Novo velho Centro

Região sobrevive como marco ainda pulsante. O preferido de parte dos fortalezenses como 'o lugar para resolver a vida', comprar e ainda usufruir de espaços de lazer: um concentrador de comércio, serviços e história

Por Lucas Braga

Na multidão e na ponta do lápis, uma região que aprendeu a se refazer, remodelar, recolorir. Dizemos, da história e da vida, velhice e juventude, do que convencionou-se chamar de coração da Capital do Ceará. Há tanto e tantos no Centro, que é difícil perceber o que ele realmente é. Do pouco que se sabe, há variedades. 

Coluna da Hora, na Praça do Ferreira (Foto: Mateus Dantas/O POVO)

É na Edgar Borges onde se conserta ventilador e na Galeria Professor Brandão que se conserta relógio. Dezenas de lojas vendem tecidos na Floriano Peixoto e Major Facundo. Difícil encontrar CDs e vinis em outro lugar de Fortaleza a não ser o Centro. Cartórios, bancos, repartições, vendedores ambulantes, gente, gente, gente.

Mas nem só comércio e serviços alimentam a região. Dentre os 350 mil que por ali passam diariamente, há ainda quem mora, quem passeia e quem trabalha. E a vontade do poder público é variar ainda mais os usos e as vivências ao território que reúne bens tão preciosos ao fortalezense. 

O projeto Novo Centro está injetando recursos para a readequação que deve garantir sobrevida à região. A mudança de relações deve partir do incremento de cultura, entretenimento, ordenamento e infraestrutura. Assim, o convite estará revigorado, do tipo “venha ao Centro, porque agora ele está reformado e cheio de novidades. Você pode se divertir aqui também”. É mais ou menos assim.

Praça do Ferreira (Foto: Mateus Dantas/O POVO)
 

Ação em 12 meses

Os primeiros exemplos de mudança no Centro já podem ser vistos: ordenamento do comércio informal nas ruas Liberato Barroso e Guilherme Rocha; novas mil vagas de Zona Azul; Teatro São José reformado; e construção da Calçada Viva na rua Barão do Rio Branco. São exemplos de vários eixos que anunciam a série de transformações no Centro desde agosto.

A nova Guilherme Rocha terá bancas padronizadas e redução do número de vendedores ambulantes. Voltou a ser possível ver as vitrines (Foto: Evilázio Bezerra/O POVO)
 

São seis eixos de atuação: Habitação, Política de Apoio a Pessoas em Situação de Rua, Turismo e Cultura, Infraestrutura e Mobilidade, Ordenamento do Comércio Informal e Segurança e Fiscalização. 

Entre as principais pautas, estão o estímulo à ocupação habitacional na região central, ao viabilizar até 900 unidades habitacionais. Já o apoio às pessoas em situação de rua se dará por implantação de Pousada Social com até 100 vagas. Haverá ainda construção do Terminal Aberto, ao lado da Praça José de Alencar; a instalação de faixas exclusivas de ônibus; a consolidação de uma agenda cultural única no Centro; e a aquisição de uma célula de monitoramento (segurança). 

É uma reforma radical, não só cosmética

Adail FontenelePresidente do projeto Novo Centro e secretário da Regional Centro
 

“A Prefeitura vem desenvolvendo junto aos lojistas, por meio da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), uma série de intervenções. Estamos trabalhando muito. Agora, estamos fazendo uma intervenção na rua Guilherme Rocha, entre as praças do Ferreira e José de Alencar. Uma reforma radical, não só cosmética, mas com nova rede de água e coletora de esgoto, de energia, em conjunto com o ordenamento dos vendedores ambulantes”, declarou o secretário da Regional Centro, Adail Fontenele.

A inauguração da nova rua Guilherme Rocha acontecerá dia 23 de novembro, na Praça do Ferreira, junto à abertura do Natal de Luz. Assis Cavalcante, presidente da CDL Fortaleza e um dos líderes do projeto Novo Centro, revela otimismo. “O lojista está muito satisfeito, porque estávamos há 34 anos buscando isso e, agora, coadunou-se. Estamos na expectativa de ter um Natal melhor e boas vendas, porque o resultado vai ficar lindo. São ações concretas e que vão melhorar muito nosso varejo". 

A primeira reunião do Comitê de Acompanhamento do Novo Centro aconteceu no último dia 23. Da esquerda para a direita, Assis Cavalcante. Roberto Cláudio e Adail Fontenele (Foto: Evilázio Bezerra/O POVO)
  

“Os lojistas estão vendo que o Centro vai dar um grande salto de qualificação, voltar a ser o Centro que era. Eles vão ver valorização das lojas, mais venda, maior competitividade com shopping center, possibilidade de investir, empregar mais. É uma animação total”, completa Assis.

Filadelfo Lopes de Paiva, o Seu Ari, de 70 anos, é o vendedor mais antigo da Guilherme Rocha. Monta a banquinha de miudezas há pelo menos 49 anos. “Vai melhorar bastante, tirando aquela aglomeração. Inclusive, com desorganização, muita gente já não entrava no quarteirão. Quando eu iniciei aqui, eram só seis banquinhas nesse quarteirão”, lembra. 

O Novo Centro, com ações iniciadas em agosto deste ano, tem prazo de 12 meses para efetivar obras como a reforma do calçadão da rua Guilherme Rocha, já iniciada e inserida nas ações de Ordenamento do Comércio Informal (Foto: Mateus Dantas/O POVO)
 

Depoimentos 

“No momento, o movimento não é satisfatório, mas (com as mudanças), vai haver visão mais aberta da loja para quem está trafegando. Vai diminuir a concorrência” ~ Cláudia Silva, gerente da loja Baby Center na rua Liberato Barroso

“Venho muito ao Centro para comprar roupa pra revenda e resolver coisas. É mais barato. Mas não gosto muito desse movimento de mendigo, as praças esculhambadas. Quero ver como vai ficar”  ~ Edilene da Conceição, revendedora

 

Praças: lazer, beleza e vida

No dia 23 de outubro, foi revelado o projeto de reforma, integração e readequação do Parque das Crianças (Cidade da Criança) e Praça Coração de Jesus, símbolos da região Central. Entre as novidades, estão um novo terminal de ônibus, com espaço para futuro bondinho; Casa de Apoio ao Frequentador, espaço para Administração e Guarda Municipal, Casa do Ciclista, Cafeteria, Restaurante, entre outras. 

