Das vielas e canais, a força criadora que gera dinheiro e vira capacitação

Os apesares estão ali mas a roda continua a girar. A economia criativa é cíclica e forte. Tem sido saída para centenas de famílias de comunidades pobres

Por Lucas Braga

Era mais uma tarde de capacitação de algumas dezenas de pessoas da comunidade. O terceiro dia do curso de modelagem para arte cênica enchia a sala do projeto Giro Social, no Bom Jardim, quando nos recebeu Eurilene Maciel, educadora e diretora de projetos da instituição. “Eles precisam de oportunidade, né!? É uma guerra contínua”, resume ela, sobre o trabalho das últimas décadas, baseado nas vivências dos últimos 45, em uma região pobre e com o estigma da violência. São oportunidades de empreendedorismo, emprego e renda que conversam com setores criativos do mercado informal.

A guerra contínua que Eurilene menciona é aquela disparada pela desigualdade, impercepção pelas políticas públicas e dificuldades que só quem é da comunidade pode explicar. Lá, os problemas parecem mais intensos. Desemprego, fome, pobreza, descrença. Dos obstáculos surgem as inquietações. É a necessidade o comburente para inventar as saídas.

Pensar a vida, o vizinho, as janelas e o presente fazem a vida comunitária. As organizações e iniciativas visitadas pelo O POVO Online mostram que há ação e vontade de mudar o cenário social nas áreas mais economicamente vulneráveis de Fortaleza. No Bom Jardim, ou no Conjunto Palmeiras, são fortes e insistentes as vontades. Com criatividade, riquezas e soluções são geradas e horizontes, renovados.

Território

Eurilene é batalhadora da guerra contínua para que a criatividade e a capacitação vençam as dificuldades das comunidades onde é agente de transformação. (Foto: Mauri Melo/O POVO)

Eurilene é conhecedora das "vielas e canais" do Grande Bom Jardim, desde os 1980, quando a mãe, Osmarina, chegou ao bairro. Ela trabalhou ainda junto ao Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), com a Fundação da Criança e da Família Cidadã (Funci). "Você se sente penalizado ao ver a situação de algumas famílias. Falta formação e informação. Algumas delas mesmo pensam que não tem mais jeito, não acreditam nem que Deus existe", diagnostica, sobre as condições de vida na região. 

O Grande Bom Jardim, afinal, é composto por cinco dos dez bairros mais pobres de Fortaleza: Granja Lisboa, Granja Portugal, Bom Jardim, Canindezinho e Siqueira. Ainda conforme o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população desses bairros supera os 210 mil habitantes.

São comunidades de pertença, no termo antropológico, Cearazinho, Santo Antônio, Cacimbinhas, Novo Mundo, São Francisco, Santa Clara, Pioneiro, Belém, Juraci Magalhães, Jatobá, Esplanada Sumaré e Planalto Vitória, além dos parques Santa Cecília, Santo Amaro, São João, São Vicente, Jerusalém e Nazaré. O diagnóstico é do Museu Comunitário da Identidade Territorial do Grande Bom Jardim.

A criação

Peças de artesanato produzidas pelo Giro Social, como forma de criar renda e fomentar capacitação. (Foto: Mauri Melo)

Quem recorre ao Giro Social, normalmente é encaminhado pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps) ou procura escapatória ao desemprego. Lá, são feitos brinquedos pedagógicos, bolsas, bonecas, roupas e itens de decoração, por exemplo. O reaproveitamento e o destino sustentável a materiais recicláveis é outra preocupação. "Produziu, criou, usou. Deixou de usar, recria", receita Eurilene.

Curso de capacitação do projeto Giro Social. (Foto: Mauri Melo/O POVO)

O material é vendido em feirinhas nos shoppings RioMar Fortaleza, RioMar Kennedy e Benfica. Além da produção própria, roupas doadas viram bazar. Os lucros retornam para a capacitação de outras pessoas. Pelo menos 100 foram capacitados nos últimos cinco meses. A instituição é ainda parceira da Enel e de outras 32 instituições de Fortaleza e interior do Estado.

