. “O que a gente sabe é que vai desaguar no rio Cariús. Mas o Governo do Estado ainda não fez nenhum contato com a gente aqui, para falar sobre a obra”, revela Afonso Domingos Sampaio, prefeito de Nova Olinda. Na cidade, de 15 mil habitantes, o tal Cinturão ainda nem é assunto em rodas de conversa, embora lance perspectivas de geração de emprego na região. Mas lá é obra desconhecida.

AO RELENTO
Dos lotes 3 e 4, a Sohidra confirma que as tubulações já foram totalmente pagas e estão estocadas. Porém, há dois anos se desgastam ao relento com a paralisação forçada da obra. O diretor do órgão, Antônio Lucena, diz que em breve precisarão receber serviço de jateamento, de aproximadamente R$ 100 mil, para amenizar o efeito corrosivo. “O ideal seria a execução continuada”, lamenta. Ele aponta junho e outubro de 2018, respectivamente, como possíveis períodos de retomada dos serviços nos Lotes 3 e 4. Tudo estimativa, só se os planos financeiros não mudarem antes disso. O projeto inteiro do Cinturão das Águas prevê outros trechos de obras e ramais por todo o Ceará, que totalizarão 1.252,65 km. Mas sem previsão de quando começará.

A ideia do trajeto emergencial partiu dos engenheiros e técnicos cearenses envolvidos. Redesenhado pela necessidade. Lucena diz que cogitaram soltar água no Riacho das Porteiras (ainda no Lote 1, km 20), entre Porteiras e Brejo Santo. “Mas é uma bacia muito plana. Iria perder bastante água e não chegaria tudo no rio Salgado. Aí desistimos”, revela o diretor da Sohidra.

No projeto original da transposição, a água iria para o Castanhão pelo Ramal do Salgado, um futuro braço dos canais da transposição: 35 km entre Cajazeiras/PB e Lavras da Mangabeira/CE. Seria mais demora. “A água entraria pelo Riacho dos Porcos, que não tem calha suficiente. Precisaria encher os açudes Atalho (em Jati) e Porcos (em Brejo Santo), que levarão três meses para encher com o São Francisco. Para ganhar esse tempo, a gente conduz pelo CAC até o km 53”, justifica o secretário Francisco Teixeira.

O Ramal do Salgado seria (ou será) bem mais próximo do Castanhão, mas a obra ainda nem foi iniciada. E é incerto de quando sairá do papel. Hoje encontra-se apenas com o projeto executivo finalizado, segundo o Ministério da Integração Nacional. Custo estimado em R$ 690 milhões. 

 

CINTURÃO DAS ÁGUAS DO CEARÁ

O primeiro trecho do CAC tem 149,85 km, dividido em cinco lotes. Porém, a água da transposição do rio São Francisco precisará da execução de apenas três dos lotes (1, 2 e 5 - os que estão em andamento) para tentar socorrer Fortaleza do colapso hídrico cada vez mais iminente

Detalhes do Projeto

CANAIS

CANAIS

- São 125 km de canais no trecho 1. Após o corte no solo, os técnicos instalam uma geomembrana e só depois aplicada uma camada de concreto, de 8 cm de espessura. A largura do fundo é de 5m, com 4,2m de altura.

SIFÕES

SIFÕES

- O lote 5 do trecho 1 corresponde à execução dos túneis. São nove, totalizando 5,99 km: Sítio Alto 1 (463,37m), Sítio Alto 2 (583,7m), Veneza (2.322,26m), Cabaceira (210m), Arajara (349m), Boa Vista (370,7m), Cruzeiro (412m), Pai Mané (284m) e Carnaúba (290m).

TÚNEIS

TÚNEIS

- Na faixa de 800 a 1000 reais, é bastante elogiada pelos usuários por ter pontos firmes e costurar com tecidos grossos sem dificuldade. Ela possui três posições de agulha, e comprimento e largura ajustável de ponto.

