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RENATO ARAGÃO

Entrevista: É Cumiga?

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Raphaelle Batista raphaellebatista@opovo.com.br
fOTO: SARA MAIA
Renato no último ensaio antes da estreia da nova temporada de Os Saltimbancos Trapalhões
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Quando recebeu O POVO, no Rio de Janeiro, numa brecha entre gravações e o último ensaio antes da estreia da nova temporada do musical Os Saltimbancos Trapalhões, restavam poucos dias para Renato Aragão alcançar 80 anos. Com a chegada de 2015, Didi já contava 55. “É só esta idade, a outra é apelido”, brinca o humorista.

Criador e criatura se confundem até nos dias vividos. Renato carrega as oito décadas de vida no corpo que já não é “de borracha”, nas sobrancelhas clareadas pelo tempo, na timidez que não se aplaca com a idade. Didi precisa apenas das lentes da fotógrafa, do palco, dos companheiros nas piadas para mostrar o vigor de meio século. É um menino. Não conhece lei nem vê limites na graça. O Didi não morre, diz Renato. Talvez por isso ele só adote a idade do personagem.

No camarim do teatro carioca Cidade das Artes, na tarde quente da última quinta-feira, 8, um dos maiores artistas saídos do Ceará - que se assume como apenas mais um cearense - revisa fatos importantes da vida e da carreira. Nos trechos da entrevista a seguir, Renato Aragão fala ainda dos planos para o futuro e de um sonho: voltar a morar no Ceará.

O POVO - Você saiu muito cedo de Sobral, mas que influências sua cidade natal teve na sua vida artística?
Renato Aragão - Passei a infância lá. Naquela época não tinha intenção nenhuma, eu queria brincar! Eu não tinha assim um objetivo de uma profissão, ser médico ou engenheiro ou advogado. Trabalhar em televisão. Isso jamais existiria, porque lá (em Sobral) só tinha rádio, e era difícil pegar, só pegava à noite. Porque a luz só chegava às 17h. A geladeira era a querosene, minha mãe virou mecânica, porque era muito difícil aquela geladeira pegar, tinha de acender o pavio pra fazer gelo.

OP - Como era a infância em Sobral?
Renato - Brincar, jogar bola, mais era bola. E teve uma época, que era a época da Guerra (2ª Guerra Mundial), não tinha mais bola de borracha, era de meia. Brincava no rio (Acaraú), pulava da ponte ali. Quando o rio secava, a gente entrava naquelas ilhotas de areia e água que formava, era muito divertido. Caçava passarinho. Hoje em dia eu abomino. Era baladeira! Hoje eu tenho vontade de quebrar todas as baladeiras, porque é um crime... Mas era menino solto, pé no chão. Só botava sapato pra ir à missa, todo domingo, e cedo, às vezes 6h, 5h, ia pra missa cedo pra aproveitar o dia que não tinha escola, pra ir pro rio. Infância maravilhosa, minha infância.

OP - Sua família mudou para Fortaleza quando você tinha 11 anos. Qual foi a primeira impressão da cidade?
Renato - Ah, foi difícil, muito difícil. Pra mim, foi começar a viver. Porque em Sobral eu tinha tudo, meus amigos mesmo de infância. Lá (Fortaleza) eu não tinha ninguém. Eu fui enfrentar uma escola, o ginasial, naquela época era o primário, ginasial e científico. Terminei o primário em Sobral, no Colégio Sobralense. E depois, quando me mudei, fui estudar no colégio Lourenço Filho. Olha, foi assim um negócio muito difícil, uma criança saindo pra enfrentar novos amigos, aqueles bullyings, que ninguém nem sabia que era bullying ainda, e eu vindo do interior. E eu muito difícil de fazer amizade. Fiz amizade com um grande amigo até hoje, (o arquiteto) Neudson Braga. Esse cara é um gênio. Nós convivemos até hoje, preservamos mesma coisa. Foi amizade à primeira vista.

OP - O que um menino daquela época, vindo do interior, gostava de fazer "na cidade grande"?
Renato - Ali era muito difícil o acesso à praia. Não tinha ônibus. Eu lembro a primeira vez que fui à praia, foi nessa época. Sei que a gente ia a pé até a Praça dos Correiros, pegava um ônibus e ia até a Praia de Iracema. Não tinha o (clube) Náutico, era uma casinha. Vizinho ao Náutico, tinha um barracão onde a gente alugava caução. Eu me lembro que eles guardavam as nossas roupas, tinha as cabines, a gente pagava e ia tomar banho de mar ali em frente, todo mundo. Não tinha muito clube.

