Apresentação

Aprender com o voo dos pássaros.  Em bando, riscando céu, eles aproveitam o impulso gerado pelo deslocamento de ar do bater de asas da ave que voa logo à frente. O exercício em grupo permite que cada um economize energia e possa ir mais longe em segurança.

No Ceará, jovens da periferia, catadores de materiais recicláveis, pacientes de saúde mental, agricultores ou mesmo médicos anestesiologistas aprendem com a natureza as vantagens da cooperação.  

O cooperativismo é um movimento baseado na cooperação entre as pessoas, em que todos os associados são donos e dividem sobras e perdas das atividades socioeconômicas. A união de pessoas se sobrepõe ao capital para que as necessidades comuns do grupo sejam alcançadas.

As cooperativas representam aproximadamente 11% do PIB Brasileiro. São 132 entidades registradas no Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras no Estado do Ceará (OCB/CE), envolvendo 55.129 cooperados, gerando 4.762 empregos diretos.

Além de exemplos de desenvolvimento econômico de empreendedores, o especial "Ceará Cooperativo: histórias de quem acredita na transformação" apresenta cooperativas sociais. A reportagem é encerrada com duas entrevistas, com o presidente do Sistema OCB (Sistema OCB-Sescoop/CE), João Nicédio Alves Nogueira,  e com o coordenador da Incubadora de Cooperativas Populares de Autogestão da Universidade Federal do Ceará, Osmar de Sá Ponte. Ambos dividem conhecimentos históricos e conceituais sobre cooperativismo.

Ceará Cooperativo - Dados OCB/CE
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Em Maranguape, agricultores colhem os frutos da cooperação

Cooperativa formada na Região Metropolitana de Fortaleza tem quase 400 produtores de frutas. Com avanço dos negócios, sócios investiram em equipamentos, fazendo das polpas o principal produto de mercado

Por Amanda Araújo
Cooperfam funciona hoje na Columinjuba (Foto: Mariana Parente/Especial para O POVO)

Banana, mamão, abóbora, jerimum, melancia, melão, cheiro-verde, tomate, pimentão, acerola, manga e goiaba. A Cooperativa Agroecológica da Agricultura Familiar do Caminho de Assis (Cooperfam) lançou a semente dos frutos que colhe hoje, em 2008. Eram mais de 50 agricultores familiares reunidos na assembleia de fundação do que seria a entidade. Ao fim da reunião, apenas 26 decidiram continuar os planos. A criação só seria definida após dois anos, em 7 de março de 2010, e a formalização ainda se arrastaria por alguns meses até os trabalhadores conseguirem dinheiro para o registro.

 
Juntos, organizaram 22 contratos individuais e, com os 10% de cada um deles, fizeram um caixa comum. “Foi como a gente teve o capital para criar, ter uma sala, um computador para emitir nota”, lembra Airton Kern, presidente da Cooperfam. Em questão de meses, a quantidade de associados mais que triplicou, chegando a 86. Hoje, já são 354 cooperados, quantidade que requer organização em núcleos.

O modelo de negócio de cooperativismo já era conhecido de Kern, nascido no interior do Rio Grande do Sul, em Chapada. Avós, pais e tios participavam, e ele cresceu entregando toda a produção às cooperativas até mudar-se para o Ceará, aos 26 anos. Ficaria apenas três meses durante a implantação do Assentamento 25 de Maio em Madalena, a 189,9Km de Fortaleza, mas um acidente de moto prolongou a estadia por mais três meses. Chegou a retornar ao Estado natal, depois voltou, conseguiu comprar um sítio e fixar moradia em Maranguape.

"A maioria de nós (agricultores familiares) produz em pequena escala, para colocar produto no mercado é muito complicado. O excedente é pequeno, então só viabiliza se forem juntos. Sozinho, ou você morre na mão do atravessador ou fica só na subsistência", explica o sócio-fundador.

A data do "primeiro dinheiro" que entrou na conta da cooperativa ele guarda na ponta da língua: 30 de dezembro de 2010. "Foi um contrato com a Prefeitura de Maranguape. Eu não me esqueço disso, porque tivemos que fazer o balanço do ano!".

Produtos feitos a partir das frutas hoje são comercializados com hotéis, restaurantes, escolas estaduais e municipais até de Fortaleza, orgulha-se Kern. "Chegavam a sair sete caminhões (alugados) por semana. E foi com esse dinheiro que conseguimos recursos para comprar a primeira câmara fria e terminar a reforma do galpão –  era um esqueleto abandonado no meio do mato", cita.

 

Airton Kern deixou cidade natal para construir a vida no Ceará (Foto: Mariana Parente/O POVO)

 

Meio do mato

A 15 minutos de carro do galpão da Cooperfam, por caminho de terra batida, outro membro fundador rememorava a criação da cooperativa. Sozinho e com enxada na mão, Francisco Moraes, 63, finalizava o primeiro turno de trabalho na sua plantação. O intervalo é para fazer o almoço na casa construída por ele com a ajuda do filho pedreiro. "Trabalhando aqui no momento só eu e Deus. Lavo, cozinho e como", ria-se, animado para mostrar os brotos de bananas, acerolas e jerimuns.

Francisco Moraes, 63 anos, destaca qualidade do alimento da terra (Foto: Mariana Parente/O POVO)
Se durante a formação da Cooperfam houve apreensão, hoje o modelo já está se popularizando tanto que eles têm até concorrência de outras cooperativas, diz Francisco. "Aquele galpão, nós lutamos, lutamos e conseguimos. Só existiam duas cooperativas na região", narra.
 
O diferencial dos produtores familiares é atestado na saúde de seu Moraes. Acorda às 5 horas todos os dias, cuida da plantação, almoça e retorna ao roçado. "Eu tiro uma ‘carrera’ daqui pro Penedo na hora que eu quero, lá por onde vocês entraram no calçamento. Eu ajudei a construir o posto (de saúde), mas nunca fui lá. Esse alimento dá sustança, dá vida, não como veneno ", garante, referindo-se ao uso de agrotóxicos.

Mesmo no período de “empregado”, nunca abandonou o trabalho na terra - com macaxeira, batata-doce, milho verde, arroz, feijão. “(Houve) uma época que a coisa arruinou mesmo. A gente foi obrigado a procurar emprego, mas foi por pouco tempo. Quando melhorou um pouquinho, a chuva bateu na terra, a gente voltou para cá”, explica.

Se o açude encher, a safra boa é certa, e as esperanças são de que após cinco anos de seca, as coisas melhorem para além da cooperativa. “Eu também vendo em feira em Fortaleza e para ir mais eu tem que ter produto assim, orgânico. Não trabalho com veneno, eu faço eu mesmo o material para pulverizar”.

