Ponto de encontro

Destaque no cenário audiovisual internacional, Cine Ceará chega à 27ª edição com filmes premiados, articulação política e diálogo com a Cidade

Por João Gabriel Tréz
Últimos Dias em Havana, de Fernando Pérez

No sábado, 5, Fortaleza se transformará no ponto de encontro para jornalistas, cineastas e público trocarem experiências, reflexões e emoções sobre a produção audiovisual da América Ibérica, região que compreende as nações de língua espanhola das Américas, o Brasil, a Espanha e Portugal: é quando começa a 27ª edição do Cine Ceará — Festival Ibero-Americano de Cinema. O evento tem como marca o estímulo à aproximação entre estes países e escolhe anualmente um para ser homenageado em uma mostra especial — neste ano, o país escolhido é o Chile. Na competição principal, que tem como palco o Cineteatro São Luiz, sete obras inéditas no Brasil disputam o Troféu Mucuripe de melhor longa-metragem. Além do Chile, a edição homenageia o premiado diretor de fotografia paraibano Walter Carvalho, que receberá um troféu especial no domingo, 8. Entre os filmes da carreira do fotógrafo, destacam-se Central do Brasil (1997), Lavoura Arcaica (2001) e O Céu de Suely (2006).

Segundo Margarita Hernández, produtora executiva e uma das curadoras de longas do evento, a intenção do festival sempre é “dar um panorama do cinema ibero-americano”. Neste ano, foram selecionados dois filmes brasileiros, um chileno, um argentino, duas coproduções cubanas e uma coprodução dominicana-porto-riquenha. “De longas nacionais, temos o Malasartes e o Duelo com a Morte (dirigido por Paulo Morelli), uma superprodução com efeitos especiais e que tem grande expectativa em torno. É bom ter um filme como ele na seleção”, afirma. A outra produção brasileira, Pedro Sob a Cama, de Paulo Pons, é descrita pela curadora como “uma produção menor, um filme muito competente e delicado”.

Entre os estrangeiros, a curadora aponta a diversidade sexual como assunto central. “Quatro longas abordam o tema: Ninguém está olhando, da argentina Julia Solomonoff, já premiada antes no festival, os dois cubanos (Santa e Andrés, de Carlos Lechuga, e Últimos Dias em Havana, de Fernando Pérez) e o chileno Uma Mulher Fantástica, que abre o evento”, lista. Dirigido por Sebastián Lelio, o longa de abertura é destacado pela curadora. “Abrimos com um filme chileno num ano que homenageamos o país. Ele tem uma mulher trans fazendo o papel de uma mulher trans. É um trabalho muito interessante e que deve fazer sucesso de público”, prevê. Completando a lista está O Homem Que Cuida, de Alejandro Andújar. “Damos oportunidade a primeiras obras e a cinematografias pequenas. Neste ano, valorizamos o filme do dominicano Andújar, um novo cineasta de um país com poucas condições, mas que está no mesmo nível de competição”, assegura.

O caráter internacional do festival, na avaliação do diretor do evento Wolney Oliveira, faz o Ceará despontar internacionalmente como polo de cinema. “Hoje, no País, há mais de 100 festivais de cinema ativos e o nosso se posiciona como um dos principais. É uma importância reconhecida pela crítica, pela comunidade e pelos cineastas”, afirma. “Ele é o único com recorte ibero-americano. Gramado tem filmes latinos, mas conta com uma competitiva só para eles. Dos nossos sete longas, cinco tiveram carreira no mundo e escolheram o Cine Ceará para estrear no Brasil”, evidencia. “O Cine Ceará começa a ocupar um espaço importante no contexto ibero-americano”, avalia.

Wolney ressalta, também, o papel do festival para o audiovisual brasileiro. “Ele é um dos poucos com um recorte político, que tem peso de articulação”, considera. Nessa vertente, o evento recebe o I Seminário Descentralização da Produção Audiovisual no Centro-Oeste, Norte e Nordeste — CONNE. Margarita destaca que, apesar da produção crescente nas regiões, a verba segue centralizada no Sudeste. “A região CONNE ocupa no mapa um tamanho bastante significativo e merece defender seu espaço nas políticas públicas”, defende. “Estamos lutando por essa descentralização de recursos. Atualmente está se filmando muito no Ceará, então é importante que esse seminário aconteça aqui”, ressalta.