Com 26.717 m², já foi conhecido como Parque da Liberdade, pela libertação dos escravos no Ceará, em 1884. Em 1922, passou a ser o Parque da Independência, em comemoração do centenário da Independência do Brasil. Em 1938, o espaço recebeu o nome de Cidade da Criança. (Foto: Divulgação/Prefeitura de Fortaleza)

O projeto para os equipamentos de lazer escolhido é de autoria do arquiteto Carlos Yuri Nobre. O plano é conservar o bem patrimonial, preservar o meio ambiente, valorizar o bem arquitetônico e requalificar o bem urbanístico. O arquiteto destacou a necessidade de habitar e viver as diferentes partes do Centro “para reduzir a violência” na região. Melhorias em mobilidade, novos usos às edificações existentes, atrativos culturais também são focos.

O anúncio do projeto vencedor aconteceu em reunião de posse do comitê de acompanhamento do plano de ação do Novo Centro, no Paço Municipal (Foto: Divulgação/Prefeitura de Fortaleza)
 

“O projeto cria uma integração entre a Igreja do Sagrado Coração de Jesus e o Terminal de Ônibus, com o Parque da Criança; e cria corredores de ocupação comercial e cultural nesse entorno”, explicou o prefeito Roberto Cláudio.

No século XVIII, a praça foi chamada de Praça do Conselho, Praça do Largo da Matriz e Praça da Sé. Popularmente, ela também é conhecida por Praça Dom Pedro II, em alusão a estátua do Imperador (Foto: Evilázio Bezerra/O POVO)
 

Uma semana depois, no dia 30 de outubro, foi entregue a nova Praça Caio Prado (mais conhecida como Praça da Sé, talvez a mais antiga da cidade). A praça estava com problema no passeio e danificação dos monumentos. “Foi feita toda a recuperação de piso, pintura, iluminação, paisagismo, acessibilidade e monumentos”, testemunhou o prefeito.

Tereza Cristina Cavalcante, que trabalha há sete anos em um dos centros comerciais em frente, comemorou. “A praça estava cheia de lixo e mal-cuidada, agora está perfeita. Vai trazer mais clientes pra cá, além de ser um lugar para sentarmos, conversarmos. Ficou maravilhosa”.

Também foi reentregue a escultura-fonte 'Ballet Gráfico', de Sérvulo Esmeraldo (Foto: Evilázio Bezerra/O POVO)
 

Só na Regional Centro, onde está localizada a Caio Prado, sete praças foram reformadas na primeira gestão: Praça do Ferreira, Praça General Tibúrcio (Praça dos Leões), Praça do Muriçoca, Praça dos Navegantes, Praça Clóvis Beviláqua e Praça Capistrano de Abreu (Praça da Lagoinha). Na atual gestão, mais quatro: Praça do Carmo, Praça dos Voluntários, Praça Marcílio Dias e Praça José Bonifácio. São previstas intervenções em cinco praças localizadas no Centro: Cristo Redentor, Cristo Rei, José de Alencar, Castro Carreiro e Coração de Jesus.

 

Saiba Mais

No âmbito do projeto Novo Centro, são obras de responsabilidade do Governo do Estado:

> Estação das Artes

> Praça do Cristo Redentor

> Biblioteca Menezes Pimentel

> Escola de Hotelaria e Gastronomia

 

O Centro do Futuro

O Centro que inova e se reinventa também demanda melhorias e investimentos. Região geradora de emprego e renda, agregadora de 7.300 empresas, é detentora da segunda maior arrecadação de ICMS do Ceará. É uma cidade dentro de outra. O Centro que só ele sabe ser quer ser ainda mais

Por Lucas Braga

A lei que flexibiliza o horário de atendimento em pontos comerciais de Fortaleza - conhecida como Lei do Comércio 24 horas -, já completou um ano. Mesmo assim, a maioria das lojas continua operando nos turnos convencionais (das 8 às 18 horas, de segunda a sexta). O início da ampliação dos horários de funcionamento, segundo a CDL, se dará ainda em 2018, no período de vendas aquecidas para as festas de fim de ano. Também será época de celebração com o Natal de Luz, com corais natalinos na Praça do Ferreira e edifício Excelsior, e inauguração da nova rua Guilherme Rocha, já reordenada e ainda mais bonita.

Até o Centro ter a maior parte do comércio funcionando 24 horas, pode levar anos. A ampliação será gradativa e depende da adesão de lojistas e clientes. Neste ano, a partir do dia 29 de novembro, as lojas ficarão abertas meia hora a mais. Às vésperas do Natal, o plano é manter portas abertas até 20h30min.

O Novo Centro, com ações iniciadas em agosto deste ano, tem prazo de 12 meses para efetivar obras como a reforma do calçadão da rua Guilherme Rocha, já iniciada e inserida nas ações de Ordenamento do Comércio Informal (Foto: Mateus Dantas/O POVO)
  

A lei faculta a ampliação, inclusive com as devidas previsões trabalhistas. Todavia, a maioria das empresas prefere abrir apenas quando há acordo com o sindicato dos trabalhadores ou ação conjunta da CDL. No feriado de 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, por exemplo, lojas mais próximas da Praça do Ferreira abriram.

O grupo C. Rolim percebe vantagens para clientes e comércio, na flexibilização dos horários. Na foto. loja da Casa Pio (Foto: OPOVO.Doc)
 

O diretor administrativo do grupo C. Rolim, Emílio Recamonde, analisa positivamente a medida, por exemplo, no varejo de moda e sapataria, com C. Rolim e Casa Pio. "A experiência que a gente tem é que o horário estendido é uma forma das pessoas terem mais tempo para fazer suas compras e o cliente aparecer".

Melhorias

Christian Avesque e Bruno Leitão, professores da Faculdade CDL, pontuam os principais desafios para a região, os quais retardam ainda a ampliação dos horários de funcionamento do comércio. Todos os eixos entram no projeto Novo Centro, com planos de resolução práticos até 2019.