Negócios
Em 2011, o primeiro ano em plena atividade, a Cooperfam teve faturamento em torno de R$ 1,8 milhão. Os rendimentos anuais oscilaram entre R$ 1,5 milhão e R$ 2,2 milhões nos anos seguintes até 2016, cujo faturamento foi de cerca de R$ 2 milhões. Como os sócios têm independência para comercializarem os produtos como quiserem, a produção do ano passado foi movimentada por 170 trabalhadores. 

Produtos vendidos à Conab são tabelados, mas 10% de taxa administrativa são descontados dos associados. “Para merenda escolar, nós optamos em remunerar um pouco mais o agricultor na entrada do produto. Se o mercado está pagando x, a gente paga x mais um adicional e o restante vai para o balanço. Hoje nós temos patrimônio de mais de R$ 500 mil”, indica Airton.

O cooperativismo possibilitou contratos com órgãos porque, se antes eram feitos mais de 100 contratos, agora há intermediação e apenas um contrato. “Qualquer entrega, tinha que ir diretamente na Sefaz, fazer uma nota, toda aquela burocracia. Aí tem muitos agricultores que não se dão muito com papel, conhecem as letras, conhecem o papel, mas quando têm que juntar um com o outro se atrapalham. A cooperativa simplificou”, frisa o presidente.

Plantação de hortaliças em zona rural de Maranguape (Foto: Mariana Parente/O POVO)

Autonomia
Secretário da Cooperfam, Danilo Moraes é um dos irmãos mais novos de Francisco, também "nascido e criado na agricultura". Já foi empregado em granja, mas gosta de trabalhar na terra com autonomia. “Assim é melhor, o chefe é a gente mesmo. Você sabe que está produzindo, quem não trabalha (com a terra) consome o produto e não sabe de onde que vem”, aponta.
 
A plantação de hortaliças de Danilo é mantida com a ajuda de um dos filhos, de um primo, do genro e mais dois funcionários. “Da lavra é da lavra. Não se iluda, quanto mais bonita você achar a fruta na feira, mais agrotóxico você está comendo”, ensina.
 
Tendo participado de associações, ele compara o atual modelo cooperativista. "A associação é sem fins lucrativos, com os pedidos da cooperativa, vendemos bastante. É um reforço (na renda), e esse é o intuito de todo cooperado”.
 
Danilo Moraes mostra plantação (Foto: Mariana Parente/O POVO)

Da fruta, a polpa
As polpas de fruta são, hoje, o carro-chefe da Cooperfam, porque não são perecíveis como as frutas e hortaliças – quando a cooperativa não tem contrato para escoar essa produção, os agricultores vendem em feiras individualmente. De janeiro a junho deste ano, foram produzidos 60 mil quilos de polpas, enquanto a produção total de 2016 foi de 138 mil quilos.
 
“Dificilmente um agricultor sozinho ia conseguir montar uma fábrica de polpa, ter um agrônomo, um técnico para acompanhar, serviço de formação e rede de apoio. Ainda falta muita coisa para a gente fazer. A maioria das cooperativas passa a dar retorno em dinheiro aos associados em cinco, seis anos. Acredito que estamos chegando ao ponto”, projeta Airton.
 
Polpas de fruta são produzias no galpão da cooperativa (Foto: Mariana Parente/O POVO)
Convencer os agricultores de que são diretores, donos do negócio, ainda não é tarefa fácil em cooperativas do setor agrícola. “Cooperativa não é caridade, não é terceiro setor, muita gente confunde. É negócio, e se não der resultado ao cooperado, ele sai, vai fazer outra coisa. Mas é um negócio que deve ser feito com justiça social, porque a participação de cada um aqui dentro é de acordo com aquilo que produz, cada um movimenta”, completa o presidente da Cooperfam.

Pirambu Digital: o trabalho coletivo como transformador social

Em dez anos de história, a cooperativa, além de garantir empregabilidade com serviços tecnológicos, é fonte de oportunidade para jovens da periferia de Fortaleza

Por Isaac de Oliveira
A brisa de fim de tarde na praia do Pirambu, bairro de Fortaleza, convida Fabrício Mendes, 27, presidente da Cooperativa de Tecnologia da Informação do Ceará - Pirambu Digital, a relembrar o passado e os caminhos percorridos que não o distanciaram do lugar onde sempre viveu e se reconhece como parte.

As dificuldades inerentes a um bairro da periferia de uma grande cidade, para Fabrício, limitam a visão sobre sonhos e desejos de uma juventude. Foi na Pirambu Digital que ele acredita ter expandido o olhar e criado perspectivas para o futuro.
 
Fabrício está na presidência da Pirambu Digital desde 2013 (Foto: Mariana Parente/O POVO)
 
Fabrício graduou-se em Redes de Computadores em uma faculdade privada e, atualmente, faz pós-graduação em Gestão Empresarial, feitos que ele atribui ao incentivo da cooperativa, já que sua família não podia custear os estudos.

Desde 2013 à frente do projeto, Fabrício defende que o cooperativismo é capaz de reduzir a desigualdade social: “o esforço é resultado do meu trabalho e o resultado do trabalho do coletivo. Tanto me beneficia individualmente, como beneficia o coletivo”, constata.

A Pirambu Digital oferece serviços no setor tecnológico, como desenvolvimento de softwares, gestão de service desk e prestação de suporte técnico e manutenção. A cooperativa aposta em educação, geração de emprego e proximidade com o bairro. Ao todo, são 250 cooperados, entre ativos, inativos e afastados.

A maior oferta de serviços se concentra na prestação de técnicos de primeiro nível de contact center e no atendimento de manutenção. “O call center recebe a ligação, detecta o problema e manda um técnico ir resolver presencialmente”, explica Fabrício.

O técnico em Processamento de Dados Josimar Ferreira, 51, entrou para a cooperativa em 2011, quando chegou de Teresina para morar na capital cearense. Para ele, trabalhar dentro de um modelo cooperativista garante mais autonomia. “Lá em Teresina eu trabalhava via CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), em regime de contrato. Aqui na cooperativa tem mais autonomia, não está vinculado a uma empresa. Aqui nós somos funcionários e também somos proprietários. Isso dá uma liberdade bem grande”, diz Josimar.