Em relação ao contexto local, Margarita afirma que o festival é pensado especialmente para a população de Fortaleza. “É importante ressaltar que os debates sobre os filmes, nas manhãs seguintes às exibições, são abertos ao público. Gostamos de estrear bons filmes de diferentes linguagens, uns mais contemplativos, outros mais abertos, mas que dialoguem”, pondera. “O São Luiz funciona como um grande aliado por ser um chamariz para o público. Ele é um patrimônio da Cidade, muitas pessoas estão lá e vão ver os filmes. O Cine Ceará é para o grande público daqui”, convida.

Serviço
27º Cine Ceará
Quando: de 5 a 11 de agosto
Onde: Cineteatro São Luiz, Cinema do Dragão e Caixa Cultural
Entrada franca.
Mais informações: www.cineceara.com 

Do Ceará, para o Ceará

Discutindo e exibindo a produção audiovisual local, Mostra Olhar do Ceará chega à maioridade neste ano com 23 filmes competindo pelo Troféu Mucuripe

Close, de Rosane Gurgel, é um dos selecionados para a mostra. DIVULGAÇÃO

Criada em 1999 para garantir espaço especial ao cinema feito no Estado dentro do Cine Ceará, a Mostra Olhar do Ceará chega ao seu 18º aniversário. Funcionando como janela de exibição e momento de reflexão sobre a produção cearense, a mostra acolhe, entre ficções, documentários e trabalhos experimentais, 23 curtas. A curadoria foi feita por cinco membros da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine): os jornalistas André Bloc (O POVO), Beatriz Saldanha, Camila Vieira, Diego Benevides e Érico Araújo Lima.

O diretor do festival, Wolney Oliveira, lembra que a ideia com a criação da Mostra Olhar do Ceará era “ampliar a quantidade de filmes do Estado” no evento. “Nem todos podiam participar da competitiva de curtas e, no fim dos anos 1990 e começo do ano 2000, a produção local começou a ter um aquecimento”, contextualiza. “Resolvemos criar uma mostra com foco só nas produções cearenses para valorizá-las e, hoje, vemos um volume importante. Agora, nessa última convocatória, tivemos quase 100 curtas daqui. É uma produção significativa”, aponta. “Apesar de estarmos num país em crise econômica e política, a única área da economia que, digamos, não está em crise é o audiovisual. Houve o recente lançamento do Programa Ceará Filmes, temos a Vila das Artes, a Casa Amarela, dois cursos superiores de cinema. Ou seja, somos um dos poucos estados que têm o tripé formação-produção-difusão”, afirma Wolney. “Tudo isso tem a ver com essa quantidade de filmes inscritos”, completa.

Dentre os filmes que se inscreveram para a mostra, o curador André Bloc destaca a diversidade como a principal característica. “Eram filmes de diferentes cantos do Estado (Sítio Veiga, de Carla Moreira, é de Senador Pompeu e Candeias, de Reginaldo Farias e Ythallo Rodrigues, vem de Juazeiro do Norte, por exemplo), diferentes orçamentos. Uma diversidade impressionante, tanto de modos de produção quanto de temáticas, gêneros”, afirma. “Na média, as produções são bem pequenas. Existe, no centro de tudo, uma vontade de fazer da forma que der. Gostei de ver uma produção robusta do interior e, em especial, o altíssimo número de realizadoras”.

Segundo Bloc, o Cine Ceará deu toda a liberdade para a Aceccine definir o modelo de curadoria. “Nossa ideia central era dar vazão a essa diversidade e propor o debate. Cada um dos cinco membros da curadoria fez uma lista, vimos os mais votados, mas também demos voz ao voto minoritário”, explica. “O critério não era puramente técnico ou de gosto pessoal, mas de uma visão mais geral, mais aberta ao que o cinema cearense tem a oferecer”, afirma André. “Tem comédia escrachada (Guiana Francesa, de Edmilson Filho e Olavo Júnior) e filme de horror (Jonas Banhado em Sangue, de Mateus Bandeira) drama experimental (Atalanta, de Fernanda Brasileiro e Hylnara Vidal) e documentário de processo (Rastros, de Sabina Colares e Samarkandra Pimentel). Queremos propor a noção do quanto o fazer cinematográfico cresce quando tem múltiplas vozes”, convida. (João Gabriel Tréz)

