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A resistência do algodão

Cláudio Ribeiro Cláudio Ribeiro claudioribeiro@opovo.com.br

“Previsão de inverno no Ceará é fácil. É só dizer que não tem”. Seu José Lino de Sousa, 58 anos, brinca com a ciência meteorológica porque tem sabedoria de enxada e tempo vivido de Inhamuns. Esses quatro anos atuais de seca, indo pros cinco, ele admite que não são o primeiro nem o último sol a torrar as plantações de milho e feijão próximas. Os brejos e açudes de perto hoje são poeira e os bichos têm sede. Na Baixa Verde, distrito de Marrecas, em Tauá, diz que a secura é quase sempre, por isso orienta que escolher melhor o que plantar torna o ruim menos pior. E isso nem é lamúria vinda dele.

Foto: RODRIGO CARVALHO
José Lino de Sousa produz algodão nos Inhamuns

Seu Zé Lino é cultivador de algodão. É um dos principais mantenedores da cultura do tipo orgânica em Tauá, resistindo ao não uso de agrotóxicos, às pragas e a muitas secas. Tem o plantio em suas terras desde 2004. Mas conta que lida com a fibra “desde rapaz, ainda morando mais meus pais”. Lembra que precisou deixar o cultivo quando a praga do bicudo devastou “o ouro branco” da economia cearense, nos anos 1980. Tempos difíceis.



Quase inimaginável, o besouro arrasou com a então próspera lavoura cearense. Nos anos 1950, o algodão foi incentivado como redenção para o semiárido. No fim do século XIX, ganhou nobreza similar à da pecuária. Chegou a mais de 1,3 milhão de hectares plantados no Estado na metade do século XX. Quando Rachel de Queiroz escreveu O Quinze, a cotonicultura era ramo de poderosos locais. Hoje, as plantações mantêm-se em menos de 20 mil hectares, segundo números da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec).



Apesar do penoso deste 15, Zé Lino também defende o algodão como cultura melhor do que milho/feijão para atravessar estiagens. Pelo menos ali no seu canto de Ceará. “Pra ser melhor, precisava de mais água. Mas é melhor inverno quente. Se chover muito, o bicudo encosta. O milho precisa de mais água e um terreno que seja mais próprio para a plantação. O feijão, se der muito, o preço é baixo, tem que sair atrás de comprador. O algodão se adapta melhor no nosso terreno. Com pouca água ele dá”, enumera as vantagens.



Foto: RODRIGO CARVALHO

Enquanto a perda de milho foi total este ano em Tauá, a perda de algodão, apontada por um técnico agrícola poucos dias antes, variava de 60% a 70%. A seca perdurando ampliou as sequelas do estrago. Em 2014, seu Zé plantou em meio hectare e colheu 690 quilos. Em 2015, plantou o dobro (um hectare) e estima que não deve chegar ao peso do ano passado. Quando O POVO foi visitá-lo, em meados de junho, havia acabado de colher 60 quilos. “Foi pouco”. Projetou colher talvez mais dois tantos daquele.



O distrito Marrecas, segundo Ze Lino, tem dez produtores do algodão ecológico. São orientados tecnicamente pela Associação de Desenvolvimento Educacional e Cultural de Tauá (Adec), que lhes compra tudo o que produzem. O quilo foi vendido este ano a R$ 2,00. Os tufos, depois de beneficiados (limpos) pela Adec, são comercializados para a empresa Veja, que fabrica tênis no Rio Grande do Sul, e para a associação Justa Trama, que confecciona roupas e bolsas e revende nacionalmente. É uma certeza de poderem seguir plantando.



Seu Zé Lino, como todo pequeno produtor do sertão, mantém seu roçado de subsistência, as reses de gado e ovinocaprinos pro leite e pra negócio. O algodão é seu diferencial. “Mesmo na seca, não tenho como desistir. Vou continuar plantando porque não tenho plano de parar na roça. Enquanto estiver trabalhando, vou plantar algodão”. (Com Demitri Túlio)