OP - E você já gostou da praia?
Renato - Parecia que que já era íntimo. Oh, isso aqui é comigo mesmo! AÍ comecei a ir à praia todos os domingos, não tinha tanta gente como tem hoje. Pouca gente ia à praia.

OP - E para o cinema, você passou a ir em Fortaleza?
Renato - Em Fortaleza. Foi aí que eu comecei a gostar de um comediante chamado Oscarito. Eu fui ao cinema, num filme chamado “Carnaval no Fogo”, 18 vezes. No ano seguinte ele fez um filme chamado “Aviso aos navegantes”, que eu fiz a mesma coisa, fui umas 16 ou 17 vezes. Aí foi que me despertou o interesse em ser comediante. Esse cara é muito bom, gostaria de ser uma pessoa assim. Mas ele é demais, não chego nem perto disso, mas eu gostaria de fazer o que ele faz. E aí fiquei fã de Oscarito mesmo. Foi aí que nasceu tudo. Aí, comecei a guardar aquilo.

O POVO
- Mas você falava pra alguém?
Renato Aragão - Não, não… não falava nem pra mim mesmo. Tinha até medo de falar pra mim uma coisa dessa, que lá não tinha televisão, não tinha nada, só tinha rádio. Aí foi que, depois de muito tempo fiz o curso do CPOR, entrei na faculdade de Direito.

OP - Seu pai cobrava muito o estudo de vocês, mas ele fazia alguma pressão para que você fosse advogado?
Renato - Naquela época, os pais ficavam muito felizes de o filho ser doutor, do que fosse, mas tinha de ser doutor. E aí eu: puxa, que é que eu vou fazer? Pra engenharia, eu não tinha jeito, não gostava de matemática, era mais difícil. Medicina, nem pensar! Cortar os outros, isso aí, nem pensar. Bom, quem sabe não vou ver advogado? Com essa minha inibição toda, não preciso ir pra um palanque. Posso ser um advogado trabalhista. Aí eu fiz um concurso pra entrar no Banco do Nordeste. Foi mais difícil porque eram milhares de candidatos pra pouquíssimas vagas. Era igual ao CPOR. Fiz vestibular pro CPOR, vestibular pra entrar na faculdade de Direito e vestibular pra entrar no Banco. E ganhava bem. Já comecei ganhando bem, mas nunca falei pra ninguém que eu queria ser comediante. Aonde que eu ia ser comediante lá? Rádio? Minha dicção era horrível. Então, eu não podia ser. Aí chegou um momento em que anunciaram que ia inaugurar a TV Ceará. Pensei: “Meu Deus, olha aí, é isso aí! Mas não vou falar pra ninguém”. Mas o destino sempre te leva para aquilo que você tem na cabeça, o teu sonho. Eu tinha um amigo do CPOR e ele mesmo foi quem me provocou. “Renato, olhaí, chegou a TV Ceará.”

OP - Ele sabia desse seu sonho?
Renato - Sabia, porque no CPOR a gente brincava muito. Quando chegava no fim do ano, tinha apresentações, um colega tocava sanfona, eu tocava pandeiro, imitava os oficiais. Olha que loucura, eu imitava o oficial na frente dele! Tinha um auditório enorme, cheio de oficiais, e a gente… (risos). Mas vai, vai assim mesmo. eles riam também, um gozava o outro.