1 Informalidade 

Enquanto camelô muitas vezes usa mão de obra irregular, empresário tem de pagar nota fiscal, funcionários e direitos trabalhistas, tributos e alvará. Assim, caem os preços e a qualidade de produtos e serviços no vendedor informal, consequentemente, derrubando as vendas do comércio formal. O ordenamento dos vendedores ambulantes já é uma realidade, assim como a revitalização das ruas Liberato Barroso, Guilherme Rocha e Barão do Rio Branco (Calçada Viva).

2 Insegurança 

Má iluminação, má conservação, pessoas em situação de rua e prostituição reduzem a percepção de segurança e conforto no Centro. A tensão prejudica o consumo. O estímulo à habitação da região e aumento de vagas de "pousada social" são ações do eixo de habitação e segurança do Novo Centro. Melhor iluminação e urbanização de várias áreas já são providenciadas.

3 Desconforto e inconveniência

Poluições ambiental, sonora e visual se somam ao calor, passeio desagradável, alto preço de estacionamento e distância de bairros das regionais V e VI. A qualificação do paisagismo, junto ao reordenamento e grandes obras infraestruturais já previstas devem melhorar a relação do consumidor com a região. A inclusão de mil vagas de zona azul facilitam o estacionamento; paralelo às faixas exclusivas de ônibus e construção do terminal aberto ao lado da Praça José de Alencar, que qualificam o transporte público.

4 Falta de entretenimento

O cliente é fiel aos shoppings porque lá encontra entretenimento paralelo às compras. Solução apontada é reforço do Centro na rota de turismo do Estado, mostrando a riqueza histórica, religiosa e cultural. Qualificação de paisagismo, arquitetura e inclusão de opções de entretenimento nas persas modalidades artísticas.

Avaliações 

A estrada que trouxe o Centro até aqui não necessariamente vai levá-lo pra frente

Christian Avesqueprofessor da Faculdade CDL e Unichristus
 

As obras devem atrair novos serviços e comércios, estimulando o consumo e a reapropriação pelo fortalezense. A qualificação de pontos de venda, pessoal, estoque e automação é saída para os comerciantes conseguirem atender bem ao cliente antigo e convidar o cliente novo. A facilidade de compra, baixo preço e tradição já são adjetivos consolidados do Centro.

As ações do Novo Centro incluem dois projetos pilotos: a padronização das bancas na Rua Barão do Rio Branco e a criação de quiosques padronizados para o comércio ambulante, nos calçadões das Ruas Guilherme Rocha e Liberato Barroso (Foto: Evilázio Bezerra/O POVO)
 

"Novas tecnologias, novos horários, reforço em gastronomia, educação e entretenimento vão encantar o consumidor mais jovem. A estrada que trouxe o Centro até aqui não necessariamente vai levá-lo pra frente. Destaco a possibilidade de levar startups pro Centro, o empreendedorismo jovem criando ferramentas no Centro para o Centro, um ecossistema digital, a exemplo do recife Antigo. Inovação, processos, tecnologias e trabalho proativo", acrescenta Christian.

Cláudia Buhamra, doutora em Administração pela Fundação Getúlio Vargas e autora do livro “Gestão de Marketing no Varejo - Conceitos, Orientações e Prática” avalia que o comércio da região central de Fortaleza tem “grande vantagem” sobre shoppings, a atração de vizinhança, ou seja, as ruas caracterizadas por determinada categoria (veja o mapa interativo abaixo). 

“Essa atração de vizinhança é rica, porque se pegar uma daquelas lojas e colocar solta numa determinada rua, ela não resiste dois meses. Já quando ela fica próxima às demais, é uma opção de parada ao consumidor. Ou seja, tornou o concorrente se torna porta de atração. Eles são tão amigáveis que até indicam o concorrente: ‘vai aqui do lado que tem’. O centro tem a capacidade de redesenhar o conceito de competitividade. O Centro é acessível a todos o segmentos de mercado, dos que têm condição de compra maior ou menor, de gosto mais simples ou sofisticado. Esse contexto macroambiental faz parte do convite ao Centro da cidade. Tem variedade, persidade, muitas opções, muitas lojas para caminhar. É um encantamento”. ~ Cláudia Buhamra

 

Um Centro de quê

Os corredores setoristas de comércio e serviços do Centro de Fortaleza

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Clarindo de Queiroz
Clarindo de Queiroz

Peixarias, frigoríficos e descartáveis

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Tereza Cristina
Tereza Cristina

Peixarias, frigoríficos e descartáveis

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Clarindo de Queiroz
Clarindo de Queiroz

Peças e itens para motos

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Mercado São Sebastião
Mercado São Sebastião

Hortifrutigranjeiro e produtos regionais

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Dom Manuel
Dom Manuel

Móveis para Escritório

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Duque de Caxias
Duque de Caxias

Entre ruas General Sampaio e Pe. Mororó - Equipamentos Industriais (Novos e Usados)

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Pedro I
Pedro I

Material elétrico e aviamentos

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Pedro Pereira
Pedro Pereira

Eletrônicas

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Pedro Pereira
Pedro Pereira

Óticas

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Liberato Barroso
Liberato Barroso

Moda

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São Paulo
São Paulo

Entre 24 de Maio e Tristão Gonçalves - Festas

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Senador Alencar
Senador Alencar

Aviamentos, couros, borracha

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Castro e Silva
Castro e Silva

Festas

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José Avelino
José Avelino

Moda

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Princesa Isabel
Princesa Isabel

Peças Automotivas

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Avenida do Imperador
Avenida do Imperador

Entre Castro e Silva e São Paulo - Tecidos, Couros e Aviamentos

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Avenida do Imperador
Avenida do Imperador

Entre Pedro Pereira e Duque de Caxias - Pisos

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General Sampaio
General Sampaio

Entre ruas Guilherme Rocha e Pedro I - Móveis, Eletrodomésticos, Moda e Importados

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Senador Pompeu
Senador Pompeu

Entre ruas Pedro Pereira e São Paulo - Móveis, Eletrodomésticos e Sapatarias

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General Sampaio
General Sampaio

Entre ruas Guilherme Rocha e Liberato Barroso - Moda

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Barão do Rio Branco
Barão do Rio Branco

Festas e Tecidos

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Barão do Rio Branco
Barão do Rio Branco

Entre ruas Castro e Silva e Pedro I - Bancos

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Barão do Rio Branco
Barão do Rio Branco