OBRAS ESPECIAIS

OBRAS ESPECIAIS

- O CAC ainda recebe serviços de controle de nível (comportas e descargas de segurança), bueiros (escoamento pluvial) e drenagem profunda (para controle do lençol freático), pontilhões e passarelas (para veículos e pedestres)

Prazo apertado, dinheiro curto

Tubulações dos sifões possuem 2,8 metros de diâmetro

 O trocadilho é inevitável: a obra do Cinturão das Águas do Ceará avança conforme o dinheiro pinga. O CAC é bancado principalmente pela União, com a contrapartida estadual. Quando o 1º Trecho estiver finalizado, terão sido pagos R$ 2,112 bilhões, sendo R$ 1,716 bilhão de recursos federais e R$ 396 milhões de verba estadual. Como comparação, o projeto da transposição do rio São Francisco, que lançará água dentro do Cinturão pelo eixo Norte, além do Eixo Leste, está custando perto de R$ 11 bilhões.

Os R$ 2,112 bilhões são previstos para o intervalo Jati-Cariús (149,85 km), segundo o secretário nacional de Infraestrutura Hídrica do Ministério da Integração Nacional, Antônio de Pádua de Deus. Hoje, no entanto, a obra ainda tem dois dos cinco lotes paralisados, justamente por causa do freio financeiro que sombreou os trabalhos desde o início. A prioridade, então, é entregar o que for possível do trecho, os 53 km emergenciais, para que a água corra para o açude Castanhão e até Fortaleza pelo Eixão das Águas.

Mês passado, aconteceram mais dois envios federais, dias 9 e 19 de setembro. Juntos, somaram mais R$ 39,1 milhões à conta. Foi só a quinta remessa em 2017, mas a maior do ano até agora. Em agosto, por exemplo, o Ministério não mandou nada, pelas anotações da Secretaria dos Recursos Hídricos (SRH). Desde julho de 2013 a União envia dinheiro para o CAC. Em valores já pagos aos consórcios construtores neste período, foram R$ 748.250.947,85 liberados de Brasília, conforme o apontamento feito pela SRH. Desde 2012, o Estado do Ceará pagou R$ 26,6 milhões em desapropriações e outros R$ 168,5 milhões (desde outubro/2014) às empreiteiras.

POUCO PARA DIVIDIR
Os tempos já foram até piores, segundo o histórico relatado pelos gestores locais da obra. Em 2015, o País em tensão pré-impeachment de Dilma Rousseff, ebulição política e econômica, e os trabalhos do Cinturão chegaram a funcionar apenas no Lote 1 do 1º Trecho. Foi um período em que a obra do CAC, mesmo com repasses em 11 dos 12 meses, recebeu pouco diante do que seria necessário.

“O Lote 1 foi o único da obra que nunca parou desde que começamos o Cinturão. Naquele ano de 2015, chegava todo mês, mas realmente era pouco dinheiro para o que se precisava avançar. Não dava para dividir entre os cinco lotes”, conta o diretor de Águas Superficiais da Superintendência de Obras Hidráulicas do Ceará (Sohidra), Antonio Madeiro Lucena. Em junho/2015, quando a verba foi a mais robusta naquele ano, R$ 20 milhões, representou a metade da mais recém-enviada de 2017. Ele ressalta que a verba atual segue aquém da demanda.

Em 2017, segundo Antônio de Pádua, do Ministério, já estão em nota de empenho – reservados, mas não liberados – outros R$ 19 milhões e há mais R$ 80 milhões previstos para suplementação orçamentária. O secretário estadual de Recursos Hídricos, Francisco Teixeira, lembra de reunião ocorrida no início de setembro, entre o governador cearense Camilo Santana e o ministro da Integração, Hélder Barbalho. “O governador demonstrou a preocupação para se atingir os 53 km, mas precisa que o Ministério cumpra o orçamento previsto anteriormente”, alertou Teixeira.

“Tínhamos R$ 199 milhões de orçamento para 2017, mais R$ 40 milhões de restos a pagar. Aportamos R$ 70 milhões. Faltam R$ 130 milhões para o Ministério nos encaminhar e repor o orçamento que foi cortado, algo em torno de R$ 83 milhões. Por conta da nova meta de déficit do Governo Federal, que cresceu R$ 20 bilhões”, disse. Teixeira confirmou que o esforço do Ministério será a reposição do orçamento cortado. “É inexorável que venham para nós os R$ 240 milhões estabelecidos no início de 2017”, pontuou o secretário estadual.