Serviço
Mostra Olhar do Ceará
Quando: de 5 a 11 de agosto
Onde: Cinema do Dragão (rua Dragão do Mar, 81)
Entrada gratuita.
Veja os selecionados: goo.gl/xHGygd

14 curtas na mostra nacional

A animação Vênus - Filó, a Fadinha Lésbica (MG) compete neste ano. DIVULGAÇÃO

Na competição de curtas brasileiros, 14 obras foram selecionadas para a mostra competitiva, que conta com filmes experimentais, ficções, documentários e uma animação. A produtora executiva do festival Margarita Hernández destaca ainda a participação feminina. “A presença das mulheres, muito importante e discutida, está crescendo nas inscrições e na seleção. Temos seis diretoras, é um bom número”, comemora.

Cinco curtas da mostra são do Ceará, fazendo do Estado o mais representado. Do que se faz de conta, ficção dirigida por Amanda Pontes e Michelline Helena, é um dos selecionados. “É muito bom exibir o filme onde ele foi realizado. Nem sempre temos a oportunidade”, afirma Amanda. “A política do festival vem aumentando gradativamente a representatividade de filmes daqui. É uma produção rica, pulsante, que tem destaque em festivais do Brasil inteiro e até de fora”, aponta. Os outros cearenses selecionados são Vando Vulgo Vedita (Andréia Pires e Leonardo Mouramateus), A Balada do Sr. Watson (Firmino Holanda), Memórias do subsolo ou o homem que cavou até encontrar uma redoma (Felipe Camilo) e Caleidoscópio (Natal Portela).

Os outros curtas vêm de Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco e Minas Gerais. O representante mineiro, Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica, de Sávio Leite, é a única animação selecionada. “É um filme polêmico e deve dar muito o que falar”, adianta Margarita. Diretora do experimental Mehr Licht! (RJ), a artista visual Mariana Kaufman celebra a abertura do Cine Ceará. “Um dos papeis importantes dos festivais de cinema é mostrar para o público filmes que nem sempre encontram janelas de exibição e, portanto, não chegam ao público”, avalia.

Alessandra Bergamaschi (realizadora ), André Parente (professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro), Benito Amaro (técnico de som direto cubano), Osmar Gonçalves (professor da Universidade Federal do Ceará) e Vera Zaverucha (especialista em legislação de cinema e ex-diretora da Agência Nacional de Cinema) compõem o júri deste ano. Além dos prêmio oficiais, os curtas da mostra também disputam o Troféu Samburá, oferecido pelo Grupo de Comunicação O POVO. (João Gabriel Tréz) 

Trailers

Para sentir a magia do cinema pela primeira vez

Por Isabel Costa
Mostra O Primeiro Filme a Gente Nunca Esquece leva alunos de escolas públicas ao cinema. DIVULGAÇÃO

Entrar em uma sala de cinema, com baldes de pipoca em mãos, e passar duas horas assistindo a uma produção cinematográfica é uma atividade corriqueira no cotidiano de muitas pessoas. Alguns grupos específicos, entretanto, nunca tiveram o prazer de sentar nas poltronas do cinema e deixar a mente ser guiada pelos personagens, pela fotografia, pelo som, pelos efeitos e pelo enredo.

Com o intuito de formar novas plateias e oportunizar acesso ao cinema para grupos específicos, o Cine Ceará oferece programação nas chamadas Mostras Sociais - atualmente divididas entre Mostra O Primeiro Filme a Gente Nunca Esquece, Mostra Melhor Idade e Mostra Acessibilidade. Ao longo dos anos, o Cinema do Dragão do Mar, a Caixa Cultural, o Theatro José de Alencar e o Cineteatro São Luiz receberam as sessões especiais.

Mais de dez mil cearenses já participaram do programa, que estreou em 1999 com atendimento a crianças e adolescentes e, em 2017, completa 18 anos de existência. Em 2003 e em 2013 foram incluídas programações voltadas para idosos e para cegos e surdos.

