[an error occurred while processing this directive][an error occurred while processing this directive] O Quinze - capítulo 27
Logo Portal O POVO Online

O Quinze - capítulo 27

Ana Mary C. Cavalcante Ana Mary C. Cavalcante anamary@opovo.com.br
Dá licença, dona Rachel, mode eu contar o que sucedeu depois daquele dia em que Conceição viu o Vicente “sumir-se no nevoeiro dourado da noite, passando a galope, como um fantasma, por entre o vulto sombrio dos serrotes”. A senhora sabe que eles eram um do outro, desde o começo desta história de ir embora e de ficar. Pois bem. Vicente voltou no mesmo galope para o olhar de Conceição, que pior do que a seca é a solidão, essa sede que mata a alma da gente.

Os dois se casaram, como tinha que ser, em tempo de chuva no Quixadá. E tiveram tantos filhos, seus e das secas, e tantos netos, e tantos descendentes que povoaram o sertão de bem-querer e de coragem.

Sim, foi vagaroso até que o “feijão grelasse, enramasse, florasse, que o milho abrisse as palmas, estendesse o pendão, bonecasse, e lentamente endurecesse o caroço; e que ainda por muitos meses a mandioca aprofundasse na terra as raízes negras...”. Foram cem anos, até nascessem Marias e Josés, rainhas do doce e reis da palma, e outras Inácias, entre fé e semeadura. Foram cem anos até haver a sombra da mandala, a multiplicação do gado, a terra de tudo.

Ainda não tem água e há o lamento, mas aconteceu também de o sertanejo aprender a reinventar a lida e semear a felicidade. Essas são as gentes da Conceição e do Vicente - que não envergavam e permaneceram porque o sertão mesmo diz: “Não me deixes”.

É assim, dona Rachel, a história que o jornal conta neste quarto ano de “seca encarrilhada”, no dizer do povo. São outros 15. (com Cláudio Ribeiro e Demitri Túlio)