Carioca: memórias de uma vida no crime

O crime, segundo Carioca

Hoje aos 51 de idade, o homem que liderou o sequestro de dom Aloísio Lorscheider, em 1994, fala sobre as três décadas que viveu entre celas e fugas. Carioca diz que recebia R$ 13.700 de salário como chefe de facção. E que, desde outubro de 2017, soube que Gegê e Paca, líderes do PCC mortos no Ceará este ano, seriam punidos por traição

Antônio Carlos de Souza Barbosa entra cabisbaixo à sala do diretor do presídio, trazido por agentes. Cumprimenta balançando a cabeça rapidamente. Veste o uniforme da cadeia: camisa branca de algodão, calção laranja, chinelas.

(Foto: Aurélio Alves/O POVO)
 

Desde maio deste ano, foi transferido da Casa de Privação Provisória de Liberdade (CPPL 3) para o Instituto Presídio Professor Olavo Oliveira (IPPOO 2), em Itaitinga. Está ali por medida de segurança. Havia sido julgado pelo tribunal do crime para morrer, segundo ele próprio. Conta que acabou liberado pouco antes de tomar o chamado "coquetel da morte".

 

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Vídeo

Entrevista: a vida bandida de Carioca

Entrevista: parte 2

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O sequestro

Entrevista: A vida bandida de Carioca

Leia a entrevista com Antônio Carlos de Souza Barbosa, o Carioca. Nesta reprodução no formato pergunta-resposta, O POVO por manter literalmente a conversa com o sequestrador de dom Aloísio Lorscheider, inclusive com algumas incorreções de sua narrativa, incertezas de tempo, pessoas, lugares ou crimes que tenha (ou não) cometido. Para ajudar no entendimento, O POVO abre capítulos durante a fala. A sequência é idêntica à que está na gravação original

PRÓLOGO – antes da entrevista...
Por que não me mandaram embora? Está constando no sistema, desde 1998, que eu sou um fugitivo. Sendo que eu paguei 29 anos, 11 meses e 9 dias de reclusão de pena e não devo mais nada. Estou esperando vir um papel lá de São Paulo pra comprovar que eu saí no dia 2/2/2017, de cumprimento de pena. Com alvará de soltura lá de Presidente Prudente (SP).
 
O POVO - Você já ficou preso em quais estados, além do Ceará?
Antônio Carlos Souza Barbosa (Carioca) – Rio, São Paulo. Teve as penitenciárias federais também. Estive em Porto Velho (RR), Mossoró (RN), Campo Grande (MS) e Catanduvas (PR). Passei nas quatro.
 
OP – Você quer ser chamado como na entrevista?
Carioca – Pode chamar Carioca, Antônio Carlos, tanto faz. Não tenho mais nada pra esconder.
 
OP – Você está com quantos anos?
Carioca – 50 anos. Faço 51 em outubro (Aniversariou dia 20 do mês passado).
 
OP – Você hoje cumpre pena pelo quê?
Carioca – Estou preso pelo artigo 16, que é porte de arma de uso restrito.
 
OP – Você tem outras condenações a cumprir?
Carioca – Nenhuma.
 
OP – Você se notabilizou, em março de 1994, por ter sido o detento que manteve dom Aloísio Lorscheider como refém. Até então, você tinha que penas a cumprir?
Carioca – Eu tinha pena de aproximadamente 97 anos em São Paulo. Por assalto e sequestro. O sequestro do empresário Abílio Diniz, eu participei na época. Fugi de São Paulo e vim para Fortaleza.
 
OP – Veio fugido e aqui foi preso?
Carioca – Fui preso em 1993 aqui. 
 
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Carioca afirma ter participado do sequestro do empresário Abílio Diniz

Este é o segundo momento da entrevista com Antônio Carlos de Souza Barbosa, o Carioca. Neste trecho ele explica principalmente sua suposta participação no sequestro do empresário Abílio Diniz, ocorrido em 1989. O material segue o formato pergunta-resposta. A conversa é reproduzida quase integralmente. Alguns trechos não compreendidos foram excluídos, mas sem o comprometimento da versão contada. São mantidas incorreções da narrativa, incertezas de tempo, pessoas, lugares ou passagens que tenha ou não participado de fato. A sequência é idêntica à que está na gravação original.

INÍCIO DA ENTREVISTA:

O POVO – Sobre sua participação no sequestro do empresário Abílio Diniz, por que seu nome não apareceu no processo criminal?

Carioca – Como eu era um militar na época, fui primeiro julgado pela Justiça Federal.