“Nossa previsão é que essa obra do Cinturão, que permita que a água corra até o km 53, seja concluída em janeiro. Queremos terminar o caminho (parte interna do canal), depois faremos os serviços complementares”, reforçou Antônio de Pádua. Ele anunciou que até 10 de outubro deve ser iniciada a operação da segunda estação de bombeamento (EBI-2) do Eixo Norte da transposição. A EBI-1 foi ligada em agosto.

Os dois primeiros reservatórios, o Tucutu e o Terranova, já estão sendo abastecidos com o São Francisco. Também em outubro, as obras da transposição passarão a atuar nos três turnos. Para que o aporte do Cinturão seja garantido. “Não podemos correr o risco de a água não chegar até o fim de janeiro em Jati”, ressaltou o secretário nacional de Infraestrutura Hídrica.

SAIBA MAIS

Empreiteiras do Trecho 1

Lotes 1 e 4: Consórcio Águas do Ceará (empresas Passarelli, Serveng e
PB Construções)

Lote 2: S/A Paulista de Construções e Comércio

Lote 3: Consórcio Águas do Cariri (Construtora Marquise e EIT)

Lote 5: Consórcio Ferreira Guedes-Toniollo, Busnello (empresas Construtora Ferreira Guedes e Toniollo, Busnello S/A Túneis, Terraplanagens e Pavimentações).

Mesmo em obras como execução de túneis ou escavações com solo arenoso, a ocorrência de acidentes foi mínima nos trabalhos do CAC até o momento. Coincidiu de O POVO flagrar um, próximo ao túnel Veneza. Uma betoneira virou na inclinação de uma estrada de acesso dos operários. No veículo, apenas o motorista, que nada sofreu.

José Odaci Anastácio Raulino tem 50 anos, há três é motorista na obra do Cinturão. Na foto ao lado, feita no Sifão 02 que corta a BR-116, em Jati, ele é o de capacete vermelho, à esquerda. “Já trabalhei na transposição, no Canal do Trabalhador. Essa daqui, do Cinturão é a que vai tirar o Ceará do sufoco da falta d’água”, diz Odaci.

 

Cruzes no Caminho

2 anos foi o tempo que os responsáveis pela obra esperaram para desviar o trajeto do Cinturão no trecho onde havia o cemitério clandestino, na localidade Piçarra, em Porteiras. Porque os familiares das 19 pessoas sepultadas no local não dispunham de qualquer registro de nascimento ou certidões de óbitos

No trecho ao lado do cemitério, na localidade Piçarra, canal teve desvio sinuoso de 150 metros

A passagem da obra dos canais do Cinturão das Águas pela localidade Piçarra, em Porteiras, teria sido normal, dentro do previsto, não fosse um cemitério clandestino aparecer no caminho. No alto de um serrote arenoso, um campo-santo sem registro oficial algum, de nada nem ninguém. Descoberto pelos operários quase por acaso, em 2015, quando preparavam o terreno para escavações no Lote 1.

No local, 14 cruzes. Precisariam investigar se haveria mais túmulos. E havia - outros cinco acabaram confirmados posteriormente. Quem estaria enterrado? Desde quando? Foi aberto inquérito na Delegacia Regional de Brejo Santo. A Perícia Forense examinou o local e os corpos. O inusitado acabou gerando um imbróglio que durou quase dois anos: esperar até quando para remoção dos restos mortais? Em nome dos prazos, para que os serviços avançassem, o canal precisou ser redesenhado e o trajeto ganhou um pequeno desvio em “S” naquele ponto.

“Aqui foi muito usado até os anos 1970, mas é bem mais antigo. Enterravam os filhos dos moradores da região, ou os mais velhos”, conta seu José Miranda, 52 anos, agricultor, morador de um sítio quase vizinho ao cemitério. Ele costuma soltar seus animais para pastar na região. Não há cerca entre as cruzes, apenas mato de pouco mais de meio metro. Fica perto de um dos sifões do Cinturão, o Jardim, de aproximadamente 270 metros, que atravessa um grande declive topográfico e também conduzirá a água do Cinturão.

