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À sombra da mandala

Ana Mary C. Cavalcante Ana Mary C. Cavalcante anamary@opovo.com.br

Na subida do Araripe, entre quebra-molas e poeira, o verde que se espalha pela Chácara Santo Antônio chama o olhar. O quintal da família Lima é um horizonte de mamoeiros e goiabeiras, pés de maracujá e de limão, caminhos de cheiro-verde, alface, pimentão, cebolinha, pimenta. Mais milho e capim suficientes para 20 cabeças de gado. Em pleno julho (agosto, setembro...). “Aqui é bom na seca... Na seca de 2012-13, foi o ano que a gente ganhou mais dinheiro”, concordam mãe e filho.

Foto: fábio lima
Antônia e Nildo Isidorio, mãe e filho, cultivam plantação orgânica para merenda escolar e supermercados
A plantação familiar e orgânica de Antonia Isidorio de Lima, 61, e Francenildo (Nildo) Isidorio de Lima, 32, gera frutos e sabores para a merenda escolar da região e para a revenda em cinco supermercados locais. Há cerca de cinco anos, com a orientação da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), desenvolvem a técnica da mandala para o cultivo a qualquer tempo. Se Antonia aprendeu com o pai a amar a terra, a geração de Nildo ensina como cuidar dos 17 hectares herdados do avô.

Sistema sustentável, explica o jovem agricultor, a mandala tem princípios tão simples quanto as necessidades do sertão. “A questão de ser rotativo é que as plantas altas dão sombra para as baixas. E a gente aproveita tudo o que cai (folhas, frutos) para fazer a compostagem (adubo)”, explica Nildo, que também aproveita cada gota d´água possível para realizar a irrigação.

O acompanhamento da Ematerce foi até Nildo, que também é borracheiro e faz frete, aprender o suficiente para ele e para o sertão inteiro. “Hoje, a gente vem olhar o que ele tem pra ensinar”, aprova Flávio Pinheiro de Alencar, técnico de campo da Secretaria do Desenvolvimento Agrário e Econômico. O quintal produtivo também é sala de aula para a pequena localidade de Sítio Mulungu.

Foto: fábio lima
Nildo Isidorio: plantação de orgânicos para a região
Um ensinamento nos sertões é o bem-querer. “Tem que ter vocação também, gostar do serviço. Aqui não tem sábado nem domingo... O certo é trabalhar 24 horas”, entende Nildo que cavou dois poços (um de 17 e outro de 18 metros de profundidade) para abastecer a mandala.

Dois filhos e um neto, além da própria mãe-avó, tomam conta do terreno que o patriarca destinou: “Vocês não vendam esse terreno, nem parta”, Antonia guarda o dizer do pai até hoje. De sol a sol, entre cinco da manhã e cinco da tarde, a família se ocupa da plantação, além da criação do gado e de 70 porcos.

Desde a implantação da mandala, demorou dois anos para o quintal nunca mais morrer. Ficar verde e vivo, alimentar os sonhos de gerações e gerações. Com a renda que a família obtém da venda da produção, Nildo fez poupança e Antonia construiu uma casa do tamanho que quis.
E, aos 61 anos, a agricultora começou a viver o que sempre desejou. “Diploma, tinha só da Avon, que vendi muito. Nunca estudei, tô estudando agora. Já aprendi a escrever meu nome”, sorri. “E tinha muita vontade de passear de avião”, soma. Pois passeou: foi a Brasília, concorrendo ao Prêmio Sebrae Mulher de Negócios – Ciclo 2014.

Ela continua na lida, senhora do destino, plena de ideias e coragem, tal qual a personagem Conceição, de O Quinze. “Trabalho porque é uma coisa que vem de dentro”, afirma. “Já passei muita época de precisão, mas nunca desisti. Quero que Deus me dê muita força pra romper as tarefa que tenho que cumprir na vida”, une. (Com Cláudio Ribeiro)