“As crianças, geralmente, estão acostumadas com a televisão. O acesso é mais fácil. Cinema, infelizmente, para algumas familias é caro e inviável. Nem todos conseguem levar um filho. O Cine Ceará proporciona isso para as crianças que nunca conseguiram ir. A oportunidade de estar pela primeira vez na sala de cinema”, explica Mariana Medina, integrante da curadoria da Mostra O Primeiro Filme a Gente Nunca Esquece em 2017.

Criada em 2013, a Mostra Acessibilidade oferece sessões com audiodescrição e libras

Estudantes de escolas públicas serão levadas até o Cineteatro São Luiz em ônibus cedidos pela Secretaria da Educação do Estado (Seduc). Além do filme, a sala do Cineteatro - aponta o cineasta Telmo Carvalho - é uma atração que merece ser visitada e admirada pelos estudantes. “Salas de cinema grandes, como a do São Luiz, não existem mais”, pontua Telmo, que terá três produções integrantes da mostra: Eric Acorde (2016), Um conto em cada ponto: o rio dos pássaros pintados (2017) e Um conto em cada ponto: João de Barro (2017).
Já a Mostra Melhor Idade exibirá o filme Uma Loucura de mulher, produção do cineasta Marcus Ligocki. A sessão especial acontecerá no Cinema do Dragão. A Mostra Melhor Idade foi criada durante a 13ª edição do evento, em 2003.

Dez anos depois, surgiu a Mostra Acessibilidade, voltada para cegos e surdos, que conta com audiodescrição e libras. Este ano também realizada no Cinema do Dragão, a programação terá a exibição do clássico filme Corisco & Dadá, produção do cineasta cearense Rosemberg Cariry com Dira Paes e Chico Diaz nos papeis principais.

Serviço:
Mostras Sociais
Mostra O Primeiro Filme a Gente Nunca Esquece
8/8- terça-feira, às 8h30min, no Cineteatro São Luiz
Em comemoração aos 100 anos da animação brasileira, o Cine Ceará reuniu alguns curtas cearenses produzidos para o
público infantil utilizando diferentes técnicas animadas.

Mostra Melhor Idade
9/8 - quarta-feira, às 15 horas, no Cinema do Dragão do Mar
Uma loucura de mulher (Marcus Ligocki. Ficção.100 min. Cor. Brasil. 2016. 12 anos)

Mostra Acessibilidade
10/8 - quinta-feira, às 15 horas, no Cinema do Dragão do Mar
Corisco & Dadá (Rosemberg Cariry. Ficção. HD. 112 min. Cor. Brasil. 1996. 14 anos)

Entrevista com Jesuíta Barbosa. "O público brasileiro é a fábula interiorana"

Protagonista de Malasartes e o Duelo com a Morte, Jesuíta Barbosa volta pra "casa" para estreia mundial do filme no Cine Ceará

Por Renato Abê
Ao lado de Isis Valderde, com quem faz par romântico, Jesuíta Barbosa protagoniza filme de Paulo Morelli. DIVULGAÇÃO

O ator Jesuíta Barbosa retorna mais uma vez para a cidade que escolheu como “casa”. Dessa vez, porém, não é só mais uma visita para reencontrar família e amigos. O pernambucano que hoje vive no Rio (mas se identifica como cearense) traz na bagagem o longa-metragem Malasartes e o Duelo com a Morte. Protagonizado por ele, o filme terá sua première mundial no 27° Cine Ceará - Festival Ibero-americano de Cinema.

Rosto conhecido em festivais mundo afora (quase sempre indicado na categoria melhor ator), Jesuíta encarna agora um tipo diferente dos personagens com intensa carga dramática que costuma interpretar. Malasartes é um tipo caricato que habita o imaginário sertanejo como um homem esperto que engana até a morte. O novo filme chega ao cinemas no dia 10 e já chama atenção por ser o longa brasileiro com o maior número de efeitos especiais (mais de 50% de tempo de tela com trabalho de pós-produção e R$ 4,5 milhões gastos só
em efeitos).