Por lei federal, o cemitério não poderia ser simplesmente removido. “Deu trabalho”, admite sobre o episódio a presidente da Comissão de Desapropriação da Secretaria Estadual dos Recursos Hídricos (SRH), Germana de Mattos Brito Góes Giglio. “Foi complicado porque legalmente não existia nada ali”. Burocracia obrigatória, exigiu-se a certeza de quem estivesse sepultado e o contato seguinte com os familiares para autorização de remoção e traslado das ossadas.

As informações colhidas na região, apenas em testemunhos orais, apontaram que o cemitério remontaria aos anos 1920. No local estariam restos mortais desde recém-nascidos, adultos e idosos padecidos por causas mais comuns a supostas vítimas da gripe espanhola. Pandemia do início do século passado, a doença matou perto de 50 milhões de pessoas pelo mundo. No Brasil teriam morrido 35 mil pelo vírus. Também com registros ali na Piçarra.

REFÚGIO DE JARARACA
Quando os técnicos da SRH sondavam mais indicações sobre o lugar, um boato chegou a apontar que Jararaca, um dos homens do bando de Lampião, teria sido enterrado naquele cemitério. “Mas se soube que não era verdade”, esclareceu o diretor de Águas Superficiais da Superintendência Estadual de Obras Hidráulicas (Sohidra), Antônio Madeiro de Lucena.

Menos famoso, o cangaceiro José Leite de Santana teria usado a região como refúgio, daí o rumor. Hoje, inclusive, é tido como santo popular na região de Mossoró (RN), onde morreu. Atribuem milagres a ele. Antes de morrer, Jararaca teria se arrependido de seus atos do tempo do cangaço.

O último enterro no cemitério teria ocorrido em 1992, segundo Germana de Mattos Brito. Quanto aos primeiros funerais, nenhuma certeza, apenas deduções. As histórias foram sendo contadas, elucidadas, mesmo assim a obra do Cinturão acabou não avançando imediatamente no trecho.

Uma das descrições da presidente da Comissão de Desapropriação ajuda a entender a canseira jurídica que foi contornar o problema. “Tivemos que fazer nascer e em seguida fazer morrer”. Das 19 pessoas enterradas, só uma tinha registro de nascimento e nenhuma certidão de óbito”, contou. Não era incomum na época a ausência de registros cartoriais pelo Interior.

Toda a documentação precisou ser aberta, caso a caso, com o contato direto a cada família localizada e a busca por informações o quão específicas fossem. Para deixarem de inexistir oficialmente. O “fazer nascer e morrer” foi-se demorando e os engenheiros definiram o desvio de rota do canal como melhor opção. A alteração representou apenas 150 metros de diferença sinuosa em relação ao trajeto anterior. A repercussão financeira com o redesenho foi mínima. “Depois vimos que deveríamos ter tomado essa decisão até antes”, admitiu Lucena.

A presidente da Comissão de Desapropriação informou que as ossadas deverão ser transferidas para o cemitério de Brejo Santo. A pedido dos familiares. Faltam os contatos finais, inclusive o repasse das certidões. A área do cemitério de Piçarra deverá ser murada e os jazigos identificados.

Túneis: primeiros a serem concluídos

Há nove túneis no Trecho 1 do Cinturão das Águas

Faltavam pouco mais de 35 metros para se atingir o outro lado da rocha, quando O POVO esteve nos trabalhos do túnel Boa Vista (370,7 m), no Crato. Com uma máquina perfuratriz, os operários perfuram de 80 centímetros até mais de um metro por turno. “Depende do tipo de terreno que a gente encontra”, explicou Arnaldo Tiago, supervisor também da obra do túnel Arajara (349 m) na cidade. O serviço se divide das 7h às 18h e das 18h às 4h.

Há nove túneis no Trecho 1 do Cinturão das Águas. O maior deles é o Veneza (2.322,36 m). Para comparar, o Cuncás II, entre Mauriti (CE) e São José de Piranhas (PB), no Eixo Norte da transposição do São Francisco, mede 15,2 km. É o maior da América Latina. As obras dos túneis corresponde ao Lote 5, espalhadas nos terrenos dos lotes 2, 3 e 4. É a execução mais adiantada do Cinturão. Já está em 92% e deve ser concluída até dezembro/2017, conforme os cálculos da Sohidra. No total, são 5,99 quilômetros de galerias varando relevos no caminho dos canais.