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Cearense que cumpriu pena pelo sequestro de Abílio Diniz nega participação de Carioca

O POVO – O Carioca participou do sequestro de Abílio Diniz?
Rosélio – Não, com certeza não. Eu fui um dos envolvidos na operação Carmelo desde o exterior. E com certeza só havia eu de brasileiro. Com certeza. Embora fossem dados compartimentados, secretos, na operação. Até pelos levantamentos que fiz para o meu livro Pão de Fel, não existe essa possibilidade. 

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Carioca soube bem antes que Gegê e Paca seriam executados

"No Salve lá, que todo mundo já é ciente, foi desvio de verba, desvio de dinheiro, meteram a mão na cumbuca. Do dinheiro do Paraguai (roubo de US$ 40 milhões)", detalha. Gegê e Paca foram mortos quatro meses depois, em fevereiro deste ano

Até pouco tempo atrás, Carioca seguia influente. Confirma que era um dos chefes locais de sua facção. Pelo cargo, recebia mais de R$ 13,7 mil de salário/mês. Também pelo posto, diz ter sabido antecipadamente, ainda em outubro do ano passado, que os líderes do PCC executados no Ceará, Gegê do Mangue (Rogério Jeremias de Simone) e Paca (Fabiano Alves de Souza), estavam num "Salve" como culpados. Teriam sido descobertos em desvio de dinheiro da facção.
 
"No Salve lá, que todo mundo já é ciente, foi desvio de verba, desvio de dinheiro, meteram a mão na cumbuca. Do dinheiro do Paraguai (roubo de US$ 40 milhões)", detalha. Gegê e Paca foram mortos quatro meses depois, em fevereiro deste ano.

Foi por este caso, inclusive, que Carioca descreve quase ter sido eliminado dentro da cadeia. A suspeita de gente da facção, à época, era a de que ele estaria envolvido nas mortes. No último Dia das Mães, relata que chegou a ser "sequestrado" dentro da cadeia. Foi levado para um ponto da unidade prisional onde iriam fazê-lo ingerir o "coquetel". Morreria ali.

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"Parei com essa vida", diz Carioca

"Parei com essa vida", afirmou Carioca ao O POVO. Hoje está na "rua dos irmãos", ala dos bem comportados no IPPOO 2. Dos 51 anos de idade, completados em outubro, quase 32 já se emendam entre penitenciárias e delitos. Admite que a fama lhe deu respeito nos pavilhões e nas ruas, mas também problemas.
Suas condenações, por diversos casos, somaram mais de 100 anos. Presos no Brasil não cumprem mais que três décadas de pena, por isso seu tempo de castigo ganhou diversas comutações e progressões de regime. Os benefícios prisionais reduziram sua estada para 29 anos, 11 meses e nove dias de cadeia.
 
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Bastidores

As duas sessões de entrevista com Carioca foram no início de setembro (dias 4 e 11). A primeira durou 1h15min. A segunda, 35 minutos. Somadas as conversas preliminares, quase duas horas totalizadas nos dois encontros.

O primeiro pedido feito à Secretaria da Justiça, sobre a possibilidade de a conversa acontecer, foi dia 8 de agosto. No dia 28, a confirmação de que Carioca havia topado.

Carioca concedeu a entrevista sem algemas. Permaneceu calmo e sempre eloquente. Somente numa pergunta da 1ª sessão, pediu para não responder. No 2º encontro, não quis falar sobre nomes de comparsas.

Em reportagens de 1994, logo que foi preso pelo sequestro do cardeal Lorscheider, Carioca chegou a ser mencionado como condenado no caso Abílio Diniz. Porém, nunca houve aprofundamento a respeito. 

O POVO falou com dois dos reféns do sequestro no IPPS: Mário Mamede, então deputado estadual, e Raimundo Brandão, à época coordenador estadual do Sistema Penal. Ambos hoje estão aposentados.

Mamede lembra de seu momento mais tenso no episódio. Disse ter sido ameaçado de morte por Carioca. “Ele dizia que não estavam brincando. ‘Vamos dar um tiro na cabeça dele, jogar no pátio’. Fiquei olhando pra ele. Não pisquei o olho até que ele não me olhou mais”.
 
Brandão depois tornou-se subsecretário da Justiça, que administra as penitenciárias estaduais. No dia, chegou a travar luta corporal com um dos detentos, quando o sequestro foi anunciado. Escreveu um livro sobre o caso: O pastor e os 12 reféns.
 
Após a entrevista, a pedido da diretoria do IPPOO 2, Carioca assinou um termo autorizando a publicação de suas declarações e das imagens.

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Carioca e o sequestro de Abílio Diniz

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