Entre ruas Senador Alencar e Pedro Pereira - Sapatarias e Moda

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Barão do Rio Branco
Barão do Rio Branco

Entre ruas São Paulo e Pedro I - Móveis e Eletrodomésticos

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  Major Facundo
Major Facundo

Entre ruas Pedro Pereira e Liberato Barroso - Cartórios e Sapatarias

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Major Facundo
Major Facundo

Entre Travessa Pará e rua Senador Alencar - Bancos

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Major Facundo
Major Facundo

Tecidos

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Floriano Peixoto
Floriano Peixoto

Importados

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Floriano Peixoto
Floriano Peixoto

Moda

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Floriano Peixoto
Floriano Peixoto

Tecidos

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Edgar Borges
Edgar Borges

Consertos

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Travessa Crato
Travessa Crato

Produtos Regionais (próximo ao Raimundo dos Queijos)

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Mercado Central
Mercado Central

Moda e produtos regionais

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Governador Sampaio
Governador Sampaio

Armazéns

Centro, coisa nossa

Pelo menos 350 mil pessoas remodelam a região a cada dia

O Centro está vivo. É fácil perceber, mesmo para quem não está lá todos os dias, a persidade de produtos e de público. Há os fortalezenses e há quem venha da Região Metropolitana e do Interior, seja para compras rápidas ou para rodar o Centro inteiro mesmo para voltar na primeira loja.

Há também os turistas, que recorrem aos pontos históricos, aos produtos artesanais e às comidas da nossa terra. Além da chamada "classe C" e seu potencial para movimentar a economia da região. O consumidor é exigente em qualidade e preços competitivos. Vivo, o Centro é força econômica e cultural. É Fortaleza.

Centro de oportunidades

Por Rubens Rodrigues

O Centro é um polo comercial rico em diversidade de perfis e de oportunidades para quem dele depende. Dentre prédios históricos, passando por galerias e ruas repletas de produtos e vendedores, a região mantém verdadeiras personalidades com diferentes sonhos e rotinas, mas todos com o objetivo primordial de conseguir pagar as próprias contas e, muitas vezes, proporcionar um ambiente de estabilidade para a sobrevivência familiar.

Luís Ruiz deixou a Venezuela para tentar uma vida melhor no Brasil (Foto: Tatiana Fortes / O POVO)

Há quem chegou lá depois de viver em outros lugares do Brasil e do mundo, e há quem escolheu, desde cedo, a facilidade que o mercado oferece na área central da cidade. Há também quem encontrou, em Fortaleza, refúgio. É o caso do venezuelano Yorge Luís Ruiz, de 28 anos, que em 2014 deixou seu país de origem e abandonou a Engenharia em busca de vida melhor no Brasil.

Artista de rua, Ruiz é a estátua viva que leva graça e arranca sorrisos, de segunda a sexta-feira, das 11h às 16 horas, na Praça do Ferreira, tornando-se um dos símbolos do lugar. "Cheguei como refugiado e hoje tenho minha própria residência. As coisas já estavam difíceis quando deixei a Venezuela e sei que estão ainda pior. Lá, a juventude não consegue terminar a faculdade. Não dá para estudar enquanto a família passa fome", conta.

O jovem, que também estudou Artes e Fotografia - porque "não dá para ter só um trabalho", abriu mão da faculdade de Engenharia e fugiu do bolivarianismo para ajudar a família em outro país. A viagem para Fortaleza ainda passou por Belém, onde conseguiu carona para atravessar as estradas com a pequena Jasper, a cadela que conheceu no Amazonas e hoje é parte do seu trabalho artístico. "Eu quero voltar a estudar aqui, mas é difícil. Eu trabalha para mim, para minha esposa, para ela (Jasper) e para minha família na Venezuela", continua.

Venezuela abandonou faculdade de Engenharia e vive como artista de rua (Foto: Tatiana Fortes / O POVO)

Ruiz tira, no mínimo, R$ 100 por dia durante as cinco horas que fica na porta do Cineteatro São Luiz Fortaleza. São aproximadamente R$ 3 mil por mês. Foi justamente a possibilidade dessa renda que atraiu o artista para a localização, com fluxo intenso de pessoas.

O body piercer William Filho, conhecido como Chuck na Galeria Pedro Jorge - a velha Galeria do Rock, é um desses tantos empregados na região. Hoje aos 27 anos, o profissional começou a trabalhar aos 15 para pagar o curso de tatuagem e body piercing e aproveitou para aprender com os mais experientes. Chuck escolheu o Centro pelo "acesso mais rápido" ao público que busca tatuagem e aplicação de piercings, já que a galeria se firmou com lojas referência nesse mercado. "Mas muitas lojas antigas saíram e o público se dividiu".

A publicitária Klycia Medeiros, de 32 anos, viu sua vida se encaminhar para o Centro de Fortaleza em 2014, quando saiu do Macapá, onde morou quatro anos, e retornou para casa. Desde então, a empreendedora toca a loja Adorada Acessórios, na ala sul do Centro de Turismo do Ceará. Os mais de 100 quiosques funcionam na antiga Cadeia Pública, reinaugurado em 2010, após a última reforma, realizada durante o governo de Cid Gomes.

Os espaços que serviam como celas hoje guardam uma série de produtos artesanais, em grande parte produzidos no Ceará. Construída em 1866, após 16 anos de obras, a Cadeia Pública tornou-se destino de turistas de diversos lugares do mundo em 1973, quando o prédio foi reformado e inaugurado pelo governador César Cals. É um dos 30 prédios tombados do Centro de Fortaleza.

Publicitária Klycia Medeiros é empreendedora e vende produtos feitos no Ceará (Foto: Tatiana Fortes / O POVO)

Klycia é uma das tantas pessoas que colocou o próprio negócio por estar insatisfeita com o valor oferecido pela maioria dos lojistas, muitas vezes resumido a um salário mínimo com comissão. "Fica mais fácil pagar as contas se o ponto for próprio. Muitas vezes, quem aluga o espaço não consegue ter um funcionário".

"O Centro é enorme. Muitas lojas estão crescendo e orientais tomando de conta. Não é fácil permanecer no mercado disputando com produtos a preço popular", avalia. "Ainda não me sinto realizada aqui, mas sou feliz porque a loja me dá condições de me manter".