Com faturamento de R$ 1 milhão em 2016, Fabrício explica que parte da receita da cooperativa é usada em projetos sociais (Foto: Mariana Parente/O POVO)
Na Pirambu Digital, os cooperados trabalham por demanda de projetos. De acordo com o valor cobrado pelo serviço, é retirada uma taxa de administração que varia entre 20% e 25% do total, segundo Fabrício, e o valor restante é dos cooperados. A taxa de administração, além de pagar gastos com infraestrutura - pessoal, jurídico, publicidade, entre outros -, também reserva uma parcela para os resultados. Este é um valor que se soma ao de todos os outros projetos em execução, e é dividido entre os cooperados. Desse modo, “é como se o cooperado ganhasse duas vezes. E quanto mais pessoas trabalharem, maior é esse bolo”, diz Fabrício. 
 
Em 2016, o faturamento total da Pirambu Digital foi de R$ 1 milhão. Mensalmente, a renda gira em torno de R$ 80 mil. De acordo com o presidente da cooperativa, 2017 está sendo um ano difícil, mas os esforços estão voltados para que o mesmo patamar do último ano seja alcançado. Parte do montante arrecadado é investido em ações sociais.

Criando oportunidades
Além da prestação de serviços, a Pirambu Digital busca abrir espaços, o que Fabrício chama de “corrente do bem”. “O nosso trabalho é fazer com que os jovens pensem grande, que eles podem ser protagonistas da vida deles também”, diz o presidente. Neste sentido, a cooperativa oferta cursos de formação profissional para os jovens do bairro, com curta duração, buscando inseri-los no mercado de trabalho. Após a formação e com idade mínima de 18 anos, é possível se tornar um cooperado.
 
Atualmente, são oferecidos dois cursos: Informática Básica, de quatro meses, e Manutenção e Suporte Técnico, de seis meses. 
 
Em 2017, a Pirambu Digital estende sua atuação social e se integra à Casa do Saber -projeto do movimento Emaús -, que dá reforço no contraturno escolar para as crianças do bairro. Com aulas de informática, as crianças ampliam o saber e o olhar para o futuro. 
 
João Pedro, 12 anos, é um dos alunos da Casa do Saber, que tem parceria com a cooperativa (Foto: Mariana Parente/O POVO)

 
João Pedro Rodrigues, 12, está no 7º ano do ensino fundamental e já aprendeu soldagem, programação, fez até jogo digital. Na carreira profissional, ele diz que vai cursar o que chama de engenharia social. “Eu quero fazer um aplicativo para aproximar as pessoas. Criar um aplicativo para o bem, para conversar”, planeja o menino, que já sabe a importância de se capacitar. “Toda oportunidade que eu tiver, eu tenho que agarrar. Porque quanto mais eu tiver certificado, vai ajudar muito no currículo, para que eu possa ter mais chance de ocupar uma vaga”, diz. 

Segundo Fabrício, a expectativa é que seja criado um curso de Programação, no qual os alunos poderão ficar até os 22 anos. 
 
Benício e João Pedro são moradores do Pirambu e já começam a ser capacitados pela cooperativa (Foto: Mariana Parente/O POVO)
 

Como fazer parte
A adesão à cooperativa, como qualquer outra, é voluntária. Além de possuir idade mínima de 18 anos, é preciso investir capital social de R$ 500, que pode ser resgatado quando o cooperado sair. Contudo, Fabrício explica que existem três meios de acessos para a Pirambu Digital. A primeira é para os cooperados inativos, que não estão trabalhando, e são recrutados para algum novo projeto. A segunda é para as pessoas estão se formando, e a terceira é por indicação. Os interessados não passam por seleção, mas apenas por uma avaliação de competência técnica.

Futuro
Ainda sem prazo estabelecido, o cooperativismo deverá aportar em breve no município de Aracati, a 150 km de Fortaleza, com a criação da Aracati Digital, que deverá ser um braço da Pirambu Digital. Segundo Fabrício, o município tem um polo de técnicos, e a ideia é que eles não precisem migrar para Fortaleza.

O trabalho que se faz em Aracati é voltado para o desenvolvimento de softwares, em vários níveis, de softwares simples até inteligência artificial. “Lá tem pessoas que trabalham com mineração de dados, web semântica, desenvolvimento de alto nível, raspberry. Lá tem uma equipe muito boa”, assegura Fabrício.

Terapia pelo trabalho: como pacientes de um Caps construíram a primeira cooperativa social em sanidade mental do País

Inserida no conceito de cooperativismo social, a entidade atua na reabilitação dos pacientes das unidades de tratamento mental de Fortaleza

Por Amanda Araújo
Retalhos, linha, agulha e bonecos de plástico espalhados na mesa rodeada de mulheres. As fundadoras da Cooperativa dos Centros de Atendimento Psicossocial (Coopcaps) se alegram mostrando fuxicos, bolsinhas e toalhas decoradas. Os encontros começaram em 9 de maio de 2005, após uma série de treinamentos com alunos da Universidade Federal do Ceará, por meio da Incubadora de Cooperativas Populares de Autogestão. Nascia ali a cooperação dos pacientes do Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) da regional III de Fortaleza. 
 
Lourdes Silvino virou cooperada junto com o filho, que fazia tratamento de esquizofrenia no Caps (Foto: Fábio Lima/O POVO)
O modelo socioeconômico do cooperativismo se encaixa na realidade dos pacientes, porque, como artesãos, obtiveram a chance de ser inseridos no mercado de trabalho. "Muitos tinham habilidade e não dependiam mais das atividades que os terapeutas orientavam. Tivemos oficina de cooperativismo, de gestão, elaboramos o estatuto com o grupo da universidade", explica a cooperada Lourdes Bastos Silvino, 66, primeira presidente da entidade. 
 
Como cooperativa social, o ganho é a reabilitação social dos pacientes das unidades de tratamento mental. O dinheiro só é suficiente para a compra dos materiais e, atualmente, as primeiras cooperadas narram dificuldades até mesmo de transporte dos novos membros. Muitos não têm como pagar as despesas de deslocamento até o mais recente endereço, no bairro Rodolfo Téofilo.
 
Assim, as cooperadas fundadoras buscam apoio das autoridades e fazem questão de apontar a importância da cooperativa - a primeira em sanidade mental do Brasil. Os membros são pacientes de transtornos como bipolaridade, ansiedade, depressão, esquizofrenia, dentre outros.
 
Lourdes é praticamente a única das sócias que não foi paciente do Caps, mas passou a integrar a entidade por causa do filho diagnosticado ainda jovem com esquizofrenia. Jon Célio Bastos Silvino faleceu aos 40 anos, em 2013. A convivência da mãe com os outros cooperados, além de quebrar preconceitos, ajuda a superar a saudade.
 