Assim, gira uma "roda do bem", como diz Eurilene. "Eu dava aula na garagem da minha casa, na sala, na cozinha. Sede, a gente tem há pouco tempo. Meu marido diz que sou meio doida, mas continuo dizendo que essas pessoas são criativas, capazes e só precisam de oportunidades", ratifica. A crença no outro é força, rumo e valentia. Eurilene é motivo de festejar Fortaleza.

Da lasanha e do cachorro-quente à moda e costura, iniciativas produzem renda e ajudar a saúde psíquica

Por Lucas Braga

Ainda no Grande Bom Jardim, agora no Parque Santo Amaro, a versatilidade de ações mostra a sustentabilidade necessária para as ações do Movimento Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim (MSMC). Com criatividade e solidariedade, o desenvolvimento individual e comunitário é estimulado. Há 22 anos são mantidas ações no campo socioterapêutico, combate à dependência química, projetos de arte e cultura e programas de profissionalização e geração de emprego e renda para a comunidade. 

Foto: Médico Alex Mont
Médico Alex Mont'Alverne, padre Rino Bonvini e Natália Martins. (Foto: Mauri Melo/O POVO)

A capacitação para o mercado de trabalho tem novo front desde o fim de 2016, na Escola de Gastronomia do MSMC, que funciona em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), como projeto extensivo. Cursos são oferecidos gratuitamente. O projeto faz parte do leque de autossustentabilidade do Movimento e recebeu financiamento da Receita Federal para sede e equipamentos.

Ainda da Escola de Gastronomia, sai o produto mais querido. A lasanha Mamma Mia é produzida pelos alunos e vendida para manter a instituição. Com receita italiana, da mãe do padre Rino, o produto tem, em média, 100 unidades vendidas mensalmente, custando R$ 10 a unidade. É o que mantém a estrutura cíclica de produção, venda, manutenção e capacitação de novos alunos. 

Para o psiquiatra e presidente da instituição, padre Rino Bonvini, emprego e renda gerados se tornam caminhos de prevenção, na comunidade. “O jovem ou pai de família que participa e passa a ter qualidade de vida digna (a partir da estabilidade financeira), obviamente tem menos chance de se enveredar aos caminhos da violência, tráfico, e uso de drogas, que são algumas das realidades mais marcantes do Grande Bom Jardim”.

Culinária e gestão

Renata Ferreira é egressa da Escola de Gastronomia e hoje vende lanches no Parque Santa Cecília (Grande Bom Jardim). Além da culinária, ela estudou gestão. Os cursos de Empreendedorismo, Finanças e Organização de Eventos Gastronômicos deram o suporte para a “Carpe Diem” nascer. O pequeno negócio, em casa mesmo, a fez abrir mão do antigo emprego de secretária e virou sustento.

É cachorro-quente, pratinho de comida típica, macarronada, sanduíche, torta. Num fim de semana, lucra um salário mínimo, em média. “Busquei a escola pra me aprimorar. Já vendia lanches no meu antigo trabalho e decidi me especializar nisso. Estudei ainda Chocolateria e Confeitaria e Panificação”, pontua Renata. 

Em pouco mais de um ano, trabalhando com a ajuda da cunhada, Renata se tornou microempreendedora individual (MEI) e cresceu. Os planos também: ela já sonha em montar uma delicatessen. “Quero me tornar grande, me tornar conhecida, sabendo de onde eu vim. A oportunidade é tudo, pra muita gente. A meu ver, é a ajuda mais maravilhosa que já nos abraçou. Mostra que a gente também pode, que é capaz”.

Ateliê Arte e Moda tem abordagem voltada à autoestima de quem participa(Foto: divulgação)
 

Chance

Curso de corte e costura do MSMC gerou o Ateliê Arte e Moda, voltado à autoestima, capacitação e independência financeira de mulheres da comunidade. O projeto deve se tornar outro eixo de economia solidária e criativa, do Movimento “Quando essas mulheres se autossustentam, dependem menos do governo, do marido, têm menos problemas psíquicos e existenciais. Então, motivá-las cessa o assistencialismo e dá independência”, indica Natália Martins, diretora da instituição.

