Arquivo Aberto estreia com o Caso Marielle

Novo podcast do O POVO conta a história do crime que se tornou guerra cultural e pautou o discurso político em um país tão polarizado

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Os avanços tecnológicos permitiram novos meios para a distribuição de histórias, vivemos a era do streaming onde o público tem acesso cada vez mais fácil a uma grande variedade de narrativas. A partir dessa nova realidade surge o projeto Arquivo Aberto, que tem como proposta contar histórias utilizando diferentes tipos de plataformas. A proposta principal dessa iniciativa são os conteúdos em áudio, que derivam para conteúdos em texto, vídeo e imagem.

Formato em ascensão na cultura podcaster, o storytelling reúne uma série de técnicas narrativas para contar histórias. O conceito toca a primeira temporada, que tem como tema o caso Marielle, trazendo detalhes do assassinato da vereadora carioca ocorrido em 2018. Os quatro episódios que integram a primeira temporada estarão disponíveis nas plataformas; Deezer, Spotify, iTunes, Spreaker e nos principais agregadores de podcast. Os últimos passos da vereadora e toda a cronologia que envolveu o crime serão recontados nos dois primeiros episódios, que também abordam a primeira etapa da investigação comandada pela Polícia Civil e Ministério Público do Rio de Janeiro.

 Os episódios iniciais também exploram outros aspectos que envolvem o caso. O perfil e a identidade dos acusados, o processo de planejamento do crime e a arma utilizada para executar Marielle. O terceiro e quarto episódio focam na vida e legado político deixado pela vereadora carioca.

A cronologia do crime

PARTE I

Após um ano das execuções, muitas investigações foram realizadas e um primeiro passo foi dado. A pergunta que agora insiste em ecoar é: quem mandou matar Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes? A primeira temporada do podcast arquivo aberto conta o caso de um dos crimes que mais abalaram o Brasil nos últimos anos. O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, juntamente com o seu motorista Anderson Gomes, desperta os mais variados sentimentos, um caso que se tornou guerra cultural e pautou o discurso político em uma país tão polarizado.

17:24

O dia a dia de Marielle era no Palácio Pedro Ernesto, sede da Câmara de Vereadores do Rio, foi lá onde ela apresentou seus projetos e desenvolveu trabalhos voltados a proteção dos direitos humanos. No dia do crime a sessão no plenário da Câmara teve fim às 17h24. As imagens do circuito interno mostram Marielle e outros vereadores se dirigindo a porta de saída do plenário. De lá, a vereadora tomou o elevador até o seu gabinete, onde permaneceu por cerca de uma hora, até sair do prédio.

18:39

Imagens do circuito interno da Câmara mostraram a vereadora se dirigindo a um dos portões de saída, precisamente às 18h39. A gravação também mostra, em outro ponto, a movimentação do lado de fora do prédio. Anderson Gomes, que substituía um amigo no cargo de motorista da vereadora, aparece pela primeira vez nas imagens caminhando até o carro estacionado na rua Álvaro Alvim, que dá acesso a um dos portões laterais da casa. Em seguida, Anderson entra no carro e vai em direção a Marielle que já o espera calçada da Câmara.



Ali mesmo na calçada do prédio, Marielle embarca como de costume no banco da frente do veículo ao lado de Anderson. O destino agora é a Casa das Pretas onde acontece o encontro “Jovens Negras Movimentando as Estruturas” promovido pelo seu mandato. A distância entre a Câmara de Vereadores do Rio e a Casa das Pretas é de cerca de 1,5 km. É nesse primeiro trajeto que surge a primeira dúvida da investigação. Os assassinos estariam seguindo o veículo de Marielle a partir desse ponto? As imagens do circuito interno do local e de prédios vizinhos não comprovam se outros veículos estariam seguindo Marielle e Anderson.

18:58

A Rua dos Inválidos, local onde fica a Casa das Pretas, é uma via típica de um centro urbano, estreita e de mão única, onde carros ficam estacionados rente a calçada e do outro um curto espaço para que os carros transitem.  Às 18h58, exatamente 19 minutos após Marielle e Anderson deixarem a Câmara dos Vereadores, o veículo utilizado pelos criminosos aparece nas imagens de câmaras de segurança. Sem vagas para estacionar, os assassinos param o carro ao lado de um beco, próximo a Casa das Pretas.



