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SEMENTES -

Casa da felicidade

Demitri Túlio Demitri Túlio demitritulio@opovo.com.br

A necessidade e a organização transformaram a crença de pelo menos 60 agricultores no Sertão Central Cearense. Isso desde 1998, quando a palavra “felicidade” passou a significar outras possibilidades na existência dos moradores de Barra Cancão, um distrito de Canindé. “Casa de Semente da Felicidade de Barra Cancão”. Está escrito na entrada de um vão, construído ao lado do alpendre de Maria Lúcia Borges, 61, e Raimundo Marreiro, 63.

Foto: rodrigo carvalho
Marluce e Marreiro cuidam da casa de sementes
É ela quem fala, toma à frente e diz que pode ser chamada de Marluce. O cômodo, apertado por grandes camburões de latão e prateleiras de garrafas pets, cheios de sementes, é uma espécie de caixa-forte de grãos. Lugar de valor pra aquele povo e perspectiva de replantio da lavoura (ainda na base da enxada) e reflorestamento da caatinga.

Armazenam, ali, 20% das produção de cada agricultor que é parte na sociedade dos guardadores de sementes. Todo agosto, consolidada a colheita, há o dia marcado para se fazer o depósito.

A semente estocada no paiol coletivo pode ser a “garantia da planta” que vai vingar no ano seguinte. Dona Marluce fala como se multiplicasse a vontade de espalhar o que aprendeu como coordenadora da Casa de Semente e delegada do Sindicato do Trabalhadores Rurais de Canindé.

Foto: rodrigo carvalho
Semente estocada pode ser garantia da planta
Os janeiros são de retornos. Agricultoras e agricultores regressam para buscar o que há no estoque e aproveitar o cio do Semiárido. Nem sempre tão molhado, como agora nos últimos quatro anos de estiagem. Mas não falta, há 27 anos, semente para as famílias de Barra Cancão. “Foram poucas as chuvas que não deram uma safra boa. Assim mesmo, em 2014, trouxemos 105 quilos de grãos. E ainda há”, mostra Marluce.

Nem sempre foi assim. Sequer, em um tempo, tinham os nomes nos programas de distribuição de sementes do Governo do Ceará. Viviam dos favores e da mão pra boca. Em 1988, sem ter o que plantar, 20 deles resolveram ir ao Escritório de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), em Canindé. Foram reivindicar milho e feijão para apostar em qualquer chuva. Receberam a promessa do que sobrasse.

Inconformados correram ao Sindicato dos Trabalhadores e, por ventura, conseguiram o mínimo. Uma doação das sobras de sementes do Centro de Pesquisa e Assessoria (Esplar). Uma ONG que compartilha, há 41 anos, saberes com gente do Semiárido.

Marluce é quem dá o tamanho da memória. “Lembro. Foram sete quilos de milho e três de feijão para distribuir entre 20 famílias. E aí, em 1988, o Esplar passou a acompanhar a gente”. Veio a criação da Casa de Semente, o que significou a garantia de direitos (seguro desemprego, aposentadoria...) e, também, zelo pela terra e desterro dos agrotóxicos. “Aqui, eu não sei se ainda tem agricultor que depende das sementes da Ematerce. Não é do meu conhecimento”, orgulha-se Marluce.

Depois da experiência do povo do Cancão, surgiram mais 16 casas de sementes em Canindé. Virou um paraíso a serra quente de lá? Não. Mas algumas certezas foram rachando. Na Casa de Semente Felicidade há promessa de segurança alimentar.

Além dos feijões (corujinha, azulão, andu, boi deitado), do nescafé e de tipos de de milho e arroz, há sementes crioulas sendo resgatadas. Mulungu, sabiá, aroeira... Uma chance para o reflorestamento da caatinga. (com Cláudio Ribeiro)