Concorrendo na mostra competitiva, o filme terá exibição com a presença do diretor Paulo Morelli e de Jesuíta no próximo domingo, 6, no Cineteatro São Luiz. Confira entrevista com o ator:

O POVO - O personagem Malasartes remete diretamente ao tipo “espertinho”, que encontra equivalência no Chicó e em Jõao Grilo, eternizados por Ariano Suassuna. Por que você acha que essas fábulas do Interior encantam tanto o público brasileiro?

Jesuíta Barbosa - O público brasileiro é justamente a fábula interiorana, porque o brasileiro é essa composição do índio com esse povo europeu que chegou para tomar essas terras. Aí, de repente, aparece essa figura que é uma espécie de sobrevivente, que é essa mistura do personagem impositor que é o europeu com o do sobrevivente que é o indígena. Sai uma figura que é no mínimo engraçada. Daí surgem esses personagens como o Malasartes, o João Grilo e o Chicó, do Suassuna.

A gente tem que tirar cada vez mais essa ideia de cinema-shopping, de só ver cinema norte-americano. O Cine Ceará vem com essa vontade de mudança sempre

Jesuíta Barbosa Ator pernambucano que hoje vive no Rio (mas se identifica como cearense)

OP - Por outro lado, o humor de tipos como Didi Mocó e até mesmo os personagens do Mazzaropi, para muitos, soa muito pueril. Você defende esse humor mais ingênuo?

Jesuíta - É delicada essa situação. O Didi Mocó foi bem importante na nossa cultura, na construção do humor e principalmente por ser um personagem cearense. Eu talvez tenha que defender um pouco Os Trapalhões enquanto função de construção de humor.

Eu acho que não é um problema o humor ingênuo, mas tem também espaço para o humor mais perspicaz. O Malasartes está tanto para um como para outro. É uma figura que tem uma ingenuidade e ao mesmo tempo tem que ser “safo”. O humor está aí nessa nuance, de ser algo intuitivo, instantâneo e, ao mesmo tempo, muito inteligente.

OP - A premiere mundial do filme é no Cine Ceará, evento da terra que você escolheu para chamar de sua. O que isso representa para você?

Jesuíta - Representa diretamente (apresentar o filme) para minha família. O Ceará é o lugar onde eu comecei a trabalhar, o lugar que me deu essa base de energia, esse impulso energético para fazer isso que eu estou inventando agora, que eu estou fazendo.

OP - Qual sua relação com esse evento? Já esteve nele em outras ocasiões?

Jesuíta - Eu assisti a filmes em muitas edições. No ano passado estive no Cine Ceará e eu primo muito para que a pessoas frequentem esse evento. Muitas vezes, falta público, eu entro no cinema e ele está vazio. Isso acontece em outros festivais como o For Rainbow e nas salas de cinema no Dragão do Mar. É triste. A gente tem que tirar cada vez mais essa ideia de “cinema-shopping”, de só ver cinema norte-americano. O Cine Ceará vem com essa vontade de mudança sempre.

OP - Como um jovem ator, que tem muito o que realizar na carreira, você teme o futuro das políticas públicas para
a cultura?

Jesuíta - Eu tento não temer, mas é uma realidade, tem um desenvolvimento tardio no nosso cenário político. É é como se a gente tivesse estancado no tempo, as coisas não estão se desenvolvendo. Eu fico triste, mas eu tento não temer, porque criar medo e receio deixa a gente bloqueado e não é isso que eu quero. Por mais que pareça difícil, eu acho que a gente tem que se juntar mesmo e cada um fazer sua parte e se unir para fazer o movimento acontecer, porque é vida que segue. Acho que tem que falar mesmo, escancarar quando tiver errado, gritar quando for preciso. Espero que o Cine Ceará venha com essa vontade, que os filmes apareçam com essa vontade. Quero ver os filmes do festival juntos nessa onda de mudança necessária.

Programação paralela. Para ler, ver e discutir cinema

Mais do que as mostras competitivas, há uma extensa programação paralela que também compõe o 27º Cine Ceará. São cursos, seminários, lançamentos e sessões especiais que promovem debates sobre os modos de fazer cinema. Confira a programação.