19:00

Dois minutos após o veículo dos assassinos chegar ao local, é a vez do carro de Marielle e Anderson surgir no vídeo. Ainda sem vagas para estacionar, Marielle desembarca no meio da via em frente a Casa das Pretas, enquanto Anderson dá marcha ré e busca um local mais apropriado para estacionar. Nesse movimento ele quase chega a colidir com a lateral do carro dos assassinos ali parado.
(Foto: Reprodução/YouTube)

Durante toda a participação de Marielle no evento, que durou cerca de duas horas, os criminosos se mantiveram dentro do carro sem sair do veículo em nenhum momento. Porém um único movimento de troca de assento de um dos criminosos, deixou brechas para embasar as investigações da polícia.

Sem imaginar a presença dos seus algozes ali tão perto, Marielle inicia o evento, que recebeu a presença de diversas mulheres, entre elas estudantes, publicitárias, cineastas e jornalistas para discutirem políticas públicas voltadas às mulheres negras.

(Foto: Reprodução/Twitter)


19:09


O movimento no local começa a diminuir e a primeira vaga de estacionamento surge. O carro guiado pelos assassinos logo é estacionado mais a frente, ainda mais próximo da porta de entrada da Casa das Pretas, mais precisamente a dois carros de distância da entrada do local. O veículo para posicionando o lado do motorista paralelo à calçada. A visão do motorista é perfeita, é possível observar todo o movimento em frente a Casa das Pretas, onde Marielle está.

19:32

Outra vaga surge bem a frente do carro dos assassinos, é justamente nesse local que Anderson estaciona. Apenas um carro separa o veículo de Anderson da porta de entrada da Casa das Pretas. Na vaga de trás, os criminosos acompanham atentamente a manobra de Anderson.

19:54

(Foto: Reprodução/YouTube)

Durante a espera pelo término do evento, as câmeras de segurança filmam Anderson circulando pela Rua dos Inválidos, possivelmente se dirigindo a estabelecimentos comerciais ali próximos. A pé, o motorista caminha pela rua usando o celular e chega a passar mais uma vez ao lado do carro dos criminosos.

21:03

O encontro chega ao fim e Marielle volta a surgir nas câmeras. A vereadora deixa a Casa das Pretas e caminha em direção ao carro se despedindo de algumas pessoas ali na calçada.

21:04

Marielle, Anderson e a assessora Fernanda Chaves embarcam no veículo após o término do evento. Desta vez, a vereadora que sempre andava no banco da frente ao lado do motorista, decide naquela ocasião ir no banco de trás, acompanhando a assessora.

21:05

Com faróis apagados o veículo dos criminosos estacionado logo atrás acompanha toda a movimentação e sai logo em seguida, iniciando a perseguição às vítimas.

21:12



A perseguição se intensifica. Por cerca de 4km os criminosos perseguem o carro da parlamentar sem que as vítimas percebessem que estavam sendo acompanhadas. Ao longo do percurso os carros passam por 11 câmeras de trânsito, câmeras essas que seriam decisivas no curso das investigações. Segundo informação do Jornal Hoje da TV Globo, as câmeras de segurança fizeram parte de um pacote doado pelo Governo Federal para o monitoramento das vias cariocas durante as Olimpíadas do Rio de 2016. Por falta de manutenção cinco dessas câmeras não estavam funcionando no momento do crime, inclusive a do local exato da execução.

As últimas imagens do carro de Marielle em movimento foram vistas a cerca de 400 metros do local onde a vereadora foi executada.

(Foto: Reprodução/YouTube)


Devido a ausência de câmeras, não há precisão exata do momento do crime. As investigações apontam que o carro dos criminosos tenha emparelhado o carro de Marielle disparando com os dois veículos ainda em movimento.

Os dados iniciais da investigação revelaram que ao todo os criminosos dispararam 13 vezes a uma distância de 2 metros. O atirador acertou o local exato onde a vereadora estava sentada, no canto direito do banco traseiro. quatro tiros atingiram Marielle e três Anderson. A assessora de Marielle que a acompanhava no banco de trás sobreviveu ao crime, sendo apenas atingida por estilhaços de vidro do veículo.
 
 

Armas e munições

PARTE II

Somente um ano após o crime surgem as primeiras informações concretas sobre quem são os responsáveis pelas execuções. O tempo de investigação se deve a complexidade do caso, além de uma série de precipitações na perícia do crime: a primeira diz respeito a munição utilizada pelos assassinos.

Na sexta-feira 16 de março, dois dias após as execuções, Raul Jungmann, ex-ministro da defesa do então presidente Michel Temer, concedeu entrevista coletiva para falar sobre o crime. Segundo as informações do ministro, a munição utilizada para executar Marielle e Anderson teria sido furtada de uma agência dos Correios no Estado da Paraíba. As munições faziam parte de um lote destinado à Polícia Federal.
 