Produtos do ateliê vão também garantir renda às participantes. “Essas mulheres são chefes de família, muitas vezes dentro de uma situação de violência doméstica. Quando passa a ter renda, se empodera e se emancipa. É um processo de cura e evolução”, reafirma Natália.

 

Serviço:

Chocolícias Carpe Diem 

Onde: Rua Edson Martins, 1843 - Parque Santa Cecília (Grande Bom Jardim)

Informações: (85) 98883-6306 (Renata Ferreira)

 

Lasanha Mamma Mia, 300 g, sabores bolonhesa, frango e vegetariana

Quanto: R$ 10 

Onde: Movimento de Saúde Mental Comunitário do Bom Jardim (rua Dr. Fernando Augusto, 609 - Parque Santo Amaro  (Grande Bom Jardim)

Informações: (85) 3497-0892 ou www. msmcbj.org.br

 

De olho em tecnologia e protagonismo da mulher, laboratório de inovação cria delivery de comida que atende periferia

Práticas de autogestão, cooperativismo e associativismo mostram que as economias solidária e criativa são irmãs. Pontes inclusivas são parte dos 20 anos do Banco Palmas no Conjunto Palmeiras e Grande Jangurussu

Por Lucas Braga

Pioneiro em economia solidária quando nem mesmo o termo era popular, o Banco Palmas é iniciativa que se renova e incorpora a juventude da comunidade que o construiu. Com o PalmasLab, Laboratório de Inovação e Pesquisa da periferia, são criadas soluções em pesquisa, produtos tecnológicos e atividades de formação para jovens da periferia.

Eduarda Ribeiro, 19, é membro do PalmasLab e do coletivo feminino PrograManas, formado por jovens que atuam na área de tecnologia da informação. Como microempreendedoras individuais, elas prestam serviços e ainda atuam pautando a representatividade das mulheres na área tecnológica. “Já demos cursos gratuitos de informática para mulheres de diferentes idades, incluindo debates políticos e temas como feminismo e violência contra a mulher”, explica Eduarda.

Feito pela periferia, o produto tecnológico é descentralizado e tem mais relevância social, de acordo com Asier Ansorena, coordenador do PalmasLab. “Criar esses espaços para pensar as políticas localmente permite o desenvolvimento de tecnologias com maior impacto. Toda solução do Palmas tem o pragmatismo de entender que os problemas são técnicos e políticos. São necessários capacitação e crédito tanto quanto mobilização popular, empoderamento e protagonismo social”, frisa.

A partir do PalmasLab, microempreendimentos se tornam startups ou empresas. A incubadora aglomera projetos de educação e formação, além de iniciativas comerciais (desenvolvimento de produtos para clientes externos). Asier ressalta que o foco é a periferia. Um dos projetos atuais é aplicativo para delivery de comida que atenda a regiões suburbanas de Fortaleza. “O aplicativo que a gente conhece para esse serviço mal chega na periferia”, conta o coordenador. 

Asier Ansorena, coordenador do PalmasLab, e Neide Costa, presidente do Instituto Banco Palmas. (Foto: divulgação)
 

Filho do Conjunto Palmeiras, o banco completa 20 anos em 2018, buscando o crescimento do bairro de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em Fortaleza, conforme pesquisa da Prefeitura em 2014, baseada no Censo Demográfico de 2010. O Palmas garante microcrédito a milhares de empreendedores. Nos últimos sete anos, foram pelo menos R$ 14 milhões concedidos a 5 mil moradores do Palmeiras e comunidades adjacentes, sendo as mulheres 84% da rede de clientes. 

O protagonismo social mencionado por Asier é destacado nas iniciativas criativas incubadas, nas áreas artística, gastronômica, cultural e de moda, principalmente. Caso de sucesso é a Companhia Bate Palmas, existente há dez anos. O grupo de arte, fomentado pelo banco e formado por jovens do Conjunto Palmeiras, é independente e exemplifica a geração de emprego e renda com produtos artísticos e culturais. Afinal, a economia solidária dialoga com a economia criativa. São saberes e práticas coletivas unidos a novas tecnologias comerciais. Marcas regionais somadas à inclusão social.

