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Lustal -

A terra do tudo

Cláudio Ribeiro Cláudio Ribeiro claudioribeiro@opovo.com.br

A capineira de um hectare e meio mantida num canto do sítio de José Roberto Oliveira Alves mostra como é generoso, e principalmente agradecido, o chão da localidade Lustal, da sua Tauá. Desde 1991, há surpreendentes 24 anos, ali está plantado o mesmo capim-elefante que depois de crescer e ser cortado (quatro vezes por ano) e silado para dar de comida ao rebanho, se renova apenas à base de adubo orgânico e irrigação. Bem cuidada, a terra retribui.

Nos dez hectares do Sítio Lustal usados para plantio, dos 50 da área total da propriedade, tudo vinga. Tem capim-elefante, sorgo, milho, palma e leucena pros bichos. Cabra, ovelha, vaca, peru, galinha, porco, pato. Dá feijão, cheiro verde, gergelim, limão, banana, manga. Muito leite, queijo, doce, bolo. Mina água, abundante, de dois cacimbões. A passarinhada grita, canta, se refestela. Até parece vida fácil, e não é, mas não é mais como aquele outro 15 arrastado de estiagem.

Foto: RODRIGO CARVALHO
“Seca ninguém acaba, a gente tem é que conviver”, ensina Zé Roberto, 44 anos. Filho de seu Clarindo, 86, e dona Cirene, 79, formou-se em Produção Animal pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) em 2008. Do que aprendeu moço com o pai, tanto ou mais, e mais tarde os ensinamentos acadêmicos, praticou tudo no próprio quintal. Das lições, enxerta cuidado e exuberância ao que planta e cria.

Os empregados do lugar são só os de casa. “A gente trabalha sempre em torno da família”, celebra. Com o pai e a mãe idosos e agora mais carecidos de sombra e atenção, Zé se auxilia com a força e a ciência das duas irmãs, Maria Alves e Maria José, a dedicação da mulher Rosilene e o tino do filho Jair, de 14 anos. Menino, ele experimenta logo as primeiras responsabilidades sobre seu provável caminho. Zé Roberto exalta esse domínio: “A gente tem vocação de conviver (com a seca). Herdei do meu pai, meu filho já tem essa vocação”.

Para se prevenir de um 2016 projetado em mais seca, “é o que tão dizendo, né”, já fez silagem de 125 toneladas de capim, sorgo, milho e leucena. “Isso dá até março”, diz o precavido Zé. Que ainda nem precisou mexer na reserva. As 100 cabeças de ovinos e caprinos e mais 30 de gado seguem se alimentando só de pasto natural.

A produção é ampla. As 150 galinhas comem do milho e ciscam em toda área para garantir ovos para os bolos e biscoitos e outros quitutes doces que as irmãs de Zé preparam. As hortaliças, aguadas diariamente por dona Cirene, reforçam nos ganhos (R$ 0,70, o molho) e temperam as panelas no fogão a lenha. A ordenha, ainda manual, tira 50 litros de leite por dia. Queijo, coisa pouca para encomenda de conhecidos, são quatro quilos por dia.

Zé dá outro exemplo daquela gratidão que o lugar se lhe apresenta. “Ali, ó, tão nascendo uns 40 pés de aroeira, de semente trazida pelos passarinhos”. Aroeira crescida oferece sombra e cura. Na casca, estão notabilizadas propriedades medicinais anti-inflamatórias, cicatrizantes, que expulsam inúmeras mazelas no saber popular. Zé Roberto se acha privilegiado? Talvez. “Ter uma terra dessas numa seca é sorte”. Prefere deixar na modéstia os méritos de seu trabalho.

“Você não imagina o que é o céu sem nuvens por meses seguidos; o que é o sol bater de chapa na terra fulva trezentos dias encarrilhados”, descreveu Rachel de Queiroz no poema “Nheengarêçaua”, publicado no seu primeiro livro, Mandacaru, de 1928, anterior ao O Quinze (1930). A casa de Zé Roberto nem parece do mesmo semiárido desenhado pela autora. Tem um sol dos Inhamuns que todo meio-dia é rei. Mas no Lustal, o verde devolve gratidão, entrega fartura e esfria o mormaço sertanejo. (Com Ana Mary C.Cavalcante)