A comerciante reconhece a importância de trabalhar em lugar tombado como Patrimônio Cultural do Estado e destino do turismo, mas sente falta de mais cearenses visitando o local. "Nosso público é gente de fora que os guias trazem para comprar. Somos muito independentes em relação ao Centro, mas a gente gera dinheiro porque além de empreendedores nós também consumimos".

De tudo um pouco

Por Rubens Rodrigues

O Centro tem hoje mais de 28 mil habitantes. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número não passava de pouco mais de 25 mil pessoas com renda, em 2010, quando foi realizado o último censo demográfico. A pesquisa apontava renda média de aproximadamente R$ 1.520. A diferença entre homens e mulheres é significativa. Enquanto homens tinham rendimento de cerca de R$ 1.707,80, o das mulheres era de 1.350,26 - diferença de R$ 357.


De acordo com dados da Câmara de Dirigentes Lojistas de Fortaleza (CDL de Fortaleza), o número de pessoas trabalhando no Centro chega atualmente a 64 mil. A Relação Anual de Informações Sociais (RAIS 2017), aponta que a região possui 6.621 estabelecimentos, sendo 39,8% das atividades econômicas ligadas ao comércio varejista. O número total de postos de trabalho, conforme a Relação do Ministério do Trabalho, é de 92.258.

(Foto: Tatiana Fortes / O POVO)

Para o secretário Municipal do Desenvolvimento Econômico, Mosiah Torgan, o Centro é o coração econômico de Fortaleza, justamente por possuir uma pluralidade de negócios e oportunidades. "Grande parte dos postos de trabalho da Cidade estão neste bairro. Por ser um espaço que se pode fazer de tudo um pouco, desde comprar nos mercados até aproveitar atrações culturais, existe grande movimentação de pessoas de outros bairros", afirma.

Ele explica que a Prefeitura de Fortaleza, por meio da SDE, tem trabalhado para apoiar os empreendedores fortalezenses por meio de ações como a Sala do Empreendedor, que funciona no Centro de Pequenos Negócios, o famoso Beco da Poeira, e o Programa de Apoio a Parques Tecnológicos e Criativos de Fortaleza (PARQFOR).

Projetos de incentivo ao empreendedor no Centro:

Sala do Empreendedor: ajuda a formalizar os profissionais e a manterem o próprio negócio de forma sustentável, além de apostar na capacitação gratuita. Onde: Centro de Pequenos Negócios.

Projeto Visão nas Mãos: possibilita a inclusão econômica de pessoas com deficiência visual através da massoterapia. Ação é realizada aos sábados, das 9h às 15 horas. Onde: Mercado Central.

Incentivo para instalação de empresas no Centro que atuem nas áreas de economia criativa e tecnologia da informação. Inscrições no Programa de Apoio a Parques Tecnológicos e Criativos de Fortaleza (PARQFOR). Com isso, as empresa podem ter redução do ISS (em até 60% do seu valor), redução do IPTU (em até 80% do seu valor) e ITBI (em até 80% do seu valor). Onde: Secretaria Municipal do Desenvolvimento Econômico.

Incentivo para empresas de outras atividades econômicas com inscrições no Programa de Desenvolvimento Econômico de Fortaleza (PRODEFOR). Incentivos fiscais serão de acordo com o que a empresa apresentar de aumento de faturamento e de aumento de contratação de mão de obra. Onde: Secretaria Municipal do Desenvolvimento Econômico.

Na sombra do baobá

Um dos principais polos de trabalho do Estado e reduto histórico da Capital, o Centro se ressignifica com o povo que busca potencial econômico e moradia, além de ser, também, símbolo de resistência

Por Rubens Rodrigues

A primeira praça de Fortaleza é emblemática. Mártires separa o mar do Centro tomado pelo trabalho disfarçado de desordem - característica que encanta ou, pelo menos, intriga quem por ali passa. Localizada na rua Dr. João Moreira, ao lado da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza, o espaço também conhecido por Passeio Público invade de calmaria quem se permite ficar alguns instantes. 

Há, também, quem por ali faça a própria vida. É o caso da empresária Rosana Lins, 57, há oito anos administradora do Café Passeio, único empreendimento do local. A paulista chegou ao Ceará de férias, há 34 anos, quando conheceu o conterrâneo Dário Martins, 68, com quem viria a construir uma família. Durante 20 anos, Rosana trabalhou em agências de publicidade em São Paulo, onde voltou para pedir demissão após conhecer Dário, e em Fortaleza. Hoje, se sente cearense.

Café Passeio é o único empreendimento da Praça dos Mártires (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

"Gosto. Entendo. Defendo". Compreender o Passeio Público, um dos 30 bens tombados da região, levou seu tempo. A primeira relação de Rosana com a Praça, assume, foi de medo. Uma vez na sombra do baobá, contudo, a percepção mudou. A revitalização foi o ponto de virada, ainda em 2007. Não demorou para que Rosana entendesse o potencial econômico que a Praça guardava. 

"Fiquei encantada. Sabia que com um trabalho aqui, o lugar pegaria". O fato de, entre os amigos, Dário ser conhecido pela "feijoada que todo mundo pedia", era uma sugestão do que poderia render para a cozinha. Assumir um empreendimento no Passeio Público foi ato corajoso. "Reformamos, resistimos. Acreditamos. No começo foi tudo muito difícil. Foi preciso vencer o preconceito, desmistificar". 

O investimento inicial foi de R$ 150 mil. O quiosque precisava ser adaptado para funcionar o restaurante. "Sabíamos que daria certo e que era preciso fazer bonito. E era isso que nos encantava. O turista vai passando, vê o guarda-sol, imagina um café e descobre o restaurante. É um outro lugar no Centro", pontua.

O Café Passeio funciona diariamente, das 9h às 17 horas. O serviço de buffet vai até às 14 horas. São oito funcionários durante a semana, além de outros 10 aproximadamente para suprir a demanda dos fins de semana. A experiência é o grande atrativo, com a comida simples e a tradicional música instrumental. 