Pulverização do crédito

Know-how específico e recursos para desenvolvimento dos negócios criativos ainda são desafios, se as ideias vêm da favela, conforme analisa Asier. “Um empreendedor que quer abrir negócio criativo na periferia não tem muitas opções de crédito. O microcrédito só apoia negócios em funcionamento, pela política antirrisco estrita. A filantropia não tem recurso suficiente; bancos não vão apoiar, porque consideram empreendimento de risco; e fundos de investimento de impacto social querem investir alto, para negócios em alta escala. Temos que flexibilizar a visão dos riscos sobre esses negócios”, receita.  

Por isso, a pulverização de crédito é diferencial de um banco comunitário como o Palmas. O atendimento ao Conjunto Palmeiras e mais 11 bairros adjacentes gera oportunidades ímpares. Empreendimentos que dão certo e geram riqueza dentro de uma comunidade viram ferramenta para a superação da pobreza e combate às desigualdades. É o que atesta Neide Costa, presidente do Instituto Banco Palmas. “Com a crise de desemprego, a criatividade aflora. Isso é o que ajuda o desenvolvimento local. Se o talento está na periferia, por que tem que ir pro Centro? O que falta é investimento para o equilíbrio das riquezas”.

Fomento público

Nayara Nágela, assessora técnica de empreendedorismo da Secretaria Municipal do Desenvolvimento Econômico (SDE), aponta as feiras de pequenos negócios como incentivos da Prefeitura aos mais de 1,9 mil artesãos rotativos cadastrados. É um ramo da criação que se beneficia da estrutura física montada em terminais de ônibus e praças para a comercialização das artesanias. 

Desde 2014, o projeto movimentou mais de R$ 3,9 milhões e que hoje conta com loja física também colaborativa, na avenida Santos Dumont, o Espaço do Artesanato. “Assim, a gente consegue chegar mais próximo, estreitar o relacionamento, impulsionar o pequeno negócio e estimular os artesãos”, destaca Nayara. 

Ela reconhece, todavia, que o fim da Incubadora de Economia Criativa da SDE, em 2016, foi prejudicial a outros setores criativos. O projeto assessorava negócios criativos em áreas patrimoniais, funcionais, artísticas e midiáticas, dentre outras. A reformulação da incubadora é estudada, mas ainda não há previsão de relançamento. 

A Célula de Economia Criativa da SDE continua a oferecer consultoria e capacitação para os artesãos. Com orientação em diferentes níveis para vitrinismo, precificação, qualidade e gestão do pequeno negócio, o empreendedor tem maiores chances de sucesso e emancipação no mercado. 

Canal de divulgação

O Catálogo Digital do Artesão (e-Artesão), disponível no site artesao.fortaleza.ce.gov.br, é uma plataforma online onde os artesãos de Fortaleza podem divulgar seus produtos, gerando maior alcance, em uma plataforma gratuita disponibilizada pela Prefeitura. Com o novo Catálogo Digital, desenvolvido em parceria com a Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação (Citinova), os artesãos de Fortaleza podem expor seus produtos com fotos e descrições, além de divulgar seus contatos profissionais. Os artesãos que buscam difundir seu trabalho no e-Artesão ou consultoria para o pequeno negócio podem procurar a SDE pelo 0800 081 4141. Há atendimento ainda nas secretarias regionais e nos Vapt-Vupt. 

Espaço do Artesanato:

Onde: Avenida Santos Dumont, 2500, loja 17 - Aldeota

Confira ainda a programação de abril das Feiras de Pequenos Negócios, espalhadas pela Capital: bit.ly/2GxfYQm

 

Enquanto Brasil segue na velha economia, periferias apostam em inovação e criatividade

Negócios criativos têm sido instrumentos de inclusão produtiva. Gerando postos de trabalho, têm desenvolvido comunidades. A antropóloga Cláudia Leitão critica a falta de políticas voltadas ao estímulo dessas iniciativas e aponta as vocações regionais como tesouros ainda mal explorados. Consultora em Economia Criativa, professora e pesquisadora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), ex-titular da Secretaria de Economia Criativa do Ministério da Cultura (MinC), Cláudia dirige hoje o Observatório de Fortaleza, ligado ao Instituto de Planejamento de Fortaleza (Iplanfor)

Por Lucas Braga

O POVO Online: Que indicadores temos para mensurar o impacto econômico dos negócios criativos?