OP - Você já escrevia essas esquetes?
Renato - Escrevia, escrevia. Vou adiantar um pouco. Quando chegou a TV Ceará, eu fiz o concurso, eram 25 candidatos pra 5 vagas. Quando o Péricles Leal, que era o diretor, me chamou, disse: Renato, vem aqui ver sua prova. Aí eu fui lá, inocentemente, comecei olhando nas reprovadas. Eu disse: Péricles, não tá aqui, não. E ele: Então, procure nas aprovadas, Eu levei um choque tão grande! Tava lá em primeiro lugar. Não sei se era primeiro lugar, mas tava a primeira assim. Eu disse: Péricles, passei! E ele: É, tá aqui sua mesa, você vai escrever a programação da semana de inauguração. Eu falei: Olhaí, tá brincando, Péricles! Não! Eu não sei fazer nada. Nunca fiz rádio, como é que eu vou fazer isso? Isso aqui eu fiz num ímpeto. ”Eu gosto de você porque você não é proveniente do rádio, você faz mímica, televisão precisa de imagens. Eu quero você porque você fez um bom texto e seu texto é de imagem”. E eu: “Meu Deus! Eu tenho faculdade”, inventei. Ele: Sim, mas amanhã cedo você tá aqui. Imagine se eu dormi três, quatro ou cindo noites escrevendo isso.

OP - Sobre o que era esse primeiro programa, você lembra?
Renato - Lembro, sim. Fiz uma sátira da cidade, falta de ônibus, pessoal sofrendo. O que acontece hoje. E minha sorte é porque tinha em toda a Fortaleza 200 aparelhos de televisão, só. No segundo programa, aí peguei um pouco mais de tarimba. E eu não falei pra ninguém, nem pra minha turma de faculdade, só pra uns amigos de CPOR. No terceiro, eu não podia mais andar na rua. “Ó o palhaço, o doidão, o doidão da televisão!”, os meninos gritavam. Eu andava de ônibus e não podia mais, não conseguia. Meu primeiro salário da TV foi todo pra comprar uma Vespa. Porque, se eu fosse de táxi, na primeira semana acabava o dinheiro. Isso foi em 1960.

OP - O que seus pais acharam disso?
Renato - Não se incomodaram, não. Eles até gostavam porque o pessoal falava: ah, o seu filho e tal. Porque foi uma explosão imediata, muito grande. Já foi um estouro. Foi um sucesso tão grande! Aí eu peguei um grande amigo e partner chamado Américo Picanço. Esse colega era demais, ele era muito bom. O destino leva as pessoas que a gente realmente merece. Eu fiz uma dupla com o Américo, mas pegou na veia. Era o Didi e Frederico (Renato diz Fridirico).

OP - Como nasce o Didi? Você se inspirou em alguém próximo de você pra criar o personagem?
Renato - É porque não fui eu, não fui eu. Quando eu tava fazendo o primeiro, eu ia subir pra trocar uma lâmpada, caía de uma escada, fazia aquela mímica toda, “aí Renato sobe na escada”. Renato não é nome de comediante, Renato é nome de uma pessoa, pensei. Tem de ser um codinome, um apelido. Aí na máquina de escrever, na época: “Di-di”’. Meu dedo levou. Didi?! Saiu. Aí nasceu o Didi.

OP - Mas o tipo, a personalidade do personagem, sempre foi aquilo ou você foi amadurecendo?
Renato - É o de hoje. Sempre foi. Aliás, desculpe falar isso, mas eu estava avançado no tempo, porque naquela época eu já fazia um sitcom de meia hora, que o americano começou a fazer agora, há pouco tempo. Era uma historinha chamada Vídeo Alegre. Tinha começo, meio e fim. Não era esquete.

OP - Como você relembra o processo criativo, a elaboração dos roteiros dos programas na TV Ceará? Você escrevia sozinho?
Renato - Tudo, tudo sozinho, não dependia de ninguém. A minha grande escola foi a SBAT, Sociedade Brasileira de Atores Teatrais (hoje Sociedade Brasileira de Autores). Eles tinham umas publicações, não sei se era mensal ou semanal, de comédias. Parecia literatura de cordel, assim fininhos os folhetos. Eu comecei a pedir aqui no Rio de Janeiro pelo correio. Pagava e aí mandava as comédias. Comecei a ler aquelas comédias, era uma pilha assim. Depois que entrei na TV Ceará, pra poder eu me atualizar, saber como é que se escrevia comédia. Como é que se escreve comédia, que eu não sei? Tô fazendo no cego, tô à deriva aqui. Aí comecei a ler, ler, entendia como é que eles escreviam, tal. A minha grande mina de ouro de redação foi a SBAT.

OP - Nessa hora veio a referência do Oscarito, do Chaplin?
Renato Aragão - Exatamente. Mais chapliniano. Porque a minha dicção era horrível, inibida. Eu cobria aquela falta de dicção, então eu usava mais o corpo. Eu pulava janela de ponta, botava o colchão do outro lado, subia, me agarrava num negócio, era uma confusão, mas dentro de uma historinha, não era sem sentido, não.