Com construção iniciada em 1864, a Praça inicialmente era dividida em um plano destinado aos ricos e outros dois aos públicos de classe média e baixa. Embora seja oficialmente a Praça dos Mártires desde 1879, por ter sido cenário da Confederação do Equador e palco da execução de revolucionários, teve outros nomes como Campo da Pólvora, Largo de Fortaleza, Largo do Paiol, Largo do Hospital da Caridade e Praça da Misericórdia.

Tombado em âmbito municipal e federal, o Passeio Público está em fase de aprovação de  projetos paisagísticos e de reforma pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), segundo Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor). O orçamento total da obra é de aproximadamente R$ 2 milhões e não inclui os monumentos históricos da praça.

Rosana Lins, sócia do Café Passeio (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

Há sempre Centro para descobrir. Para além do Passeio Público como empreendimento, a região também é resistência. E a história de Rosana e Dário reflete isso. Se por um lado, Lins acredita que o caminho é resgatar o glamour do passado, por outro, o Centro sobrevive às crises. "O Centro está lutando porque ele nunca morre. Tantas casas acabaram fechando, mas nós conseguimos atravessar isso, e o Centro consegue se manter", afirma.

A vida de Rosana Lins mudou radicalmente com a chegada na região. Da vida na Aldeota e as voltas nos shoppings da Capital ficou a lembrança. Chegou o tempo de perceber que sair para a Rua e fazer compras no Centro estava no DNA do morador da Capital e de municípios que formam a Região Metropolitana. "Temos clientes que vêm no sábado, rodam o centro e chegam aqui cheios de sacolas. Eles mantém essa coisa de comprar um caldo de cana com pastel, tem gente que vai no Raimundo dos Queijos e toma uma cerveja, depois vem almoçar no Passeio Público. Gosto também de fazer esse roteiro". 

Ela lembra que, no início do Café Passeio, a Praça dos Mártires dependia também do fluxo no restaurante. "É um espaço dos cearenses, nunca quisemos perder as raízes. O turista vem uma vez e vai embora, enquanto o morador vive aqui. Faço campanha para que as pessoas venham viver o Passeio, mesmo que não venha o restaurante. Quando o Centro está movimentado, sabemos que vai ser bom aqui. É uma bolha: quando o centro para, muita coisa para. Isso reflete em outros bairros. Quando o frequentador do Centro para de vir, é porque a coisa tá pegando muito pra ele", elabora.

Para Rosana Lins, o Centro precisa de moradores. Ela diz que há vida em horário comercial, mas a figura muda ao anoitecer. Acredita que é preciso incentivar moradia, algo ainda restrito. "Eu procuro um espaço aqui para morar. Estamos na fase da vida em que os filhos estão começando a se encaminhar. Hoje, um espaço menor seria interessante. Aqui estamos perto de tudo". 

Rosana Lins, sócia do Café Passeio (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

De acordo com a Secretaria Regional do Centro, 350 mil pessoas passam pela região, entre moradores, lojistas e consumidores. Desse número, mais de 64 mil trabalham no Centro. A região conta com cerca de 28 mil moradores, enquanto o número de imóveis na mesma área chega a quase 29 mil. São 9.711 prédios comerciais e 16.135 residenciais, entre outras construções.

O arquiteto e professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da  Universidade Federal do Ceará (UFC), José Almir Farias, lembra que a introdução da habitação em áreas centrais é indicada e já foi proposta durante a gestão de Luizianne Lins (2005-2012). Ele cita a cidade de São Paulo, onde esse processo é avançado e conta com famílias de baixa renda ocupando prédios nas regiões centrais. Com o Projeto Novo Centro, da Prefeitura de Fortaleza, o estímulo a habitação nas áreas centrais é retomado. A meta agora é incentivar a moradia na região, criando de 400 a 900 novos locais para moradia.

"Há um processo recente em que os edifícios são transformados em cortiços. São lugares alternativos, subpididos em pequenos quartos, facilitando moradia para a população de baixa renda. É um fenômeno que pode colocar essa população em más condições de moradia," revela. Há também quem trabalha em áreas centrais e quer morar perto do trabalho. "É uma necessidade cada vez maior porque hoje é um processo penoso o de se locomover da periferia para o Centro".  

O olhar para a liberdade

Por Rubens Rodrigues
Do Edifício Paraguaçu, a escritora Natercia Rocha tem o Centro no horizonte (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

A qualidade e o efeito de resistir são inerentes a quem mora no Centro. Moradora da região há 11 anos, a jornalista e escritora Natercia Rocha, 47, vê o tempo passar, literalmente, da janela de casa. A cearense criada em Juazeiro do Norte conta os minutos pelo relógio do alto da torre do Santuário Sagrado Coração de Jesus. A vista privilegiada de quem vive no Edifício Paraguaçu - prédio de 15 andares e mais de 90 apartamentos -, na esquina das ruas Solon Pinheiro com Pedro I, é de grande parte do Centro e da praia.

Natercia Rocha mora no Edifício Paraguaçu há 11 anos (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

A Cidade da Criança faz parte do Parque da Liberdade, assim denominada em 1890 devido a libertação do escravos. O lugar é um respiro no meio da efervescência do Centro, já que fica nas veias ligadas pelas avenidas Duque de Caxias e Visconde do Rio Branco e as ruas Solon Pinheiro e Pedro I.

"Em qualquer outro lugar do mundo, aquele seria nosso Central Park", provoca a jornalista, apontando para a Cidade da Criança, lugar um dia conhecido como Parque da Liberdade. Antes de sossegar no Centro, Natercia viveu em Sobral e em São Paulo.

Natercia é autora dos livros "Rumo Norte" (2008) e "Contos de Ir Embora" (2014). Escreveu também a biografia de "Chico Anysio" (2017) e organizou o recém-lançado "Juarez Barroso: O Poeta da Crônica-Canção". Nos últimos cinco anos, produziu duas grandes publicações como escritora fantasma.

"Minha relação com o Centro é espiritual. Quem trabalha com a escrita precisa de uma ausência, e para ter essa ausência, eu preciso de muito entorno pra não me isolar", conta. "Eu sabia que queria ficar aqui, sabia que minha vida estava mudando. Eu via o movimento do País, sabia que não trabalharia mais em redações. Nunca é uma coisa só que motiva a mudança de uma vida. Escolhi a mobilidade e o sossego".