"Ele entrou no Caps em 2011 com esquizofrenia severa, passou por todas as medicações possíveis. Em compensação, isso mexeu com tudo no organismo. Diabetes foi o primeiro, depois colesterol, constipação", conta. 
 
Até a morte, Jon nunca foi internado, um avanço que Lourdes atribui à cooperação dentro do grupo. "Eu sempre digo às meninas, foi graças ao apoio que a gente tinha. Quando formamos a cooperativa, ele tinha orgulho de dizer que ia para o trabalho. Gostava de lixar, pintar damas e dominós de madeira, selecionar os retalhos pros fuxicos".
 
“Em vez de chamar de doido, dê a mão” 
As crises de ansiedade da artesã Fátima Nascimento, 62, foram agravadas com o fim do casamento. Em 2002, ela iniciou o tratamento no Caps e viu na cooperativa a possibilidade de ensinar os demais, vender seus produtos – sabonetes de seda, gatos de lã. “Nossa meta é ser sustentável um dia e apoiar qualquer pessoa com deficiência mental. Aqui, ninguém é obrigado a fazer o que não quer”, avisa.
  
Fundadoras da cooperativas costuram toalhas, fuxicos e bonecas (Foto: Fábio Lima/O POVO)
O trabalho manual aproxima os mais calados, afasta os problemas do dia a dia, avalia a cooperada fundadora. “Conversa com uma, ri de uma coisa, ri de outra. Aprende a se amar e amar os outros, e se você não se ama, não ama ninguém. Tentamos criar novidades, compramos revistas de artesanato. O seu dia é outro”, destaca Fátima.
 
A Coopcaps começou a funcionar com 30 pessoas, sendo 27 sócios plenos - todos pacientes, com exceção de Lourdes -, e mais dois sócios colaboradores representando o Caps. Hoje já são 47 cooperados.  “Nós somos conhecidos como doidos, e faço questão de dizer que sabemos fazer tanto como os ‘normais’. Em vez de chamar de doido, dê a mão”, completa outra cooperada, ouvindo a conversa com Fátima. 
  
Graça Silva, 58, artesã e comerciante, chegou a receber alta do Caps, mas não deixa a cooperativa. "Eu me sentia abandonada, não resolvia nada, até as filhas eram criadas pelos outros. Confiei em Deus, fiz as terapias e ‘tomei de conta’. Aqui, luto pela cooperativa porque consegui uma segunda família".
 
Planejamento 
A entidade entrou em operação em uma casa na rua Delmiro de Farias, no bairro Jardim América, até 2011, quando as infiltrações na residência alugada pela Prefeitura exigiram uma mudança para a rua Dom Joaquim de Melo, no Rodolfo Teófilo.  Com 18 mensalidades do aluguel em atraso, os cooperados foram realocados então na atual sede da rua Monsenhor Furtado, no mesmo bairro. "A situação aqui não é muito boa pela estrutura, estamos esperando resposta de um projeto novo", adianta Lourdes.  
 
Segundo a ex-presidente da Coopcaps, a reabilitação pelo trabalho precisa ser muito mais compartilhada. “Muitos nem falavam. Meu filho, que era muito quieto, já estava tendo poucas crises. O que mais conta é a saúde”. 

Anestesiologistas: cooperação que gera reconhecimento

Médicos que escolheram o cooperativismo para alcançar a valorização da especialidade no mercado de trabalho e restabelecer a relação médico-paciente

Por Isaac de Oliveira
No final da década de 1980, anestesiologistas se ressentiam das chances que o mercado oferecia no Ceará. “Se você não tinha parente dono de clínica, você não trabalhava”, conta Casimiro Dutra, descrevendo o cenário que levou 28 colegas médicos para formar uma cooperativa.
 
Casimiro Dutra iniciou na presidência da Coopanest em 2017 e faz parte da cooperativa há 20 anos (Foto: Aurélio Alves/O POVO)
 
Trinta anos depois, a Cooperativa dos Médicos Anestesiologistas do Ceará (Coopanest-CE) reúne mais de 550 cooperados e vislumbra um novo momento da especialidade no Estado. Mensalmente, por meio da entidade, são realizadas cerca de 13 mil anestesias em hospitais públicos e privados do Ceará.
 
Além de alargar o espaço para os profissionais, a cooperativa também serviu para driblar um outro problema - a remuneração inferior da categoria em relação a outras especialidades médicas. 
 
Pra se ter ideia, a cooperativa gerou em 2016 um faturamento de R$ 120 milhões, segundo Casimiro Dutra, sócio há 20 anos e, hoje, presidente da Coopanest-CE. Ele explica que o número representa crescimento de 10% em comparação a 2015, e projeta que neste 2017 a receita deve aumentar em torno de 5%. 
 

A cooperativa oferece consultas pré-anestésicas, além de realizar tratamento de dor (Aurélio Alves/Especial para O POVO)

Casimiro aponta outros desafios que a cooperativa assumiu ao longo do tempo. Entre eles, o distanciamento da relação entre médico e paciente. Ele explica que a especialidade adquiriu um caráter técnico e afastou-se da humanização. “O paciente com o tempo desconheceu o médico anestesiologista dele. Isso trouxe um prejuízo muito grande para a especialidade, porque como nosso trabalho é técnico e de bastidor, a gente perdeu o contato com o nosso principal motivo de ser, que é o paciente”, ressalta. 

 
Casimiro Dutra defende que a especialidade dos anestesiologistas mudou após o trabalho desenvolvido pela cooperativa (Foto: Aurélio Alves/Especial para O POVO)
Uma das apostas foi, então, a criação de uma clínica voltada, sobretudo, para o atendimento de consultas pré-anestésicas. A ideia é restabelecer o contato humano, conhecendo mais sobre os pacientes, para sanar dúvidas, além de orientar sobre o tratamento da dor. A escolha pela clínica é inspirada em um dos princípios cooperativistas, que é o interesse pela comunidade. 
 
A Coopanest-CE ampliou sua atuação no Estado e, além da capital cearense, presta serviço em outros municípios como: Caucaia, Maranguape, Quixeramobim, Juazeiro do Norte e Sobral.
 

Catadores em busca de dignidade

Membros de associações de catadores iniciaram cooperativa para organizar capital e gerar renda com reciclados. O endereço do João XXIII passou a significar, principalmente, independência

Por Amanda Araújo
Aos 27 anos, Antônia Ercília Durval dava início a uma nova fase de vida. Grávida do quinto filho decidiu se separar do companheiro e voltar à casa da mãe. Precisava de um emprego e, por acaso, achou nos materiais reciclados o início da relação que a acompanha até hoje como diretora comercial da Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis de Fortaleza e Região Metropolitana (CoopMares).