1 - Curso Cinema e Literatura - Uma via de Mão Dupla

Durante as cinco aulas, o jornalista e crítico de cinema José Geraldo (São Paulo) vai explorar temas como a relação entre escritor e cineasta. Frequência igual ou superior a 75% dá direito a certificado.

Quando: 7 a 11 de agosto, 9h às 12 horas
Onde: Instituto do Ceará (Rua Barão do Rio Branco, 1594 - Centro). Vagas: 30
Inscrições: até quarta, 2, em www.cineceara.com
Telefone: 3366 7772

2 - Curta Cocó
O concurso premia produções que devem ter como cenário o Parque do Cocó, com o tema “Parque do Cocó: o parque da cidade”. No mínimo 80% das cenas têm de ser captadas por celular. Cinco curtas serão selecionados e exibidos entre os dias 6 e 10 de agosto. O vencedor receberá um prêmio de R$ 3 mil.
Inscrições: até quarta, 2, no sites www.cineceara.com e www.sema.ce.gov.br

Exibições: de 6 a 10 de agosto, às 19h30min
Onde: Cineteatro São Luiz (Rua Major Facundo, 500 - Centro)
Telefone: 3055 3465

3 - I CONNE

O I Seminário Descentralização da Produção Audiovisual no Centro-Oeste, Norte e Nordeste (Conne) reúne produtores de audiovisual com o objetivo de construir estratégias para descentralização da produção de séries de TV e longas-metragens. Frequência igual ou superior a 75% dá direito
a certificado.

Quando: dias 7 e 8 de agosto, das 9h às 13h e das 14h às 18h.
Onde: Hotel Oásis Atlântico (Av. Beira Mar, 2500 - Meireles)
Inscrições: até quinta, 3, no site www.cineceara.com
Telefone: 3055 3465

4 - Sessão especial Aceccine
Marcelo Caetano apresenta uma sessão especial do filme Corpo Elétrico, que conta a história Elias, um garoto de 23 anos, gay e nordestino começando a vida em São Paulo. A produção já passou por festivais na Holanda e Inglaterra. Após a exibição, há debate com o diretor.

Onde: Cinema do Dragão, Sala 2 (R. Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema) Indicação: 18 anos. Entrada gratuita

5 - Lançamento de livros
Os autores do livro Bernardet 80 - Impacto e influência no cinema brasileiro, Ivonete Pinto e Orlando Margarido, e Vera Zaverucha, de Desvendando a Ancine, lançam suas obras e participam de uma conversa aberta com o público.

Quando: quarta, 9, às 14 horas
Onde: Porto Iracema das Artes (R. Dragão do Mar, 160 - Praia de Iracema)

6 - Diálogos
O programa Diálogos traz uma série de bate-papos com diretores dos filmes selecionados para as mostras competitivas do Festival, debatendo o cenário do cinema latino-americano contemporâneo.

Quando: dias 7, 10 e 11, às 14 horas
Onde: Auditório do Porto Iracema (R. Dragão do Mar, 160 - Praia de Iracema

Cena do filme El Topo, drama western surrealista estadunidense-mexicano de 1970.

7 - Mostra de Cinema Chileno

A mostra apresenta 16 longas e um curta produzidos no Chile, país homenageado dessa edição do Cine Ceará. A programação conta ainda com uma mostra do Panorama Chileno Contemporâneo, destacando quatro obras das diretoras Maite Alberdi, Marcia Tambutti e Dominga Sotomayor.

Onde: Caixa Cultural Fortaleza (Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema)
Entrada gratuita (Ingressos distribuídos com 1 hora de antecedência)
Telefone: 3453 2770

8 - Cinema na Praça
A mostra Cinema na Praça exibe 18 curtas de produtores locais, de forma gratuita, na Praça do Ferreira.

Quando: dias 5, 6, 10 e 11 de agosto, a partir das 19h30min
Onde: Praça do Ferreira (R. Floriano Peixoto, S/N - Centro)
Informações: www.cineceara.com/cinema-praca

FDR volta a conceder Troféu Samburá

Comenda, que havia deixado de ser entregue há quase 10 anos, vai premiar o melhor curta-metragem nacional e o melhor diretor brasileiro. O artista Descartes Gadelha, que criou a estatueta, também será homenageado

Por Teresa Monteiro

Descartes Gadelha é o criador da estatueta, que faz alusão ao cesto usado pelos jangadeiros RODRIGO CARVALHO, EM 16/12/2014

Extinto desde o ano de 2009, o Prêmio Samburá de Cinema volta à ativa para esta 27ª edição do Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema. A premiação, surgida em 1985, colocava em destaque produções em curta e longa-metragem, além de personalidades que contribuíram, de alguma forma, para a sétima arte no País.