OP - E você assumia essas referências, era consciente?
Renato Aragão - Sempre disse. Já era consciente. Mas eu não imitava o Oscarito, era muito difícil imitar o Oscarito, não tinha quem, ele era inimitável. E eu consegui falar isso pra ele pessoalmente.

OP - Como foi esse encontro?
Renato - Nossa Senhora! Eu já tava começando a ser famoso aqui no Rio de Janeiro. Aí soube que ele tava fazendo teatro com a Dercy Gonçalves. E o Dedé tinha um tio, chamado Colé, que trabalhava nesse teatro. Ele disse: Renato, olhaí a oportunidade de você falar com o Oscarito. O Colé vai nos levar até o camarim dele. Não acredito! Ele era um cara muito humilde, simples, tímido também. Quando eu abri a porta e olhei pro cara, não sei se aquilo passou uns mil anos luz, fiquei estático. Ele disse: pode entrar. E eu pensando: Ele tá falando comigo, rapaz, como é que pode? E ele: Eu te vejo na televisão. Aí eu não tinha mais fala! Eu tô aqui por sua causa, vim aqui só pra te agradecer, e contei a história e tal e tal, sempre quis fazer o que você faz. Aí ele: você não me imita coisa nenhuma, você não tem nada a ver comigo, você tomou o seu caminho. Aí que eu fiquei mais parado ainda. Quando falo, até me emociono. Não sei quanto tempo fiquei falando com ele, pareceu uma eternidade.

OP – O programa Vídeo Alegre foi, talvez, o primeiro programa popular de humor no Ceará. Você acha que ajudou a criar o chamado "humor cearense", tão consagrado Brasil afora? Que humor é esse, o do Ceará?
Renato – Meu humor não era tipicamente cearense, tinha algumas coisas, a gente fazia umas satirazinhas, mas era uma comédia universal, podia passar em qualquer lugar do mundo.

OP – Como era fazer ao vivo, Renato?
Renato – Muito difícil, muito difícil. Não era só fazer ao vivo, era (fazer ao vivo) com duas câmeras. Só tínhamos duas câmeras, aqueles dinossauros, pesadíssimas. Eu tinha de escrever e, quando mudava de cenário, passagem de tempo, ficava só com uma câmera aqui e a outra saía, em silêncio, a gente escutava até o barulho da rodas pra cortar pro outro cenário. Não podia errar!

OP - Seu sobrinho Afrânio Craveiro contou que você ensaiava na casa da sua mãe, envolvia a família. Como era isso?
Renato - Ninguém sabia da história, então em um dos primeiros programas eu imitava o Carlitos, do Chaplin, numa luta de boxe. Ali não pode só chegar lá e ensaiar porque é muito complicado, pensei. Ensaiava só num dia. Não pode, tenho de procurar outro lugar pra ensaiar porque essa luta de boxe é bem marcada. Tinha o juiz, o adversário, os treinadores do lado de fora. Aí peguei o Afrânio pra ser o meu segundo, o meu irmão Paulo pra ser o vilão. Tinha uma hora que eu ia pras cordas, pulava nos peitos dele e ele me jogava pra cima. Eu dava um salto mortal e caía de pé. Só que ensaiei em casa, quando fui fazer lá esqueci do microfone. Quando dei o salto, enfiei o pé no microfone, me desequilibrei, quase caio de cara no chão. O público não viu por causa do corte da TV, só viram que eu tava desequilibrado, não tinha auditório, caí chapado. Ainda voltei, fingi que era assim mesmo, tava valendo, ficou até mais engraçado.

OP - Você se machucou?
Renato - Machuquei. Mas naquela época ninguém sente. Era de borracha.

OP - Você se machucou mesmo no acidente de avião, não é?
Renato - Isso. Ainda tava na faculdade. Jogava futebol, aí entrei pra seleção universitária cearense de futebol. Ia jogar com os cariocas, os mineiros, tudo e tal. Aí nós fomos eliminados logo nas oitavas de final.