A cada ciclo (o avanço por turno), os operários instalam barras de ferro nas paredes do túnel. São chamadas de cambotas, servem como escoras. E imediatamente injetam 20 centímetros de concreto, para a amarração da estrutura. O entulho retirado é usado como talude, para dar sustentação ao lado externo da obra. O buraco mede 7,5 m de altura por 6,1 m de largura. João Narcisio Vicente, encarregado das escavações, tem 32 anos, 13 em execução de túneis. Ele já atuava nas obras do Cinturão havia oito meses, quatro deles perfurando o Boa Vista.

Na boca de entrada do túnel, numa capelinha, uma imagem de Santa Bárbara, a padroeira dos mineradores. Vicente diz que essa é uma tradição em qualquer obra do tipo pelo País. A santa permanece do início até o trabalho finalizado. 

Fragmentos do tempo

Pela descoberta deste material no meio da obra, os cientistas tentarão identificar os povos nômades ou sedentários que circularam ou se abancaram na área no passado não tão recente.

Quase no desemboque do trecho emergencial do Cinturão das Águas do Ceará (CAC), chegada ao km 53, a placa avisava - até a época da visita do O POVO na região: “Sítio Arqueológico Pau d’Arco II – Área Interditada”. Uma descida de poucos metros na estradinha onde passará o canal e se chega à calha do Riacho Seco. Territorialmente, é Missão Velha. Pau D’Arco II é um dos oito sítios de achados arqueológicos identificados antes ou já com a obra em andamento.

Pela descoberta deste material no meio da obra, os cientistas tentarão identificar os povos nômades ou sedentários que circularam ou se abancaram na área no passado não tão recente. Foram encontrados vestígios líticos (pedras lascada e polida) e cerâmicos (indígenas e históricos, pré ou pós-colonial). Também desenhos rupestres em paredões de pedras. Cerca de 5 mil peças e artefatos foram resgatados para exames laboratoriais nos oito sítios. Nada ainda possível de estimar qualquer datação. O estado de preservação dos sítios estaria comprometido.

Além de Missão Velha, os achados se espalham em Brejo Santo, em Abaiara, em distritos e na área urbana de Crato. Cada um tem área medindo de 200 a 300 m², aproximadamente. Na região, conforme Agnelo Queirós, coordenador-geral da pesquisa, o que se tem de registro arqueológico datado são desenhos rupestres num sopé da Chapada do Araripe, próximos aos canais do Cinturão, que recuam a cerca de 1.500 anos. “Mas não fazem parte desses achados de agora”, afirma. Poderão servir apenas como referência cronológica.

O Instituto de Arqueologia do Cariri, a Fundação Casa Grande-Memorial do Homem Kariri e a empresa A&R Arqueologia e Consultoria realizam a investigação científica no trecho de Jati a Nova Olinda. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) fiscaliza os trabalhos. Os primeiros diagnósticos na região foram feitos ainda em 2012, na fase de licenciamento da obra, chefiados pela arqueóloga Rosiane Limaverde, da Fundação Casa Grande, falecida este ano.

A interdição nos sítios Pau d’Arco, determinada desde junho do ano passado, foi liberada pelo Iphan somente na primeira semana de setembro/2017. E as frentes de serviço puderam ser retomadas. Acabou não atrapalhando o cronograma da obra porque o CAC sofreu contingenciamento financeiro em parte de 2016.

Havia uma preocupação inicial com possíveis descobertas paleontológicas no trajeto e entorno do Cinturão, bastante incidentes na região do Cariri. Mas nenhuma presença fóssil foi apontada até agora, confirma o geólogo Antônio Madeiro de Lucena, diretor de Águas Superficiais da Superintendência de Obras Hídricas do Ceará (Sohidra).

 

 

QUEM ERAM?
A análise dos arqueólogos na região é feita com as chamadas escavações de subsuperfície em cada um dos sítios. É como avaliam o potencial de cada área. “Nas escavações, analisamos padrões. Quais as características líticas, quem eram aqueles povos que habitavam a região, o que faziam, que tecnologias usavam, do que viviam, como se relacionavam com a natureza. É o que investigamos”, explica Agnelo.