Cláudia Leitão: O Brasil não sabe onde está essa economia, quem está fazendo. São poucas as pesquisas de campo. Se tivéssemos a possibilidade de comparar e manter séries históricas entre as cidades, indicadores para mensurar de forma quantitativa e compreender de forma qualitativa o que precisa o empreendedor criativo... o que falta a ele,  as necessidades, as queixas. São necessárias políticas públicas, o macroambiente favorável para empreender. O Brasil não tem. Você não tem linha de crédito, não tem microcrédito orientado, não tem apoio, não tem nada. Quem vai, vai na marra. 

O Sebrae tem algumas pesquisas mas isso é tarefa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A própria cultura tem uma certa dificuldade em trabalhar os temas econômicos. Não tem indicadores. Participei do diagnóstico de Cultura do Ceará 2050. Nós aprontamos projetos estruturantes e pensamos no futuro. O diagnóstico aponta para a importância da economia criativa no projeto de desenvolvimento do Ceará. Para ele, o próprio Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), que é um instituto muito preparado e competente, não tinha dados sobre a Cultura, que nunca foi pensada enquanto vetor econômico. 

OP: Mas experiências locais têm insistido nesses negócios criativos…

Cláudia: O Ceará está cheio, as periferias estão fazendo economia criativa. Tem milhares de empreendedores, gente que empreende num pequeno negócio nesses setores criativos e que estão movimentando uma economia muito informal. 

O que acontece no Conjunto Palmeiras, com o Banco Palmas, é exemplo de uma tecnologia social criada lá. O primeiro banco comunitário da América Latina, o PalmasLab, os microempréstimos. É uma população descendente de pescadores que criou uma forma de viver e entendeu que a produção de riqueza aconteceria desenvolvendo o comércio local.  Isso é teknè, é tecnologia: a forma de viver, como diziam os gregos antigos (para eles, a tekné pertencia ao âmbito do entendimento, dos conhecimentos). E nós somos bons nisso. 

OP: Então por que essas experiências são ainda raras? 

Cláudia: O Brasil continua batendo na velha tecla das commodities e perdeu o bonde do desenvolvimento, está em recessão. Na mesma velha economia, não sabe apostar em inovação e criatividade, nas tecnologias sociais. O Brasil tem um mercado enorme, regional mas os produtos brasileiros não circulam e não são acessíveis a grande parte da população. A gente sempre está comprando o produto industrializado que vem de fora. Estamos falando também de uma economia de nichos, de segmentos. Nós não temos  desenvolvimento endógeno. Continuamos numa visão exógena de desenvolvimento. Compramos o produto chinês, baratinho. Eis um grande erro. Economia criativa teria grande chance de desenvolver no no Brasil, porque nós temos mercado interno, temos criatividade. 

É uma economia que envolve vários elos nas redes de sistemas produtivos: tem lugar pra todo mundo. Se a gente pensar no mestre Espedito Seleiro, por exemplo, um homem simples, um mestre da cultura que aprendeu com os ancestrais, então tem a tradição da cultura popular. A economia da cultura popular é criativa, porque o produto é fruto de uma certa ancestralidade, a exclusividade conta. A marca Espedito Seleiro é internacional, hoje. Mas existem políticas para valorizar isso? O mestre pode conseguir recurso no BNDES? Não pode, porque não se entende uma artesania como insumo importante à ampliação de um cardápio de produção de riquezas do Brasil. É um país monotemático na produção, dependente e que não entendeu a economia criativa até hoje. Eu falo dos governantes. É tão complicado que fui criar a Secretaria da Economia Criativa, em 2011, no governo Dilma. Durou dois anos e acabou, foi desarticulada.

