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Outras Inácias

Ana Mary C. Cavalcante Ana Mary C. Cavalcante anamary@opovo.com.br

Do alpendre de casa, a professora Antônia Amélia Teles, 62, a Toinha de Bazim, na Serra Caldeirão, avista o tanto (ou o tempo) que já viveu e o mais dali pra frente. Nasceu no Araripe (526,8 quilômetros de Fortaleza), criou-se no interior do Maranhão. Entre o nascer e o viver, atravessou muitas secas. “E como atravessei!”.

Toinha de Bazim não concluiu o segundo grau, mas tem “muitos certificados de capacitação”. O maior deles veio com a prática de ser mãe de dez filhos e avó de outra dezena de netos: “Ao longo da vida, aprendi muita coisa. Por exemplo? Como ter paciência para cuidar do próximo”.

A vida sertaneja lhe ensinou a fortaleza e a resiliência. Aprendeu com o cultivo de mandioca, ao lado do marido agricultor. “Se chover muito bem, ela é muito boa. Se chover bem, ela é boa. Se chover fraco, ela morre, mas resiste: dá pra aproveitar o molhadim”, extrai.

 

Foto: FÁBIO LIMA
Raspadeiras de mandioca da serra do Caldeirão, em Araripe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em anos de seca, nas serras do Caldeirão e do Malaquias (zonas rurais do Araripe), a mandioca tem seu valor, descobriram os agricultores acostumados a milho e feijão. Se chove, “é fartura!”, pontua Toinha; mas se a chuva é escassa, como nos últimos cinco anos, “a gente aproveita 50%, 20% da mandioca”.

Tudo tem se transformado desde 2009, quando o Projeto São José (Governo do Estado) modernizou casas de farinha que existiam há gerações e estiagens. Associações de produtores do Caldeirão e do Malaquias foram beneficiadas, diz o engenheiro agrônomo Antônio Alves, da Secretaria do Desenvolvimento Agrário e Econômico de Araripe.

A nova casa de farinha tem três galpões: para a raspagem da mandioca, para o beneficiamento (com forno, prensa, triturador) e para o armazenamento da farinha e da goma a serem vendidas. Na Serra Caldeirão, a produção multiplicou de “cinco, seis sacos de farinha por semana para cem”, calculam as sete famílias associadas. Cada saco pesa 50 quilos e é vendido a R$ 25.

O emprego também aumentou, destaca Antônio Alves: é preciso mais gente para raspar e triturar a mandioca. E, além de produzirem farinha e goma, driblando o atravessador, os agricultores aproveitam as sobras do beneficiamento para alimentar a caprinocultura (a mais recente descoberta em cima da serra).

 

Foto: FÁBIO LIMA
Raspadeiras de mandioca da serra do Caldeirão, em Araripe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Serviço não falta, faça chuva ou faça sol. Nem disposição. “Quando não tem quem rape, vai homem, mulher, menino.Quem viveu eternamente nessa labuta, como o sertanejo, acostuma”, avista Toinha, que se tornou presidente da Casa de Farinha da Serra Caldeirão depois de raspar um sem fim de mandioca no chão da antiga casa de farinha.

Nas secas do século XXI, vingaram outras Inácias, diferentes da personagem que abre O Quinze da Rachel de Queiroz com “fé em São José que ainda chove”. Na Serra do Araripe, não se espera tanto mais que a chuva caia do céu. A labuta é a oração do tempo das mulheres da casa de farinha. Vive-se para contar outra história. “Hoje, a gente ‘veve’ no céu... De tudo o que a gente plantou, ficou um pouco”, colhe Toinha.

E assim se fez o grande sertão do neto Gabriel, 7, um dos dez da mil geração em redor da casa de farinha. O menino corre solto no céu de terra. Diz que não deixa o Araripe, que é melhor de que Minas Gerais, onde o pai tentou serviço numa estiagem. “Aqui tem cavalo, pode andar de bicicleta. Aqui é grande!”, abarca com a bicicleta. (Com Cláudio Ribeiro)