Antônia Ercília Durval voltou para a casa dos pais após separação e viu nos reciclados oportunidade (Foto: Fábio de Lima/O POVO)
A história começa quando ela passa a frequentar grupos de mulheres no bairro Pirambu, buscando superar a dor pelo fim do casamento. “Fiquei deprimida, gostava muito. Mas não adianta brigar, ficar com uma pessoa quando não existe mais amor ou, pelo menos, o diálogo. Estava no fundo do poço e fui participar (do grupo). Lá, elas me disseram: Toinha, tem a Socrelp (Sociedade Comunitária de Reciclagem e Lixo do Pirambu), vai lá”.
 
O pedido por emprego veio acompanhado de apreensão pela gravidez da mulher, ao que ela retrucou, segura: “Tem nada não, gravidez não é doença”. Passou a separar papel para a reciclagem e ganhava um centavo para cada quilo, apurando por dia R$ 10. “Em 1998, R$ 10 era dinheiro, viu? Porque agora... Comprava leite, merenda pros filhos”, lembra.
 
Foram 12 anos adquirindo experiência com materiais reciclados até se unir à Rede de Catadores do Pirambu. A CoopeMares, formada por alguns membros de associações de catadores, nasce no dia 20 de dezembro de 2012. A ideia era juntar os catadores em um modelo que pudesse gerar renda e facilitar a emissão de notas fiscais.
 
Antônia passaria a atuar como um dos 30 cooperados a partir de 2014. Hoje, fala com altivez sobre o aprendizado e da autonomia adquirida como cooperada. “Nem eu, nem meus filhos têm preconceito em trabalhar com lixo, acredita? Mas a gente sofre preconceito, porque a pessoa que mexe com lixo, a sociedade vê como analfabeta. Nosso meio tem gente fazendo faculdade, deixamos de ser  'os coitadinhos' e mostramos para a sociedade que o trabalho que a gente faz é importante”.

Independência
Edisleide Lima de Cruz, 44, faz a reciclagem de óleo desde o início da formação da cooperativa. Deixou de “trabalhar em casa de família”, como babá, para dedicar-se à profissão de catadora e não se arrepende. Prefere fazer seu horário, ganhando a cada dia pela produção.

Edisleide Lima de Cruz: de babá à cooperada (Foto: Fábio de Lima/O POVO)
“Minha vida mudou muito depois que eu conheci a reciclagem, porque casa de família a gente tem patrão. Aqui, não. Ninguém manda na gente. Antes eu era só aprendiz, com a convivência, vendo, vendo, aprendi e hoje eu que opero a máquina de óleo”, demonstra, ligando o equipamento.
 
A autonomia de hoje também é a maior vantagem para Antônia Ercília, ao lembrar-se dos tempos de “Amélia”, em referência à personagem cantada por Ataulfo Alves. “Para falar contigo eu me tremia todinha, a gente aprende até a falar! Tem catador que não sabe da importância dele, por isso o método é espalhar conhecimento”, frisa.
 
Média de 600 quilos de materiais recolhidos diariamente na cooperativa (Foto: Fábio de Lima/O POVO)
Cooperação
A CoopMares funciona de segunda a sexta, de 7h às 17 horas, com 30 cooperados. O funcionamento aos sábados ocorre em caso de necessidade. O objetivo traçado pelos cooperados, em médio prazo, é retirar os catadores das ruas e profissionalizá-los.
 
Acabar, como a diretora comercial explica, com o serviço braçal de puxar carroças. “Ter uma coleta seletiva. Para ganhar o mundo, tem que mostrar números”, projeta. Em média, são recolhidos 600 quilos de resíduos, destinados à triagem. Após esse processo, são aproveitados 300 quilos de materiais recicláveis.

Vídeo

Osmar de Sá Ponte. Cooperativismo permite competitividade para os pequenos

Por Amanda Araújo
(Foto: Mariana Parente/Especial para O POVO)

A Incubadora de Cooperativas Populares de Autogestão da Universidade Federal do Ceará é um projeto de extensão que propõe a profissionalização de pessoas em situação de vulnerabilidade social. Muito mais do que lucro financeiro, as cooperativas sociais inseridas com apoio da incubadora visam ao bem-estar dos envolvidos e à oportunidade de trabalho para esses grupos. Osmar de Sá Ponte Júnior, coordenador do projeto e professor do departamento de Ciências Sociais, fala sobre este modelo de negócio. 
 
O POVO: Como surge o cooperativismo?
Osmar de Sá: O cooperativismo foi uma tentativa, na verdade, dos trabalhadores, de criar uma via que possibilite certa autonomia deles diante da crise do desemprego na Europa do século IX, principalmente. Na Inglaterra, esses trabalhadores se reuniram para comprar juntos e, com isso, diminuíam o custo. Portanto, o cooperativismo é fruto da própria crise do capitalismo. No meio do século XIX, 1850 e poucos. O cooperativismo tem uma característica interessante, porque ele é muito marcado pelo conceito de autonomia. Quer dizer, os trabalhadores convivem no contexto da crise do sistema, do mercado, da crise do desemprego. Mas o cooperativismo é a primeira instituição que se constitui com alguns princípios importantes. Embora ele seja um empreendimento que tem finalidade econômica, é uma empresa de propriedade coletiva, onde todos os membros são donos e proprietários dos meios de produção. Ele também é como uma tentativa de dizer: nós queremos controlar a economia, nós queremos controlar o nosso destino, nosso futuro. Com isso, ele cria o primeiro projeto que reconhece igualdade política entre mulheres, igualdade jurídica entre pessoas de raças diferentes, de propriedade, de recursos diferentes e de pessoas com ideologia diferente. Tanto a igualdade jurídica entre pessoas do mesmo sexo e sexo diferente, rendas diferentes, ideologias diferentes e religiões diferentes. É a primeira instituição que as mulheres votam, por exemplo, com pé de igualdade com os homens. Então, ela surgiu como uma instituição extremamente avançada para sua época na noção de democracia. Você vê que no Brasil, em 1930, na França, em 1940, que se vai ter o voto feminino. O cooperativismo já nasce nessa ideia da igualdade entre todos.
 