 
Munição usada no assassinato da vereadora Marielle é de lotes vendidos à Polícia Federal
Não demorou muito para a declaração ser contestada. No dia seguinte, a Polícia Federal e os Correios da Paraíba se manifestaram contra as declarações de Jungmann. A superintendência dos correios do estado da Paraíba informou não ter conhecimento sobre qualquer furto de munição. O sindicato da Polícia Federal também se manifestou, alegando que não realiza o transporte de munições através dos Correios.
De fato, a munição utilizada é de um lote vendido a Polícia Federal de Brasília em 2006. Porém a afirmação de roubo declarada pelo ministro não é verdadeira, o que ajudou a tumultuar ainda mais o caso. A declaração de Jungmann repercutiu tanto ao ponto do próprio ministério se pronunciar através de nota, reformulando a fala do ministro e reconhecendo o erro. A verdade é que balas do mesmo lote foram encontradas após um assalto a uma agência dos Correios na Paraíba – ou seja, foram usadas pelos participantes da ação e não furtadas na ação.
Munições desse mesmo lote foram utilizadas em outras duas ocasiões; a primeira na maior chacina do estado de São Paulo, ocorrida em 13 de agosto de 2015 nas cidades de Osasco e Barueri. Na ocasião 17 pessoas foram mortas em apenas uma noite. 3 policiais militares e um guarda-civil foram condenados pelas mortes. O segundo registro da utilização dessas munições ocorreu em São Gonçalo-RJ entre 2015 e 2017, durante disputas de território entre facções rivais, onde 5 pessoas foram mortas.
Qual a arma utilizada no crime?
O segundo erro inicial das investigações é referente a arma utilizada no crime. As primeiras investigações apontaram o uso de uma pistola 9mm acoplada com kit rajada, capaz de disparar vários tiros por segundo. Até agosto de 2017 o uso desse armamento era restrito a agentes da Polícia Federal e das Forças Armadas.

Em 7 de agosto de 2017, sete  meses antes do crime, o Comando do Exército autorizou através de portaria, a compra desse armamento para uso pessoal por Agentes de Segurança de todo Brasil. A partir de então, Policiais Civis, Militares, Bombeiros e agentes das polícias legislativas, tiveram a autorização de possuir o armamento.

Mas afinal, a arma utilizada no crime foi realmente uma pistola 9mm? Essa foi a hipótese inicial levantada pela perícia. No domingo 6 de maio de 2018, quase dois meses após o crime, surge a primeira reviravolta do caso. Uma reportagem exclusiva do programa Domingo Espetacular da TV Record, revelou erros importantes na perícia e informações que até aquele momento estavam mantidas em sigilo.

O repórter Vinícius Dônola, narrou informações importantes sobre o caso e que logo iriam ser confirmadas pela Polícia Cívil do RJ. A Divisão de Homicídios analisou os restos de munições encontrados no local do crime e constatou que a arma utilizada não foi uma pistola 9mm. Os agentes da DH examinaram os estojos expelidos pela arma no momento dos tiros, esses estojos são os cartuchos sem pólvora e sem projétil. Ao realizar um tiro, todas as armas deixam marcas nos cartuchos que são expelidos, essas marcas são como impressões digitais. Mesmo sendo da mesma marca ou do mesmo calibre, cada modelo de arma deixa uma característica diferente. E foi através de ranhuras nas bordas dos cartuchos colhidos no local, que se descobriu a arma utilizada; uma submetralhadora HK MP5, capaz de de disparar até 13 tiros por segundo. A informação divulgada pela reportagem foi confirmada posteriormente pela Polícia Civil carioca.

A HK MP5 é uma arma de fabricação alemã e seu uso é ainda mais restrito que a pistola 9mm. Segundo informações do programa Domingo Espetacular da TV Record, no estado do Rio de Janeiro somente algumas unidades estão disponíveis e o uso é exclusivo das forças militares. De acordo com as informações apuradas pela reportagem da TV Record, cerca de 40 armas como essa estão em poder da Polícia Cívil e um outro lote ainda menor em poder de forças especiais da Polícia Militar, como o BOPE. Outro dado importante levantado pela reportagem sobre a metralhadora MP5, diz respeito às suas apreensões. Nos últimos 10 anos, pouco mais de 10 unidades foram apreendidas nas mãos de criminosos.