“O prêmio surgiu no primeiro Festival de Fortaleza do Cinema Brasileiro. O nome é uma homenagem ao Cine Samburá, que existiu até 1978, e ao fundador do cinema em questão, o empresário Amadeu Barros Leal. Foi uma iniciativa da Fundação Demócrito Rocha (FDR) e a sugestão do nome partiu do Darcy Costa, fundador do Clube de Cinema de Fortaleza”, detalhou o jornalista Frederico Fontenele, que ao longo de todas as edições em que a comenda foi entregue, integrou a comissão julgadora ao lado do crítico Wilson Baltazar.

A estatueta, feita em bronze polido e madeira, foi criada por Descartes Gadelha, “homenageando a nossa cesta mais importante da jangada, que é o samburá. Uma cesta feita de cipó em que todo o pescado é colocado dentro. Sendo assim, a simbologia do samburá é como se todas as expectativas da arte, da criação, das ideias - o nosso pescado geral da cultura - fosse colocado, guardado dentro desse cesto para que, mais tarde, essa cultura fosse alimentar o povo da informação”, explicou o artista cearense.

Em 2017, o Prêmio Samburá de Cinema volta a ser concedido pela FDR e pelo O POVO. Visando a pluralidade e uma escolha de ordem mais técnica, a nova comissão julgadora será formada por cinco pessoas: os jornalistas do O POVO André Bloc (presidente do júri), Regina Ribeiro (Fundação Demócrito Rocha e ex-editora do caderno Vida&Arte) e Rubens Rodrigues (autor do blog Repórter Entre Linhas e repórter do O POVO Online), além de Allan Deberton (realizador e produtor) e Janaína Marques (jornalista e roteirista com graduação em Direção de Cinema e TV pela Escuela Internacional de Cine y TV (Cuba).

Os critérios de escolha dos vencedores também sofreram modificações. “Nós resolvemos focar agora somente na Mostra Competitiva Brasileira de Curta-Metragem, em que estão concorrendo 14 filmes, dentre eles cinco cearenses (ver quadro). Vamos premiar o Melhor Filme, que seria um prêmio mais técnico na produção como um todo, e Melhor Diretor Brasileiro”, adianta André.

“Com isso, estamos dando um espaço para uma produção mais inventiva, o que eles (filmes e diretores) nos trazem de possibilidades. Fora que era uma demanda antiga esse retorno”. Já em relação à estatueta, “trata-se também de uma homenagem ao Descartes Gadelha, que transita em diversas áreas da cultura”, reforça André Bloc.

Wolney Oliveira: 'O Troféu volta num momento em que o Ceará encontra-se num dos principais polos do audiovisual brasileiro' .FÁBIO LIMA

Para o cineasta Wolney Oliveira, diretor do Cine Ceará, o retorno do Troféu Samburá torna-se mais que bem-vindo. “Ele, que era coordenado pelo jornalista Frederico Fontenele, tornou-se um importantíssimo e aguardado prêmio dentro do Cine Ceará. Durante mais de 15 anos foi oferecido pela Fundação Demócrito Rocha e a sua volta é uma honra para o festival”, destacou.