OP: No Brasil, quando o cooperativismo chega?
Osmar de Sá: No sentido institucional, o cooperativismo vai surgir com a vinda dos italianos para cá, no final do século trasado, mas no processo industrial de São Paulo e Rio Grande do Sul. Agora, a cooperação é algo inerente à própria sociedade, não existe sociedade sem a cooperação. Se você for pensar, o que viabilizou o que nós somos hoje como seres humanos foram só dois fatores: a descoberta e o domínio do fogo enquanto instrumento de vida, e sociabilidade humana, a linguagem. Sem isso, não existiria ser humano, não existiria humanidade. Talvez, nós teríamos sido extintos, porque não seríamos seres de cultura. O que nos salvou foi essa dimensão biológica que fez o homem consumir proteína e se tornar esse ser que evoluiu para um ser inteligente, e ao mesmo tempo, um ser que é capaz de criar cultura. Portanto, preservar e aprimorar sua memória, criar condições de adequar o meio ao seu interesse. Nós somos seres cooperativos por natureza, a sociedade é cooperativa, mesmo o sistema competitivo capitalista precisa de grande grau de cooperação, se não ele é inviável. A cooperação é inerente, como diz Aristóteles, o homem é um ser social. Nós tivemos várias formas de experiência, de cooperação, a história da humanidade é toda cheia. Agora, nós estamos falando mais diretamente é dessa fase, desse cooperativismo institucional, a partir de 1850, que foi se configurando na crise da revolução industrial e que foi se aprimorando como cooperativas que vão desde pequenos produtores até grandes industriais. Aqui no Ceará, tem a Unimed, que muitos não sabem que é uma cooperativa, tem a do Sindicato da Construção, das grandes empresas da construção civil (a Coopercon-CE). A cooperativa dos pequenos mercantis e das farmácias. O cooperativismo é a via mesmo que está assessorando o capitalismo. Ao mesmo tempo que eu crio uma cooperativa de farmacêuticos, de donos de farmácia, essa cooperativa é que viabiliza a competitividade das pequenas farmácias diante das grande redes de farmácias, eu estou fazendo mercado. Eu estou fazendo algo que é bem diferente daquela coisa que só coopera e não compete. O cooperativismo necessariamente é uma instituição fundada na cooperação e na autogestão, mas é inserida no seio de um mercado que é competitivo e não tem como fugir dessa realidade.  
 
OP: O que é uma cooperativa social?
Osmar de Sá: A cooperativa social, a primeira ideia inclusive de usar esse nome, surgiu na Itália, usada como cooperativas de pessoas egressas do sistema penal ou pessoas com debilidade, alguma deficiência de inserção no mercado por ter defeito físico, defeito mental, por ser extremamente pobre. Os italianos criaram esse conceito de cooperativa social, inclusive essa lei foi instituída no Brasil. A cooperativa social era contratada pelo governo, e o governo disponibilizava oportunidade de trabalho, de inserção social pelo trabalho para essas pessoas com deficiência, egressa do sistema penal. Aqui no Brasil, essa parte propriamente dita, de assumir esse caráter, foi vetada na época do governo Fernando Henrique Cardoso. Foi aprovado só o estatuto da ideia da cooperativa social, sem o direito de que ela pudesse vir a ser essa cooperativa no mesmo perfil do cooperativismo social italiano. Então, nós temos o cooperativo social meio 50%. Agora, o que existe em conceito aí que é de economia solidária, que ele é distinto do cooperativismo porque ele trabalha informalidade no geral. Não podemos dizer que a cooperativa não seja uma economia solidária, ela pode estar inserida, mas é fundamentalmente, o gênero da economia solidária, de grupos informais que se constituem como estratégia de sobrevivência. Diferente do cooperativismo social que tem uma lei específica que rege, muito pouco utilizada no Brasil. Aqui nós temos a Coopcaps, primeira cooperativa do Brasil de saúde mental, fomos nós que apoiamos aqui na UFC numa perspectiva de inserção social pelo trabalho. Por que ela é inovadora? Porque a maior parte dos trabalhos com egressos dos Caps (Centro de Atenção Psicosocial) no Brasil ou dos manicômios era trabalhada por associações dirigidas por médicos e enfermeiros. A ideia da cooperativa social que nós construímos aqui, na época era o professor Mourão (o psiquiatra Antônio Mourão Cavalcante), era de dar autonomia, eles são os sujeitos, são os donos. Eles que dirigem e constroem, portanto, como empreendimentos deles e não como empreendimento totalmente tutelado. É um espaço de autonomia. Quando eles estão com algum problema, eles vão para o hospital e depois voltam. Ali, é o espaço de trabalho e inserção social pelo trabalho. É uma experiência bem interessante e que poderia ser reproduzida numa dimensão maior, no sentido de que o fim dele é inserção social. O trabalho se torna muito mais perspectiva de criar ocupação, não necessariamente renda. Nós criamos aqui também a Coopvida, que eram pessoas portadoras de HIV, também altamente discriminadas. Essa cooperativa a gente construiu no auge do preconceito, com apoio da Unimed. A gente constituiu um espaço de comercialização junto com o hospital São José, quem cuidava na época das pessoas portadoras de HIV.
 
OP: O que significa justiça social dentro da cooperativa?
Osmar de Sá: A justiça social é inserir os cooperados de uma forma equitativa, com as mesmas oportunidades. Se você vai falar de uma cooperativa que tem como fim a inserção econômica, que as pessoas vão viver daquela cooperativa, ela tem que dar oportunidades no sentido da igualdade econômica proporcional ao seu trabalho. Trabalhos iguais, remuneração igual. Na cooperativa não existe salários, não existe emprego, quem é empregado da cooperativa é sócio. Um médico da Unimed não é empregado da cooperativa, ele é um dono, um sócio, por isso se constrói como autogestão. São vários donos e tem uma direção que é escolhida. Então, é uma empresa social, a cooperativa tem essa característica. Ela é social pelos fins a que se destina e pela propriedade coletiva do seu patrimônio. Daí, não tem lucro. É uma coisa assim meio estranha, como é que se sustenta? Não confundir as sobras, aquilo que se agrega de valor e o que sobra ao final do exercício a lucro. Porque o lucro é o lucro de uma empresa tradicional capitalista. Uma empresa capitalista tem lucro porque tudo aquilo que ela ganhar a mais vai para a propriedade do seu dono. Na cooperativa, como todos são donos, a própria lei diz, a condição é não ter lucro, porque ela tem que distribuir tudo aquilo que ela agrega de valor, de trabalho de todas as pessoas, e tem que passar pelo crivo coletivo.
 