Vista privilegiada, na esquina das ruas Solon Pinheiro com Pedro I, é de grande parte do Centro e da praia (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

A autora acredita que a ambiência espiritual da região atrai pessoas com o mesmo objetivo de vida. "Obcecada pelo trabalho", assume que morar nesse lugar a ajudou a se inspirar e expirar sua produção. Não que a vida no Centro seja fácil. "Morar aqui tem a ver com resistência. É uma forma de se posicionar, de não entrar na ciranda da vaidade. Há uma postura de vida", explica.

A morada veio com aprendizado. "Essa vista me ensinou que você pode esperar. Ver o sol nascer todo dia é como começar de novo. Aqui, criei uma conexão profunda com o tempo. Ver a natureza acontecer, observar o tempo da chuva, as horas passando, é tudo uma reflexão", ensina. "Acho que vamos entrar em uma noite escura profunda. Vai ser uma reação em cadeia. Quem mora no Centro são pessoas mais simples, que vivem a vida com pouco dinheiro. As pessoas empobrecidas vão sentir primeiro esse impacto (social e econômico) que está por vir".

O som da resistência

Por Rubens Rodrigues
Yury Kalil mora no Edifício Dona Bela, o primeiro condomínio residencial de Fortaleza (Foto: Tatiana Fortes / O POVO)

Três blocos brancos de apartamentos na rua Cel. Ferraz formam o Edifício Dona Bela - conhecido como o primeiro condomínio residencial de Fortaleza. Construído na década de 1950, o conjunto reúne músicos, cineastas, produtores musicais e até economia criativa. Com a Igreja Pequeno Grande e a Praça Filgueiras de Melo no horizonte, o espaço passou de desvalorizado a ponto de encontro alternativo.

No primeiro bloco fica o Salão das Ilusões, iniciativa que há oito anos reúne arte, gastronomia e faz a economia girar por meio de micro marcas. No local, trabalham nove pessoas, incluindo a produtora do espaço e artista plástica Ingra Rabelo. No Salão funcionam brechó, tatuaria, sebo, bar, feiras, exposições e o cult Salão Experimental. Em outro bloco funciona o Totem Estúdio, do produtor musical e engenheiro de som Yury Kalil.

O artista deixou o Ceará em 1995 para realizar o sonho de viver de música em São Paulo. Lá, chegou a trabalhar no Mosh Studios, o maior estúdio da América Latina, e ficou cinco anos sem voltar ao Estado. Em 2012, Kalil voltou a Fortaleza "por razões familiares", e passou um ano na ponte com São Paulo. Foi só no segundo ano que veio a decisão de instalar o próprio estúdio no apartamento onde hoje mora com a esposa, a bailarina Lenna Beauty. No apartamento do casal também funciona o estúdio de dança da cearense que já viveu na Europa, na África e no Oriente Médio.

Yury Kalil produziu Thiago Pethit, Arnaldo Antunes, Karina Buhr e Otto (Foto: Tatiana Fortes / O POVO)

Yury Kalil conta que a identificação pela área central das cidades vem de mais de uma década vivendo em São Paulo. "Aqui me sinto familiarizado. Só ando a pé, é seguro andar em horário comercial. Tá sempre cheio de gente, com as lojas abertas e muitos trabalhadores na rua. Em SP o centro também é pulsante, e mesmo os bairros mais afastados são cheios de vida", lembra. 

O produtor gosta da noite na Praça dos Leões, que virou um ponto mais cult da cidade nos últimos anos. Em baixo, o restaurante Lions atrai público. No andar de cima funciona o Homeless, lugar que, segundo ele, tem a melhor balada da cidade. "O Centro vai ser o lugar mais bombado da cidade no futuro. É um fenômeno que aconteceu em Madri, São Paulo. Estamos caminhando nessa história", aposta. "A tendência é valorizar. Fechar algumas ruas para não passar carros, reformas, lugares tombados. Tá crescendo e vai chegar a hora do Centro ficar hype".

Ingra Rabelo conhece o Centro desde a infância, quando visitava com a mãe (Foto: Tatiana Fortes / O POVO)

Já Ingra Rabelo tem a vida atravessada pelo Centro desde a infância, quando caminhava com a mãe para fazer compras ou lia revistas da Marvel na banca do tio, na Praça José de Alencar. Seu primeiro emprego foi no Centro Cultural Banco do Nordeste, na época ainda na Floriano Peixoto. 

"Minha vida de trabalho sempre foi aqui. Foi uma escolha minha de estar perto do trabalho e ter uma qualidade de vida melhor. Carrego uma bagagem de vivências que eu tive aqui que me fazem perceber uma cidade muito mais ativa", conta. "Por ser um lugar cheio de gente e de situações, me ajuda também a estar longe da minha família. O Centro é laboratório".

"Nesse momento, com tudo o que tá acontecendo no Brasil, penso até em sair. Mas o Salão é uma resistência. São oito anos batalhando, fazendo arte, com a maioria dos nosso projetos na raça", reconhece. "Para além dessa vontade de ir embora, existe um desejo muito grande de ficar, continuar resistindo e provando a gente consegue fazer as coisas na raça e pelo outro".

Ingra Rabelo é produtora do Salão das Ilusões (Foto: Tatiana Fortes / O POVO)

Destaques de inovação

Mudar para crescer é receita imperativa em meio à concorrência

Por Lucas Braga

Um café de face jovem e atrativa no meio do Centro de Fortaleza é destaque numa Floriano Peixoto cheia de lojas de importados dispostos em caixas de papelão. A Tiamate Coffee é exemplo de quem aposta fichas no polo que atrai e concentra diferentes perfis de consumidores.

A cafeteria insistiu em espaço refinado no meio do Centro (Foto: Alex Gomes/Especial para O POVO)
 

Mostra-se inovadora a decisão de, em espaço de pressa e pechincha, instalar franquia conceitual e visualmente refinada. A empresa é parte do grupo paulista Gracom, mais conhecido pelo franchising de educação. Davi Silva, gerente da loja Tiamate no Centro, conta que o ponto comercial foi escolhido para ser anexo a escola que também é parte do grupo empresarial, atraindo o público jovem.

