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Tempo de florar -

Dar de beber às abelhas

Demitri Túlio Demitri Túlio demitritulio@opovo.com.br

O poço cavado perto do milharal, onde um bando de maracanãs zoava e devorava o que havia restado de espigas ressecadas, não era para aliviar a sede do gado nem de criações.

A cacimba, cavada por Piá (quase ninguém o chama por Francisco Leonilson Rodrigues), era para dar de beber às abelhas. Recurso derradeiro que o cultivador de mel lançou mão para diminuir a arribação dos insetos em Madalena, município do Sertão Central do Ceará.

Foto: RODRIGO CARVALHO


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Após sete anos de lida, os últimos quatro numa seca que não dá trégua ao Semiárido nordestino, Piá passou a ler a mata com outros instintos e precisões. “Elas também têm sede. Se não há água nem comida, vão embora”, aprendeu.

O que mina no poço, projeta Piá, dá pra ir enchendo um tanque grande e retangular na sombra de um pé de algaroba (Prosopis julifrora). Ali, abelhas italianas que ficaram, e hoje habitam apenas 20 das 100 caixas espalhadas na caatinga, vão sobrevivendo à estiagem que ameaça atravessar 2016.

Piá é feito Vicente, personagem central do O Quinze, de Rachel de Queiroz. Não arreda o pé, mesmo com a seca extrema. Em vez do curral (do romance), a peleja é com as colmeias que garantem o sustento da família. Ele, a esposa, um filho adolescente, uma moto e um Fiat Uno. “Não me afasto pra cidade (Canindé ou Fortaleza). Não abandono minhas abelhas”, declara-se.
Para alimentá-las, Piá faz assim. Durante o verão, agravado pela seca intensa, ele deixa parte do mel produzido nas próprias caixas. Para que os enxames não morram de fome.

Foto: DEMITRI TULIO
Foto: Demitri Túlio

Além disso, vai replantando nos vazios na caatinga. No entorno do lugar onde convive com as abelhas, plantou há pouco tempo 100 mudas de algaroba.

“São dois anos pra florar”, ensina. Mas quando fomos por lá, nos começos de junho e uma chuva quase nada, já havia inflorescência de algarobeiras antigas e abelhas zunindo nos buquês compridos e amarelos. Fazendo doce. “Se eu fosse pedir ajuda ao governo, pediria que tentasse conter o desmatamento. Derrubam demais e ninguém faz nada”, apela.

Em tempo de safra boa na mata, a última foi entre janeiro e maio de 2011, Piá chega a colher de 15 a 20 quilos de mel por colmeia. Ele e mais quatro apicultores pelejam com as colônias de insetos de ferrão. Vendem o litro a R$ 10,00 na abundância das águas e R$ 15,00, quando os anos são de escassez. Mel com sabor de flor de aroeira, pacoté, pau-branco, imburana, trapiá, mofumbo, chanana, catingueira, mussambê, marmeleiro... (Com Cláudio Ribeiro)