OP: Como surge o projeto das incubadoras?
Osmar de Sá: A incubadora surgiu em 1997, no movimento do Betinho de ação da cidadania. Eu sempre digo em palestra que o Betinho inventou a fome no Brasil, porque não se falava de fome. Sentia-se fome e publicamente se escondia que as pessoas tinham fome, e todo mundo sabia. O Betinho publicizou a fome e criou movimento da ação social de cidadania contra a fome. Esse movimento reunia fundamentalmente as universidades e as instituições públicas. Nesse projeto de ação da cidadania, foi constituída em Manguinhos, na Fiocruz, a ideia de um projeto social de tentar interagir com a comunidade ao lado, na favela de Manguinhos, para harmonizar a relação conflituosa com a universidade – muito assalto e tiro. Surgiu a ideia de fazer uma cooperativa, apoiada pelo Banco do Brasil, pela Finep, pela ação da cidadania. Criar uma cooperativa em que a Fiocruz pudesse contratar o serviço dessa comunidade. Foi feito isso para manutenção, limpeza da Fiocruz. A partir daí, na relação com a Coop do Rio, foi se pensar em como sistematizar essa experiência que deu certo. Aquela comunidade passou a trabalhar perto de onde morava, tinha sido para muitos o primeiro emprego, gente que nunca tinha tido emprego na vida teve o primeiro. A experiência era de geração de trabalho para combater a fome, num cenário de extrema pobreza, de recessão enorme, desemprego imenso. Foi sistematizado isso, a Coop, que é uma instituição de centro de excelência de tecnologia da UFRJ tinha uma incubadora de base tecnológica. Pensando essa solução: olha, temos uma incubadora aqui que é de base tecnológica, podemos fazer uma de cooperativa. A partir daí, criaram outras. E a nossa é a segunda incubadora do Brasil. Fizemos vários seminários discutindo a questão do trabalho, como tinha desemprego muito grande a cooperativa se tornou uma grande oportunidade. Mas também era polêmico, porque tinha muita gente que se aproveitava da ideia da cooperativa não ter vínculo empregatício para criar cooperativas fraudulentas. A incubadora surge como um modelo de cooperativismo com dente, que defende o interesse dos trabalhadores e defende o interesse do trabalho. Capacita a sociedade de uma forma geral para exercer esse cooperativismo com a proeminência da autogestão da cooperação, onde os trabalhadores sabem desenvolver a cultura de aprender a ser donos.
 
OP: Como é essa construção do cooperativismo entre os membros?
Osmar de Sá: Os trabalhadores, muitas vezes, estão habilitados a ser empregados dos outros, não têm ainda a noção do que é que significa autogestão, a responsabilidade pela qualidade do produto, responsabilidade de zelar pela entrega daquele produto no mercado de trabalho. Essa preocupação mais ampla, muitas vezes está com o empresário. Quando nós criamos uma cooperativa que a economia é social, e que todos são proprietários, cada um destes tem aquilo que a gente chama de aprender a ser dono. Ter a postura de que eles têm que zelar pelo patrimônio da cooperativa, e o patrimônio da cooperativa é fundamentalmente o produto que dispõem para o mercado, para a sociedade. Isso não é fácil, romper com a cultura da subordinação e criar uma nova cultura da autogestão e da responsabilidade coletiva, e ao mesmo tempo da responsabilidade individual pelo resultado daquilo que se propõe é o ideal de qualquer empresa. Se os trabalhadores percebessem isso e se empenhassem nisso, as  cooperativas seriam imbatíveis nas competitividade. Se as pessoas se imbuíssem da ideia de que elas são donas da empresa, donas da responsabilidade, têm capacitação suficiente para entender como funciona esse mercado, habilitação e capital para viabilizar o seu produto, seria muito mais competitivo, porque elas têm a motivação (de ser dono), coisa que uma empresa tradicional não transmite. Transmite muitas vezes a insegurança, que eu posso ser demitido a qualquer momento, pressão, estresse, e não a ideia de que podemos construir uma cooperação já que somos donos dos meios de produção  e dos produtos.

João Nicédio Alves Nogueira. ''O cooperativismo sempre cresce em tempo de crise''

Por Amanda Araújo
(Foto: Mariana Parente/Especial para O POVO)
Presidente do Sistema OCB - Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo do Ceará (Sistema OCB-Sescoop/CE), João Nicédio Alves Nogueira está no movimento cooperativista há quase 30 anos. Filho de produtor rural, nascido em Iguatu, ele formou-se agrônomo e começou a se envolver com o cooperativismo agropecuário. Assumiu a presidência do sistema em 1994.  
 
O POVO: Como se deu o processo de implantação do Sistema Organização das Cooperativas Brasileiras - Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo do Ceará (Sistema OCB-Sescoop/CE)?
 
João Nicédio: O Sistema OCB nasceu em 1971, com a lei federal que instituiu o sistema em nível nacional. Essa lei foi um trabalho do Sistema, havia duas instituições de representação do cooperativismo, e foi feito um trabalho de unificação. Essas duas organizações fundaram o Sistema OCB a nível nacional. A partir disso, foi criado o sistema em cada estado, então nós somos 28 – em 26 estados, no Distrito federal e uma que representa o Brasil todo. Em 1971 foi a lei, aqui foi criada em 10 de abril de 1972. Completamos 45 anos e comemoramos desde o início deste ano.
 
OP: Como convencer o cooperado da importância dele na cooperativa, pensando na repartição de perdas e sobras?
 
João Nicédio: A questão da conscientização da importância do cooperativismo é no trabalho dia a dia, na prática, no envolvimento deles com o negócio. A partir do momento que começa a dar resultados. Como diz o ditado popular, o órgão mais sensível  do homem é o bolso. Aí, quando começa a ser beneficiado, ele (cooperado) começa a se interessar mais pelo negócio. Infelizmente, nós temos uma cultura muito individualista. Aqui no Ceará, eu lendo, estudando algumas coisas, cheguei à conclusão que nós temos um problema maior: nossa colonização foi feita através do boi. O principal fator econômico era o gado, então o vaqueiro era pago pela sorte. O que é a sorte: dos bezerros que nascessem ele tinha um percentual. Então, não tinha ninguém com ele para dividir o percentual. Já em outros estados do Nordeste, a colonização foi feita por outra cultura. Em Pernambuco, era a cana de açúcar. A cana, apesar da escravidão, os escravos se reuniam para discutir os problemas deles até para fugir, como escapar do feitor, dar uma pisa no feitor. Tinha a cultura, aqui o cidadão ficava isolado, sozinho pastoreando o gado. Nós temos uma cultura muito individualista, e isso é muito ruim para o cooperativismo. Se você for pesquisar, os estados onde o cooperativismo é mais desenvolvido são os de colonização europeia. As grandes cooperativas do Paraná, a maioria praticamente nasceu de colônias europeias, que já vinham com a cultura da cooperação. Mesmo vindo para trabalhar na agricultura, naquele tempo como mão de obra semiescrava, tinha aquela cultura da cooperação fortalecida. Hoje, trabalhamos muito fortemente, ano a ano, essa disseminação da cultura da cooperação. Temos vários eventos, inclusive o dia C, Dia de Cooperar, para trabalhar a cooperação, a cultura mútua, o voluntariado, as pessoas se ajudarem.
 