OP - Mas não foi de 7 a 1 não, né, Renato?
Renato - (Balança o dedo negativamente, olhando de lado) Não! Que isso! Eu não lembro do escore, mas não foi vergonhoso, não (risos). Então, falei pro Praça: “Praça, vamos ficar aqui fazendo o quê?” Era em Belo Horizonte. Vamos pegar o avião amanhã? Ele: Vamos. No dia seguinte, era noite, passando pela serra do Bodocongó, em Campina Grande, uma chuva, tinha até neblina, não tinha instrumento de voo. O avião bateu na serra. Foi horrível.

OP - E, felizmente, você e o seu amigo conseguiram sobreviver.
Renato - Ele não teve nada, eu ainda tive. Entraram parafusos aqui no dedo, na cabeça. Era um escuro, ninguém enxergava nada, no meio da mata, não vi que era sangue. Aqui também, na perna, tava molhado, mas era gasolina. Tinha gente pegando fogo, nossa! Aí foi, voltamos pra casa.

OP - E a sua mãe, sua família, como ficaram?
Renato - Nós alugamos um táxi pra ir por terra de Campina Grande pra Fortaleza e passamos na praça quando tava dando o acidente no rádio. “Entre os mortos e desaparecidos, Antônio Renato Aragão e Armando José Rodrigues Praça”. E a minha mãe tomou conhecimento disso. Até eu chegar lá, ninguém acreditava que eu tivesse vivo.

OP - A vinda para o Rio foi determinante na sua vida. Você teve dúvidas?
Renato - Não. Mas é porque eu já vim contratado, não vim arriscar nada. Eles trouxeram minha transferência do Banco do Nordeste. A TV Tupi, eu disse: olha, eu não posso ir. Nem acreditei que o cara tava me convidando. Foi a própria TV Tupi daqui que soube que tinha um gaiato.. No Recife, era o Lúcio Mauro e José Santa Cruz, e tinha um tal de Didi também, no Ceará. Vamos trazer esses três caras pra fazer um humor diferenciado aqui. Aí eles me convidaram. Depois eu falei pro cara que ia me contratar: mas eu ainda sou funcionário de um banco muito grande, concursado. Não era um emprego que se largasse assim. Aí ele perguntou quem era o presidente do banco, eu disse Raul Barbosa, e ele: conheço, pode vir que eu falo com ele, trago sua transferência pra cá. Era mais um salário. Não acredito! Está fechado!. Mas não tive medo, não.

OP - E como foi a chegada, os primeiros tempos?
Renato - Eu fui meio discriminado aqui pelo pessoal de rádio. Cada figurão! Eles ficavam: pô, esse pessoal do Nordeste já conquistaram o público aqui. O ibope, não tinha ibope, o ibope era gargalhada. Então eu pensei: Meu Deus do céu, agora eu preciso de um parceiro. Deixei o Américo, que não pôde vir. Encontrei o Dedé Santana, ele vinha com uma partner dele, de circo, ele era de circo.

OP - Onde vocês se conheceram?
Renato - Lá, num programa de variedades. Ele trabalhava em circo também. Ele fazia piada, ela tocava acordeão. Achei esse cara simpático. Aí falei lá pro diretor: Olha, esse aqui pode ser o rapaz que eu tô procurando. E ele: mas Renato, aqui tem tanta gente boa. E eu pensando: mas é tudo do rádio! Só que não podia dizer pra ele. Falei: Não, eu quero gente nova, quero gente virgem! Então, cheguei pro Dedé e disse: Quer trabalhar em televisão? Ele falou: Hein? E eu: Comigo! Então, não responde nada, leva esse script pra casa, decora, semana que vem você vem trabalhar comigo.

OP - Você continuava escrevendo?
Renato - Sim, eu tinha essa autonomia. Botava quem eu quisesse. Ele não acreditou. Fizemos o primeiro, o pessoal foi começar a olhar pra gente, o segundo… Pô, que merda é essa que esses caras tão fazendo? Nós conquistamos as crianças imediatamente. Era o programa “Aeiourca”. Depois desse sucesso que nós fizemos, recebi um grande contrato na TV Excelsior. Fiz muito sucesso lá com um programa chamado “Adoráveis Trapalhões”. Quando eu fui contratado, o Wilton Franco, que era o diretor geral lá, me disse: Renato, vamos fazer um programa aqui com você, o Wanderley Cardoso, Ted Boy Marino e Ivon Curi. Ele foi tudo quem criou, o nome, mas eu quem tinha de escrever, com o Emanoel Rodrigues. Esse programa explodiu. Era entrada franca, o auditório que era o ibope, a partir de 17h a rua onde ficava a Excelsior, em Ipanema, não passava carro. Nós fazíamos ao vivo no Rio, depois levamos pra São Paulo. Nessa época o Dedé não tava. Mas só durou um ano, a Excelsior faliu. Fui pra Record, fazer A Praça da Alegria, com o Manoel da Nóbrega, aí sucesso também. E sempre como Didi.

