[an error occurred while processing this directive][an error occurred while processing this directive] Artigo: As quatro pernas de uma mesa | O POVO
RENATO ARAGÃO

Artigo: As quatro pernas de uma mesa

André Carrico, doutor em Artes (Teatro) pela Universidade Estadual de Campinas, ator, professor e pesquisador de comédia popular
foto: divulgação
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“Os Trapalhões” foram um dos maiores fenômenos da cultura popular de massa no Brasil. Oriundos de diferentes escolas cômicas, seus integrantes compuseram seus tipos (Didi, Dedé, Mussum e Zacarias) alicerçados por práticas cômicas dos artistas de circo, rádio e teatro de revista. A poética trapalhônica atualizou o repertório cênico desses gêneros, ao combinar o talento de seus membros aos procedimentos que cada um trouxe para a TV. O motivo do sucesso do quarteto junto ao público foi a promoção de uma síntese das principais vertentes da comédia popular brasileira.

Mas o projeto dos Trapalhões não surgiu apenas por obra do acaso. Ele foi fruto de um plano de comicidade pensado e coordenado pela extraordinária visão artística de Renato Aragão. Desde os primeiros anos de sua carreira na televisão, na década de 1960, no Ceará,o cômico foi estruturando em torno de seu tipo Didi um sistema de elementos dramatúrgicos e recursos de atuação. Mais tarde, no Rio, amparado pela precisão técnica de Dedé – foram convocados para seu programa outros bufões (Antônio Carlos e Mauro Gonçalves). Cada qual aportou um tipo de função definida e combinou códigos e repertórios heterogêneos e complementares. A partir de 1974, eles deram a formação definitiva do grupo “Os Trapalhões”.

Se Renato Aragão desenvolveu sua pantomima assistindo a filmes de chanchada com o circense Oscarito, Dedé estreou no picadeiro numa peça de circo-teatro aos três meses de idade. Além de palhaço, exerceu outras funções sob a lona, como acrobata, malabarista e trapezista. Antônio Carlos Bernardes Gomes começou sua carreira como músico dos Originais do Samba em revistas dirigidas por Carlos Machado. Talvez não tenha sido à toa que o nome de seu personagem, Mussum, foi batizado por Grande Otelo, oriundo da revista e estrela das comédias musicais da Atlântida. Conhecido por sua habilidade em imitar vozes, Mauro Gonçalves estreou nos anos 1950 na rádio Inconfidência de Belo Horizonte criando diferentes personagens em programas humorísticos. A formação de cada artista influenciou na composição de seus tipos e a mistura dos procedimentos cômicos dessas escolas de comédia se traduziu na pluralidade deles. Didi, Dedé, Mussum e Zacarias: um ingênuo, um enfezado, um pretenso malandro e outro malandro de fato. Um feio preterido, um galã conquistador, um tarado grosseiro, um bebê delicado. Um gosta de samba, outro de cantar, dois são acrobatas. Juntos desenham o mapa do Brasil dos excluídos: um nordestino, um caipira, um favelado e um galã de periferia. Eles formavam “quatro pernas de uma mesa”, no dizer de Aragão, e a ausência de qualquer um deles esvaziaria a comicidade do grupo.

Didi, por seu carisma, sobreviveu ao fim dos Trapalhões. Ele segue como o Carlitos brasileiro, o mendigo maltrapilho que caminha à margem da estrada e da sociedade. Ao vê-lo, o público cúmplice projeta seu desejo de liberdade. Corajoso, bom de briga, ele é nosso herói. Mas, como todo palhaço, também desperta lágrima, seu lado pierrô. No final melancólico dos filmes, recusa fortunas e perde a mocinha para o galã. Mesmo assim, Didi não se importa: o que ele quer é viver sem compromisso e feliz. Em 2015, o criador chega aos 80 e sua criatura, aos 55, em plena vitalidade, fazendo teatro e telefilmes. Didi é um ícone da cultura popular de massa que segue a despertar interesse e identificação em diferentes faixas etárias.

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