“O Troféu também volta num momento em que o Ceará encontra-se num dos principais polos do audiovisual brasileiro. Sem falar que foi confeccionado pelo Descartes Gadelha, que é um dos principais ícones das artes plásticas e escultura cearense. Então... Bem-vindo, Troféu Samburá!”, complementou Wolney

Feito em bronze polido e madeira, o troféu teve sua estreia no ano de 1985

CONCORRENTES

Curtas brasileiros:

A Balada do Sr. Watson, de Firmino Holanda (CE, 2017); Algo do que Fica, de Benedito Ferreira (GO, 2017); Caleidoscópio, de Natal Portela (CE, 2017); Do que se faz de conta, de Amanda Pontes e Michelline Helena (CE, 2016); Festejo Muito Pessoal, de Carlos Adriano (SP, 2017); Fogo Selvagem, de Diogo Hayashi (SP, 2017); Manual, de Letícia Simões (RJ, 2016); Mehr Licht!, de Mariana Kaufman (RJ, 2017); Memórias do Subsolo ou O homem que cavou até encontrar uma redoma, de Felipe Camilo (CE, 2017); O Estacionamento, de William Biagioli (PR, 2016); Simbiose, de Júlia Morim (PE, 2017); Valentina, de Estevão Meneguzzo e André Félix (RJ, 2017); Vando Vulgo Vedita, de Andréia Pires
e Leonardo Mouramateus (CE, 2017); e Vênus - Filó a Fadinha Lésbica (MG, 2017).

O sonho euseliano

Por Socorro Acioli

Nos seus vinte e sete anos de existência, o Cine Ceará ocupa mais da metade da minha vida e, provavelmente, a vida inteira de muitas pessoas na cidade. Poucas iniciativas culturais em Fortaleza conseguem permanecer, crescer e melhorar com o tempo.

Relembrar minha relação com o festival em uma crônica é o mínimo que posso fazer em agradecimento por tanta perseverança. Tudo o que um evento cultural desse porte deixa para a cidade é um benefício coletivo de fomento, formação de plateia, criação de novas frentes de trabalho para algumas gerações de profissionais do cinema.

As primeiras lembranças que tenho são ainda da infância. Mais que cenas, são ecos de várias conversas sobre cinema na casa de meu padrinho, o pesquisador de cinema Ary Bezerra Leite, grande amigo do cineasta Eusélio Oliveira. Toda frase que tinha o nome do Eusélio, toda conversa com ele era tomada por um entusiasmo, uma energia imbatível.

Alguns anos depois, como aluna da UFC, conheci a Casa Amarela, a tal casa do Eusélio tão falada pelo Ary. Estive lá para assistir a filmes da Mostra Rachel de Queiroz, para ter aulas de Cinema Brasileiro com Firmino Holanda e para acompanhar a programação do Cine Ceará, muitas vezes. Mais recentemente, foi lá que matriculei minha filha em um curso de Cinema de Animação.

No ano 2000, participei do Cine Ceará para apresentar um curta em uma mostra paralela. Era um documentário chamado A casa, usando imagens antigas da Fundação Casa Grande, em Nova Olinda. Uma estrutura narrativa bem simples apresentava as imagens descritas e explicadas por dois meninos que faziam parte do primeiro grupo de crianças do projeto.

Foi um registro histórico e afetivo, um exercício de edição com eles, produzido em conjunto e que me deu a alegria de estar no festival como realizadora pela primeira vez.

Outro momento de grande emoção foi reencontrar, no festival, a querida Maria Julia Grilo Tadeo, diretora acadêmica da EICTV, importante centro de formação de cineastas latino-americanos em Cuba que recebeu vários cearenses. Foi lá que fiz o curso de roteiro com Gabriel García Márquez, com a ajuda da querida Maria Julia.

Maria veio como homenageada do festival. Vimos juntas um documentário sobre a terrível Operação Peter Pan, que separou centenas de crianças cubanas de seus pais, na presença da diretora Estela Bravo, um momento comovente. Essas são só algumas lembranças, entre tantas.

Este ano eu gostaria de estar lá todos os dias e acompanhar a disputa pelo troféu com o nome mais bonito dentre todos os festivais brasileiros: Mucuripe. Segurar um evento desse porte por tanto tempo é uma tarefa hercúlea. A Casa Amarela e o Cine Ceará carregam uma energia multiplicadora, e acho que isso justifica tamanha coragem.

Em nome da grande amizade que meu padrinho Ary Leite tem pelo Eusélio Oliveira, quero aqui louvar a sua vida, que perdura.

Um dos projetos culturais mais sólidos de Fortaleza nasceu dele, persiste no trabalho de seus filhos e de tanta gente que vive, hoje, sonhando o mesmo sonho euseliano. Eu, inclusive.

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