OP- Nessa primeira formação, com Wanderley Cardoso, Ted Boy Marino e Ivon Curi, os Adoráveis Trapalhões não tinham como público-alvo as crianças. Quando o foco dos Trapalhões passou a ser as crianças?
Renato - Desde o começo do meu modo de trabalhar. Pra mim, sempre foi o foco. As crianças vinham junto porque era meu tipo de trabalho, meu jeito de corpo.

OP - Mas, com essa formação inicial, o objetivo do Wilton Franco era pegar todo mundo, não? A família inteira?
Renato - Nosso também, mas depois de muito tempo que eu fui ter consciência disso. Eu faço umas piadas aqui pra adulto, mas quando eu balanço a bunda (se remexe na cadeira) aí, invento um negócio e caio, vem tudo abaixo. Todo mundo vira criança, até os adultos viravam criança. Mas eu não podia objetivar só a criança, não, o pai ia junto. Naquela época, eu gostava de tudo. A televisão era nova, tudo era novidade.

OP - O pesquisador André Carrico, que defendeu uma tese de doutorado na Universidade de Campinas sobre Os Trapalhões, diz que vocês faziam a geografia do excluído. Você concorda com essa análise? Essa perspectiva regional, essa divisão de tipos bem marcados, era proposital?
Renato - Quase que é idêntica à minha definição. Pegou o Brasil todo. Mas foi sem intenção. Então, o que tinha formava a cara do Brasil: tinha o nordestino sofrido, migrante; o malandro do morro, o Mussum; o galã da periferia, todas as periferias, que era o Dedé; o menino que não quer crescer, sempre criança, o Zacarias, o mineirinho que é, vamos dizer assim, econômico. Então, era a cara do Brasil.

OP - Cada um criava seu tipo ou você influenciava na composição?
Renato - Não, foram criados por eles. O nome do Zacarias fui eu quem coloquei, mas a personalidade foi criação dele. O tipo do Mussum foi ele, do Dedé.

OP - Como você explica que as piadas tão "adultas", muitas vezes cheias de alfinetadas políticas, críticas, vistas nos Trapalhões tenham agradado também as crianças?
Renato - Eu nem me lembro mais, o que eu me lembro é do meu maior sucesso, o ápice da minha carreira, que foi sem querer. Quando eu ia pra Globo, gravar, liguei o rádio. Eu raramente ligo o rádio. Aí liguei o rádio do carro até chegar lá, tava lá cantando Maria Bethânia. “O primeiro me chegou como quem chega…”. Teresinha (de Chico Buarque). Isso aí eu posso realizar no palco! Foi aí que nasceu o videoclipe antes do americano. Cheguei lá, pedi pra comprarem o LP. Adriano (Stuart), que era o diretor, eu quero fazer isso aqui hoje! E ele: tá doido, Renato? Ouve isso. Aí eu faço assim, assim, ele assimilou na hora. Quando aquilo explodiu, falei: vou fazer um bocado de coisas. Aí a gente fez outros clipes.O cantor ia no programa. Mas ele vem cantar aqui? Aqui não é um programa musical, ele não pode sair impune daqui. Aí eu me vestia igual ao Ney Matogrosso, ao Sidney Magal, Caetano. Tinha o clipe e tinha a imitação. Olha, aquilo ali chegou a dar 80 pontos de ibope.

OP- E como os artistas reagiam a isso?
Renato - Adoravam, adoravam e voltavam, “quero voltar”. O Ney Matogrosso fez várias vezes, o Sidney Magal parece que virou fixo (risos). Entrou pro elenco.