Davi Silva, gerente da loja Tiamate em Fortaleza, destaca o atendimento atencioso e rápido como diferencial (Foto: Alex Gomes/Especial para O POVO)
 

"Tem dado certo, nesse 1 ano e 4 meses. Temos captado muitos clientes. Afinal, é um negócio bem diferente da rotina do Centro. Foge um pouco da coisa rústica e vem mais pro lado aconchegante de tomar um café", analisa Davi. Além da arquitetura, o gerente destaca o atendimento atencioso e rápido como diferencial, atrativos inclusive ao público tradicional da região.

Clientes escolhem o Tiamate para uma reunião de negócios, um lanche ou mesmo aquele momento do cafezinho, no meio da jornada de trabalho. O publicitário Cláudio Ferreira se diz atraído pelo cardápio diferenciado do estabelecimento. "Trabalho no Centro mesmo e fico testando os restaurantes, para variar. Alguns colegas recomendaram e eu vim para fazer uma refeição mais tranquila", detalha.

Clientes escolhem o Tiamate para uma reunião de negócios, um lanche ou mesmo aquele momento do cafezinho, no meio da jornada de trabalho. (Foto: Alex Gomes/Especial para O POVO)
  

Bom, clássico e costumeiro 

A satisfação do consumidor e a fidelização; preocupações com o ponto de venda e com a experiência de compra; atenção e tratamento personalizado ao cliente. São essas, algumas das iniciativas comuns aos negócios que buscam incrementar para inovar. É o que explica Christian Avesque, mestre em Administração e professor da Faculdade CDL e Unichristus. "Não são comuns inovações radicais, como a renovação do modelo de negócio. Isso porque o Centro tem comércio mais popular e tradicional, voltado a preço e negociação".

Clientes escolhem o Tiamate para uma reunião de negócios, um lanche ou mesmo aquele momento do cafezinho, no meio da jornada de trabalho. (Foto: Alex Gomes/Especial para O POVO)

Inovação incremental também pode ajudar estabelecimentos tradicionais. Na mesma rua do Tiamate, a Floriano Peixoto, está um dos restaurantes mais clássicos do Centro. O Café Azteca está na esquina com a Liberato Barroso, resistindo aos tempos. De 1956 para cá, já viu de tudo na região.  

Kátia Holanda Tavares hoje está à frente do Café Azteca, após a morte do pai, o antigo dono. Ela menciona as ações inovadoras, mesmo tendo clientela fixa e preço acessível. “Todo dia a gente tem que pensar alguma coisa. É necessário. Seja um prato novo, uma máquina de café moderna…”.   

Para ver mudança  

Shayanne Feitosa, gerente de Marketing das Óticas Visão, auxilia a cliente (Foto: Aurélio Alves/O POVO)
 

Há ainda o incremento que se vale de conceitos inovadores. Em suas áreas de atuação, as mudanças parecem sutis, mas agregam valor ao serviço ou produto oferecido. Um exemplo é o uso da experiência de compra, na tradicional rede Óticas Visão.

Há mais de 40 anos no mercado e com 60% das lojas no Centro, os principais produtos são óculos, joias e acessórios. Uma forma de inovar, então, foi ajudar o consumidor a escolher o produto mais adequado, usando a técnica do visagismo - obedecer características físicas do inpíduo para o aperfeiçoamento da imagem pessoal.

Cliente da ótica, a empresária Elayne Cavalcante elogia o atendimento personalizado (Foto: Aurélio Alves/O POVO)

Shayanne Feitosa, gerente de Marketing das Óticas Visão, explica que a implantação da técnica de visagismo se deu nas lojas, desde janeiro. "Os óculos são acessórios que passam o dia no rosto, então devem combinar com sua necessidade e personalidade".

Cliente da ótica, a empresária Elayne Cavalcante elogia o atendimento personalizado que encontrou. Na escolha de uma armação, Shayanne estudou o formato do rosto, o tom da pele, a cor dos olhos e até a personalidade de Elayne para sugerir a melhor armação. "Isso, para mim, fez a diferença. As dicas facilitaram bastante a escolha".

Inovar no Centro é ressaltar-se entre a concorrência e mostrar ao novo consumidor que nem só os shopping centers oferecem uma boa experiência de compra.

Para Bruno Leitão, especialista em Marketing e professor da Faculdade CDL, mesmo o público mais fiel ao Centro pede novidades. "A inovação começa pela capacitação do colaborador e a valorização do cliente. O jovem que busca o Centro não quer ser fidelizado, mas tem de insistir nisso e também ouvir o que o consumidor mais tradicional pede".

Bate-pronto

Christian Avesque é mestre em Administração e professor da Faculdade CDL e Unichristus

Por Lucas Braga

O POVO: Qual o perfil do consumidor do Centro?

Christian Avesque: Focado em economizar, com jornada de compra pautada no preço, nas ofertas e na barganha, para pagar menos. Gosta muito da ideia de encontrar tudo em um só lugar. Ou seja, vai até o Centro buscando um grande sortimento de produtos. Numa única jornada de compra, ele quer vários itens e pensa em fazer bons negócios enquanto economiza tempo e transporte. O terceiro pilar é que ele encontra marcas e produtos substitutos (genéricos), que não são os de primeira linha. Consequentemente, ele consegue comprar esses itens com tíquete médio 30% a 50% menor.

OP: O consumidor tradicional pode se adaptar ao e-commerce?

Christian: Sim, sobretudo com a ideia do multicanal. Ou seja, o consumidor pode pesquisar e comprar na web - seja em site, aplicativo ou até mesmo por redes sociais -, e retirar na loja. Se a loja introduzir isso, sem entraves, o e-commerce se comportaria como canal (efetivo) de venda. Nas menores lojas, não há o e-commerce estruturado porque ele custa caro. Mas ferramentas simples, como as redes sociais, podem funcionar como ponte entre o pedido e a compra na loja física, por exemplo.

OP: O que o Centro precisa ter para ser mais atrativo e competir com os shoppings? 

Christian: O Centro precisa desenvolver hospitalidade. Os shoppings crescem tanto porque se tornaram hospitaleiros: recebem bem, acolhem, geram entretenimento, gera um prazer para depois vender. Quando o consumidor chega ao Centro, não se sente acolhido. Essa hospitalidade não é percebida e ele não abraça muito o bairro, não tem vínculo afetivo, mas econômico. Ele compra o que necessita e depois vai embora. 

 

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