[an error occurred while processing this directive][an error occurred while processing this directive] Fortaleza: Casa do Riso | O POVO
RENATO ARAGÃO

Fortaleza: Casa do Riso

FOTOS: EDIMAR SOARES
A casa onde Renato foi morar com Marta, a primeira mulher, ficava ao lado da casa dos pais, na antiga Quintino Bocaiúva
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A chegada a Fortaleza não foi fácil. Paulo Aragão e dona Dinorá vieram para a capital cearense de mala, cuia e seis dos oito filhos. Os dois mais velhos rumaram para Rio de Janeiro e Parnaíba a fim de continuar os estudos. O acanhado Renato foi quem mais sentiu a mudança.

O primeiro desafio: a escola. No dia 28 de fevereiro de 1974, Renato mal completara 12 anos, o pai deu entrada no pedido de matrícula do caçula no colégio Lourenço Filho. Ali, o menino cursaria a 3ª série do antigo ginasial. Na ficha da escola, o primeiro endereço da família, na rua Major Facundo, nº 1.394. Pouco depois, eles se mudariam para a antiga Quintino Bocaiúva, hoje Gil Amora, onde a família se fixaria num terreno que tomava quase todo o quarteirão.

Renato não tinha facilidade para fazer amigos, mas era bom de futebol, e logo entrou para o time do colégio. Começava a amizade com Neudson Braga, que se estende até hoje. “A gente era amigo-irmão, eu vivia na casa dele, ele vivia na minha”, recorda-se o arquiteto de 79 anos. Renato não era mau aluno, mas também não passava muito da média. Escrevia poemas e tinha até um bom traço. Junto com o amigo, fazia desenhos para uma revista escrita à mão e distribuída na sala de aula.

Foi preciso o mar lhe conquistar o coração para que adotasse Fortaleza. Levado por um empregado que desbravara a cidade grande um pouco antes, o menino andava as ruas, tomava duas conduções, alugava calção, só para estar ali, todos os domingos, na Praia de Iracema. Era quando Renato ficava à vontade.

Ivete, a irmã mais velha de 86 anos, lembra que, aos bocados, ele se adaptou e voltou a aprontar. “Apareceu uma história, lá em Fortaleza, de que os ladrões estavam usando um anzol pra pescar roupas do varal alheio. Pois ele arranjou um anzol e puxou as cuecas do meu marido. Só que ele viu e gritou, assustado: ‘O ladrão, o ladrão!’. Foram uns gritos horríííveis! E era ele. A mamãe achou tanta graça! Aí eu dizia: ‘Mamãe, como é que você faz uma coisa dessa?’ Mas é porque foi engraçado mesmo. Ele era terrível.”

Nos fundos da casa que parecia sítio, com pés de cajueiro e manga, ele brincava de futebol e treinava contorcionismos.

Na adolescência, um hábito mudaria a vida de Renato: o cinema. Ao ver Oscarito em cena, apaixonou-se. “Ele ia cedo, entrava na primeira sessão e saía na última. Decorava aquelas falas todas, aí chegava na escola e fazia aquelas brincadeiras, mas só com os amigos. Ele não era do tipo exibido”, conta Neudson, que não conseguia acompanhá-lo nas idas ao Cine Majestic porque “ele ficava o dia inteiro”.

Renato passava férias no Interior. João Barbosa, 80, amigo daqueles tempos, lembra dos flertes na cidade. Eles ficavam na Praça São João esperando sinal das moças. Se sorrissem, podiam se aproximar. Os amigos, então, juntavam os instrumentos e se punham à janela das moças. Renato tocava violão e cantava. Nessa época, começou o namoro com Marta, a primeira mulher. Barbosa recorda: “Apenas ele era gaiato, cheio de mungango”.

Só aos 18, no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, Renato começou a fazer graça a sério. Escrevia e encenava esquetes para oficiais do Exército, que viviam mandando prender o soldado, mas que só conseguiam cair na gargalhada. A faculdade de Direito veio em seguida, mas o talento para o riso ficou guardado, à espera da hora certa de aparecer.

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