O POVO - Os Trapalhões passaram por crises. Vocês chegaram a se separar por um período. Mas quando de fato a trupe começa a morrer? Qual o impacto do falecimento de Mussum e Zacarias?
Renato - Olha, foi o seguinte: quando era o quarteto, tudo bem. Quando o Zacarias faleceu, eu falei: “ainda dá”. Tem um trio aqui.

O POVO - Vocês nunca pensaram em chamar outra pessoa?
Renato - Não. Ele era insubstituível. De jeito nenhum. Mas o trio ainda ficou, com um bom ibope, todo mundo entendeu que o Homem chamou ele pra alegrar lá em cima. Mas aí quando o Mussum faleceu, pra mim, acabou tudo. Eu parei. Fiquei seis anos sem fazer nada, só os especiais.

OP - Então, nunca passou pela sua cabeça voltar os Trapalhões com outros integrantes?
Renato - De jeito nenhum. Aquilo foi uma fase eterna. O Didi não vai morrer. Vou até mudar o nome: Didi Mocó Railander Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo.(risos).

OP - O Renato é tímido, o Didi é super extrovertido. Qual a importância do Didi para o Renato?
Renato - O Didi me realiza na vida. Se não fosse ele, eu não era tão feliz assim, ele veio completar a minha felicidade de fazer aquilo que eu não posso fazer na rua, que eu não sei fazer na rua. Ser comportado, cumpro todas as obrigações, cumpro a lei direitinho, isso que eu tento fazer. O Didi, não, nem sabe o que é lei!

OP - E em que momento ele fala e age pelo Renato?
Renato - Didi é meu alter-ego. O momento que eu tô em casa, que tô com os amigos, que tô brincando, aí eu recebo ele. Aí ele baixa. O Didi, eu recebo sempre quando eu tô escrevendo.

OP - Você escreve todo dia, tem uma rotina?
Renato - Eu nunca paro de escrever. Meus filmes, meus telefilmes hoje, tudo isso eu escrevo. Embora eu tenha redatores, faço um sinopão e a turma lá fermenta. Mas tô sempre anotando, nunca desligo. Como chama? A Globo News: nunca desliga. Tô sempre com um caderninho.

OP - Se você fosse recriar o Didi hoje, no contexto social e econômico que temos, como ele seria?
Renato - O mesmo. O Didi nasceu e não se transformaria nunca, ele não se corromperia nunca, ele ficaria sempre o Didi. Eterno, o mesmo personagem. Olha, já tiveram várias oportunidades: ah, vamos fazer uma sátira. Não sei, tem de perguntar pro Didi, ele quem sabe disso. Aí o Didi diz não.

OP- O Didi já foi mais feliz que o Renato em algum momento?
Renato - Não sei, aí tem de perguntar pra ele. Porque ele nasceu assim, tem uma música que eu fazia o Gabriel, ele nasceu assim, cresceu assim, vai ser sempre assim.

OP - Há hoje algum humorista da nova geração cearense que te chame atenção?
Renato - Mudou tanto o humor, só o meu que não muda. Essa turma, tem uma turma muito boa aqui chamada Porta dos Fundos. Os caras são demais, só que eles fazem tanta merda, que nem precisava falar aquilo. (risos) Eles são muito bons! (risos) Tem um cara chamado (Gregório) Duvivier, aquele cara é demais, muito inteligente, ele é completo. O pai dele é amigo nosso, amigo meu, trabalha aqui com a gente.

OP - Você disse que o humor mudou muito, mas como avalia o caminho que o humor tá tomando na TV brasileira?
Renato - Cada um com o seu estilo, não adianta. Agora chegou um tipo de humor chamado stand up, que é uma pessoa parada fazendo piada. Não depende de situação. Totalmente diferente do meu tipo de humor. Eu jamais poderia fazer um stand up de dez minutos, que eu não sei ficar parado contando piadas. Eu já criei milhares, milhões de piadas, mas se você disser conte uma aí, você me colocaria contra a parede e eu não falaria nada. Não me lembro! Mesmo que eu decorasse o texto antes, eu me perderia. Agora, mande eu ir pra um lugar… aqui (no teatro, com Os Saltimbancos Trapalhões) eu fico duas horas e meia. Entrando e saindo, entrando e saindo. Só tem uma moça que me guia. Eu canso porque, quando eu saio por um lado, tenho de voltar rapidamente pelo outro lado, voltar outra vez. Não é parado, não. É isso aí que eu gosto.