A economia do São João, das Festas Juninas têm uma importância impressionante para o Nordeste brasileiro. Tem um movimento de um sistema produtivo em torno do forró, das festas, das bebidas e comidas, da cultura tradicional popular. É uma economia informal. Mas ninguém aposta nisso isso. Não pensa isso junto com turismo, com a cultura, com as políticas. 

(Foto: Mateus Dantas/O POVO)
 

OP: Que exemplos internacionais modernos são norte para o Brasil?

Cláudia: Portugal está dando show de bola porque resolveu se inventar na economia criativa. É um país pequeno, que estava velho, superado, pobre e resolveu apostar na economia criativa. Começaram pelo pastel de Belém, pelo fado, pelo bonde. Reconheceram suas marcas. Hoje, é a cidade das startups. Portugal tem uma agência de economia criativa voltada para o norte de Portugal, a região do Porto. Eles estão trabalhando em velhas indústrias, que eram sucateadas, para construir novos negócios. Agora, trabalham no Hub do Beato: uma antiga indústria que vai se abrir para coworking. Há áreas de inclusão digital, gastronomia, moda, games, tecnologia. Eles abrem galpões e chamam a moçada, que cria, trabalha junta. Tem sido uma saída pra juventude. Imagina se trouxéssemos a juventude do Brasil para essa economia...

Mas, não nos interessa fazer um benchmarking ipsis litteris do modelo inglês, chinês, português, australiano. Bacana é beber de todas as fontes e pensar o Brasil. A gente tentou fazer isso. Quando fui pra SEC com essa missão no governo Dilma Rousseff, era claro pra nós que o conceito brasileiro seria diferente. Nos planos, havia o princípio da diversidade cultural. Onde essa diversidade não é protegida, não pode haver uma economia criativa pujante, porque tudo o que ele fizer vai ter cara de shopping center, uma produção pasteurizada, que sofre de anemia simbólica: não tem conteúdo. Outro princípio era o da inclusão. Economia que não inclui é indústria a face do capitalismo que continua concentrando. 

OP: O que a senhora projeta para o futuro no setor?

Cláudia: Sou otimista, realista esperançosa, como diria Ariano Suassuna (escritor paraibano). Tenho esperança profunda no Brasil porque, quando a gente conhece as experiências e os empreendimentos criativos, fico impressionada com o que as pessoas estão fazendo. E elas estão fazendo muito sozinhas, em seus coletivos, apesar dos governos. No dia que descobrirem isso aí e derem a essas pessoas as condições, Brasil vai dar uma guinada imensa, porque vamos sair dessa lógica de só espoliação, de dilapidação.

É quase inacreditável a realidade sustentável de uma economia criativa. Sou uma militante dessa economia. Mas a gente vai ter de avançar com indicadores para diagnosticar, entender, apoiar esses empreendimentos. É preciso um campo jurídico favorável a esses pequenos. Vamos precisar assessorar com muito mais apoio, com as universidades, dentre outros fatores. O Brasil não é uma liderança porque não há compreensão dessa economia criativa como estratégia de desenvolvimento para o País.

OP: E para o cenário local?

Cláudia: Estamos começando a trabalhar na construção da candidatura de Fortaleza a cidade criativa do design. Design em todas as suas possibilidades. Há potencial para a moda: nós fomos um polo importante de confecções. O Ceará tem essa história e precisa retomar usando criatividade, para pensar uma nova moda autoral. Me interessa ter mais uma Zara em um shopping center ou desenvolver uma Silvania de Deus, um Palmas Fashion? 

Vejo possibilidade muito interessante de Fortaleza como a Cidade Criativa do Design. O prefeito Roberto Cláudio está aí apoiando, junto ao superintendente do Iplanfor, Eudoro Santana. Tenho contribuído nesse debate porque precisamos avançar com o design. Esse debate está começando a acontecer no Observatório de Fortaleza que é um animador que estou dirigindo. É um hub que quer ser cabeça de rede de um uma rede de conhecimento, de difusão, de debate, de opiniões díspares, conflitantes. O observatório é um lugar para o contraditório. Então, ele será e tem sido construído nessa perspectiva.

Fonte: Firjan
 

 

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