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cabra prevenido -

Multiplicador de rebanho

Ana Mary C. Cavalcante Ana Mary C. Cavalcante anamary@opovo.com.br

Já findando o dia, é difícil encontrar Luís Quirino em casa; ele se entrete um pedaço com a noite. Nos sertões de Quixeramobim, distante 206,1 Km da Capital, é costume um trago, um carteado, uma prosa. Na Fazenda Castelo, por onde se chega seguindo uma estrada de piçarra, disseram para voltar com o amanhecer, que o dono acorda com o gado pra tirar e vender o leite. E dá venda, o leite, neste 2015 de chover só metade do normal?

Foto: FÁBIO LIMA
Luís Quirino vive em Quixeramobim, no Sertão Central, e se diz um apaixonado pelo gado
A produção leiteira baixou, na região, de 2014 para cá: de 150 mil para 120 mil litros por dia, considera José Tarcísio do Rego, gerente interino do Centro de Atendimento da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), em Quixeramobim. A criação é grande - “86.586 cabeças, o maior rebanho do Estado”, sublinha o técnico – e o restante do ano preocupa. De setembro em diante, deve acabar a forragem nativa “e não choveu: a produção da silagem (alimento para os animais, obtido por fermentação e feito reserva para quando a pastagem diminui) foi pouca”. Tem produtor que vendeu 50% do rebanho.

Uma saída, aponta Tarcísio, é esperar que cheguem mais três carretas de milho do governo, “seis já vieram (entre maio e junho), cada uma com 40 toneladas”. A parceria com a Ematerce oferece a saca por R$ 35.

Mas, na localidade Castelo, Quixeramobim adentro, onde Luís Quirino Oliveira, 66, ergueu fazenda em 111 hectares de um chão pobre d´água, se faz a hora. Quatro e pouco da manhã, o dono de 130 cabeças de gado (sendo 28 leiteiras) já oferecia uma xícara de café e a sua história. “Toda vida trabalhei no capricho, que foi como meu pai me ensinou. Vou economizando, compro ração antecipada. Ainda tenho ração do ano passado”.

Foto: FÁBIO LIMA
A fazenda e o aprendizado dos dias são heranças do pai. Desde a década de 1940, a família vem “lutando com gadim: vende um pra comprar outro”. Luís não desiste, é que nem o Vicente do O Quinze, que não arribou do Logradouro (perto de Quixadá) quando, naquela seca histórica, os conhecidos abriram as porteiras do curral para o gado encontrar a morte. Vicente resistiu com os bichos: “Enquanto houver juazeiro e mandacaru em pé e água no açude, trato do que é meu!... E se a rama faltar, então, se pensa noutra coisa”.

Assim também cuida Luís, em tempos de chuva ou de seca. “Peguei os anos bons, de fartura, guardei silo... Agora mesmo, tenho 50 toneladas de reserva”. As vacas leiteiras lhe dão 600 litros por dia; na época das vacas magras, a produção cai para 100 litros/dia. O litro do leite sai a R$ 1 para o intermediário e a R$ 1,20 pelo caminho.

Luís vai fazendo as contas entre ganhos e prejuízos. Gastou R$ 5.500 para perfurar um poço que não serviu, “O geólogo cavou 90 metros e não encontrou água”. Investiu outros R$ 12 mil para mecanizar a ordenha que, até um ano atrás, era manual. Vai se virando: “O cabra tem que se prevenir. Bem dizia meu pai que um cabra prevenido vale por dois. Tô me preparando pra ver se tiro esse ano”.

Teimosia e bem-querer se entrançam pelo sertão onde o amanhecer é escuro. Luís já pensou em vender o gado porque, todo ano, é dificultoso. Mas é como se desfazer de uma parte de si mesmo. “Comecei com uma cabeça: casei, e o velho (sogro) deu uma vaca velha pra mulher. Era uma bezerra muito boa. E fiz sete tina, digo, ‘quero é crescer’... Tô muito feliz com o gado. Não sei se é porque sou muito apaixonado por gado”. (Com Cláudio Ribeiro)