OP - Algumas piadas dos Trapalhões não seriam aceitas hoje. Você acha que tem uma patrulha do politicamente correto hoje com os Trapalhões?
Renato - A sociedade modificou, naquela época eles me entenderiam, me entenderam muito. Era uma brincadeira entre mim e o Mussum. O Mussum dizia: “Paraíba, vem cá!”. E eu: “Ô, negão!”. “Negão é o teu passado”. Então, aquela brincadeira era entre nós, mas tava o público rindo, era como se fosse uma brincadeira filmada. Não tinha intenção de ofender a negro, nem a nordestino, nem a gordo, nem a homossexuais, nem nada. Aquilo ali era uma brincadeira circense. A nossa intenção não era debochar, era alegrar. E os próprios que poderiam se sentir ofendidos achavam maravilhoso. Sabiam que não estavam sendo ofendidos. Hoje em dia, não. Hoje em dia a turma pega pesado. E ninguém pode fazer isso, porque cada um ganhou a sua praia, os seus direitos. Isso pode depois virar uma coisa ofensiva. Homossexual tem o seu direito, o negro tem o seu direito, o gordo tem o seu direito, o nordestino tem o seu direito e todos têm de respeitar. Dizer que o humorismo tá engessado? Não. Tem de respeitar! Até porque não precisa debochar, eu faço meu humor e não preciso ofender ninguém. Não tem necessidade. Ao contrário, eu quero conquistar essa gente toda. Homossexuais, negros, nordestinos, gordos… Eu nunca me modifiquei. Eu não me adaptei, porque eu nunca tentei ofender ninguém.

OP - Renato, como surgiu a ideia de fazer teatro aos 80 anos, depois de tudo que você já realizou na TV e no cinema?
Renato - Fui eu, não. (risos) Digo logo: não fui eu! Foi essa senhora que tava aqui (Lílian Taranto, a mulher de Renato, que acompanhou boa parte da entrevista). Eu jamais faria teatro na vida. Não iria me escravizar, perder três noites ali, sem poder ficar doente, sem direito a nada. Eu, fazer teatro? Jamais faria isso na vida! Sempre falei isso. Aí ela se reuniu com os amigos lá, essa dupla de gênios que eu não sabia, Charles Möeller e Claudio Botelho, eles conversaram com ela e queriam levar os Saltimbancos do cinema pro palco. Aí me reuni com eles e disse: vocês são loucos! Um filme que eu levei um ano, fui filmar até lá nos Estados Unidos, Usa, vocês vão botar no palco? E eles disseram: vamos. Deixa a gente te mandar o roteiro, as primeiras páginas. Quando eu fui lendo a adaptação, nem chegou na metade, quando chegou %u2153, eu disse: Lílian, você estava certa. Esses caras não são loucos, são gênios. Eu vou fazer. Aí eu comecei a ficar envolvido, mas sem saber o que eu ia enfrentar. Porque show, cheguei a fazer 5 mil. A partir daí eu não contei mais. Era muita gente, 200 mil pessoas, palcos enormes, estádios. No teatro, você tá aqui e se der mais três passos, você cai. Você sente a reação de tudo, o entra, sai. Será? Mas esses caras fizeram 55 sucessos, será que vão errar comigo? Se eles não erraram até agora, não vão errar comigo, no 56.

OP - Você pretende levar esse espetáculo pra outras cidades, incluindo Fortaleza?
Renato - Já recebi propostas, mas não sei se eu vou poder, porque nós vamos no mês de Julho pra São Paulo. Quem me dera! Seria uma alegria muito grande (trazer o espetáculo para Fortaleza).

O POVO - Alguns anos atrás, em entrevistas ao O POVO, você disse que sonhava voltar a morar no Ceará. Ainda acalenta esse desejo?
Renato - Ai, quem me dera, menina! Muito. Eu tenho impressão de que eu tô aqui passando umas férias. Adoraria fazer uma ponte aérea, mesmo que não conseguisse morar, mas ficar na ponte aérea. Morar lá e vir trabalhar aqui. A Lílian sabe que onde eu tiver feliz, ela também tá, e vice-versa. Se ela disser também: não, Renato, vamos morar na China, no Japão. Com você, eu vou. Mas a prioridade são os filhos, você tem de pedir autorização pros filhos.

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