Detectados em março de 2016, os sítios Pau d’Arco I, II e III passaram por salvamento arqueológico (escavações e pesquisa sistemática) em junho de 2017. Foi o que embasou o Iphan para interditar a obra. Os demais sítios foram detectados nas fases preliminares da obra, entre 2012 e 2013. O coordenador da pesquisa diz que já houve salvamento nos três sítios Pau d’Arco, em Missão Velha, e no Pinga, em Abaiara. O sítio São Bento Lagoa Encantada, em Crato, está passando por atividades de salvamento.

Os sítios Cacimbinha, em Brejo Santo, mais o Pedra do Índio e Baixio das Palmeiras, em Crato, não terão peças resgatadas. Segundo Agnelo, por estarem fora da área de impacto direto da obra ou apresentarem gravuras rupestres. “São considerados sítios testemunhos e/ou destinados a futuras pesquisas”, complementa. O material recolhido em campo segue para o laboratório da Fundação Casa Grande, em Nova Olinda. Toda a região seguirá sob monitoramento arqueológico.

O ponto da descoberta em Missão Velha já tinha grande relevância para o curso da obra. Além do achado científico mais recente, será o local onde a água transposta do rio São Francisco fará a curva mais importante do trajeto cearense. Do CAC, irá para dentro do Riacho Seco, depois desce o rio Salgado, alcança também o rio Jaguaribe e vai para dentro do açude Castanhão. Este, cada vez mais reduzido de volume – 4% atualmente. É a esperança ao iminente risco de colapso hídrico em Fortaleza.

Todas as idades do Planeta

Todos os grupos rochosos existentes na Terra, além de todas as faixas etárias registradas do solo do planeta, estão presentes na obra cearense.

Ao longo de todo o traçado já escavado e do que ainda será realizado no Trecho 1 do Cinturão das Águas do Ceará, mais uma descoberta científica: todos os grupos rochosos existentes na Terra, além de todas as faixas etárias registradas do solo do planeta, estão presentes na obra cearense. As formações espalhadas pelo CAC variam das consideradas recentes, com 100 milhões de anos, até as mais antigas, com até 4 ou 5 bilhões de anos. Estas são o que há de mais ancestral.

“Tem de tudo e de toda idade. Lá no percurso do Cinturão aconteceram todos os eventos geológicos já conhecidos da Terra”, afirma o diretor de Águas Superficiais da Sohidra, Antônio Madeiro de Lucena, geólogo de formação. Ele aponta que este é “um dos principais testemunhos da gênese litológica do planeta”. Garante ser situação única entre obras de engenharia desse tipo já executadas pelo Brasil. “A obra tem um lado acadêmico forte. Precisa ser acompanhada pelas universidades locais”, valoriza.

As três principais classificações das rochas terrestres são as ígneas ou magmáticas, as sedimentares e as metamórficas. O granito, de 4 bilhões de anos, é exemplo de rocha magmática. Resulta da solidificação da massa procedente do centro do globo terrestre. No caso,apareceu nos Lotes 1 e 4 do primeiro trecho.

O gnaisse, um pouco mais novo, de 3,5 bilhões de anos, também se apresentou nos mesmos lotes. Mas é rocha do tipo metamórfica, alterada por temperaturas muito elevadas - de 600 a 700°C.

O filito (3 bilhões de anos), também metamórfica, tem sido usado na proteção dos taludes (paredes de sustentação) do canal. “Tem sido uma economia, não precisamos comprar pedra brita”, acrescenta Lucena. No sifão Jardim, próximo à barragem de Jati, ponto de captação da água do Cinturão, aparecem as três formações.

Na execução dos túneis (lote 5), foi registrado o metamarga, que é rocha sedimentar marinho/lacustre. Chega à casa dos 2 bilhões de anos e tem sido usado justamente na confecção de brita.

Cientificamente comprovado, a região do Cariri guarda resíduos oceânicos. Estima-se que do tempo da pangea, antes da divisão dos continentes. Por isso a presença de fósseis ser comum - embora nada apontado no caminho do CAC. Arenito, argilito, folhelho e ritmito - todas do tipo sedimentar - apareceram entre os lotes 1, 2, 3 e 5. São rochas novas, de “apenas” 100 milhões de anos.

 

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