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couro e arte -

O sertão se reinventa em design

Émerson Maranhão Émerson Maranhão emerson@opovo.com.br

Corriam os anos de 1930, quando um cabra do bando de Lampião, o próprio Rei do Cangaço, chegou numa oficina de couro em Nova Olinda e fez encomenda de uma sandália. Não precisou nem revelar o destinatário do pedido. Nas carreiras, o calçado ficou pronto, foi entregue e caiu no gosto do cangaceiro-mor. Quem espalha a história aos quatros ventos é Espedito Seleiro, filho do artesão que concebeu a sandália, de quem herdou a habilidade em criar e produzir artefatos de couro e o molde original da famosa encomenda.

Foto: FOTOS: DIVULGAÇÃO/ FERNANDO LASZLO - CORTESIA DO ESTÚDIO CAMPANA E FIRMA CASA
Coleção cangaço é uma parceria de Espedito Seleiro (c) com os irmãos Humberto (e) e Fernando Campana
Foi deste molde que Espedito se valeu em 1985, quando a seca minguou a produção de peças para vaqueiros com a qual alimentava a família e ele precisou se reinventar para dar de comer a filhos e irmãos. As sandálias do cangaço desdobraram-se em outros calçados, bolsas, móveis. Mas para saber das origens do saber e da estética que hoje conhecemos como o fazer de Mestre Espedito é preciso recuar algumas décadas no tempo.

O cinzento que impera na descrição que Rachel de Queiroz faz do Sertão em O Quinze explode numa miríade de cores na obra de Espedito Seleiro. A secura pictórica com que a escritora enxerga a seca é subvertida pela abundância de tons e formas a que recorre o artesão coureiro para tratar da mesma realidade. Como se fosse a única resposta possível à aridez atávica dos que vivem por aquelas bandas; como se fosse a desforra da criatividade artista (e arteira) às imposições climáticas.

Sim, o sertanejo surpreende sempre porque teima em florescer no chão seco e rachado, de onde não se imagina que brote mais nada. E floresce. No caso de Espedito, exuberantemente. Tanto que seu trabalho ganha outras dimensões, assume novos significados, toca a alma de públicos que nem desconfiam o que seja viver na secura do clima. Hoje, aos 75 anos, Espedito Seleiro é o mais renomado mestre artesão coureiro do Brasil. Mas foi um novo encontro com o universo cangaceiro que elevou sua obra para um nível até então inalcançado.

Designers brasileiros com maior projeção internacional, com obras nas coleções permanentes de museus como MoMa, em Nova York, e Centre Georges Pompidou, em Paris, os irmãos Fernando e Humberto Campana convidaram Espedito para juntos criarem uma coleção de móveis inspirada no Cangaço e baseada no couro e na palha.

Foto: FOTOS: DIVULGAÇÃO/ FERNANDO LASZLO - CORTESIA DO ESTÚDIO CAMPANA E FIRMA CASA
Peças da coleção Cangaço: armário, cadeira, espelho e poltrona
O trabalho do cearense foi apresentado aos irmãos Campana durante pesquisa que fizeram em comunidades de artesãos do Nordeste. “Espedito Seleiro é tão sofisticado quanto Gucci e Fendi”, defende Humberto, comparando-o a duas das mais famosas grifes italiana, referência no mercado de luxo. “Eles têm a mesma qualidade técnica, o mesmo cuidado no acabamento”.

Convite aceito, a primeira etapa da elaboração dos móveis da coleção Cangaço deu-se no Estudio Campana, em São Paulo, onde foram desenhados e manufaturados. A seguir, as peças foram enviadas ao ateliê de Espedito, em Nova Olinda, onde o artesão, manualmente, as revestiu com capas de couro coloridas, recortadas e pespontadas em forma de rendilhado.

Depois de ser expostas na loja de design Firma Casa, em São Paulo, no primeiro semestre deste ano, a linha de móveis, que inclui seis peças (cadeira, poltrona, sofá, estante, armário e espelho) e é produzida em série limitada, segue em dezembro para Miami (EUA), onde será exposta na Arte Baesel, uma das maiores e mais importantes feiras de arte do mundo. Os preços das peças só são divulgados sob consulta, mas O POVO apurou que começam a partir de R$ 28.800.

Nesta entrevista, por email, os irmãos Campanha falam sobre o processo criativo da coleção e revelam o que no trabalho de Espedito Seleiro chamou atenção a ponto de proporem este trabalho a seis mãos. (Com Ana Mary C. Cavalcante e Cláudio Ribeiro)

O POVO - Como vocês chegaram até o trabalho de Espedito Seleiro?
Fernando e Humberto Campana -
O primeiro contato foi através da ArteSol, que nos apresentou às obras do mestre artesão. Ficamos encantados pelo universo de cores, texturas, materiais e pensamos em realizar um trabalho em conjunto, fazer o suporte para a obra dele para ele se expressar através dos objetos.

OP - O que, na produção de Espedito, despertou o interesse de vocês?
Humberto -
O Espedito Seleiro representa a cultura do Nordeste do Brasil, um verdadeiro patrimônio cultural brasileiro. Um artesão que vai fundo nas raízes do nosso País.
Fernando - Ele transparece em sua arte o seu entorno, o colorido das casas de sua cidade, Nova Olinda, e, também, toda a história do Cangaço, Lampião, Corisco, criando, portanto, uma poesia visual peculiar e instigante.

OP - Como se deu o processo criativo para a coleção Cangaço?
Fernando e Humberto -
Nós pensamos nas estruturas e formas de cada peça e deixamos para que o Espedito criasse os ornamentos e explorasse as cores que envolveriam as peças. Mas, claro, que houve constantes diálogos durante esse processo, inclusive, nós e nossa equipe fomos, algumas vezes, ao ateliê do artesão para acompanhar tudo mais de perto.

OP - Como a produção de Espedito Seleiro dialoga com a obra de vocês?
Fernando e Humberto -
O uso de materiais naturais em nosso trabalho é uma constância desde o início da nossa carreira, devido, talvez, a nossa origem. Nascemos no campo, onde a abundância da natureza é muito presente. Para esta coleção, queríamos criar um diálogo entre dois materiais: o couro e a palha, resultando no hibridismo entre a tradição da trama de palha da cultura portuguesa e do Cangaço da cultura nordestina, presente na cadeira, poltrona e no sofá. Buscamos também, nos imergir no universo de cores traduzido pelo mestre Espedito Seleiro, mas também por nosso repertório e variedade de tonalidades de outros trabalhos nossos como, por exemplo, da coleção Sushi, iniciada em 2002, e, também, do armário de viagem Maracatu, produzido pela Louis Vuitton, em 2012.