OP: Como o senhor avalia o desempenho das cooperativas cearenses no atual cenário de crise?
 
João Nicédio: É interessante até falar sobre isso, porque nós falamos muito das cooperativas agropecuárias. A origem, o cooperativismo agropecuário foi muito forte, a OCB, num passado recente, era praticamente 100% agro. Hoje, o foco não é mais o agro, são as cooperativas urbanas. São cooperativas de profissionais liberais, da área de saúde, de crédito. Hoje, nós temos várias cooperativas bem organizadas e funcionando muito bem de especialidade médica. E aí quando você me faz essa pergunta, por exemplo, a Unimed Fortaleza, nossa afiliada, é a 6ª empresa em faturamento do Ceará. Eu tenho dito ultimamente, até tenho lançado o desafio, que a gente precisa ter esses números, que acredito eu, baseado nessa informação da Unimed, se nós considerássemos o cooperativismo do Estado como um grupo econômico único, que realmente é, nós, com certeza, seríamos o 5º grupo econômico do Estado. Com certeza, em número de pessoas envolvidas nós seremos um dos maiores. Quando nós juntamos o número de associados de cooperativas, com o número de funcionários, dá um número bem significativo. Funcionário com carteira assinada, com todos os direitos trabalhistas garantidos. E o número de associados, que seu negócio depende da cooperativa. Quando você pega a cooperativa isolada, não enxerga o todo, e é isso que nós estamos precisando divulgar e estamos fazendo um trabalho muito intenso com as cooperativas. Para que a gente passe a trabalhar como um grupo econômico único.
 
OP: Quais as diferenças entre as cooperativas e empresas privadas? A questão de todos os associados serem donos faz a cooperativa ficar mais confortável nesta crise?
 
João Nicédio: Se você fizer um estudo macroeconômico, ao longo do tempo, o cooperativismo sempre cresce em tempo de crise, sempre se sobressai. Se nós pegarmos o último problema na área financeira no mundo, enquanto não sei quantos bancos quebraram, o cooperativismo financeiro cresceu. Porque tem uma confiança maior, você está ali pertinho, você faz parte, você ajuda a tomar decisão. Hoje, mesmo com essa crise brasileira que está aí, tem indícios e números de que o cooperativismo continua crescendo. O grande diferencial mesmo, em cima da sua pergunta, do cooperativismo para a empresa econômica é exatamente quem decide. Quem decide numa empresa econômica qualquer? O capital, quem tem mais de 51%. No cooperativismo, independentemente do volume de negócio que você tem, quem decide é a pessoa. Se você é o menor associado, e eu sou o maior associado, na hora de sentar a mesa e tomar decisão, você tem direito a um voto, e eu tenho direito a um voto. Então, é uma instituição altamente democrática, as decisões são sempre por maioria dos presentes envolvidos com aquele tema.
 
OP: Qual o papel do diretor em uma cooperativa?
 
João Nicédio: O papel do diretor é coordenar, organizar, e botar para funcionar a cooperativa em cima das decisões tomadas pela maioria. Muitas das cooperativas organizadas, hoje, têm um plano de negócio, um planejamento estratégico. Então o papel da diretoria é executar aquele plano estratégico.
 
OP: A maioria das cooperativas no Estado é de profissionais de saúde ou mesmo ligados à agricultura. Por que o Ceará não tem mais cooperativas ligadas às artes, por exemplo?
 
João Nicédio: Nós tivemos uma dificuldade num passado recente, e a imagem do cooperativismo não era muito positiva. Tem melhorado muito, crescido muito. Eu acho que é muito mais receio. Mesmo na sua profissão, jornalista, já tivemos algumas conversas, jornalistas imaginando a possibilidade de formar uma cooperativa. Tem no Brasil, dou o exemplo de Alagoas. Um grupo de jornalistas assumiu um jornal que faliu, a empresa quebrou, e eles receberam os direitos trabalhistas deles das máquinas, dos bens, e continuam rodando o jornal até hoje. Fundaram a cooperativa e tocam o jornal. Eles são donos da empresa em que eles trabalham. Tem cooperativa de artesãos, artistas que fazem shows. Em vez de ter uma empresa privada para vender o serviço, às vezes até terceirizando o show, é vendido pela cooperativa. Aqui no Ceará não temos, infelizmente. Tem algumas ainda de artesanato, mas funcionando precariamente.
 
OP: Por que existia essa imagem negativa?
 
João Nicédio: Começou lá atrás, com cooperativas de crédito, foi antes do Banco Central, sem ter regulamentação. Essas cooperativas que terminaram sendo extintas. Teve prejuízo, muita gente que tinha dinheiro e perdeu, na década de 1950. Aí ficou essa imagem de que era problemática. Tivemos uma onda de cooperativas do trabalho que não funcionaram muito bem, aí o Ministério Público do Trabalho terminou intervindo e fechando muitas. Criou essa imagem que servia para burlar a lei. As agropecuárias, tivemos uma época onde houve facilidade muito grande de empréstimo sem muitos critérios técnicos e ficaram endividadas, criou uma imagem negativa também. Foi muito divulgado na mídia, porque é muito fácil quando assunto é problema. Para divulgar o sucesso, a coisa que funciona, é muito menos atraente. 
 
OP: O cooperativismo é um modelo do futuro?
 
João Nicédio: Pode ser bem melhor aproveitado. O que eu posso dizer é o seguinte, quanto mais desenvolvido o país, mais desenvolvido é o cooperativismo. A Alemanha, o Canadá, Itália, Espanha, são países onde o cooperativismo é muito forte. Aqui no Brasil, o cooperativismo do Paraná é muito forte. Então, parece um contrassenso, onde seria mais necessário esse modelo de organização social voltada para o econômico. Nós somos uma empresa com característica diferente, onde envolvemos as pessoas. Tinha mais necessidade de ser forte, não é. O pequeno produtor para ir para esse mercado altamente competitivo, sozinho é muito difícil. Se junta um grupo fica mais fácil. Isso, muito devagarinho, está começando a ser entendido pela sociedade e pelos produtores. Tenho visto ultimamente que a procura, a demanda, as conversas, as próprias instituições dizendo que só dá certo se for por cooperativa. A gente vê que essa cultura, essa ideia está mudando. Nós temos uma esperança, que no futuro não muito distante, o cooperativismo se fortaleça mais e mais.
 
 

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